questões de geopolítica científica

Brasil chega à elite da matemática mundial

Promoção reconhece bom momento da disciplina no país, coroado com a Medalha Fields de Artur Avila e a realização do maior congresso internacional da área

Bernardo Esteves
25jan2018_12h00
“Entrar nesse grupo é o equivalente a se tornar adulto na matemática”, comparou Marcelo Viana, diretor-geral do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, o Impa. “A decisão reflete o nível de maturidade atingido pela comunidade de pesquisadores brasileiros”
“Entrar nesse grupo é o equivalente a se tornar adulto na matemática”, comparou Marcelo Viana, diretor-geral do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, o Impa. “A decisão reflete o nível de maturidade atingido pela comunidade de pesquisadores brasileiros” FOTO: BERNARDO ESTEVES

Amatemática brasileira vai entrar para a elite mundial da disciplina. A União Matemática Internacional (ou IMU, na sigla em inglês), que classifica os países-membros em função da qualidade da pesquisa que fazem, decidiu promover o Brasil para o grupo que reúne as maiores potências do campo. O país se juntará a Alemanha, Canadá, China, Estados Unidos, França, Israel, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia.

“Entrar nesse grupo é o equivalente a se tornar adulto na matemática”, comparou Marcelo Viana, diretor-geral do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, o Impa. “A decisão reflete o nível de maturidade atingido pela comunidade de pesquisadores brasileiros”, completou Viana, que recebeu piauí para uma entrevista na véspera do anúncio, feito na manhã desta quinta-feira, 25 de janeiro, na sede do Impa.

Uma forma de medir a maturidade da comunidade é pelo volume de suas publicações. Nos últimos dez anos, o número de artigos publicados por matemáticos brasileiros praticamente dobrou, passando de 1 043 papers em 2006 para 2 076 em 2016. Trinta anos atrás, em 1986, os pesquisadores do país respondiam por 0,7% dos artigos matemáticos publicados no mundo. Em 2016, o percentual havia pulado para 2,35%. “É um salto extraordinário”, avaliou Viana.

A promoção do Brasil coroa uma boa fase cujo ápice foi a Medalha Fields conquistada em 2014 por Artur Avila, pesquisador do Impa e do CNRS (Centro Nacional da Pesquisa Científica, em português), na França (o prêmio – o mais importante da disciplina – foi tema de uma edição especial da piauí). “A decisão é um reconhecimento da qualidade da pesquisa que vem sendo realizada há algum tempo no país”, disse Avila. “Ela deve servir para que nossa sociedade compreenda que podemos e devemos fazer ciência de qualidade no Brasil, num momento em que a ciência é tratada como um luxo dispensável em momentos de crise.”

A chegada à primeira divisão é a culminação de um processo iniciado há pouco mais de sessenta anos. O país filiou-se à IMU em 1954, quando foi admitido no grupo 1 – algo como o jardim de infância da disciplina. Foi promovido para o grupo 2 nos anos 60, e para o 3 em 1978. Desde 2005 estava no grupo 4, ao lado de outros nove países, incluindo Austrália, Coreia do Sul, Holanda e Suécia. “Até onde eu saiba, o Brasil é o único país que subiu do grupo 1 ao 5, e isso num intervalo de duas gerações”, disse Marcelo Viana.

Sede do Impa, no Rio de Janeiro

FOTO: BERNARDO ESTEVES

 

Não há critérios objetivos que um país precise preencher para ser admitido na primeira divisão da matemática mundial. Além da qualidade e quantidade das publicações, a IMU leva em conta também os programas de pós-graduação – o Brasil forma hoje quase 180 doutores em matemática por ano, segundo Marcelo Viana –, a organização de eventos que atraiam a comunidade internacional e as atividades de divulgação realizadas, entre outros fatores.

O país pleiteou a promoção em outubro passado, quando enviou à IMU um documento de 32 páginas no qual apresenta um panorama da matemática brasileira (pdf). A entidade acatou a reivindicação brasileira de forma unânime e comunicou a novidade aos seus sócios numa circular no dia 19 de janeiro – a decisão passa a valer a partir de fevereiro.

