A narrativa final

Oito meses depois do impeachment, há na praça cinco livros e cinco filmes retratando a queda de Dilma Rousseff. Nunca antes um episódio político foi tão farta e rapidamente documentado. Que versão entrará para a história?

POR Alexandre Rodrigues
Retrato oficial de Dilma Rousseff na galeria dos ex-presidentes, no hall do Palácio do Planalto
Revista Piauí Retrato oficial de Dilma Rousseff na galeria dos ex-presidentes, no hall do Palácio do Planalto FOTO: ALAN MARQUES/FOLHAPRESS
Retrato oficial de Dilma Rousseff na galeria dos ex-presidentes, no hall do Palácio do Planalto FOTO: ALAN MARQUES/FOLHAPRESS

Em 30 de agosto de 2016, às vésperas do afastamento da presidente Dilma Rousseff, o senador Jorge Viana, do PT do Acre, questionou: “Como a história nos julgará?”, disse, dirigindo-se aos demais parlamentares. Menos de um ano depois, pode-se contar com uma pista e ela não é esclarecedora. Acumula-se um farto material sobre um dos mais controversos episódios políticos da história recente para ser examinado por pesquisadores, estudantes e curiosos num futuro próximo. Nos últimos meses, foram lançados ou estão em fase de conclusão nada menos do que cinco filmes e cinco livros tratando dos eventos que precederam a queda da ex-presidente. Os enfoques são os mais variados. Há desde coletânea de tuítes de jornalista, ilações sobre o que teria acontecido se ela tivesse seguido as lições do pensador italiano Nicolau Maquiavel, os bastidores das semanas que antecederam sua saída do cargo e até um livro de poesia baseado nos discursos proferidos por congressistas na hora de votar pelo impeachment. Se boa parte dos filmes parece defender a tese do golpe, a maioria dos livros expõe as mazelas produzidas pela própria presidente o que justificariam seu afastamento.

A versão do golpe tem ganhado visibilidade internacional com o périplo de Dilma Rousseff, que tem viajado pelo mundo com o objetivo de sedimentar a narrativa. Se não encontra eco no Brasil, no exterior tem reverberado a ideia em palestras para acadêmicos, intelectuais, estudantes e em entrevistas para os maiores veículos de imprensa na Europa e nos Estados Unidos. No começo de abril, ela proferiu discursos em prestigiosas universidades americanas Harvard, Columbia, Princeton, Brown. “Qual foi o high crime que eu cometi?”, perguntou a uma concentrada plateia em um dos auditórios de Harvard. ”Vocês americanos se indignariam se o Congresso de vocês destituísse um presidente eleito, nestas condições”, continuou ela, que falava na Brazil Conference, um dos principais eventos de debates sobre o Brasil nos Estados Unidos. Ao final, foi aplaudida com entusiasmo. Entre os convidados do evento, também estavam lá aqueles que poderiam ser chamados de seus algozes o procurador Deltan Dallagnol e o juiz Sérgio Moro, líderes da Operação Lava Jato. A organização rebolou e, com sucesso, ela e eles não se cruzaram nos corredores.

No que diz respeito à herança audiovisual sobre o fim da era Dilma, a tese do golpe parece prevalecer entre os cineastas. “Creio que em poucos anos a história vai ter claro que esse impeachment, apesar de sua aparência constitucional, foi um golpe”, diz Anna Muylaert, produtora e roteirista do filme que retrata os últimos 180 dias do governo Dilma, dirigido por Lô Politi e César Charlone. A equipe teve acesso à rotina da presidente e aos bastidores da defesa petista.  “Acompanhamos o funcionamento do Palácio neste período, nos aproximamos da personagem de Dilma e narramos sua resistência e de seus aliados na luta contra o impeachment”. O projeto, ainda em produção e sem título, não tem data de lançamento. 

Em Harvard, no fundo da sala filmando tudo o que Dilma falava, estava a cineasta Petra Costa, do premiado curta-metragem Olhos de Ressaca e dos longas Elena (2012) e Olmo e a Gaivota (2015). Há mais de um ano, ela prepara o documentário Impeachment: Dois Pesos, Duas Medidas, sobre o fatos que levaram à derrocada da primeira mulher eleita presidente. Ainda que não questione a legalidade do processo, a obra levanta dúvidas sobre seu efeito na democracia brasileira. No ano passado, a diretora ficou irritada com as insinuações de que seu filme seria partidário. Ela classifica os comentários como “surrealistas”.

