O grande bagre em apuros

Ameaçado por pesca predatória e hidrelétricas na Amazônia, o peixe que realiza a mais longa migração do mundo pode desaparecer

POR Gustavo Faleiros
A Brachyplatystoma rousseauxii, conhecida como dourada, cujo recorde de tamanho registrado é de 1,92 metro. Hoje, as poucas encontradas dificilmente passam de 1 metro
Revista Piauí A Brachyplatystoma rousseauxii, conhecida como dourada, cujo recorde de tamanho registrado é de 1,92 metro. Hoje, as poucas encontradas dificilmente passam de 1 metro IMAGEM: GRAVURA DE FRANCIS DE LAPORTE DE CASTELNAU (1856)
A Brachyplatystoma rousseauxii, conhecida como dourada, cujo recorde de tamanho registrado é de 1,92 metro. Hoje, as poucas encontradas dificilmente passam de 1 metro IMAGEM: GRAVURA DE FRANCIS DE LAPORTE DE CASTELNAU (1856)

O ano de 2007 tinha tudo para trazer a redenção ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os abalos do Mensalão haviam arranhado sua reputação, mas não tiveram força para apeá-lo do poder: Lula fora reeleito no ano anterior, no empuxo de um PIB com crescimento de 4%, às vésperas de um cenário que já soprava os ventos da crise que se abateria sobre o mundo. Em fins de janeiro, Lula anunciou o Plano de Aceleração do Crescimento, com promessa de investir meio trilhão de reais em infraestrutura, a ponta de lança do novo mandato.

Mas – e o presidente não podia imaginar – haveria um peixe em seu caminho. Em março, um parecer elaborado por técnicos do Ibama sugeria o veto à construção de duas hidrelétricas no rio Madeira, obras-chave para a visão de Brasil grande que rondava os círculos petistas. As usinas Santo Antônio e Jirau, insistia o Ibama, seriam fatais para a dourada, um grande bagre que habita quase toda a bacia Amazônica e protagoniza a maior migração do mundo: de 8 mil a 11 mil quilômetros durante toda a vida. As barreiras de concreto projetadas para as usinas impediriam o peixe de seguir seu curso. Incomodado com o relatório do órgão ambiental, Lula contra-atacou numa reunião com seu conselho político: “Agora jogaram o bagre no colo do presidente.”

Passados dez anos – usinas construídas e propinas denunciadas pela Lava Jato –, o peixe segue sendo fonte de preocupação. Além das hidrelétricas nos afluentes do Amazonas, também a sobrepesca – pela quase total ausência de fiscalização –, está fazendo com que a Brachyplatystoma rousseauxii se torne artigo raro onde antes abundava.

Pesquisadores que investigam a situação da dourada falam em um iminente colapso do estoque do peixe, e propõem uma ação radical – a proibição temporária de pesca e o veto total à construção de usinas na Amazônia andina, onde os países vizinhos planejam novas obras. Atualmente, não existe qualquer controle para a captura da dourada, e os planos hidrelétricos avançam.

O grande bagre migrador da Amazônia é um recordista. Enquanto jovem, ele nada dos Andes à foz do Amazonas. Depois, retorna na maturidade para reproduzir e desovar nas cabeceiras do grande rio. Sua viagem é maior que a do salmão, peixe que se acreditava empreender a maior jornada da natureza.

Neste trajeto, a espécie sustenta milhares de pescadores do Brasil, da Bolívia, da Colômbia e do Peru. Sua captura está relacionada a um mercado milionário de exportação de peixes sem escamas, ou peixes-lisos, como dizem os amazônidas.

O rio Madeira, formado por dois grandes afluentes – o Mamoré, que faz fronteira com a Bolívia, e o Madre de Dios, que vem do Peru –, é uma das principais rotas de subida da dourada e outros grandes bagres migradores em direção aos locais de desova. Hoje, os pesquisadores que acompanham os impactos da construção de Santo Antônio e Jirau, as duas usinas brasileiras, sabem que as douradas adultas não estão conseguindo transpor as barragens.

