36 horas no edifício Solaris

Quatro dias antes do depoimento do ex-presidente ao juiz Sergio Moro, a rotina no prédio que ficou conhecido como o tríplex do Lula

POR Leandro Demori
Vista do sétimo andar do Solaris. No detalhe, turistas fotografam o triplex que, para o Ministério Público, é do ex-presidente Lula.
Revista Piauí Vista do sétimo andar do Solaris. No detalhe, turistas fotografam o triplex que, para o Ministério Público, é do ex-presidente Lula. FOTOS: LEANDRO DEMORI
Vista do sétimo andar do Solaris. No detalhe, turistas fotografam o triplex que, para o Ministério Público, é do ex-presidente Lula. FOTOS: LEANDRO DEMORI

O sábado amanheceu nublado na praia das Astúrias no Guarujá, litoral sul de São Paulo. Por volta das dez da manhã não havia mais do que vinte pessoas na longa faixa de areia que se abre quando a maré está baixa. Alheios ao trânsito na rua de mão única que separa os prédios do mar, um grupo de adolescentes fumava narguilé, um pai fazia castelinho de areia com a filha e vendedores de coco, raspadinha, rede, cerveja e pastel aguardavam a chegada dos parcos turistas de outono. Em meio a edifícios pomposos, parcialmente escondido por tapumes pretos e redes de proteção, avistava-se um dos novos pontos turísticos da cidade: o edifício Solaris, um prédio de classe média de arquitetura contemporânea inaugurado em 2014. Com duas torres e dezoito andares, 128 apartamentos e uma população flutuante, o lugar – cujo hall de entrada tem apenas um tapete amarelo escrito “Solaris – Astúrias Guarujá”, um quadro de avisos verde e uma sirene vermelha de alarme de incêndio – já dava sinais da precoce deterioração dos acabamentos externos. “Uma pastilha quase caiu na cabeça de um morador”, disse-me o porteiro, um jovem de vinte e poucos anos, voz fina, boné e óculos de armação preta grossa, que estava entretido num jogo no computador da recepção quando peguei as chaves do apartamento 73, onde eu me hospedaria pelos próximos três dias. O imóvel estava disponível no Airbnb por 600 reais. Paguei 450 reais, faxina incluída.

O apartamento de 85 metros quadrados, três quartos diminutos, de frente para o oceano, fica na mesma torre e com acesso ao mesmo elevador do imóvel 164 – a cobertura de três andares que ficou nacionalmente conhecida como o “tríplex do Lula”.

É por causa dele que o Solaris se tornou uma atração na cidade, ponto de parada de curiosos que se ajeitam para selfies e fotos em grupos e diante do qual eventuais passantes gritam o nome do ex-presidente, na maior parte das vezes em tom de raiva. “Isso aqui tá mais visitado que a Casa Branca”, reclamou um morador no lobby, interditado para as obras de reparo. A piscina estreita de não mais do que dez metros de extensão, que fica no segundo andar, também estava em reforma.

No elevador, cruzei com um casal que mora em São Paulo, proprietários de uma das unidades do Solaris, que costuma frequentar o prédio apenas nos fins de semana. “A gente não aguenta mais tanta gente berrando o nome do Lula na frente do prédio”, disse-me a mulher, uma morena baixa de olhos escuros e cabelos melados pela maresia.

Dali a quatro dias, o ex-presidente se apresentaria diante do juiz Sergio Moro, pela primeira vez desde o início da Operação Lava Jato. Em Curitiba, o assunto principal do interrogatório seria exatamente o edifício Solaris. Moro pretende saber de Lula detalhes sobre o caso mais robusto levantado contra o ex-presidente até hoje: a origem do dinheiro que ele teria usado para pagar o tríplex, assim como o envolvimento da construtora OAS na obra e na reforma do imóvel. Segundo o Ministério Público Federal, apenas a reforma teria custado ao menos 750 mil reais, integralmente bancados pela empreiteira. O apartamento está avaliado em 1,8 milhão de reais.

O elevador de serviço é o primeiro à direita do lobby, o que faz com que desavisados pensem se tratar do social – que está ao lado e tem porta idêntica. Nos andares, as entradas dos apartamentos ficam numa área comum de paredes brancas onde se destacam apenas o vermelho vivo da caixa da mangueira de incêndio e do extintor no chão, fazendo o ambiente mais se parecer com uma escada de incêndio. Não há flores ou quadros. As portas são finas e não há entrada de serviço, nem mesmo nos quatro apartamentos tríplex da torre A, um dos quais o Ministério Público aponta como de propriedade do ex-presidente.