Entre abril e agosto de 2016, Maria Augusta Ramos (diretora de Justiça e Futuro Junho) acompanhou a tramitação do impeachment no Congresso e foi autorizada pelo Senado a fazer filmagens na Casa. Também foi vítima de notas na imprensa acusando-a de militância. Ela promete um filme neutro. “As críticas são um peso, sim, e tenho certeza de que os debates vão se centrar muito nesse aspecto”, disse o diretor carioca Douglas Duarte sobre a suposta parcialidade pró-Dilma. “Acho ruim? Não. Acho ótimo. Ruim é ficar cada um na sua matilha, trancado num canil, latindo. As mordidas vão fazer bem à gente.”

Em seu filme Excelentíssimos, o foco é a atuação dos parlamentares durante o processo de afastamento da presidente. A produção começou como um documentário sobre o funcionamento da Câmara. “Mas no dia em que começamos a rodar, foi o dia em que, por ordem do juiz Sérgio Moro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi levado por agentes da Polícia Federal para prestar depoimento”, disse. A “condução coercitiva”, termo incorporado ao vocabulário policial e político, incendiou o que restava de calma no país e tudo mudou para o diretor: “Dias depois, nós que pensávamos em fazer o filme inteiro dentro do prédio do Congresso, olhamos para 30 mil manifestantes, sirenes, helicópteros, policiais e cavalos do lado de fora e decidimos que era hora de jogar os planos para o alto e seguir o instinto”.

Revista Piauí ARTE: JOÃO BRIZZI

No material que vem do prelo, as opiniões são dissonantes. Críticos à ex-presidente, os 118 textos reunidos em A Verdade é Teimosa: Diários da Crise que Adiou o Futuro (Intrínseca), da jornalista Miriam Leitão, retratam a queda de Dilma como uma longa tragédia anunciada. As colunas, publicadas primeiro em O Globo, resgatam medidas como a redução na marra da taxa de juros em 2012 ou a decisão de congelar as tarifas de energia para derrubar a inflação. “Fui alertando antes que era crime fiscal, que ia dar errado, que era crime o que estava sendo feito. O leitor tem a oportunidade de ver isso no dia a dia”, comentou a autora. Há dois capítulos discutindo o antes e o depois do impeachment e as perspectivas para o futuro. O veredito é implacável: se a queda teve uma aprovação polêmica por parte dos congressistas, foram as escolhas de Dilma que fomentaram a crise econômica e tiraram dela o apoio da população: “Eu acho que a história vai contar que foi um impeachment cometido contra a lei fiscal do país”, defendeu. “A crise se deu após um processo longo. A conquista da lei fiscal foi longa, precisou de muito trabalho, então não se pode fazer isso que fizeram de passar por cima. Estou convencida de que a história não verá isso como golpe, mas como crime de responsabilidade.”

Já em Ascensão e Queda de Dilma Rousseff (Globo Livros), do também colunista do Globo Jorge Bastos Moreno – que cultivava uma boa relação com a então presidente a ponto de ouvir dela confissões sobre culinária e netos –, a preocupação é narrar em tempo real a derrocada da petista. O livro é uma compilação de centenas de posts, publicados originalmente no Twitter, que remontam a meados de 2010. Episódios como o que ficou conhecido como “faxina ética”, ainda no primeiro mandato para afastar ministros suspeitos de corrupção, são lembrados para mostrar como foi criado o campo minado que impediu a ex-presidente de governar depois da reeleição.

“Fiz como se fosse um index para o leitor refrescar a memória dos fatos”, disse Moreno. “Ali se tem um apanhado da crise. Uma leitura rápida, como se fosse uma política haikai. É quase uma linha do tempo.” Para o jornalista, o impeachment passará à história como parte de um processo de depuração da política. “Com a política brasileira nessa velocidade, o impeachment é relevante, mas é diferente do Fernando Collor (ex-presidente afastado em 1992), que foi um caso isolado”, defendeu. “Aquilo era como um câncer. Foi removido e a vida seguiu. Agora o impeachment faz parte de um conjunto de fatos”.

