anais da educação

Aos “Bastardos da PUC”, com carinho

A carta de Marielle Franco para os bolsistas da universidade privada

Armando Antenore
17mar2018_01h06
Marielle Franco (<i>ao fundo</i>) no lançamento do coletivo Bastardos da PUC-Rio, que reúne bolsistas da universidade
Marielle Franco (ao fundo) no lançamento do coletivo Bastardos da PUC-Rio, que reúne bolsistas da universidade DIVULGAÇÃO/COLETIVO BASTARDOS

Na quinta-feira de manhã, assim que recebeu o convite para homenagear Marielle Franco na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, o estudante Michel Silva não hesitou: leria uma carta em que a vereadora estimulava os bolsistas da instituição a enfrentar os percalços impostos por uma escola privada e cara. “É impossível não sentir aquele frio na barriga (…) quando ouvimos histórias de que há professores que dão textos e filmes em inglês sem tradução, de que não se veem alunos negros em sala de aula, de que a principal reivindicação estudantil é a diminuição do preço do estacionamento, de que o pilotis é um desfile de moda”, escreveu a parlamentar no início de 2017.

O Departamento de Ciências Sociais organizou a homenagem, que juntou aproximadamente 200 pessoas em volta do busto de John F. Kennedy, no edifício principal da PUC. Como o presidente democrata dos Estados Unidos, a vereadora do PSOL morreu durante um atentado enquanto se deslocava de carro. Quatro dos treze tiros desferidos contra o Chevrolet Agile que a conduzia na noite de quarta-feira pelas ruas do Estácio lhe atingiram a cabeça. O tradicional bairro do Rio, considerado o “berço do samba”, fica perto do Centro. A polícia ainda não identificou o autor (ou os autores) do crime.

Graduando em jornalismo, o carioca Michel Silva participou da cerimônia vespertina como representante de um coletivo lançado em 2016: o Bastardos da PUC-Rio. O próprio Silva – que nasceu, se criou e continua morando na favela da Rocinha – fundou o grupo com quinze colegas. “O nome ironiza a expressão ‘filhos da PUC’, que se tornou comum no meio acadêmico”, explicou o jovem de 24 anos. Embora abrigue muitos egressos do ensino público, a universidade também reúne integrantes da elite. “Eles, os brancos de classe média ou alta, que vivem nas áreas mais ricas da Zona Sul e pagam mensalidades salgadas, são os filhos da PUC. Nós, os pardos e negros, que precisamos de bolsa, somos os bastardos.” Originária da Maré, complexo de favelas na Zona Norte da cidade, Marielle diplomou-se pela PUC, onde ingressou em 2002 para cursar sociologia. Foi por solicitação do coletivo que a ex-aluna redigiu a carta.

“O Bastardos costuma promover rodas de conversa em que debate os problemas dos estudantes de baixa renda. Numa das discussões, resolvemos que iríamos preparar um manual para os calouros pobres, com dicas de como sobreviver num ambiente escolar tão distinto daquele que frequentavam”, contou Michel Silva. “O texto da Marielle vai constar do livrinho.” Cartas de incentivo assinadas pelo vice-reitor comunitário, Augusto Luiz Duarte Lopes Sampaio, e pela ativista Gizele Martins também estarão no manual, que já ficou pronto. “Só falta a gente arrumar o dinheiro da impressão”, disse o rapaz. Filho de uma empregada doméstica e de um faxineiro, Silva faz estágio numa produtora de tevê e ganha um salário mínimo. A universidade lhe concedeu bolsa de 90%. Se arcasse com a mensalidade integral, o estudante teria de pagar 3 347 reais.      

Leia, a seguir, a carta de Marielle Franco:

“Aos bastardos da PUC-Rio, com carinho,

Chegar à PUC-Rio pode parecer algo um tanto tenso: a natural insegurança em ocupar um espaço novo; pessoas e normas ainda desconhecidas… É impossível não sentir aquele frio na barriga! Ainda mais quando ouvimos aquelas histórias de que há professores que dão textos e filmes em inglês sem tradução, de que não se veem alunos e professores negros em sala de aula, de que a principal reivindicação estudantil é a diminuição do preço do estacionamento, de que o pilotis da PUC é um desfile de moda… e por aí vai. Não há um manual que resolva tudo que passa na nossa cabeça nesse momento, mas algumas pistas são importantes para ajudar a descortinar uma nova rotina acadêmica, sem deixar de considerar a nossa realidade econômica, política e social. A primeira delas é não se deixar afetar por tudo que é falado sobre a PUC. As vivências, por mais que existam importantes similaridades coletivas, são individuais e tudo vai depender muito de como você encara o mundo e os desafios colocados. Eu, por exemplo, optei pelo diálogo franco e constante com professores diante das dificuldades pelas quais passei, seja como mãe jovem, trabalhadora e moradora de favela. Desde a limitação concreta de me locomover da Maré até a Gávea, para a primeira aula às sete da manhã, até as atividades extracurriculares que não pude fazer em virtude do meu trabalho ou mesmo pela falta de grana para custeá-las.

Apresentar para quem quer que seja a nossa realidade concreta não é ser vitimista, ainda mais com a perspectiva de trilhar caminhos possíveis e alternativos às limitações encontradas. Nesse sentido, a vice-reitoria comunitária também é uma parceira fundamental para questões objetivas e para oportunidades dentro e fora da universidade. É importante cercar-se de pessoas, sejam colegas de turma, professores ou funcionários, que possam contribuir para que a passagem pela PUC seja plena. Essa é sem dúvida uma ótima estratégia para a sobrevivência acadêmica.

Além disso, buscar compreender a PUC-Rio em sua complexidade, enquanto uma universidade privada de qualidade e legitimidade acadêmica, é também entender que, em uma sociedade desigual, racista e machista, as raras oportunidades não devem ser subutilizadas. Pensando nisso, ser um filho ‘bastardo’ da PUC não pode ser encarado como algo ruim, precisamos reivindicar um novo significado político: o ‘bastardo’ é aquele que resiste às desigualdades. Por isso, é necessário que o nosso histórico pessoal seja uma mola que impulsione a nossa vida acadêmica. Sem perder de vista a nossa identidade, o lugar e a família que nos gestaram, viver a PUC-Rio é quase uma missão política e social, já que o processo pedagógico é uma via de mão dupla: quando nos transformamos, modificamos também tudo e todos à nossa volta. A nossa presença na PUC-Rio já é, por si só, um ato de resistência! Boa viagem acadêmica, política, econômica e social.”

Armando Antenore

Armando Antenore, jornalista, é editor da piauí

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