Rosseval Leite, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), fez experimentos que comprovam que os jovens conseguem passar pelas turbinas. Mas os adultos, não. “O panorama no rio Madeira é sombrio. Se não encontrarem um forma para a subida dos adultos, em poucos anos, naquele rio em que se construiu a hidrelétrica, há a possibilidade de os bagres não chegarem nas cabeceiras”, disse em seu escritório em Manaus, em meio a quadros e livros sobre as principais espécies de peixe da Amazônia. “Se isso de fato ocorrer, não haverá a reposição da população.”

Durante uma viagem de sessenta dias, do Peru ao Brasil, passando por portos pesqueiros, mercados, feiras de rua e frigoríficos, ouvi reclamações de que o tamanho e a quantidade das douradas (ou zungaro dorado para os peruanos) já não são os mesmos de anos atrás.

Em Tabatinga, Augusto da Costa Araújo, filho de pai colombiano e mãe brasileira, falou sobre os bagres. Ele está no comércio de peixe liso há vinte anos, na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia – compra o peixe no lado peruano para comercializar nas bodegas colombianas, como são chamados os frigoríficos de peixe na cidade de Leticia.

Na alta temporada, quando começam as migrações da dourada e outros bagres, ele transporta entre cinco a sete toneladas de peixe para a Colômbia. No dia em que o encontrei, ele estava supervisionando a chegada de uma carga em um barco peruano.

Embaixo de uma tremenda chuva, Araújo acompanhava a retirada de uma tonelada de bagres de um grande caixote de madeira lotado de gelo. A maior parte da carga era de piraíbas, um bagre gigante que pode chegar a 3,6 metros de comprimento. Mas havia também pelo menos 80 quilos de douradas que não passavam de um metro, algo incomum anos atrás, quando as capturas se aproximavam de seu tamanho médio, 1,5 metros.

“Antigamente tinha muito mais peixe. O governo colombiano está até fazendo campanha para que não se compre peixe pequeno, mas o trabalho nesta Amazônia é difícil”, disse ele enquanto apontava para os bagres. “Se o pescador pega peixinho, ele vende. Se não é na bodega, é no mercado”, pontuou, com um sotaque misturado de português com espanhol.

Na parte brasileira não é diferente. Quase todo bagre pescado no rio Solimões é vendido diretamente para os frigoríficos que, depois, os enviam à Colômbia. Todos os municípios na calha do rio têm uma economia altamente conectada com a forte indústria de Leticia. José Maria Miller Nascimento é um empresário conhecido de Santo Antônio do Içá, cidade brasileira que está a 200 quilômetros da fronteira. Agitado, sempre distribuindo ordens aos empregados, ele foi um pioneiro na instalação de um frigorífico nesta parte do Solimões.

Durante o período da piracema, Nascimento chega a comprar trinta toneladas de bagres dos pescadores locais. Armazena tudo nas câmaras frias de seu comércio flutuante, que tem capacidade para até setenta toneladas. Em uma visita ao seu frigorífico, ele me contou que, agora, a compra está concentrada em outros tipos de bagre. “A dourada já foi um bom negócio há dez anos. Hoje o que está dando muito é surubim, o pintado.”

 

O pescador Izaías Freitas dos Santos preside uma associação com 800 pescadores em Santo Antônio do Içá. Ele fala de um tempo em que a pescaria ainda valia a pena. “Tinha um momento que tinha muito peixe mesmo, hoje só ficou a lembrança.” Em uma manhã de julho, saímos para pescar acompanhados de seu sogro, Raimundo Souza dos Reis, um homem de 54 anos que passou a vida nas águas amazônicas. Fomos conferir as poitas (linhas com vários anzóis armados) e as malhadeiras (redes de pesca) deixadas por eles em áreas alagadas e próximas às margens dos paranás, os rios que correm nas laterais dos de maior porte, neste caso, o Solimões.

Eles não partem mais em busca da dourada. A esperança era achar pirarucu, talvez um surubim ou caparari. Mas a pescaria não foi bem-sucedida e só encontramos uma pirapitinga, um tipo de peixe mais comum e menos valorizado. Reis conta saudoso do tempo em que as douradas se prendiam na poita. Os inimigos da dupla de pescadores artesanais são muito mais presentes do que as grandes usinas hidrelétricas – hoje, com os barcos que realizam a pesca de arrasto, puxando redes no fundo do rio como se fossem enormes vassouras, é quase impossível que um pequeno pescador como eles, em uma canoa, consiga ver um grande bagre. “Não sobra nada”, disse Reis. “O arrasto leva tudo.”

