questões tecnossecretas

App de esportes expõe rotina de militares e agentes no Brasil

Corridas e caminhadas registradas por aplicativo de preparação física mapeiam a movimentação de forças de policiamento em fronteiras e presídios de segurança máxima brasileiros

Vitor Hugo Brandalise
29jan2018_23h34
Pontos com maior movimentação de usuários do Strava no território brasileiro. O Exército afirma que reflexos na segurança de bases militares causados pelo aplicativo deverão passar por análise da Força
Pontos com maior movimentação de usuários do Strava no território brasileiro. O Exército afirma que reflexos na segurança de bases militares causados pelo aplicativo deverão passar por análise da Força IMAGEM: REPRODUÇÃO_STRAVA

Ao medir a distância, o percurso e a velocidade do usuário, o mais popular aplicativo de monitoramento de atividades físicas do mundo expõe rotinas de militares e de guardas de presídios de segurança máxima brasileiros em seus locais de trabalho.

A movimentação dos usuários do Strava fica à mostra para quem quiser ver na internet por meio do mapa Global Heat Map. O mapa de calor mostra as rotas mais frequentes de 27 milhões de pessoas, em um bilhão de atividades físicas compiladas entre 2015 e 2017 no mundo todo. Usuários do Twitter descobriram que alguns dos percursos mapeados revelam a localização de bases militares secretas dos Estados Unidos no Afeganistão, Síria e Iraque. O caso foi registrado em reportagem publicada neste domingo pelo Washington Post.

O Brasil é o país com terceiro maior número de usuários do Strava, segundo a empresa – e não há nenhuma regulamentação para agentes de segurança sobre o uso dos aparelhos. O equipamento mais popular a usar essa tecnologia é o Fitbit, uma pulseira que mede dados de desempenho físico, como calorias gastas, além da localização. O Apple Watch e aparelhos celulares também podem ser usados para registrar os trajetos no Strava. Todos usam seu GPS embutido para marcar os caminhos do usuário.

No Brasil, o mapa do Strava aponta padrões de movimentação nos arredores de instituições de segurança. Os principais trajetos percorridos ficam marcados com linhas que vão do vermelho ao amarelo: quanto mais claras, mais movimentada é a rota. Uma das funções permite identificar se o usuário está a pé ou de bicicleta. O aplicativo ainda admite, em tese, identificar usuários por localidade.

A piauí, inspirada pela reportagem do Washington Post, procurou bases militares e penitenciárias brasileiras no mapa de calor do Strava para identificar padrões de movimentação nas áreas externas e no interior deles.

É possível verificar, por exemplo, como é o movimento de guardas nos arredores de presídios de segurança máxima como os de Catanduvas, no Paraná (onde três agentes penitenciários foram mortos em emboscadas desde 2016), de Mossoró, no Rio Grande do Norte (onde está preso o traficante Fernandinho Beira-Mar), e de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. É visível a movimentação intensa, de usuários a pé, na entrada e no perímetro externo desses presídios. Em alguns casos, também dentro dos pátios e nos estacionamentos internos.

Procurado pela piauí, o Ministério da Justiça, responsável pelos presídios federais, não respondeu aos questionamentos sobre normas de segurança para aplicativos de geolocalização. Já o Exército informou que possíveis reflexos para a “segurança orgânica” das bases militares causadas pelo aplicativo Strava deverão ser “objeto de análise futura da Força Terrestre”.

IMAGEM: REPRODUÇÃO_STRAVA

 

 

 

Na penitenciária estadual de Tremembé, a 150 quilômetros de São Paulo, para onde são levados criminosos notórios como o médico Roger Abdelmassih e o banqueiro Edemar Cid Ferreira, é possível ver com clareza a movimentação de usuários do Strava dentro dos limites do complexo. O percurso mais frequente é de pouco menos de 300 metros, feito principalmente a pé, entre o primeiro prédio após o portão de entrada e o pátio da administração do presídio, passando pela horta e por galpões onde os detentos trabalham.

Ainda no presídio de Tremembé, outro trajeto preferencial dos usuários do Strava circunda o perímetro do Centro de Progressão Penitenciária, em caminhadas de cerca de 1 250 metros. O percurso também ocorre dentro dos muros do complexo,  à vista de pelo menos sete torres de observação.

 

A Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo, que administra o presídio de Tremembé, não quis comentar as imagens enviadas pela reportagem.

Em locais de importância militar para o Brasil, como a Tríplice Fronteira com a Colômbia e o Peru, há pontos de movimentação visíveis mesmo em lugares remotos e postos de segurança avançados dentro de área da Floresta Amazônica.

Em Tabatinga, no Amazonas, conhecida rota do tráfico de cocaína no norte do país, há trajetos frequentes de usuários do Strava nos arredores do Comando de Fronteira e na Vila Militar. Um dos percursos tem cerca de 1 100 metros de extensão e circunda dois quarteirões, perto do Hotel de Trânsito de Oficiais do Exército instalado na cidade.

As imagens do satélite mostram lugares onde há circulação frequente de usuários do Strava em pontos mais isolados na Amazônia, como os postos de Segurança de Cucuí, na Tríplice Fronteira com a Colômbia e a Venezuela, e de Maturacá, a sudeste, onde há um aeródromo militar.

Ao contrário das Forças Armadas norte-americanas, que estimularam o uso do Fitbit por soldados em 2013 para melhorar sua forma física, o Exército brasileiro diz não ter parceria nem com o equipamento, nem com o aplicativo. Porém, no ano passado, o Strava divulgou no seu site na internet a Corrida da Infantaria de Fortaleza, no Ceará, “em parceria com o 23º Batalhão de Caçadores”.

Em resposta aos questionamentos da piauí sobre a regulação desses aplicativos, a Força afirmou que “o equipamento não faz parte do material fornecido oficialmente pela cadeia de suprimento do Exército Brasileiro” e, como não é “peça obrigatória do militar em atividade física”, atualmente considera o uso uma responsabilidade do militar, individualmente.

Vitor Hugo Brandalise (siga @vhbrandalise no Twitter)

Editor-assistente do site da piauí, é autor de O Último Abraço - Uma História Real sobre Eutanásia no Brasil, da Record

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