questões político-cinematográficas

Aos inimigos, obrigado

Boicotado em festivais e achincalhado pela esquerda, o filme que trata da obra do filósofo conservador Olavo de Carvalho arrecadou 315 mil reais – o maior crowdfunding da história do cinema nacional – e vem enchendo sessões em todo o país

João Brizzi
20jun2017_19h14
Josias Teófilo (direita), diretor de <i>O Jardim das Aflições</i>, passeia com Matheus Bazzo (esquerda), produtor, e Olavo de Carvalho durante as gravações do filme: “A cultura sempre foi dominada pela esquerda. O único cineasta que se assume de direita no Brasil sou eu.”
Josias Teófilo (direita), diretor de O Jardim das Aflições, passeia com Matheus Bazzo (esquerda), produtor, e Olavo de Carvalho durante as gravações do filme: “A cultura sempre foi dominada pela esquerda. O único cineasta que se assume de direita no Brasil sou eu.” FOTO: DIVULGAÇÃO

Na madrugada de quarta-feira, 31 de maio, foi ao ar no SBT mais um episódio do talk show The Noite, apresentado pelo comediante Danilo Gentili. Inspirado nos programas americanos, a salada mista de cultura pop televisiva também funciona como bunker do deboche anti-esquerdista brasileiro: além de Gentili – cuja mais recente polêmica foi rasgar uma notificação extrajudicial enviada pela deputada federal gaúcha Maria do Rosário, do Partido dos Trabalhadores, colocar os pedaços dentro de sua cueca e postar o vídeo na internet –, também faz parte do show a banda Ultraje a Rigor, liderada por Roger Moreira, outro acostumado a entreveros com grupos progressistas na web.

Naquela noite, o comediante organizou uma espécie de convescote da nova direita brasileira. Acomodado no sofá, com os cabelos desgrenhados e usando óculos, camisa social estampada, uma calça básica e mocassins vermelhos, estava o cineasta pernambucano Josias Teófilo. Em um determinado momento da entrevista, ele disse: “A cultura sempre foi dominada pela esquerda. O único cineasta que se assume de direita no Brasil sou eu.”

Aos 29 anos, Teófilo estava no programa para lançar seu primeiro longa-metragem, O Jardim das Aflições, documentário sobre a obra do filósofo e arauto da direita nacional Olavo de Carvalho. O próprio personagem foi uma presença espectral diante da plateia – via Skype, ele aparecia fumando um American Spirit de filtro vermelho em uma tela posicionada ao lado dos convidados. “O que houve no Brasil foi o controle total [da cultura]. Isso não aconteceu nem na União Soviética”, disse o filósofo.

O documentário talvez passasse batido e sequer ganhasse espaço em programas populares – como o de Gentili – caso não tivesse sofrido um enxovalhamento público em meados de maio. Nem havia chegado às telas quando sete cineastas anunciaram a retirada de seus próprios filmes do festival Cine PE, no Recife, terra natal de Teófilo, em protesto contra a inclusão de dois longas: O Jardim das AfliçõesReal – O Plano por Trás da História, que tenta remontar os bastidores da criação da última moeda brasileira. Para os diretores, teria havido influência de um “discurso partidário alinhado à direita” na escolha. Os desgostosos saíram, mas a organização decidiu manter O Jardim na programação. “Eu imaginava que eles fossem fazer piquete na exibição, chamar o Olavo de fascista. Mas pedir para tirar os filmes da mostra? Foi de uma brutalidade…”, comentou Teófilo em conversa por telefone no final de maio – semana da estreia do filme.

A reação dos colegas não o surpreendeu. A cruzada do diretor contra uma esquerda que ele – e Carvalho – descrevem como hegemônica na cultura e nos meios de comunicação brasileiros remonta aos tempos de origem dos termos petralha e coxinha. Em outubro do ano passado, o UOL publicou reportagem falando sobre a recusa do documentário nos festivais de Gramado e do Rio. À época, Teófilo afirmou não encarar a atitude como censura, mas questionou o quanto a política poderia ter influenciado nos critérios estéticos das mostras cinematográficas. “Selecionar para uma mostra competitiva um filme sobre Olavo de Carvalho, o filósofo que previu a ascensão do PT e de todos os seus crimes, seria dar um trunfo ao inimigo”, especulou.