Quase um mês depois da desolada pescaria com Izaías e Raimundo em Santo Antônio do Içá, em uma conversa no Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, as razões pela escassez de peixes ficaram claras. “A dourada é pressionada na Amazônia inteira. E o pior problema é no estuário, onde se concentra essa pesca industrial”, afirmou Ronaldo Barthem, biólogo marinho e pesquisador que há pelo menos vinte 20 anos é uma das principais referências em grandes bagres da Amazônia. Ele começou a investigar a pesca amazônica em 1978, quando mudou-se do Rio de Janeiro para Manaus para trabalhar no Inpa. Depois, quando transferiu-se para Belém, nos anos 80, passou a pesquisar especificamente a captura dos bagres no estuário.

Desde a década de 90, Barthem e seus colegas já alertavam para a necessidade de regular a pesca de arrasto, onde dois barcos navegam em paralelo puxando redes de até 50 metros de largura por 40 de altura. “Eles realmente limpam o fundo e pegam bastante peixe jovem.”

Desta forma, ele explicou, os peixes estão sendo impedidos de crescer. O resultado é que cada vez menos adultos são encontrados no Alto Amazonas. Ali, estariam com tamanho entre 90 e 110 centímetros, e prontos para subir em direção às cabeceiras para reproduzir. Junta-se isso ao impacto das hidrelétricas e pode-se dizer que o futuro da pesca da dourada não parece promissor.

O velho problema juntou-se a um novo: Barthem acompanha diretamente os estudos sobre o impacto das usinas do rio Madeira. “Estamos lá juntando os dados e vendo o que acontece. Ainda tenho esperança que a dourada vai passar pelas usinas. Mas, até agora, nenhum peixe conseguiu.” Por isso novas usinas são o principal temor do pesquisador, principalmente as planejadas na Amazônia andina.

Os impactos das atividades no estuário do Amazonas são sentidos a vários quilômetros de distância. Em Nauta, onde os rios Marañón e Ucayali se unem para formar o rio Amazonas do lado peruano, a 400 quilômetros da fronteira com o Brasil, José Paredes, de 74 anos, trabalha há cinquenta como vendedor de filés de bagre no mercado municipal. “Em 1969 havia douradas para dar e vender. Isso durou até 1984, e aí começou a diminuir com o arrasto. Agora vem um, dois ao mês. Às vezes, nada”, afirmou.

O casal Meneleo Hualinga e Rosa Altilla desperta todo dia de madrugada desde os tempos em que juntos atuavam na pescaria. Por trinta e cinco anos ele pescou e ela limpou os bagres do Marañón. Há oito, trabalham no mercado de Nauta como vendedores. Trocar o rio pela terra firme virou melhor negócio. “O preço segue se elevando cada dia mais e mais. Se você trouxesse um como esse (aponta para um peixe de 40 centímetros), ninguém queria comprar porque era pequeno, porque havia alguns grandes. Mas agora até os recém-nascidos eles trazem”, disse o antigo pescador.

A opinião dos pescadores e comerciantes locais não destoa dos dados apresentados nos últimos anos em artigos científicos na Colômbia e no Peru. O desembarque de bagres foi reduzido em Iquitos e Leticia, dois dos principais portos pesqueiros do Alto Amazonas. No Brasil, no entanto, não existem dados sobre a atividade, nem mesmo no estuário onde a pesca é intensa.

Os dados de desembarque mais recentes foram publicados em 2012 na revista Folia Amazónica, por um grupo de cientistas liderados pela pesquisadora Aurea García, do Instituto de Investigaciones de la Amazonía Peruana (IIAP). Entre 2008 a 2012, a dourada representou apenas 0,04% de todos os peixes que chegavam aos portos pesqueiros de Iquitos, uma cidade de 437 mil habitantes no coração da selva.

“As espécies pequenas de bagre já estão substituindo as espécies grandes, como a dourada e a piraíba, ou mesmo o surubim e o caparari”, explicou García, em entrevista em uma das unidades do IIAP em Iquitos.