Na prática, a entrada do Brasil na elite da matemática significa que o país terá mais votos na assembleia geral da IMU – e terá que dar uma contribuição financeira anual mais alta. A promoção não deverá ter efeitos práticos no dia a dia dos matemáticos brasileiros. “Mas seremos mais ouvidos e respeitados mundialmente”, ressaltou Viana. (O diretor do Impa se lembra com rancor de quando indicou um conterrâneo para uma comissão e ouviu do interlocutor que a vaga seria preenchida por um britânico ou americano, “pela credibilidade”).

Um indicador desse prestígio será visto no próximo Congresso Internacional de Matemáticos, o mais importante da disciplina. No evento, a ser realizado em agosto deste ano no Rio de Janeiro, haverá doze palestrantes brasileiros, representando sete instituições diferentes. Nas 27 edições anteriores do evento, apenas dezoito brasileiros tiveram esse privilégio, sendo quinze deles representantes do Impa.

Se na pesquisa de ponta o Brasil joga no time dos grandes, porém, quando o assunto é o ensino da disciplina o país tem desempenho calamitoso, e chegar à elite da IMU em nada muda esse quadro. Na última edição do Pisa, um programa internacional que avalia regularmente o desempenho de estudantes de setenta países, os alunos brasileiros ficaram na 65ª posição na prova de matemática.

Resta agora garantir que o Brasil continue a fazer pesquisa de ponta para se manter na elite mundial. “Chegamos até aqui porque houve recursos e políticas consistentes ao longo do tempo para apoiar ciência”, lembrou Viana. Com a crise de recursos que o setor atravessa – o orçamento federal para ciência e tecnologia em 2017 foi o pior dos últimos dez anos, e este ano deve ser ainda menor –, não será nada fácil para o Brasil se manter no topo. “Não quero acreditar que a gente vá jogar isso no lixo, mas há sempre o risco”, alertou o matemático.

*

Mais detalhes no Twitter da piauí:

 

 

Bernardo Esteves (siga @besteves no Twitter)

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

Leia também

Últimas Mais Lidas

A marca de Roth

Influência do autor de O Complexo de Portnoy, que morreu aos 85 anos em Nova York, é cada vez mais poderosa

“Me deixe fora desse balaio”

Conheça a rotina e o pensamento de Muniky Moura, a eleitora “nem nem” – que, como 43% do eleitorado, rejeita Lula e Bolsonaro e costuma decidir a eleição

Político mais popular no Facebook não fala de política na rede

Deputado federal baiano Irmão Lázaro atribui seus 8,5 milhões de seguidores a não postar sobre o que faz no Congresso: “É uma gritaria”

Um estudante contra o presidente

Garoto de 20 anos fala na cara de Daniel Ortega que ele é o responsável por 58 mortos na repressão aos protestos na Nicarágua e discurso viraliza. À piauí, o estudante se diz ameaçado

A Batalha de Argel, Um Filme Dentro da História – interessante e excessivo

Realização tardia e bem-sucedida do neorrealismo parece um documentário, mas é encenado do primeiro ao último plano

Foro de Teresina #1: justiçamento, abraço de gambá e túnel do tempo

Confira a estreia do podcast de política da rádio piauí com Fernando de Barros e Silva, Malu Gaspar e José Roberto de Toledo. A partir de hoje, o Foro vai ao ar toda quinta-feira, às 17h

O racismo como razão de voto

Um roteiro para entender a pesquisa mais reveladora feita sobre a eleição de Trump – e o que ela diz sobre o pleito no Brasil em 2018

Com candidato preso, PT deixa de aparecer para 400 mil eleitores na tevê e internet

Partido já perdeu mais de quatro horas de exposição em debates e entrevistas na televisão aberta desde a prisão de Lula

Vem aí a rádio piauí

Plataforma estreia nesta quinta-feira, 17 de maio, com o podcast de política Foro de Teresina. Confira nosso guia para ouvir os episódios em casa ou na rua

Saiba como foi cada mesa da Maratona Piauí Serrapilheira

Vida, vulcões, clima, água e gestão da ciência: cinco grandes cientistas falaram sobre suas áreas de pesquisa

Mais textos