questões cinematográficas

Comeback – retorno do matador

A despedida do ator Nelson Xavier no filme Comeback: Um Matador Nunca Se Aposenta, escrito e dirigido por Erico Rassi

Eduardo Escorel
08jun2017_15h35

Nelson Xavier, o Amador de Comeback: Um Matador Nunca Se Aposenta, foi-se em 10 de maio, aos 75 anos. Quis o acaso que seu último filme estreasse duas semanas depois, realçando, sem que fosse preciso, o que a perda do ator, e colega de fino trato, representou.

Há um ano, tivemos ocasião de admirar o talento de Nelson como o memorável Almirante, em A Despedida, título do filme de Marcelo Galvão que em retrospecto adquiriu conotação tristemente premonitória. Agora, imagem e voz de Nelson estão nas telas para sua verdadeira despedida como intérprete.

A lamentar, o alheamento do público que está perdendo rara oportunidade de ver um grande ator em ação.

Não sei se comeback é termo usual entre matadores de aluguel ou mesmo de uso corrente por parte da população em geral, na periferia de Anápolis e outras cidades médias de Goiás. Se essa e outras palavras em inglês por acaso fizerem parte do vocabulário local, para evitar a estranheza causada pelo redundante título Comeback: Um Matador Nunca Se Aposenta, o filme escrito e dirigido por Érico Rassi poderia ao menos ter indicado a existência dessa curiosa, mas improvável peculiaridade do bravo povo goiano.

Também desconheço se os moradores da mesma região falam com acentuado sotaque paulistano. É pouco provável, mas em Comeback, a julgar pela entonação dos atores secundários, todos parecem estar no Bixiga, em São Paulo, causando por isso incômodo adicional aos ouvidos mais sensíveis.

Com enredo que o cinema já explorou à exaustão, modo de filmar frequentemente repetitivo e excesso de música brega, Comeback: Um Matador Nunca Se Aposenta disputa a preferência do público com Guardiões da Galáxia Vol 2, Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar e Mulher-Maravilha, aparentemente sem a menor chance de vencer a competição, muito menos de atrair número expressivo de espectadores. É um duelo desigual entre, de um lado, uma pistola e, do outro, um tanque.

Apesar dos desacertos, porém, além da soberba interpretação minimalista de Nelson Xavier, Comeback: Um Matador Nunca Se Aposenta tem qualidades. Uma, que já vai se tornando comum em filmes brasileiros, é a ambientação desoladora na periferia de Anápolis, cidade natal de Rassi, somada à fotografia, em que pese algumas sequências terem parecido escuras demais na sala em que assisti ao filme.

Além de diretor, Rassi é também roteirista do filme e revela ter mão para escrever diálogos lacônicos, pontuados de insinuações, beirando o absurdo, como o de Amador com o dono do bar a quem ele quer impingir uma máquina caça-níquel.

Para lutar contra seu ostracismo e esquecimento, Amador recorre à violência. É o meio a seu alcance. O gesto de desespero e a precariedade geral, a ponto da pistola do matador só funcionar com uma pancadinha para uma peça solta se encaixar, são uma lamentável, mas bela, metáfora do Brasil.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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