Segundo ela, a piracatinga (ou mota, em espanhol) se tornou a mais conhecida entre as pequenas que passaram a ocupar o mercado. Mas outras, que não eram sequer consumidas, já aparecem nos registros pesqueiros. Viraram mercadoria pela escassez dos grandes bagres.

 

Leticia é o epicentro da indústria de compra, processamento e exportação de grandes bagres. A forte demanda, iniciada no fim dos anos 60, criou uma zona de pesca de 2 000 quilômetros de rio que se estende de Iquitos até, pelo menos, Tefé, no Amazonas.

Barcos pesqueiros, frigoríficos e pescadores artesanais se dedicam à captura do peixe-liso para vender em Leticia, onde toneladas são preparadas para o envio à capital Bogotá e a outros países. A vantagem de Leticia é estar conectada diretamente, via aérea, com a maior cidade da Colômbia, região onde vive a parcela mais rica da população do país.

Os bagres da bacia do Magdalena, rio no norte do país e constante cenário das novelas do escritor Gabriel García Márquez, eram muito apreciados pelos colombianos. Mas depois de explorados à exaustão, praticamente sumiram, deixaram um mercado aberto para os seus primos amazônicos de maior porte.

O primeiro pescado a sair da Amazônia para Bogotá, ainda nos anos 60, foi o pirarucu, que, salgado, era consumido durante a Semana Santa. Depois do pirarucu vieram então os do gênero Brachyplatystoma, gênero dos bagres colossais, como a piraíba (Brachyplatystoma filamentosum), e a dourada (Brachyplatystoma rousseauxii), cujo recorde de tamanho registrado é de 1,92 metro.

Inicialmente, a carne destes peixes foi preservada em mantas salgadas, mas a partir, dos anos 80, vários frigoríficos se instalaram na região permitindo a exportação de peixe congelado.

Curiosamente, a cadeia produtiva dos bagres também cresceu devido às peculiaridades da cultura do ribeirinho do Alto Amazonas e do Solimões. Por ali, nunca se come a carne do peixe-liso, prefere-se o peixe de escamas, como o jaraqui, o tambaqui ou a pirapitinga.

Alguns relacionam esta preferência ao gosto da carne dos bagres, forte, ou remosa, como se diz na Amazônia. Causaria até doenças, acreditava a população local. Mas há quem enxergue nessa preferência apenas uma razão socioeconômica. Como o bagre rende deliciosos filés sem espinhas, passou a ser aproveitado pelos ricos, pelos consumidores das cidades, tornando ao ribeirinho vantajosa a venda, e não o consumo próprio.

O colombiano Edwin Agudelo é um dos principais pesquisadores do comportamento migratório da dourada e também sobre os altos e baixos da indústria pesqueira da Amazônia. Coordenador do Instituto Amazónico de Investigaciones Cientificas em Leticia, ele defende medidas mais duras para conter a diminuição da dourada. “Em termos da biologia destes peixes, nós os estamos levando ao colapso”, disse, em tom grave.

Segundo Agudelo, o auge da pesca da dourada ocorreu ainda nos anos 90. Em 1998, como mostram dados de desembarque em Leticia, 12 mil toneladas dos peixes-lisos foram comercializados no porto, sendo que 40% do gênero era justamente de Brachyplatystoma.

A partir deste momento, a captura de bagres foi caindo. Em 2005, já havia se reduzido a 7,5 mil toneladas. Alguns anos depois, em 2010, quando os últimos dados foram coletados, a produção foi de 6,8 mil toneladas – quase a metade em pouco mais de uma década.

Agudelo prevê que em 2030 a indústria de Leticia estará reduzida a um quarto de seu apogeu dos anos 90. Em uma simulação de rendimento pesqueiro realizada para a área por meio do software Ecopath, ele e parceiros de pesquisa chegaram a um futuro de apenas 3,5 mil toneladas anuais, já sem a presença da dourada.

Para evitar este cenário, ele propõe um primeiro ensaio de defeso, ou seja, de restrições à pesca, algo que jamais existiu. Isso ocorreria de acordo com o pulso de inundação do rio Amazonas, pois é no momento da mudança no nível da água que a dourada começa a migrar rio acima.