Foi cambaleando, depois de ter sido gongado nos dois festivais, que o filme chegou no Recife. O que tinha tudo para ser o tiro de misericórdia nas pretensões da obra de participar de ao menos um festival de destaque, acabou se tornando seu super trunfo – e os ataques se converteram em peças involuntárias de marketing. Antes de ser recusado no Rio de Janeiro e em Gramado, O Jardim das Aflições tentava levantar 252 mil e quinhentos reais em um financiamento coletivo organizado pela internet, no que seria o único canal de arrecadação do filme, que não contou com leis de incentivo à cultura. Trazido à ribalta pelo estardalhaço dos boicotes, arrecadou 315 mil reais de 5 000 investidores anônimos. Foi o mais bem sucedido crowdfunding da história do cinema nacional segundo as contas dos produtores – no Catarse, maior plataforma de financiamento colaborativo do Brasil, a animação O Menino e o Mundo arrecadou pouco mais da metade desta quantia na campanha que fez para divulgar o filme nos EUA, onde concorreu ao Oscar. “A cada treta, não-sei-quantos mil reais entravam na campanha de financiamento”, contou-me Teófilo.

Com sessões lotadas e seguidas semanas de exibição em várias cidades pelo Brasil – algo raro de acontecer com documentários nacionais –, O Jardim das Aflições deu a Teófilo um palanque na internet. Em seu perfil no Facebook, ele compartilha e comenta com obstinação tudo o que é publicado na imprensa a respeito do filme, e aproveita para alfinetar a esquerda em assuntos colaterais como a crise na Venezuela (“Você, petista, é corresponsável por isso tudo que está acontecendo lá, porque apoiou quem fez”, escreveu no dia 13 de junho).

Seus comentários costumam girar em torno da ideia de que críticos e jornalistas dos principais veículos do país evitam falar sobre o documentário e, quando o fazem, escrevem com extrema má vontade. A reportagem de outubro do UOL, por exemplo, se resume a descrever o filósofo mostrado na obra como “um senhor pacato que dá palestras online sobre filosofia e caça animais”. Pouco é dito sobre o conteúdo da película, nada sobre direção ou fotografia. E não há, no filme, qualquer cena de caça.

Quando perguntado pela reportagem do portal se O Jardim tinha alguma coisa a ver com Aquarius – segundo longa-metragem do diretor Kleber Mendonça Filho, que também dirigiu o premiado O Som ao Redor –, Teófilo foi enfático: “Absolutamente nada.” A resposta foi ignorada no texto do portal, que inicia com a seguinte frase: “A direita já tem seu Aquarius.”

A pergunta tinha uma razão de ser. Antigo amigo e atual desafeto de Teófilo, Mendonça costuma ter seus filmes bem acolhidos pela esquerda brasileira. Na edição do ano passado do festival de Cannes, por exemplo, a equipe de Aquarius protestou contra o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. O ato ajudou na repercussão do filme e culminou em um post de agradecimento da petista em seu Twitter.

Insatisfeito com essa e outras distorções, Teófilo confrontou o jornalista responsável pelo texto do UOL, publicando na íntegra a entrevista concedida por ele ao portal“O cara queria me foder, mas eu gravei tudo”, comentou. E também escreveu a respeito da polêmica no Facebook: “Não existe obra de arte que se abra para quem chega a ela com má vontade.” Para ele, o cinema nacional ficou tão autofágico que se tornou insuportável: “Eles são obcecados pelos mesmos temas. Ninguém mais aguenta filme sobre poeta marginal da época da ditadura”, provocou.

 

A primeira aparição pública de Teófilo aconteceu em 2008, quando o então estudante de jornalismo organizou uma coletiva de imprensa para contar a história de seu avô, Pedro Teófilo Batista. Inventor, arquiteto e cineasta, Pedro projetou e administrou o Cine Olympia, que funcionou no bairro do Arruda, no Recife, entre as décadas de 50 e 70. Estavam no evento Luiz Joaquim, jornalista que seria homenageado na edição deste ano do mesmo Cine PE, Júlio Cavani, do Diário de Pernambuco, e Kleber Mendonça Filho, também crítico de cinema do Jornal do Commercio.

