questões cinematográficas

Cinema político (I)

Nós – cineastas, produtores e demais integrantes da comunidade cinematográfica – temos capacidade de interagir com o público através de filmes que reflitam a gravidade da crise que o país atravessa?

Eduardo Escorel
29jun2017_12h10
Joris Ivens, a chuva e o vento
Joris Ivens, a chuva e o vento

Estaremos à altura do nosso tempo? Ou seja, nós – cineastas, produtores e demais integrantes da comunidade cinematográfica – temos capacidade de interagir com o público através de filmes que reflitam a gravidade da crise que o país atravessa?

Essas foram as duas perguntas que fiz na abertura do Fórum de sexta-feira passada (23/6), no Festival Internacional de Cinema e Video Ambiental, o FICA 2017, em Goiás (GO). O tema do encontro, proposto pelos organizadores, era “Cinema e Política: 50 anos depois de Terra em Transe”.

O desafio imediato da ocasião me parecia ser investigar até que ponto há ou não indícios de que será possível, no futuro, dizer que sim, o cinema brasileiro se mostrou à altura da crise vivida no país desde 2013, e agravada em 2017.

Adiantei de saída que minha tendência seria negar que tenhamos essa capacidade – a meu ver, nosso cinema não demonstra estar inserido na sociedade brasileira de modo a ter voz ativa no drama que vem se desenvolvendo e cujo desfecho permanece incerto.

Enredado na teia de um modo de produção dependente do Estado, o cinema brasileiro persiste, não apenas querendo participar de uma festa na qual não é bem-vindo, mas fingindo desconhecer seu alto grau de rejeição. Caso essas circunstâncias persistam – e nada sugere que virão a se alterar –, faltariam requisitos mínimos para que possa haver cinema político no Brasil.

Reconheço, porém, ser precipitado antecipar qualquer juízo sobre o que ainda está sendo ou virá a ser produzido. Sem ser oráculo, é recomendável aguardar até que seja possível dar resposta mais segura às duas questões colocadas acima.

Por enquanto, a sinalização feita a esse respeito não é animadora. Conforme comentei no post da semana passada, sete diretores retiraram seus filmes, sendo um longa-metragem e seis curtas, do Cine PE Festival Audiovisual, depois de terem sido selecionados para a programação oficial, o que levou o evento, previsto para ter ocorrido no início de maio, a ser adiado. Se esse for o tope da resposta que tivermos a dar à crise do nosso tempo, não restará alternativa, salvo reafirmar nosso pessimismo em relação à possibilidade do cinema brasileiro desempenhar, através de seus filmes, papel de alguma relevância no processo de superação do atual impasse político do país.

O processo de realização de um filme é demorado e mais tempo ainda é requerido até que possa ser visto. Daí a tradição do cinema de promover celebrações póstumas ou, como João Moreira Salles disse certa vez, de celebrar réquiens. De modo geral, filmes oferecem visões retrospectivas, suscitando debates a posteriori e, ao fim e ao cabo, resultam ineficazes para influir em eventos contemporâneos.

Convém aguardar, portanto, se por outras razões não fosse, pelo simples fato de haver em andamento ao menos quatro projetos de filmes documentários relacionados à crise política. Anunciados como sendo sobre o impeachment da então presidente Dilma Rousseff, é provável que não se restrinjam à perda do mandato, episódio que acabou se tornando tão somente um dos capítulos do arco histórico que só deverá se completar com a posse de um novo presidente da República eleito pelo voto direto.

Diante do tema proposto inicialmente para o encontro no FICA – “O Documentário em Tempos de Polarização Política” –, além dessas considerações preliminares, pensei logo na trajetória do cineasta de vanguarda que foi a própria personificação do cinema político, durante cerca de quarenta anos do século passado. Ele filmou desde a condição de vida precária dos mineiros de carvão, na Bélgica, durante a Grande Depressão, e a guerra civil entre republicanos espanhóis e franquistas, iniciada em 1936, até regiões da China no período da Revolução Cultural, entre vários outros embates políticos do seu tempo.

Estou me referindo, naturalmente, a Joris Ivens que, em noventa anos de vida e setenta de carreira, foi fiel ao seu compromisso de engajamento, fazendo filmes relacionados a eventos políticos sem abrir mão de inovações formais, nem de temas  que o consagraram no início da carreira, como uma ponte e a chuva, aos quais voltou no seu filme de despedida, tentando filmar o vento.

Quem acompanhou a vida e obra de Ivens na última década de sua vida, a partir de 1979, como é o caso de José Manuel Costa, atual diretor da Cinemateca Portuguesa, testemunha que Ivens tinha “uma crença arraigada no documentário como arte e como um laboratório de todo o cinema – uma plataforma de imensa liberdade formal, um território não-convencional ou, nos seus próprios termos, um território criativo sem dono”.

Essa é a grande lição a ser lembrada do cineasta político por excelência do século XX.

Mas como conceituar esse tal de cinema político, ao qual venho me referindo? Uma boa resposta é a do realizador e teórico inglês Peter Wollen. Ele considera ser cinema político “aquele que leva as pessoas a fazer perguntas, considerar questões, questionar pressupostos estabelecidos sobre o próprio cinema, seu papel enquanto uma indústria de entretenimento e um espetáculo com efeitos políticos”. 

“Mais modestamente”, Wollen escreve, “há aqueles que simplesmente nos pedem para que olhemos acontecimentos de maneiras novas e inesperadas. É por essa razão que o cinema político se relaciona com a forma assim como com o conteúdo, com os meios assim como com os fins”.

Definição precisa e perfeitamente adequada ao cinema de Ivens.

Costuma-se dizer também, por outro lado, que todo filme é político. Afirmação que em sentido genérico pode até ser considerada verdadeira, especialmente com relação ao cinema de países capitalistas avançados, dos Estados Unidos, em particular. Em países capitalistas periféricos, porém, como é o caso do Brasil, sem público espectador significativo para seu próprio cinema e que, além do mais, têm acesso restrito ao mercado internacional, essa definição que considera todo filme como sendo político não é satisfatória. (cont.)

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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