Assim, durante a movimentação dos cardumes juvenis na parte brasileira, haveria cotas de captura para garantir que os peixes possam seguir crescendo e cheguem ao Peru e à Colômbia, onde atingem a maturidade e se reproduzem.

“Se isso não funcionar, o que deveríamos fazer no caso da dourada e da piraíba é acabar com a pesca, proibir. Mas para fazer isso teríamos que levantar, num prazo curto, o impacto econômico desta medida, pois não existem dados sobre quem depende desses peixes”, ressaltou o pesquisador colombiano.

 

No início dos anos 2000, o Brasil regulou a pesca de piramutaba, um tipo de peixe cujos cardumes estavam sendo exauridos pela pesca industrial. A medida teve um impacto bastante positivo que foi além das fronteiras. A quantidade de desembarques da espécie voltou a subir nos portos de Iquitos entre 2008 e 2012, segundo a pesquisa do IIAP.

Mas a questão da dourada é mais delicada. É preciso que os governos dos três países trabalhem juntos na gestão dos recursos pesqueiros, já que a espécie é pescada em todo o rio. “É um tema de soberania, seria preciso envolver as chancelarias”, disse Agudelo.

O primeiro encontro internacional sobre os bagres migratórios aconteceu ainda em 1995, com apoio da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Mas o tema parece ter interessado somente aos pesquisadores e técnicos. Nada foi feito até agora, 22 anos depois do encontro.

Michael Goulding, colega de trabalho de Barthem no Museu Paraense Emílio Goeldi, publicou junto ao brasileiro, em 1997, o livro Os Bagres Balizadores, que foi a primeira obra a lançar a hipótese de que algumas espécies de peixes-gato da Amazônia realizavam migrações de longa distância, em especial duas do gênero Brachyplatystoma, a dourada e a piramutaba.

Junto aos estudos do ciclo de vida, a publicação foi ousada em propor uma visão integrada no gerenciamento da bacia Amazônica levando em conta a migração dos peixes. Tanto que em inglês, o livro editado pela Universidade Columbia, ganhou o sugestivo título de The Catfish Connection, indicando que os bagres eram “viajantes sem fronteira”, o que deveria ser levado em conta em projetos de infraestrutura, em especial as hidrelétricas.

Barthem conta que recebeu muitas críticas – colegas disseram que os então jovens pesquisadores não tinham uma visão global sobre o problema. “Muita gente achou que a hipótese não era válida pois havia meia dúzia de dados. Mas os dados eram muito claros, eram gritantes”, conta. As evidências tinham sido coletadas em diversas viagens de barco de pesca que saíam do estuário, acompanhando a migração. “Eu comecei no estuário e fui parar no Peru.”

Anos de pesquisa sobre os grandes migradores permitiram que Barthem, Goulding e colegas do Inpa, em especial Rosseval Leite, publicassem um artigo seminal em fevereiro deste ano na revista Nature. Foi nele que os pesquisadores cravaram a teoria de que a dourada é o maior peixe migrador do planeta, tomando o posto do salmão.

O estudo se baseia em observações feitas desde os anos 80 sobre a disponibilidade e o estágio de maturação da dourada e outros 3 grandes bagres em diversos pontos da bacia Amazônica. Exemplares maduros foram encontrados nas proximidades de Machu Picchu, no rio Urubamba, a 5 788 quilômetros da foz do Amazonas.

Ao mesmo tempo, foram feitas medições das larvas da dourada conforme elas iam descendo o rio. Assim, viram que o indivíduo pequenino, com menos de 10 centímetros, só existe no estuário. Por outro lado, nesta mesma área, nunca se encontram douradas com as gônadas cheias de ovos. Essas só mesmo nas cabeceiras. Isso evidenciava a importância da migração que a pesca de arrasto e as hidrelétricas estão impedindo.

A esperança, agora, é manter as áreas rio acima preservadas, já que ao menos os peixes que chegaram nas cabeceiras antes da construção das grandes obras continuam se reproduzindo. Para Barthem, o que vai garantir a sobrevivência da dourada é unir manejo da pesca com a conservação de seus habitats. “Eu acho que em termos de extinção de espécie, estamos longe, ainda dá tempo de reverter. Mas em termos de mercado, do jeito que vai, nós estamos comprometendo o nosso bolso.”

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