O casal Luiz Inácio e Marisa Letícia Lula da Silva não tinha planos de viver na praia das Astúrias quando comprou uma cota da Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo, a Bancoop, em abril de 2005. Foi isso o que o ex-presidente sempre disse à imprensa. Em plena crise do Mensalão, a cota de pouco mais de 45 mil reais, em nome de Marisa, foi acrescida de parcelas mensais que somariam quase 200 mil reais e dariam direito ao apartamento 141, idêntico ao que me hospedei: uma sala em L pouco espaçosa, com cozinha americana de onde parte um corredor que serve aos dois quartos à direita, ao banheiro social à esquerda e à suíte ao fundo, todas peças apertadas e com venezianas de alumínio pequenas, mais parecendo um apartamento de showroom de feira de imóveis ainda carente de acabamentos. A sacada é estreita, com espaço apenas para duas cadeiras frente à frente. Na suíte, outra sacada (igualmente apertada) e um banheiro de box justo – é preciso ter cuidado para não bater os cotovelos nas paredes durante o banho. Nem mesmo o grande argumento de vendas do prédio, o mar do Guarujá, serviria ao casal Lula da Silva, já que a unidade destinada a eles (a 141) seria de fundos. Para o Ministério Público, a história é fantasiosa.

O Ministério Público defende que Lula teria ganho o tríplex da construtora OAS, uma das várias empreiteiras encalacradas no escândalo da Lava Jato. Segundo a denúncia da fase da operação denominada Triplo X, a OAS teria assumido a obra do Solaris a pedido de Lula depois que a Bancoop quebrou, deixando o edifício como se fosse um esqueleto abandonado na praia. O ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto – que puxa cadeia em Curitiba –, o segurança de Lula, Freud Godoy e outras pessoas ligadas ao Partido dos Trabalhadores e a offshores com donos ocultos seriam vizinhos incômodos que dão força aos procuradores. Para eles, o prédio todo é suspeito.

“Você está no prédio do Lula?”, perguntou a gerente de uma barraca de praia chamada Lula Lanches, bem em frente ao Solaris . “E essa barraca é do Lula? Posso pendurar a conta?”, devolvo em tom de brincadeira. Ela responde: “Aí ele não paga!” O Lula Lanches existe há 36 anos, e não tem relação com o político. Quando perguntei se o ex-presidente já provou o enorme pastel sabor pizza que ela serve na barraca (queijo, orégano e tomate) ela negou e emendou nunca tê-lo visto por ali. “Mas minha sobrinha já viu a dona Marisa”, comentou. Ela passou a puxar conversa, mas pediu que ficasse sob anonimato – condição que a maioria dos vizinhos e comerciantes do entorno partilhavam. “Eles têm medo do Moro”, disse-me um proprietário de apartamento no Solaris, que também não quis se identificar.

A mulher continuou: “Minha sobrinha trabalhou na limpeza quando ainda tava tudo em obra”, disse. “Quando a Marisa veio pra ver o apartamento tiveram que limpar tudo, fizeram um faxinão, compraram até vaso de planta pra botar no corredor pra parecer mais bonito.” Delatores e testemunhas também dizem ter visto a ex-primeira dama durante as obras do tríplex, o que lhe rendeu dois processos no âmbito da Lava Jato, acusações arquivadas depois da sua morte, em 3 de fevereiro deste ano. Lula admitiu ter visitado o tríplex apenas uma vez – uma foto sua dentro do apartamento foi registrada por uma testemunha e encaminhada à Justiça.

A sobrinha, conta a gerente do Lula Lanches, teria até mesmo entrado no tríplex. “Ela diz que é enorme, que as pedras do chão são a coisa mais linda. Eu não entendo de chão, né? Não sei que pedra é. Diz que é de se ver.” Um vendedor de redes se juntou à conversa. “Eu já falei pra fechar essa barraca de pastel e montar uma de tomate. Vai vender muito pro pessoal que para ali pra xingar o Lula”, disse em tom de troça.