Em seu blog, Mendonça Filho exaltou, à época, a proeza do “jovem cinéfilo”. Escreveu: “Na última terça-feira, Josias Saraiva Monteiro Neto, 20 anos, estudante de jornalismo, conseguiu um feito e tanto. Sem ser famoso, sem ter um filme, livro, disco, peça ou exposição prontos para apresentar, organizou uma coletiva de imprensa que terminou sendo um sucesso. Munido de organizados kits com press release e banco de fotos, articulou sozinho a atenção dos três jornais do Recife, que foram a um café para ouvir o que ele tinha a dizer. O evento inusitado talvez reflita a energia que esse cinéfilo tem no sentido de divulgar a obra de um cineasta desconhecido: seu avô, Pedro Teófilo Batista, que faleceu aos 59 anos de idade em 1989.”

Josias Teófilo já usava o sobrenome do avô em seu perfil nas redes sociais, mas foi só após Cavani, do Diário, referir-se a ele assim em uma reportagem, que o cineasta adotou oficialmente o nome. O jovem foi acolhido por Kleber Mendonça, que o convidou para ajudar na produção do Janela Internacional de Cinema, festival organizado pelo cineasta, e na produção de Recife Frio, curta-metragem lançado em 2009. Mendonça também usou a casa onde Teófilo morava com a avó para filmar O Som ao Redor, rodado em meados de 2010. Em retribuição, Mendonça lhe emprestou uma câmera para que Teófilo filmasse seu primeiro curta, chamado Quarteto Simbólico. O dinheiro do aluguel da casa serviu para que o jovem cineasta comprasse o computador com o qual editaria, mais tarde, a própria película. “O Kleber foi a primeira pessoa que me deu valor artisticamente”, lembrou.

As mudanças do jovem cineasta não se restringiram ao seu nome. À medida que se inseria na classe cinematográfica recifense, Teófilo logo percebeu que sua ideologia não se alinhava ao que pensava grande parte do grupo. O primeiro ponto de inflexão foi a defesa da legalização do aborto, bandeira que costuma ser acolhida em ambientes progressistas como aquele em torno da turma de cinema do Recife. Teófilo era contra a legalização do aborto, mas nunca se posicionou em festas e encontros com o grupo – ele temia que opiniões conflitantes pudessem afastá-lo da cena local e freassem sua projeção nacional.

Foi enquanto ainda trabalhava com Mendonça que Teófilo, silenciosamente, se interessou pela obra de Olavo de Carvalho, uma das figuras mais desprezadas por turmas como a do Recife. Por indicação de uma amiga, ele diz ter assistido aos 32 DVDs da coleção História Essencial da Filosofia, lançada em 2008, época em que Carvalho já fazia sucesso com o podcast True OutSpeak, veiculado entre 2006 e 2012, no qual destila comentários políticos e culturais. Ciente da reputação do professor, Teófilo não fez alarde sobre a recente descoberta. Tratava Carvalho como seu ídolo inconfesso sabendo do poder destruidor que uma declaração de apoio às ideias do filósofo teria em seu círculo de amizades.

“Quando ainda era amigo de Kleber e vi O Som ao Redor, eu fiz leituras conservadoras sobre o filme e ele gostou muito”, disse. Mendonça sempre se apresentou, na visão de Teófilo, como um progressista de mente aberta. Na prática, no entanto, a relação começou a azedar por conta das posições cada vez mais à direita do jovem apadrinhado pelo diretor. “O Kleber falava que O Som ao Redor era uma produção de esquerda. Isso não existe!”, disse. “Essa história de direita e esquerda vai até certo ponto. A gente se coloca politicamente, mas a arte não tem nada a ver com isso e nem pode ter.”

Entre 2011 e 2014, enquanto escrevia O Cinema Sonhado – livro sobre a trajetória de seu avô, criador do Cine Olympia –, Teófilo começou a cultivar a ideia de fazer um documentário sobre a filosofia de Olavo de Carvalho. A decisão precedeu um rompimento não só intelectual, mas também geográfico com os colegas de cena – ele mudou-se para Brasília, matriculou-se em um mestrado e fugiu da atmosfera quase sufocante do cinema pernambucano. A convivência com Mendonça Filho se sustentava sobre bases frágeis. “Mantivemos contato até o lançamento de Aquarius. Comentávamos os posts um do outro, mas nunca deixamos a animosidade virar uma treta pública”, relembrou.

