anais da República

Do mandato ao mandado e além

Lula admite cumprir mandado de prisão, pega presidenciáveis não-petistas pela mão e sai de cena carregado pelos que o fizeram entrar nela

José Roberto de Toledo
07abr2018_17h40
Após pronunciamento, Lula é carregado pela multidão e acena antes de desaparecer dentro do prédio do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC
Após pronunciamento, Lula é carregado pela multidão e acena antes de desaparecer dentro do prédio do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC IMAGEM: REPRODUÇÃO TVT_YOUTUBE

Em frente ao sindicato onde diz ter nascido e com um microfone na mão, Lula da Silva discursou como quem fala pela última vez. Voltou ao 1968 de quando se sindicalizou, passeou pelo 1978 de quando liderou greves que o empurraram para a notoriedade, rememorou a fundação do PT, comemorou sua Presidência e terminou tentando apontar um futuro sem ele para a esquerda em 2018. Depois saiu de cena, coreografada, carregado pelos militantes em meio a uma multidão. Lula perdeu o processo mas ganhou a imagem.

Mestre da cerimônia de sua própria despedida, o ex-presidente pegou pela mão, no alto do carro de som e diante de milhares de pessoas, não um político com mandato, nem sequer um petista, mas o líder de um movimento militante. Apresentou e beijou Guilherme Boulos, líder sem-teto, e pré-candidato a presidente pelo PSOL. Tentou fazer igual com Manuela D’Ávila, pré-candidata pelo PC do B, mas ao fazê-lo, chamou-a de “garota bonita”. Ambos têm menos de 40 anos e ficaram em destaque ao lado de Lula no palanque.

Dos petistas cotados para disputarem a Presidência em seu lugar, um não estava lá, outro ficou no fundo da cena, e o terceiro tem barba e cabelo brancos. A troca de bastão não se completou no partido. Preferido pela máquina do PT, o ex-governador baiano Jaques Wagner não apareceu na cena de despedida de Lula. Mãos cruzadas à frente do corpo, Fernando Haddad parecia tão encabulado no palanque quanto em sua derrotada campanha à reeleição como prefeito de São Paulo. Celso Amorim é diplomata.

A ênfase do discurso de Lula – para além das velhas críticas ao Judiciário e à imprensa – foi sobre a militância. Mencionou um a um os diretores de sindicato que estavam sobre o carro de som. Disse que não voltou a disputar eleição de deputado após a Constituinte por querer mostrar ao PT que quem tem mandato não é mais importante do que quem não tem. Só faltou desenhar que o partido precisa voltar-se para a militância social-sindical de sua origem se quiser preservar algum futuro no cenário político.

Não chegou a ser uma autocrítica, mas poderia ter sido. As greves e ocupações que o Lula com microfone exaltou sábado pararam de acontecer com a frequência que ocorriam justamente após o Lula virar presidente. Ao mesmo tempo, a dedicação do PT voltou-se para a ocupação burocrática de Brasília – como é praxe acontecer com os movimentos políticos que chegam ao poder.

Ao dizer que cumpriria o mandado de prisão em vez do mandato presidencial, ao escolher dois jovens políticos não-petistas como símbolos de seu legado e ao dizer que virou uma ideia, Lula deixou a vida de candidato rumo à cadeia, mas ainda não parece disposto a entrar para a história. Ao abrir novas possibilidades em sua herança política, parece pretender comandar o processo de sua própria sucessão desde a cela em Curitiba. Não será fácil.

Ficará isolado, sem tevê nem comunicação permanente com o que acontece fora do prédio da Polícia Federal. Não se alimentará do contato com seus eleitores, não mais se informará no “chão de fábrica” para perceber para onde tende a opinião pública. Pode ser por alguns dias, por alguns meses ou por alguns anos.

FOTO: FRANCISCO PRONER RAMOS/FARPA FOTOCOLETIVO

Duas imagens sintetizam o sábado derradeiro do Lula candidato em São Bernardo do Campo. A primeira, messiânica, foi captada por um fotógrafo de 18 anos, nascido em Curitiba e radicado no Rio de Janeiro. Francisco Proner Ramos enquadrou Lula no meio de uma compacta massa humana sendo carregado nos ombros e com braços esticados em sua direção. Ramos fotografou o ex-presidente desde o alto do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Não se vê o prédio,  só Lula no centro, e centenas de pessoas apertadas ao seu redor.