Quando o Ministério Público denunciou o ex-presidente e imagens do Solaris correram o Brasil, o vendedor – que caminha por aquelas praias há seis anos – disse que estenderam uma bandeira do Brasil no prédio, mas não sabe dizer em qual apartamento. “Bandeirona bonita do caramba”, comentou. “Aqui é bom porque o mar é calmo, uma piscininha, mas a praia chique é a da Enseada. Quer ver jogador de futebol, vai lá. Mas tem os moleques que vão fumar maconha lá também.”

 

O Solaris é rodeado por dois dos maiores clubes do litoral paulista, chamados pelos locais de “colônias de férias”. Uma de bancários e outra de funcionários públicos do estado de São Paulo. São elas que alimentam a Feira de Artesanato das Astúrias, um extenso corredor coberto distante 100 metros do Solaris, onde se escuta música sertaneja durante todo o dia. O acesso à feira é feito por uma calçada com lajotas rugosas que imitam o calçadão de Copacabana; dentro, 32 lojas de um lado e 32 de outro se apinham em pequenos cubículos para vender tudo o que possa vir com a etiqueta “artesanato”: biquíni, canga, gatinho chinês dando tchau, bijuteria, chinelos, chapéus, bolsas, camisetas com estampas politicamente incorretas e até obras de arte popular.

“Logo que saiu na tevê que o apartamento era dele, o povo comprava coisa aqui e deixava no prédio só de sacanagem”, comentou a dona de uma banca. Entre as lembrancinhas – segundo ela disse – havia uma placa de madeira com o símbolo do Corinthians, um espeto de picanha e uma garrafa de Caninha 51 sob os dizeres “Aqui nóis churrasqueia, toma cachaça e torce pelo Corinthians”. Também abridor de garrafa em forma de caneco de chope escrito “Guarujá”, outra placa escrita “quando será que nós três nos encontraremos novamente?” (abaixo da frase, apenas dois burros desenhados); camiseta com símbolo da cerveja Brahma (apelido que seria o de Lula, segundo o empreiteiro delator José Adelmário Pinheiro Filho, o Léo Pinheiro, da OAS) escrito “meu Drahma é chopp”.

Na galeria há uma banca de camisetas estampadas à mão. Angélica, a proprietária, está há três anos no local após uma carreira no Banco do Brasil. Ela nunca viu o ex-presidente ou alguém de sua família na feirinha. “Imagina, quando ele vinha no apartamento ninguém sabia”, comentou. Mas o que todo mundo sabia era que o Solaris era “o prédio do Lula”. “Até os corretores usavam isso para vender apartamento ali”, comentou. “Só que hoje muita gente foi embora porque não aguentou a incomodação. Você viu o tanto de foto que tiram? Quem mora ali não tem sossego.” Para quem aluga por temporada, no entanto, o momento não poderia ser melhor. “Tem turista que vem aqui na feira e diz que alugou no Solaris só por curiosidade de ficar no prédio do Lula”, disse.

Angélica conheceu Lula em 1987, quando os bancários fizeram uma greve geral e o então sindicalista discursou em palanque. À época, diz, todo mundo “mais elitizado” sabia que Lula fazia o jogo dos banqueiros e dos bancários ao mesmo tempo, como se fosse um agente duplo. “Ele é um cara muito inteligente.”

Ela e o marido quase compraram um apartamento no Solaris aproveitando as facilidades da Bancoop. Os preços, poucos anos atrás, eram convidativos para um edifício em frente ao mar na “praia dos velhinhos”, como ela se refere à Astúrias. Como o Solaris estava longe de ser um prédio de luxo, o condomínio também era em conta. Ela se arrepende de não ter feito o negócio.

Ela contou ter conhecido ainda um outro apartamento em obras que seria apontado, mais tarde, como de propriedade do ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, um duplex na mesma torre A, de frente para o mar. “Eu vi que tinha uma obra e pedi pra entrar. O corretor disse ‘não, esse não dá pra ver, é de um jovem casal que está reformando’ e desconversou. Mas quando o mestre de obras saiu, eu entrei. Era um espetáculo”, disse em tom animado. “O cara tinha reformado inteirinho. O piso todo de mármore, a escada de madeira grossa, bonita, clarinha, o corrimão de aço inox, tudo de primeira, né?”, falou. Ela começou a gesticular como se desenhasse um mapa invisível no ar. “Você entra e aqui tá a sala, aí tem aquela escada linda subindo até lá em cima. Olha o banheiro! Olha a cozinha! Nossa, era coisa que a gente, que só trabalha, nunca vai ter.” Angélica contou ter ficado encantada com outro detalhe: a porta do apartamento. Diferente das demais – simples, de madeira compensada – aquela era blindada. “Eu trabalhei em banco a vida toda, conheço porta de cofre. Isso eu achei estranho. Depois fui saber que era o do Vaccari Neto.”