Ainda sem confiança para romper de vez com o antigo mentor, Teófilo esperou o lançamento de sua primeira obra para se posicionar politicamente. Após ver o livro vencer o prêmio de melhor ensaio da Academia Pernambucana de Letras, decidiu que era chegada a hora. A primeira investida contra o que ele via como o status quo do cinema pernambucano se deu em uma conversa particular. Teófilo buscava uma imagem apurada para o seu filme (“no cinema brasileiro, documentário é tudo muito feio”, disse) e procurou Pedro Sotero, diretor de fotografia de O Som ao Redor e Aquarius. Na conversa com Sotero, disse que iria fazer um filme sobre um filósofo que vivia nos Estados Unidos, mas não especificou quem seria o personagem – temia a reação do colega. A conversa bastou, segundo ele, para acender o rastilho de pólvora que culminaria no boicote no festival Cine PE.

“Eu não sabia, mas depois daquele papo houve toda uma mobilização por baixo dos panos”, contou. Teófilo argumenta que Sotero declinou do trabalho após ter descoberto quem era o tal filósofo. Além disso, acusou o diretor de tentar convencer outros profissionais a não participarem do filme, entre eles o premiado Daniel Aragão. A mobilização ganhou soldados, segundo a versão do cineasta: Marcelo Pedroso, documentarista e mestre em cinema pela Universidade Federal de Pernambuco, também teria tentado demover Aragão da ideia de trabalhar em O Jardim das Aflições. “Ele sabia, sendo o Daniel um exímio diretor de fotografia, que o filme subiria de nível”, disse Teófilo. O lobby não deu certo, e Daniel Aragão acabou participando das filmagens.

Quando procurei Pedroso para saber qual era sua versão sobre o ocorrido, ele me inquiriu: “Não leve a mal: nós dois não nos conhecemos. Você poderia me falar algo de seus posicionamentos políticos?” Negada a proposição, ele me contou que seu encontro com Aragão aconteceu por acaso, na saída de um cinema. O diretor de fotografia teria dito que trabalharia no filme sobre Carvalho e pediu uma opinião a Pedroso. “Eu cobrei, sim, uma posição dele”, revelou. “Disse-lhe que o engajamento das pessoas pode ser apenas profissional, mas que ele precisava decidir se estava de acordo com o teor daquele filme.”

A amizade com Mendonça chegaria, enfim, ao seu epílogo em junho de 2016. Na época, Carol Almeida, jornalista do Jornal do Commercio e amiga de Mendonça, relacionou, em seu Facebook, as 50 mortes num atentado em uma boate gay de Orlando, nos Estados Unidos, ao discurso de ódio dos simpatizantes de Bolsonaro, a quem se referiu como cúmplices. Inconformado, Teófilo respondeu, dizendo que a jornalista era “histérica e conveniente ao movimento revolucionário esquerdopata”. A discussão durou mais alguns comentários e ataques diretos. Sem se manifestar, Kleber Mendonça acompanhou o bate-boca. Segundo Teófilo, depois daquele dia, Mendonça o bloqueou na rede social, rompendo simbolicamente a relação de anos.

Mendonça só se manifestaria publicamente após o protesto no festival Cine PE, quando o filme, enfim, ganhou projeção nacional. “Não sei do que essa pessoa está falando, não vi o filme. Espero que ela seja feliz na vida e no mundo do cinema”, escreveu em nota divulgada pelo Jornal do Commercio.

 

Tão maldito quanto bem-sucedido, Olavo de Carvalho – o mote das polêmicas em torno do filme – acumula aliados e inimigos há mais de duas décadas. Tudo começou em 1996, quando o professor publicou O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras, seu oitavo livro. Nele, Carvalho aborda a “alienação de nossa elite intelectual, arrebatada por modas e paixões que a impedem de enxergar as coisas mais óbvias”, como explicado no prólogo de sua primeira edição. O livro foi o terceiro da trilogia que ainda conta com A Nova Era e a Revolução Cultural (1994) e O Jardim das Aflições (1995), que serviu de inspiração para o documentário de Teófilo.

