120 batimentos por minuto, o corpo coletivo e individual em ação

Filme sobre grupo de militância contra HIV causa poderosa impressão de autenticidade documental e ganha força ao individualizar personagens

POR Eduardo Escorel
Longa de Robin Campillo “conta a história de heróis que salvaram muitas vidas”, declarou Pedro Almodóvar no Festival de Cannes de 2017
Revista Piauí Longa de Robin Campillo “conta a história de heróis que salvaram muitas vidas”, declarou Pedro Almodóvar no Festival de Cannes de 2017 FOTO: DIVULGAÇÃO
Longa de Robin Campillo “conta a história de heróis que salvaram muitas vidas”, declarou Pedro Almodóvar no Festival de Cannes de 2017 FOTO: DIVULGAÇÃO

Há décadas, filmes, material esportivo e hambúrgueres norte-americanos marcam presença no mundo, inclusive em países europeus ciosos de sua identidade que procuram preservar língua e cultura próprias. O que talvez não seja tão notória é a reprodução, na França, de formas de militância surgidas nos Estados Unidos que preservam sua marca original, como ocorre com Nike e McDonald’s.

Fica claro, de saída, em 120 Batimentos por Minuto, que a Act Up – Paris, organização militante da luta contra o HIV à frente das intervenções encenadas no filme, é baseada no original americano, formado em 1987. Esse mimetismo, por deixar de “usar métodos de contestação franceses”, quando criticado por deputados comunistas, recebeu resposta irônica de Robin Campillo, diretor, roteirista e editor do drama ficcional, ele mesmo ex-militante da Act Up – Paris: “Feita por pessoas que defendiam a Internacional, eu achava essa restrição bastante grotesca.”

Caso ainda restassem dúvidas, porém, quanto à perpetuidade da influência americana no mundo, a Act Up – Paris serviria para comprovar que tinham razão políticos americanos como os republicanos Will Hays (1879-1954) e Herbert Hoover (1874-1964), o primeiro, presidente da Motion Picture Association of America de 1922 a 1945; o segundo, secretário de Comércio, de 1921 a 1928, e Presidente da República, de 1929 a 1933. Hays declarou que “a bandeira segue o filme”; Hoover, por sua vez, teria declarado que “onde entra o filme americano, vendemos mais automóveis americanos, mais casquetes, mais vitrolas americanas”. O que nenhum dos dois conservadores poderia ter previsto é que um grupo de ação direta, formado nos Serviços Comunitários da Comunidade Lésbica e Gay, em Nova York, viria a servir de referência para iniciativas semelhantes em outros países.

Depois de atestar a ubiquidade da cultura norte-americana nos primeiros minutos, 120 Batimentos por Minuto se demora em uma sucessão de reuniões da organização, sujeitas a um código disciplinar rigoroso, nada libertário. Mesmo bem encenadas e filmadas, com atuações convincentes e alto grau de verossimilhança, as situações coletivas se prolongam em excesso, chegando a parecer que o filme se limitará aos debates que vão perdendo interesse à medida que se tornam repetitivos.

Mas, isso não chega a ocorrer. O filme resiste em grande parte graças ao estilo da encenação e da maneira de filmar essas cenas coletivas. Trabalhando com três câmeras, e filmando ações contínuas de 15 minutos, em vez de uma sucessão de planos de curta duração, como é habitual, Campillo produziu um copião de 145 horas e obteve poderosa impressão de autenticidade documental.

Além da tábua de salvação resultante do estilo de filmagem, a partir de certo ponto 120 Batimentos por Minuto se transforma, concentra o foco da narrativa e ganha força ao individualizar personagens, passando a tratar de seus dramas pessoais. Essa é a parte mais expressiva, e implacável, do filme.

Como encerramento, no entanto, Campillo oferece uma síntese celebratória que mais parece um sonho – ação coletiva militante e drama individual coexistem em harmonia na idealizada sequência final que erra o tom face ao drama que acabou de ser narrado.

De qualquer forma, chama atenção não só que 120 Batimentos por Minuto tenha ganho o Grande Prêmio, em Cannes, no ano passado, considerado o segundo lugar da premiação, como que o prêmio principal, a Palma de Ouro, tenha sido atribuída a The Square – A Arte da Discórdia, filme nitidamente inferior. Razão tinha Pedro Almodóvar, presidente do júri, que, segundo consta terçou armas em defesa do filme de Campillo, mas acabou vencido. Com a voz embargada por um soluço, Almodóvar declarou que 120 Batimentos por Minuto “conta a história de heróis que salvaram muitas vidas”.

Há algo confessional em 120 Batimentos por Minuto, responsável pelo vigor do filme, que provém da militância do próprio Campillo na Act Up – Paris. Ao receber o prêmio em Cannes, ele declarou: “Pode-se pensar que o filme é uma homenagem às pessoas que morreram, mas é também uma homenagem aos que sobreviveram e que ainda resistem hoje em dia, e nos quais eu penso muito esta noite, que ainda têm tratamentos pesados e estão em situações precárias por que quando eles eram militantes, eles puseram suas vidas entre parênteses […].”

Campillo não deixou de questionar a “adesão” generalizada ao filme, em entrevista ao Libération: “Eu creio que muitos espectadores percebem hoje em dia que eles ignoraram a epidemia. […] E essa adesão sem mea-culpa é deprimente. Teria sido formidável se houvesse ao menos um político atuante na época que confessasse: ‘OK, nós nos enganamos, nem vimos a epidemia.’ Mas, nenhum! Isso não ocorreu, em nenhum lugar!”

“Desde que a epidemia de HIV apareceu, eu me disse que era preciso fazer um filme a respeito, mas qual filme?”, declarou Campillo ao Libération: “Não é um bom assunto para um filme a priori. O que fazer, falar de quê? Do vírus? Escrevi pequenos textos todo o tempo que nunca deram em nada. Depois do meu primeiro filme (Eles Voltaram, 2004), eu escrevi um roteiro. Levei um ano e meio e percebi que não era bom. Era mais uma história deprimente de solidão face à doença. Voltei à Act Up e disse a mim mesmo: é disso que devo falar, a relação do coletivo com o privado e até onde um corpo pode lutar, corpo coletivo da Act Up, corpos dos militantes doentes.”

Muitas vezes, entrevistas de diretores são melhores do que seus filmes, donde a conhecida máxima, creio que do Paulo Francis: “O filme é uma merda, mas o diretor é genial.” No caso, a referência eram filmes brasileiros. Não creio, em absoluto, que ela se aplique a 120 Batimentos por Minuto, apesar da entrevista de Campillo me parecer mesmo muito melhor que o filme.

Nota: A íntegra da entrevista de Robin Campillo está disponível aqui.

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