Três bancas adiante, Rosângela – que vende chinelos – ajeitava uma caixa recém-chegada com as encomendas do dia. Ela afirmou nunca ter visto o ex-presidente por lá, mas, como todos os vizinhos do Solaris, disse que sempre soube que ele ia morar ali, antes mesmo da Lava Jato. “Era o boato da rádio peão, que é como a gente chama as fofocas aqui no bairro.” Seu tom de voz ficou grave quando ela mencionou o ex-presidente. “Ele foi sacana e levou mulher, levou filho, levou tudo. Não é? É errado! Mas eu não julgo ninguém.”

Num canto do teto, uma tevê estava sintonizada na Rede Globo, que exibia uma reportagem sobre a Lava Jato. Na tela, apareceu a imagem de Lula, de camisa vermelha e microfone na mão. Rosângela pegou o controle remoto e aumentou o volume. “Aí ó, pau na lomba, filho duma égua”, gritou.

Em foco na tela, Lula discursava: “Quem sabe um dia eu mando prender esses que querem me ver preso? Todo santo dia eu fico esperando alguém dizer: esse Lula deve ter roubado muito!” Rosângela deu uma gaitada: “He he he heeee!” Lula seguia falando, aplaudido por correligionários em um comício: “Falam em tríplex pra impressionar vocês. Na verdade é como se fosse um Minha Casa, Minha Vida, uma em cima da outra.” A vendedora respondeu para a tevê: “Então tu ganhou mesmo o apartamento, não é?”

 

Nem mesmo o sol do início da manhã de domingo levou as pessoas à praia. O dia logo nublaria com nuvens pesadas esbarrando lentamente nas montanhas que circundam o mar. Às 8h30 da manhã, os porteiros do Solaris já jogavam no computador. Eles costumam indicar aos hóspedes de temporada a única padaria das redondezas, na rua de trás da praia – a La Plage. “Se você ficar andando pelo prédio e abordando as pessoas, nós vamos chamar a polícia”, ameaçou uma moradora que saía do elevador, mesmo que eu não tivesse me apresentado como jornalista. A recomendação foi reforçada pelo pessoal da portaria.

A padaria La Plage conta com uma pequena adega de vinhos portugueses (o mais caro custa 99 reais), fotos com famosos da tevê e um sem-fim de diplomas de “melhor do Guarujá” apinhados nas paredes. A entrada é por uma varanda térrea em forma de meia-lua com mesas de aço e madeira e piso de lajotas, onde as pombas passeiam procurando migalhas no chão. Na entrada, uma televisão de cachorro exibia dez frangos morenos girando em bacias oleosas. “Já está tudo vendido”, disse um garçom.

Uma atendente baixinha usando touca e camiseta vermelha servia dois clientes no balcão. Um deles notou na tevê uma propaganda do novo CD da Wanessa Camargo, cujo pai, Zezé Di Camargo, cantou em comícios de Lula em 2002. Uma Coca com hambúrguer custa 13 reais. Uma cerveja Schin, 6,50. Na parede, um cartaz colado torto anunciava o “mototáxi da comunidade”, aparentemente um eficiente serviço local.

Eugênio Otávio trabalha do outro lado da rua. Desde os anos 80, ele é corretor de imóveis no Guarujá. Estava tentando vender um apartamento no Solaris. Durante duas horas, olhamos apartamentos à venda pelo bairro. “O mercado está parado”, comentou. Ele disse que ainda hoje os preços do Solaris são bons: 550 mil reais por um três dormitórios, duas vagas de garagem, de frente para o mar. “Mas tá pelado dentro, tem que botar piso, tudo”, disse apontando para o quinto andar. “Só que eu não aconselho. É o prédio do PT, tá cheio de rolo isso aí.”