Repercutindo o lançamento do Imbecil Coletivo, Pedro Bial entrevistou Carvalho durante o programa Espaço Aberto, da GloboNews. O apresentador descreveu o livro como um volume demolidor, e introduziu seu autor com certo encanto. “Apesar de não ter sido formado na Academia, ele se autointitula filósofo, mas também tem os títulos de jornalista, astrólogo aposentado, quase teólogo e polemista por excelência. Por isso, talvez, os detratores o chamam por títulos menos nobres, como bestalhão”, disse o apresentador. Quando inquirido sobre se a esquerda brasileira estava em ascensão, Carvalho foi seco: “Sem sombra de dúvidas.”

Por conta de registros como esse, o filósofo se orgulha de ter antecipado o que chama de tomada de poder pela esquerda. Teoriza que, a partir da década de 60, grupos de esquerda adotaram a estratégia gramsciana de fazer primeiro a revolução cultural, disseminando discretamente a ideologia comunista sob diferentes nomes e contextos, para depois empreender uma revolução política. No processo, afirma que a esquerda passou a ocupar cargos em escolas, universidades e na mídia. À medida que a ideologia conquistava paulatinamente espaço na cultura, as instituições de ensino ainda passariam por um processo de sucateamento.

Como jornalista, Carvalho escreveu para periódicos como a Folha, Bravo!, Jornal do Brasil, O Globo, Época e Zero Hora. Sua persona contemporânea, no entanto, só começaria a tomar forma em 2005, época em que ele se mudou para os Estados Unidos e perdeu sua coluna no jornal O Globo. Em entrevista à BBC publicada em dezembro do ano passado, o filósofo contou que um dos principais motivos de sua mudança foi a chegada do Partido dos Trabalhadores à Presidência, em 2002. O outro, ilustrativo do seu lado conservador, foram as tradições e costumes dos rednecks – caricatura do homem branco, de baixa renda, que vive em áreas rurais do sul dos Estados Unidos e cuja marca é a estreiteza cultural – que são hoje seus vizinhos em Richmond, na Virgínia.

Já nos EUA, Carvalho adotou uma postura mais pop para disseminar sua obra. Segundo Teófilo, foi com o True Outspeak, seu podcast, que ele começou a interpretar um personagem que era “uma mistura de Aristóteles com Alborghetti”, referindo-se ao filósofo grego e ao radialista brasileiro que ficou conhecido por golpear sua mesa com um porrete enquanto urrava palavras de ordem contra criminosos de toda sorte.

O polemista também apareceu em O Mínimo que Você Precisa Saber Para Não Ser um Idiota, coletânea de artigos publicada em 2013. O livro, organizado por outro expoente do conservadorismo, Felipe Moura Brasil, vendeu, segundo a editora, aproximadamente 320 mil exemplares, e consagrou Carvalho à posição de um dos principais combatentes da esquerda e do politicamente correto no Brasil.

As vitórias do PT nas eleições presidenciais de 2002, 2006, 2010 e 2014 deram alento às suas teorias e trouxeram cada vez mais seguidores para o seu lado. Nas manifestações que pediam o impeachment de Dilma Rousseff, no ano passado, não era difícil encontrar camisetas cujas estampas traziam uma máxima criada por seus fãs: “Olavo tem razão.”

Mesmo despontando como líder da direita, o professor eventualmente se declarou contrário ao estilo de política proposto por organizações também ligadas ao conservadorismo no Brasil, como o Movimento Brasil Livre. Em 2015, afirmou em sua página no Facebook: “Tudo o que o MBL tem feito desde que existe é sugar as energias do movimento popular e canalizá-las para reforçar a classe política podre, o ‘sistema’ e agora a esquerda chique.”

Olavo de Carvalho aguarda na fila da confissão da Igreja de Saint Joseph, em Petersburg, Virgínia. O filósofo foi o padrinho de primeira comunhão de Josias Teófilo em cerimônia realizada no templo

 

Se dependesse de Teófilo, o mundo em torno de Carvalho não deveria fazer parte das discussões sobre o filme. “O filme é sobre filosofia, não sobre atualidades”, insistiu. Durante o processo de produção do documentário, Teófilo e seu personagem se tornaram amigos. O filósofo foi, inclusive, o padrinho de primeira comunhão do cineasta em uma tardia conversão ao catolicismo, fenômeno comum entre seus seguidores. Realizada na Igreja de Saint Joseph, no estado da Virgínia (“Fiz lá porque até a Igreja é cheia de burocracia no Brasil”, explicou Teófilo), a cerimônia contou com a presença da esposa de Carvalho.