À Sombra do Poder (Leya), lançado no final de 2016, traz a visão privilegiada do jornalista Rodrigo de Almeida, último secretário de Imprensa do Planalto no governo da petista. O relato evita a defesa da ex-chefe, admite alguns erros do governo, mas põe a maior parte da culpa da crise política na intransigência da oposição. A obra é pontuada por fofocas internas. Abundam menções ao mau humor da presidente e críticas sobre sua maneira de lidar com problemas.

Nada tão original quanto o enfoque do poeta carioca Roy David Frankel, que transformou em versos os discursos do impeachment. Em Sessão lançado esse mês – lê-se: “Aqui uma situação/ Quero mandar um abraço. Eu não mencionei o meu filho Paulo Henrique/ Paulo Henrique, é para você meu filho”. Ainda que a cadência poética não seja óbvia, Frankel argumenta: “Muita gente fala sobre o impeachment, eu queria que o impeachment falasse. E cada um que chegue à própria conclusão”, disse. Ele acredita que o “julgamento da história” vai depender de como estiver o país no futuro. “Vivemos tempos muito turbulentos para se ter certeza dos próximos acontecimentos.”

Em maio, deve chegar às livrarias A Queda de Dilma (Universo dos Livros). Crise política, popularidade despencando, a economia em recessão e a acusação de gastar sem controle não bastariam para o impeachment se, na opinião do autor, o também jornalista Ricardo Westin, Dilma tivesse prestado atenção nas lições do pensador político italiano Nicolau Maquiavel (1469-1527) em O Príncipe.

“Maquiavel ensina que, para conservar o povo a seu lado, o príncipe precisa, por exemplo, fazer todas as maldades inevitáveis de uma só vez e entregar as bondades a conta-gotas. Dilma fez o contrário”, comentou. “O Palácio do Planalto passou o tempo todo, mês após mês, anunciando más notícias para a população. Ao mesmo tempo, ela não teve nenhuma bondade para conceder ao país no segundo mandato. As mesmas pessoas que pouco antes lhe haviam confiado o segundo mandato passaram a sentir raiva da presidente.”

O livro também aponta erros tanto da petista como de seus adversários. Naquele que se mostrou o mais grave, segundo o autor, a então presidente também ignorou Maquiavel, para quem uma luta inevitável jamais deve ser adiada. Segundo o autor, ela demorou meses para confrontar o então vice-presidente Michel Temer – que participava da articulação para afastá-la do cargo. “Apenas às vésperas da votação na Câmara que autorizou o Senado a afastá-la, Dilma confrontou Temer, vinculando-o ao ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha”, afirmou. Mas era tarde.

O canal francês Arte produziu o documentário Brésil: Le Grand Bond en Arrière [Brasil: O Grande Salto para Trás], que mostra o impeachment como um golpe contra a esquerda brasileira. As diretoras Frédérique Zingaro e Mathilde Bonnassieux narram a história pela ótica do humorista e colunista Gregório Duvivier – notório defensor de Dilma –, que faz a maioria das entrevistas, inclusive com a presidente. Indo de acampamentos do MST a beneficiários de programas sociais, ele quer mostrar, com humor ácido e crítico, um país fraturado e polarizado. Para o humorista, a imprensa estrangeira cumpriu um papel fundamental no impeachment, “que nossa imprensa não estava cumprindo, o de cobrar isonomia no noticiário”. “Vendo de fora as coisas são mais claras. A mesma coisa se dá na imprensa brasileira: é muito mais progressista, não teme esculhambar o (presidente dos Estados Unidos, Donald) Trump.”

O ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, advogado de Dilma, também se disse surpreso com a profusão de material produzido sobre o impeachment. Segundo ele, Dilma ou seus assessores próximos não têm qualquer ingerência ou conhecimento sobre o conteúdo das obras. “De vez em quando pedem uma imagem, um vídeo para nós. Mas é só”, afirmou. Ele disse estar curioso pelo resultado da memorabilia. “Eu não sei que versão do golpe vai entrar para a história, mas acho que os fatos e as imagens  – vistos em retrospectiva – vão nos ser muito favoráveis”, comentou por telefone. “É Eduardo Cunha falando que combinou o parecer com o Temer antes, o Romero Jucá falando que era preciso dar um jeito para controlar a situação”, disse. “Isso tudo junto é a confissão de um crime.”

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