Ele disse conhecer todos os prédios da praia das Astúrias. “Esse Solaris é uma porcaria. Já tá soltando as pastilhas, tá todo ferrado.” O prédio de fato parece novo para precisar de reformas. “É… mas isso aí foi feito de um jeito que tudo é sacanagem… assim, são dois blocos, primeiro eles fizeram o de trás, a pessoa achou que ia ficar com a vista pro mar, aí eles levantaram o da frente e tapou a vista dos coitados. Tudo o que o PT faz é assim, né?”, ironizou.

“Nem por esse valor que eu te falei vale a pena, é um prédio todo enrolado, vai comprar tem rolo, vai vender tem rolo, você entra no lobby e já vê a garagem, é um filme de terror.” Ele mostrou um apartamento semelhante na rua de trás do Solaris, sem vista e mais antigo por 600 mil reais. “Esse aqui também tinha vista pro mar. O Solaris tapou.”

O Solaris quase vazio. Os moradores usam o imóvel para veraneio.
Revista Piauí O Solaris quase vazio. Os moradores usam o imóvel para veraneio. FOTO: LEANDRO DEMORI

 

A praia esvaziou de vez por volta da uma da tarde. Com caneta em punho, Rosa Mendes passou a régua na conta e ordenou que o garçom recolhesse os guarda-sóis. Rosinha, como é conhecida na praia, nasceu no empobrecido distrito de Vicente de Carvalho, no Guarujá, e trabalha na areia há trinta anos com sua barraca de lanches. Baixa, negra, 58 anos e com um semblante que lembra traços orientais, a pedido, ela passou a falar do tríplex. Quando perguntei se gostaria de ter o ex-presidente Lula como cliente, um menino magrinho e bronzeado carregando um boneco do Hulk sem cabeça chegou na conversa e disse: “Ele não vai morar ali no prédio, ele vai morar no tribunal.” Lucas tem 7 anos e é neto de Rosinha. Quis saber de onde ele tinha tirado a ideia. “Ele fez coisa ruim, eu vou ver ele na cadeia!” A avó complementou: “Esse menino é um avião.”

“Esse carro é do sindicato?”, perguntou uma senhora aparentando 70 anos, de viseira e maiô pretos que passava na frente do Solaris carregando uma cadeira. Ela apontou para um Mercedes-Benz novinho estacionado na rua. O marido, aparentando a mesma idade, deu a resposta. “Deve ser. O prédio eu sei que é.” Perguntei se moravam no Solaris, ao que ele emendou: “Sou pobre.” Então parou sua caminhada vigorosa, olhou para mim e disse: “Esse prédio é uma piada, esse apartamento do Lula é mixuruca. Se você olhar os do lado dele vai ver que esse aqui não é de nada, é coisa de pobre mesmo, coisa de… de metalúrgico”, disse.

Por volta das 14 horas, voltei para o prédio. Astrid e Zulma são amigas da vida inteira. Elas estavam no elevador quando notei que apertaram o 16, mesmo andar do tríplex. Quis saber se eram moradoras. “A minha irmã mora no apartamento de frente pro dele”, respondeu Astrid. Insisti para subir e conhecer o imóvel – que seria idêntico ao investigado por Sergio Moro –, ela relutou mas cedeu, pedindo apenas um tempo para falar com a irmã. Dez minutos depois, quando ia tocar a campainha, ouvi uma discussão pela porta. “Não, não, não! Quem é ele? Vou falar o quê? Não quero meu nome envolvido nisso!”, gritou uma voz feminina. “Mas ele parece um rapaz legal…”, retrucou a outra. “Não, não, não, não, não! De jeito nenhum. Não quero ser incomodada.” A porta do tríplex apontado pelo Ministério Público como sendo de Lula estava suja de fuligem e marcas de dedos em torno da fechadura, que parecia ter sido trocada havia pouco tempo.

Desci até o lobby e o encontrei quase às escuras. Com a debandada dos poucos turistas no domingo à noite, o Solaris parecia um prédio abandonado.

