Deu traço

Peça teatral sobre a Lava Jato tem Sérgio Moro de capa, Marisa Letícia do além, a deusa da Justiça nua e quase nenhum público

POR Rafael Moro Martins
Uma cena de <i>Lava Jato, Comédia do Poder</i>. A montagem custou 10 mil reais. “O lucro vai pagar a cerveja”, disse o diretor.
Revista Piauí Uma cena de Lava Jato, Comédia do Poder. A montagem custou 10 mil reais. “O lucro vai pagar a cerveja”, disse o diretor. FOTO: MAX OLSEN_DIVULGAÇÃO
Uma cena de Lava Jato, Comédia do Poder. A montagem custou 10 mil reais. “O lucro vai pagar a cerveja”, disse o diretor. FOTO: MAX OLSEN_DIVULGAÇÃO

Faltando poucos minutos para as nove horas da noite de uma quinta-feira em Curitiba, um grupo de menos de 30 pessoas aguardava num acanhado hall de entrada a permissão para se dirigir à plateia do miniauditório do Teatro Guaíra – que, mesmo com apenas 104 lugares, ficaria praticamente vazio. Era dia de exibição da 11ª apresentação da peça teatral Lava Jato, Comédia do Poder, produção dos grupos locais Rainha de 2 Cabeças e Serafim Cia. Teatral. Vestido com roupas estampadas com a bandeira do Brasil – como se fosse a uma manifestação em apoio à força-tarefa –, um casal parecia deslocado em meio ao público de jovens barbas longas, tênis All Star e penteados afro. Os dois namorados esperavam por algo que não veriam em cena: um espetáculo de exaltação à Lava Jato.

Logo que as luzes se apagaram, um texto jorrou dos alto-falantes: “Os mocinhos não existem, mesmo que você queira acreditar neles. Ria enquanto te esfolam vivo.” A voz em off é do autor e diretor do espetáculo, o dramaturgo Cesar Almeida, que aos 54 anos e mais de trinta de carreira granjeou alguma reputação no circuito teatral alternativo com peças que abordam questões da população LGBT. Em seguida, ele invade o palco e, microfone em punho, puxa uma canção: “A mortadela acabou/Coxinha tá quentinha/Vamos bater panela/É o carro da coxinha que está passando/Coxinha de creme, coxinha gourmet, coxinha de mortadela.”

O elenco, todos de rosto maquiado e em trajes sociais, dança a seu lado. Algumas figuras interpretadas são facilmente reconhecíveis: ali estão Lula e Dilma Rousseff. Mais ao canto, aparece a ex-primeira-dama Marisa Letícia, vivida pelo ator Arthur Faustino, que volta do além-túmulo para defender a própria biografia. “Para de jogar a culpa em mim, seu porra”, diz a personagem a Lula, em determinado momento do espetáculo, num deboche à Dercy Gonçalves.

Um ator vestindo um espalhafatoso terno verde, uma capa às costas e expressão aparvalhada, faz referência ao juiz Sérgio Moro – ou ao procurador Deltan Dallagnol. Uma moça longilínea, de sapatos de salto alto, vestido justo e de decotes generosos, nos é apresentada como a personificação da Justiça.

O diretor já foi um entusiasmado eleitor do PT. “Lutei pela eleição de Lula, tentei convencer pessoas a votarem nele. Daí ele entrou e desperdiçou a chance que teve”, falou. Disso veio uma grande decepção com a política – “É um grande circo, que as pessoas levam a sério como se fosse jogado com honestidade. É suja, podre” –, que, por sua vez, rendeu os melhores momentos da peça: os diálogos, carregados de palavrões.

A peça tem fortes cores críticas à operação, mas o diretor faz questão de se mostrar iconoclasta. “A nossa Lava Jato atira para todos os lados”, me disse Cesar Almeida no dia seguinte, num café a poucos metros do Guaíra. “Queremos provocar, mostrar como são os bastidores do grande baile da República de Curitiba”, jactou-se o diretor, um paranaense de Londrina com mais de 1,80 metro de altura, cabeça raspada coberta por um boné de couro preto, brincos nas duas orelhas e um colorido agasalho da Adidas. Sem a pretensão de ser realista ou contar uma história linear, Lava Jato, Comédia do Poder procura escarnecer os personagens da operação que se tornou, nos dizeres de seu criador, “a nova novela das oito”. E também, Almeida admitiu, capitalizar o momento político. “Queríamos fazer a primeira peça brasileira sobre a Lava Jato, e na terra da Lava Jato.”

 

A terra da Lava Jato, porém, deu pouca bola para o espetáculo. “A bilheteria está aquém do que esperávamos”, admitiu o diretor. A pré-estreia do filme Polícia Federal – A Lei É para Todos, em 28 de agosto passado, fechou as oito salas de cinema de um shopping na região oeste da cidade, atraiu 2 200 convidados – entre eles os juízes Marcelo Bretas, que comanda os processos da Lava Jato no Rio de Janeiro, e o próprio Sérgio Moro, os procuradores Deltan Dallagnol e Diogo Castor de Mattos e os delegados Igor Romário de Paula, Márcio Anselmo, Erika Marena e Rosalvo Ferreira Franco. Por outro lado, a montagem de Almeida não despertou o interesse dos famosos homens da lei.