Josias defende que “o Olavo” mostrado no filme é aquele que aparece nas aulas do Curso Online de Filosofia (COF), vendido pelo filósofo. Cerca de 12 mil alunos já passaram pelo curso, iniciado em 2009. Atualmente, 3 mil matriculados pagam planos mensais, trimestrais, semestrais ou anuais – na opção mais barata, o aluno desembolsa 640 reais por ano – para ter acesso a quase 400 aulas. Carvalho diz que seus alunos podem entrar no curso a qualquer momento, acompanhando as aulas novas e, paralelamente, assistindo às antigas. Cada vídeo tem duração média de duas horas.

Fiéis, os alunos do COF encaram a missão e acabam se tornando o núcleo duro que consome a produção do professor e divulga seus pensamentos internet afora. O curso tem a pretensão de ser um sistema de educação integral, passando por religião comparada, letras, artes, ciências humanas, da natureza, comunicação e expressão. Em suma, Carvalho sonha em, sozinho, corrigir o atraso causado pela péssima educação básica brasileira.

Após investir algumas dezenas de horas em frente ao computador, os alunos costumam desenvolver relações pessoais tanto com Carvalho quanto com os outros estudantes. Em dado momento do curso, o professor recomenda que os alunos se abstenham de dar opiniões em debates de qualquer natureza. Nada de posts no Facebook, nada de comentários pelas redes sociais ou em grupos de WhatsApp. Apesar disso, é comum ver manifestações de muitos que se declaram seguidores do filósofo com o objetivo de conquistar mais e mais adeptos. Sem muito trabalho, é possível encontrar dezenas de artigos com considerações e dicas sobre Carvalho.

 

Naquele 31 de maio, horas antes da pré-estreia, o cineasta participara também do Morning Show, programa que costuma reunir parte dos conservadores brasileiros na rádio Jovem Pan, em São Paulo. Entre perguntas sobre o filme e sobre a algazarra gerada em torno de seu lançamento, Teófilo teve de explicar como se manifestava a hostilidade “desse pessoal que se acha proprietário da cultura nacional”. Respondeu de bate-pronto: “A mais evidente é a de que todo mundo do cinema pernambucano me bloqueou no Facebook – inclusive nosso amigo, Kleber Mendonça Filho.”

A sessão que aconteceria naquele mesmo dia, no Cine Odeon, na Cinelândia, Rio de Janeiro, teve tons de ironia. Palco tradicional de manifestações de sindicatos e partidos de esquerda, a praça que circunda a sala recebia, naquela noite, uma concentração de pessoas de direita. Alguns usavam camisetas com os dizeres “Não ao marxismo cultural” e “Politicamente correto: não, obrigado”. Na fila, a sensação era de que, já experientes na tarefa de esconder uma conflituosa admiração por Olavo de Carvalho, os presentes finalmente encontravam um espaço seguro para compartilhar e discutir os ensinamentos do filósofo entre seus pares.

Mais do que isso, o público parecia pertencer a uma rede formada por um aglomerado de fãs de longa data do filósofo, admiradores de sua persona pública e alunos do COF que já se conheciam pela internet. A impressão foi se confirmando aos poucos: na entrada, quem cuidava dos ingressos reservados para jornalistas era Rafaella Gappo, dona de um canal no YouTube em que interpreta a vlogueira Fernanda Minazzi – a Fê Minazzi –, uma sátira contra as feministas radicais ligadas a grupos que se intitulam de esquerda.

Ao chegar à sala, minha fileira ainda estava vazia. Minutos depois, um rapaz de terno ocupou uma cadeira vizinha. Usava gravata e tinha a barba feita. Parecia ter acabado de sair de um escritório de advocacia. Após se ajeitar, pegou o celular, abriu o WhatsApp e informou aos colegas de COF que tinha conseguido entrar na sessão. Contou ser aluno do curso, mas torceu o nariz quando notou que eu era jornalista. Como quem pressente represálias, soltou as informações aos poucos: se chamava Felipe Oquendo, era advogado, amigo de Teófilo e integrante da equipe que tenta financiar o lançamento de um documentário sobre José Bonifácio. Dirigido pelo cineasta Mauro Ventura, Bonifácio – O Fundador do Brasil retrata a história do patriarca da independência brasileira. O filme tenta descobrir “do que é feito um homem que, sozinho, foi capaz de construir o projeto de uma nação”.