 

“Tem muitas bolsas de apostas que dizem que ele vai sair preso. Eu digo: ele não vai sair preso. O Lulão só sai preso se aparecer uma prova documental.” A frase foi dita no ar por Ermínio Matos, radialista da principal rádio de Guarujá em seu programa matutino Assunto do Dia, no qual comenta notícias e toca músicas. “Ô, Lulão, quero fazer uma pergunta pra você.” O sonoplasta se ajeitou na cadeira e soltou um áudio de Lula, simulando uma conversa entre o locutor e o ex-presidente. “Vamos fazer o seguinte, eu estou muito atrasado para um compromisso…”, disse Lula, em alguma entrevista do passado, no que o radialista respondeu: “Esse Lulão sempre fugindo”, sob risadas do simpático Xaxá, um ex-jogador de futebol com passagens pela Portuguesa Santista e Santos e que virou comentarista da rádio.

Maurício Castilho, um ex-despachante aduaneiro do porto de Santos formado em jornalismo nos anos 2000, interrompeu a brincadeira com uma notícia: “Moro pede para que manifestantes não viajem a Curitiba para depoimento de Lula.” O sonoplasta tocou uma trilha de desenho animado e preparou a resposta de Matos. “Ah, o Moro também quer ver o circo pegar fogo! Escreve o que eu digo: dia 10 é o grande lançamento da candidatura do Lula. Vai ter comício na Boca Maldita”, profetizou, referindo-se à região de Curitiba que costuma receber manifestações. “Essa coisa do tríplex ninguém aguenta mais”, disse ele enquanto tomava o café em um único gole. “Aqui tem casa do Pelé, da Xuxa, do Neymar, do Silvio Santos, do Emerson Fittipaldi, tudo mansão, tudo coisa de 20 milhões, e nêgo para pra tirar foto daquele prédio pé de chinelo.” Nos sites de venda de imóveis, a casa mais cara vendida em um condomínio fechado na praia do Guarujá custa 19 milhões de reais.

Casado com a filha do dono da rádio, Matos dirige a empresa em parceria com a mulher. Ele afirmou que a Guarujá AM é a única que faz algum tipo de jornalismo na cidade, mas sobre o tríplex deu parcas notícias. Eles se limitam a replicar o que é publicado nos grandes meios de comunicação. Alto, rechonchudo, moreno e com uma bela papada, ele se justificou. “Como é que a gente vai fazer jornalismo aqui nesse caso do tríplex?”, se defendeu. “Tá todo mundo se segurando no que pode, acabou o dinheiro pra mídia aqui na região.”

Depois do programa, ele caminhou até sua sala na minúscula sede da Guarujá AM – localizada em um terreno emprestado pela prefeitura nos anos 60 em um dos bairros mais carentes da cidade. Ele me ofereceu um café muito doce e deu um panorama do jornalismo do Guarujá. “A política aqui é muito violenta, teve até assalto a banco cometido por ex-prefeito.” Referia-se ao roubo à agência do Banespa engendrado por um bando que contava com o ex-deputado estadual e ex-prefeito do Guarujá, Ruy Gonzalez, condenado em 2002 a pena de 57 anos de prisão. Além do assalto a banco, a política local coleciona uma série de outros episódios: um mensalinho em 2006, quando quase toda a Câmara de Vereadores foi pega “guardando dinheiro na cueca” e cujo único vereador que passou incólume pelo escândalo, Luis Carlos Romazzini, do Partido dos Trabalhadores, foi morto a tiros dentro de casa em 2010. O crime mais recente foi o assassinato do candidato a vereador tucano Cerciran dos Santos Alves, conhecido como Celso do Transporte. Ele foi morto em agosto do ano passado dentro do próprio carro, próximo a seu comitê político. Guarujá divide com Cubatão o posto de cidade com maior proporção de favelas do estado de São Paulo. Quem comanda o tráfico por lá é o PCC.

Em seguida, encontrei-me com Marcelo Castilho, chefe de jornalismo da rádio, que me recebeu em uma cozinha improvisada nos fundos da emissora, onde almoçava observado por dois vira-latas. Funcionário da casa há seis anos, ele disse acreditar que o bochicho do tríplex foi bom para popularizar a praia das Astúrias. “A praia ficou conhecida”, comentou. Foi ele quem me deu carona de volta ao Solaris. Na porta, um carteiro distribuía a correspondência do dia. “Tem carta pro Lula aí?”, perguntei. “Tem não”, respondeu o homem. “Se mandam pra ele é com outro nome, né? E ele nunca sabe de nada mesmo!”, ironizou, aludindo ao fato de Lula muitas vezes se defender dizendo não ter conhecimento dos atos ilícitos de seu governo. Ele subiu na bicicleta e desapareceu.

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