anais da futurologia

2018, o começo do fim dos smartphones

Roupas inteligentes e implantes neurais substituirão celulares já a partir deste ano? O SXSW, principal encontro de economia criativa, diz que sim

Carolina Chagas
16mar2018_10h40
ILUSTRAÇÃO: JOÃO BRIZZI

Austin, Texas, domingo, 11h15. Terceiro dia de South by Southwest, o SXSW, o mais badalado festival de economia criativa do momento. A sala principal do evento, o Ballroom D do Centro de Convenções de Austin, tem suas 2 408 cadeiras ocupadas com fila de 100 pessoas do lado de fora, esperando alguma desistência, o que não aconteceu. Um pouco mais de dois terços dos ocupantes da sala escura erguem seus celulares esperando a apresentação surgir em dois telões. No palco, de calça e blusa pretas, cabelos encaracolados na altura dos ombros, Amy Webb, futurista quantitativa, professora de previsão estratégica na Escola de Administração da New York University Stern, está prestes a revelar a primeira de quinze tendências tech de 2018. A imagem surge no telão. Enquanto Webb lê o título do slide, ouve-se um rumor crescente na plateia: “2018, o começo do fim dos smartphones.” “Sim, todos esses telefones que vocês estão apontando para o telão… Este é o começo do fim deles”, afirmou a pesquisadora, categórica.

Fundadora do Future Today Institute, instituição que analisa tendências, Webb afirmou que, segundo seus estudos, dentro de aproximadamente uma década o uso da tecnologia vai migrar de computadores e celulares para peças de roupas, sensores de face, voz e tato. “Na China já é possível sorrir para pagar uma conta, o sistema reconhece sua intenção”, disse a pesquisadora, para sustentar o prognóstico que deixou a plateia boquiaberta. Dois dias depois da palestra, em entrevista à piauí, Webb afirmou que seus estudos mostram que as vendas de novos telefones estão perdendo espaço para wearables, como os fones de ouvido do tipo bluetooth, pulseiras e relógios. Há também, segundo ela, no mundo inteiro um aumento de registros de patentes de óculos inteligentes e toda a sorte de telas. “Esses acessórios vão se comunicar com os telefones por um período, mas a tendência é que essa integração passe a se dar com a nuvem e os celulares percam a importância”, disse Webb, uma das palestrantes do evento que dura dez dias – até este domingo –, com cerca de 2 200 apresentações, como estreias de filmes, shows, festas, exposições e casas temáticas da indústria, entretenimento, design e games.

Diretor de engenharia do Google e inventor do sintetizador de voz entre outras engenhocas, Ray Kurzweil também anunciou, com um tom grave, o “fim dos smartphones”, em sua palestra, na terça-feira, 13 de março. “Quando estudava no MIT tinha de pegar uma bicicleta para ir ver um computador. Agora, ele está no meu bolso e, daqui a pouco tempo, estará dentro de minha cabeça.” Christopher Ferrel, diretor de Estratégias Digitais do The Richards Group, empresa sediada em Dallas, também apresentou uma imagem parecida com a de Kurzweil em seu painel “Não tenho telas: o futuro sem telas de internet.” “O passado está num celular no meu bolso, o presente nos comandos de voz usados hoje por mais de 60 milhões de norte-americanos e o futuro em nossas cabeças”, afirmou, com entusiasmo, para 350 pessoas em uma das salas do recém-inaugurado Hotel Fairmont, que sediou palestras sobre “Intelligent Future” (Futuro Inteligente). “O futuro sem smartphones virá, e meu cartão de visitas, por exemplo, ficará obsoleto”, disse. “Perco muito tempo pensando em soluções para telas, é o serviço que hoje sei vender. Mas deveríamos estar pensando em como passar mensagens por sons, músicas, o futuro será sem telas.”

Um dos expositores do pavilhão de negócios montado no térreo do Centro de Convenções de Austin, o cientista japonês Koutaro Hikosaka aceita com facilidade o fim dos smartphones. Ele tem 22 anos e disse usar esse tipo de aparelho desde os 13. “Certamente nosso relacionamento com informações vai mudar para outra interface. Algumas pessoas seguirão usando seus smartphones, já que até hoje há pessoas no Japão usando telefones sem wi-fi. Mas eles vão perder a relevância”, afirmou. Hikosaka é um dos cinco funcionários da empresa de arquitetura Archileon, que vende um robô capaz de montar paredes curvas com precisão. “Nosso chefe estava cansado de ver seus projetos serem mal executados por engenheiros”, afirmou seu colega de estande Keisuke Yamashita, engenheiro mecânico, outro entusiasta das novas interfaces. “Serei o primeiro a entrar na fila de um bom óculos que acesse a internet.”

Engenheiro e administrador de empresas, Rui Sato, também japonês, é dono e vendedor da Virtual Window. “Acho os óculos de realidade aumentada muito incômodos, por isso desenvolvi essas telas enormes que podem ocupar lugares de janelas e, com a ajuda de um sensor, simular nossa visão de qualquer rua do mundo.” Em seu espaço de vendas é possível simular a visão 360 graus do Museu do Louvre, por exemplo, ou de outros cartões-postais, como uma floresta de árvores gigantes na Califórnia. “No Japão, há muitas salas sem janelas e uma demanda grande por esse tipo de experiência”, disse. Questionado sobre um futuro sem smartphones, ele hesita um pouco antes de responder. “Ele virá. Vamos acessar as informações com os nossos cérebros e não vai demorar muito para isso acontecer”, disse. Pergunto se uma pessoa com 47 anos, como eu, viverá essa experiência, ou se é algo destinado aos meus netos. “Com certeza você usará seu cérebro para acessar dados.”

A quarenta passos do pavilhão do Japão, um robô montador de carros cor de laranja, com uma tela de computador com dois olhos grandes como os das heroínas de mangá, pisca e dança ao ritmo de uma batida techno-pop. Diretor de Mercado de Produtos para as Américas da empresa alemã Kuka, Andy Chang, explica aos visitantes que avanços recentes de sua equipe permitem que robôs tenham gestos mais orgânicos, parecidos com os dos humanos. Para exemplificar, um braço mecânico ao lado do robô-vedete foi colocado ali para trocar apertos de mão de fato, bastante similar ao gesto humano. Para ele a ideia de um futuro com menos pessoas usando smartphones é factível. “Há muita gente boa desenvolvendo produtos para distribuir informações sem telas”, afirmou. “Esse salto tecnológico está ali na esquina, e os seres humanos se acostumam muito facilmente com melhores soluções para seus anseios.”

Carolina Chagas

Jornalista, editora e mestre em comunicação e semiótica pela PUC-SP. Trabalhou em O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, entre outros

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