Puxei a seguir uma conversa com a mulher que ocupava uma poltrona na mesma fileira. “Você é aluno do COF?”, ela perguntou. Respondi que não. Ao contrário do rapaz, ela desembestou a falar. Se apresentou como Stella, disse ser neta de Dorival Caymmi e ter editado A Nova Era e a Revolução Cultural, livro de Carvalho. Amiga de longa data do pensador, externou uma opinião comum aos seguidores do filósofo: “O Brasil tem que celebrar este filme! Viva a alta cultura!”

Logo que as luzes se apagaram, o trailer de Bonifácio alvoroçou a plateia. Palmas entusiásticas. Depois, o comediante Danilo Gentili apareceu na tela para divulgar o título de um documentário que está produzindo sobre si mesmo, chamado Qual o Limite do Humor?. O comediante convidou Josias Teófilo para dirigir a película. Em comum às duas chamadas, os aplausos quase instantâneos de uma sala lotada e o modelo de financiamento via crowdfunding, o mesmo que botara O Jardim das Aflições em pé.

Durante a exibição do filme, em quatro ou cinco oportunidades as reações de riso e júbilo da plateia cobriram o áudio original. Por vezes, não foi possível escutar os diálogos entre Olavo de Carvalho e seu entrevistador, Wagner Carelli. O jornalista foi um dos criadores da revista Bravo! e o responsável por convidar Carvalho para escrever no periódico. Amigo de Teófilo, foi Carelli quem convenceu o jovem cineasta a transformar a ideia de um curta sobre o filósofo num longa-metragem. Segundo o diretor, Carelli se empolgou tanto com a ideia que pagou a própria passagem para participar das gravações. “Ele dizia que eu era ele novo. Tínhamos os mesmos interesses”, contou Teófilo.

Em outros momentos, era possível escutar comentários de gente que parecia ter uma proximidade singular com o filósofo: “Esse é o cachorro dele!”, disse um; “Só fuma American Spirit“, disse outro; “A família dele envelheceu, né?”, comentou um terceiro. Ao final do filme, era difícil discernir se o clima de exaltação se direcionava ao documentário ou aos nomes conhecidos que passavam nos créditos: o adiamento do Cine PE deu a Teófilo tempo de editar a obra e colocar, no final, uma cartela de agradecimentos especiais aos sete cineastas que se mobilizaram para excluir o filme da mostra. Ao perceber a traquinagem, a plateia veio abaixo.

Naquela mesma noite, o diretor postou no Facebook uma foto do frame com os nomes de seus desafetos. Jurou que se tratava de uma homenagem sincera. Afinal, eles levaram o filme a salas de todo o Brasil – segundo o Filme B, site que acompanha a indústria cinematográfica, foram 7 878 espectadores até o dia 18 deste mês. Para efeito de comparação, a média de público dos 399 documentários contabilizados pela plataforma entre 1995 e 2016 é de 12 174 espectadores ao final do período de exibição. Apenas ⅕ dos lançamentos superou a estatística.

Teófilo falou com a grandiloquência de um Olavo de Carvalho: “O filme vai lotar em tudo quanto é canto. No Brasil, é o documentário mais importante do ano.” Dias depois, durante uma exibição no Cine Belas Artes, em São Paulo, ele recebeu Nicéa Pimentel de Carvalho, de 99 anos. Mãe do filósofo e personagem do filme, ela disse ter adorado a obra sobre o filho. Uma foto tirada na ocasião foi parar no perfil do cineasta nas redes sociais. Um negócio de família.

Errata: diferente do que foi publicado originalmente, o programa apresentado por Pedro Bial quando o jornalista entrevistou Olavo de Carvalho era o Espaço Aberto, da GloboNews, e não o Bom Dia Brasil, da TV Globo. Informação atualizada às 12h48 do dia 21 de junho.

João Brizzi (siga @joaobrizzzi no Twitter)

João Brizzi é repórter da piauí e cofundador da revista Poleiro

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