“Nenhum deles foi nos ver”, disse-me Fernando Cardoso, 38 anos, produtor e coautor do espetáculo. “Mas também não convidamos ninguém, resolvemos não mexer com eles”, procurou minimizar. “Se tivessem vindo, talvez criássemos uma polêmica maior. Ou tomaríamos um processo”, ele riu. O Guaíra fica a menos de duas quadras da sede da Procuradoria da República em Curitiba, onde trabalha a força-tarefa da Lava Jato. Em frente ao teatro, fica o prédio histórico da Universidade Federal do Paraná, onde, até o fim do ano passado, o juiz Moro dava aulas – ele se licenciou do cargo.

Almeida e Cardoso, aliás, viram o filme – e não gostaram. “Não tem emoção nenhuma. Seria mais interessante um documentário que aquilo”, desdenhou o dramaturgo. Ao contrário da peça, no filme há heróis claramente definidos – os policiais federais que se deparam com um gigantesco caso de corrupção a partir de uma investigação corriqueira de lavagem de dinheiro. “Mas mesmo eles, no filme, falam que não sabem se estão sendo usados ou não. Foram decentes em dizer isso. Porque, na verdade, eles estão sendo usados”, opinou Almeida. Por quem? “A Justiça não é cega, surda e muda. Ela é na verdade uma prostituta, que vai se sentar no colo de quem pagar mais. Como na peça”, disse, enigmático.

É daí, também, que veio a ideia de caracterizar Sérgio Moro como um super-herói naïf. “Começamos a pesquisar e vimos que o cara é apaixonado por quadrinhos. Talvez ele tenha um espírito de super-herói no inconsciente, um desejo de ser quem irá resgatar a ética e a probidade no país”, Almeida teorizou. “Ele é o único personagem inocente em cena, acredita que vai mudar a história. Mas é óbvio que não vai. O modo de ser do brasileiro é corrupto. É nesse aspecto que acho que ele é inocente.”

 

O jornal O Globo informou, na terça-feira, 3 de outubro, que o filme Polícia Federal – A Lei É para Todos conseguiu, menos de um mês após estrear, a maior bilheteria nacional de 2017: vendeu mais de 1,2 milhão de ingressos, faturando 19 milhões de reais. É dinheiro suficiente para cobrir os 16 milhões de reais entregues por um grupo de investidores privados, cujos nomes são mantidos em segredo até hoje. “É raro ver um filme de 16 milhões hoje em dia”, impressionou-se Carlão Busato, diretor de uma produtora de filmes de publicidade e cinema em São Paulo, a Hungry Man. “Mesmo há cinco anos, antes da crise chegar, um filme com um baita orçamento gastava 12 milhões de reais.”

Lava Jato, Comédia do Poder também foi integralmente bancada por investidores privados: Cesar Almeida e Fernando Cardoso. “Gastamos o estritamente necessário, uns 10 mil reais. Os atores não estão ganhando, todo mundo está trabalhando e apostando na bilheteria. Quando terminarem as 14 apresentações, vamos pegar o que rendeu, pagar as contas e distribuir entre quem participou. Vai pagar a cerveja”, previu o diretor.

Cardoso até tentou buscar patrocinadores. Quando ouviam que se tratava de uma montagem sobre a Lava Jato, os potenciais financiadores entusiasmavam-se. “Mas o interesse ia embora sempre que eu dizia que íamos atirar em todo mundo”, disse-me o produtor. Alguns até aventaram oferecer um patrocínio oculto, tal qual ao filme de sucesso. Temiam, certamente, sair chamuscados pela reação negativa que o espetáculo causaria entre os incautos que comprassem ingressos pensando tratar-se de uma ode a Sérgio Moro e sua trupe. O que, de fato, ocorreu. “Teve um dia que uns 15 se levantaram e saíram do teatro mal a peça tinha começado”, riu Almeida. Mas as reações negativas nunca passaram disso – e das habituais agressões via Facebook.

 

“Você já viu a peça?”, perguntou um homem de meia-idade ao porteiro do Teatro Guaíra, ao final da sessão daquela quinta-feira. O funcionário apenas meneou a cabeça em sinal negativo. “A moça, a Justiça, fica peladinha. É bem como é mesmo”, comentou o que parecia ser um satisfeito espectador ao descrever a cena final do espetáculo, quando a atriz Loara Gonçalves condena a plateia “a viver eternamente sob o governo desses podres corruptos, que sugarão o seu sangue até a morte”. A seu lado, rindo, estão políticos que a cobrem de dinheiro enquanto ela se despe.

O público se levanta e aplaude, entusiasmado. É a deixa para o diretor Cesar Almeida fazer um pedido: “Por favor, divulguem o espetáculo, precisamos de público para pagar as contas. Essa peça não tem patrocínio”, exortou. O rapaz com a camisa do Brasil e a moça loura não ouviram o apelo. Haviam deixado o teatro antes do gran finale.

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