A outra imagem não é uma foto, mas um frame do vídeo da tevê dos Trabalhadores, que transmitiu o evento ao vivo. É a última vez que Lula aparece em cena. O ex-presidente destaca-se da multidão à sua volta por estar nos ombros de um militante. No instante anterior a desaparecer dentro do prédio do sindicato, Lula se volta para trás e acena com a mão esquerda, justamente a mão que se tornou sua marca registrada por faltar-lhe o dedo mínimo, perdido no torno onde trabalhava como metalúrgico.

Em ambas, aparece como líder de massas, mas na segunda é claro o sentido da despedida. Qual se revelará mais premonitória?

José Roberto de Toledo (siga @zerotoledo no Twitter)

Jornalista da piauí, foi repórter e colunista de política na Folha e no Estado de S. Paulo e presidente da Abraji

Leia também

Relacionadas Últimas

Noite em claro no sindicato

Melancolia e euforia durante a vigília nos Metalúrgicos do ABC contra prisão de Lula

O dia em que a história não aconteceu

A sexta-feira se anunciava como o dia em que Lula seria preso, faria um discurso histórico ou fugiria: no fim, nem recorde de curiosidade bateu

Stan Lee explica por que “criou problemas” para os super-heróis

Assista a trechos da entrevista inédita concedida em 1988 pelo criador de personagens da Marvel, morto nesta segunda

A lição de Josefa

A grande artesã deixa um conselho para os políticos: “Não há riqueza maior do que o nosso nome”

Mulher negra (não tão) presente

Representatividade de mulheres pretas e pardas, maioria da população brasileira, cresceu 38% nas eleições; participação dos homens brancos é 15 vezes maior do que a das mulheres negras

A democracia pode ser exceção

Nada garante que o regime seja inerentemente estável

WhatsApp elege mas não governa

Outros Poderes explicam a Bolsonaro que preferem sua parte em dinheiro

Foro de Teresina #26: O gabinete de Bolsonaro, o novo papel de Moro e o Escola Sem Partido

O podcast de política da piauí discute a transição e os primeiros movimentos do governo Bolsonaro

Excelentíssimos – outro retardatário na tela

Documentário deixa a desejar ao expor, juntos, a rotina no Congresso e o processo de impeachment

PM do Rio ignora lei e expõe preso no Twitter

Polícia divulgou rosto de homem algemado e a palavra “capturado”; Defensoria entrou na Justiça para excluir imagem

Rede de intrigas agrotóxicas

Em grupo de WhatsApp de ruralistas, presidente da UDR, Nabhan Garcia, critica Onyx Lorenzoni: “Já vi muito pavão virar espanador”

Jornalismo cordial

Imprensa é oposição?

Mais textos
1

O fiador

A trajetória e as polêmicas do economista Paulo Guedes, o ultraliberal que se casou por conveniência com Jair Bolsonaro

2

Rede de intrigas agrotóxicas

Em grupo de WhatsApp de ruralistas, presidente da UDR, Nabhan Garcia, critica Onyx Lorenzoni: “Já vi muito pavão virar espanador”

3

WhatsApp elege mas não governa

Outros Poderes explicam a Bolsonaro que preferem sua parte em dinheiro

4

Meus avós em ruínas

Por que não consigo me livrar do apartamento modernista que herdei há cinco anos?

5

O pior está por vir

Polarização, teorias conspiratórias, ataques à imprensa – como uma democracia pode acabar

6

Jornalismo cordial

Imprensa é oposição?

7

Marley e nós

Direitos caninos para caninos direitos

8

A volta do ditador

Em Porto Alegre, a avenida da Legalidade e da Democracia reassume o nome do general Castello Branco

9

Super Moro 2022

Ao nomear juiz para ministério, Bolsonaro controla a própria sucessão

10

Foro de Teresina #26: O gabinete de Bolsonaro, o novo papel de Moro e o Escola Sem Partido

O podcast de política da piauí discute a transição e os primeiros movimentos do governo Bolsonaro