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É coisa nossa

Como um brasileiro se tornou pivô da trama do podcast mais ouvido dos Estados Unidos

Paula Scarpin
17mar2017_19h17
Mauro Oliveira com a obra que ele deu de presente a Simmons (montado como drag queen, à direita), no seu aniversário de 65 anos. A estátua é composta de três mil cristais, representando as pessoas que ele ajudou em sua carreira
Mauro Oliveira com a obra que ele deu de presente a Simmons (montado como drag queen, à direita), no seu aniversário de 65 anos. A estátua é composta de três mil cristais, representando as pessoas que ele ajudou em sua carreira FOTO: MAURO OLIVEIRA_ACERVO PESSOAL

Missing Richard Simmons é um podcast americano que segue a receita de sucesso de tramas radiofônicas que se valem da imbatível combinação história pungente, reviravoltas, suspense contínuo e final em aberto. Em 2015, a reportagem em episódios Serial, produzida pelos mesmos criadores do programa This American Life, se tornou uma coqueluche nacional pavimentando a nova era de ouro do rádio nos Estados Unidos. Nas últimas três semanas, Missing Richard Simmons tem ocupado a primeira posição no ranking dos programas mais baixados no iTunes em todo país. Lançado em 15 de fevereiro, conta a história de um guru fitness de vastos cabelos crespos e roupas de ginástica fluorescentes que, aparentemente, sumiu sem deixar vestígios.No centro da tramoia que vem sendo ovacionada pela crítica – e da qual ainda não se sabe o desfecho – há uma jabuticaba nacional: o artista plástico e massagista brasileiro Mauro Oliveira, que trabalhou como assistente de Simmons por um ano em Los Angeles. Ele aparece no terceiro capítulo da série, numa longa entrevista ao diretor do podcast, Dan Taberski. Conforme cresciam os boatos em torno do sumiço de Simmons  –  ao ponto de Donald Trump, então candidato à presidência, prometer resgatá-lo, caso eleito  –, Oliveira passou a ser assediado pela imprensa para falar do assunto. Por telefone, ele – que tem sotaque interiorano – disse que tinha prometido a si mesmo deixar a polêmica de lado, mas abriria uma exceção à piauí por ser uma revista brasileira.

A participação do brasileiro se resume a encarnar a faceta rocambolesca e, digamos, excêntrica da história: ele garante que a culpada pelo sumiço de Simmons é Teresa Reveles, a fiel empregada mexicana, que teria enfeitiçado o patrão com magia negra e o estaria mantendo em cativeiro em sua própria casa. Para dar peso à tese, Oliveira se valeu de reminiscências pessoais. “Eu conheço macumba muito bem. Quando eu era criança, antes de ir para o orfanato, eu passei fome e muitas vezes comi oferenda que deixavam na encruzilhada”, contou por telefone.

Segundo Oliveira, ele teria visto Simmons pela última vez em abril de 2014, quando o guru estaria “magro e enfraquecido” e dizia – sem que ele entendesse a razão – que ambos não voltariam a se ver. Na ocasião, ele contou, Simmons havia concordado receber “uma massagem relaxante” e, quando eles subiam as escadas em direção ao quarto, a empregada teria feito um escândalo e o expulsado da casa. Oliveira disse ter perguntado para Simmons: “É ela quem manda na sua vida agora?”, ao que ele teria respondido que sim.Nove meses se passaram, Oliveira não tinha mais qualquer contato com Simmons, mas ainda assim lançou o e-book chamado King Rich and the Evil Witch (O Rei Rich e a Bruxa Má), vendido por 35 dólares na Amazon. O primeiro capítulo começava com “Era uma vez” e descrevia Simmons como “um príncipe excêntrico, pateta e amoroso”, cujo objetivo na vida era “ajudar a população obesa do reino a ter uma vida mais longa e saudável”. Tudo ia bem até aparecer uma bruxa chamada “Boreza”, que ia trabalhar no castelo como empregada. Desde então, ela “não tirou os olhos do grande prêmio: herdar o castelo e toda a fortuna do príncipe”.

Eles se conheceram em 2013, quando visitou uma exposição do brasileiro em Los Angeles e decidiu comprar seis obras de arte de uma só vez. Uma delas, mencionada no podcast, é uma cadeira no formato da luva do Mickey Mouse. Simmons teria se encantado pelo artista plástico-massagista e o chamou para ser seu assistente pessoal, convite prontamente aceito. “Ele era muito generoso comigo, doou 25 mil dólares pro orfanato em que eu morei, comprou um apartamento e queria passá-lo para o meu nome. Eu que não deixei”, disse ele.

Oliveira foi criado, junto a seis irmãos, em um orfanato na região de Indaiatuba, em São Paulo. Segundo ele, a única chance que teve de ser adotado foi por um casal de americanos, que desistiu por não ter condições de adotar todas as crianças de uma vez. “Desde então eu fiquei com essa coisa na cabeça, de ir pros Estados Unidos.” Segundo ele, aos 18 anos, foi morar com a família de uma freira em Uberlândia. Lá, teria cursado jornalismo e artes plásticas. O sonho de ir para a América se realizou em 1990, quando ganhou uma bolsa de estudos. “Não queria mais voltar”, contou.Depois de quase vinte anos de idas e vindas driblando a migração, o brasileiro entrou com um pedido de asilo político “por pertencer a um grupo perseguido, como homossexual, e por ter escrito um livro com denúncias de corrupção”, explicou sem detalhar qualquer aspecto de sua obra literária. Oliveira não quis entrar em detalhes sobre o conteúdo do livro.O pedido de asilo foi aceito e, em 2008, ele passou a morar legalmente nos Estados Unidos.

Patrão e empregado não se desgrudavam. Foi numa viagem à Europa, em 2013, que o brasileiro começou a estranhar o comportamento do guru – e ter firmado convicção sobre as bruxarias da empregada: “Eu já escutei ela dizendo que tinha alguém no México taking care of Richard”, disse ele, imitando a voz da mulher.

Existem hipóteses menos sinistras para o sumiço do astro. Uma delas seria uma depressão severa motivada por uma lesão no joelho (que impediria que ele se dedicasse às suas atividades físicas) ou pela morte de sua cachorra querida. Especula-se, ainda, que Simmons  –  que se montava com alguma frequência como drag queen  –  poderia estar passando por um processo de transição de gênero. O palpite chegou a ser desmentido em um post de sua página oficial no Facebook.

Simmons era onipresente em talk shows de alcance nacional (só na atração de David Letterman, ele foi entrevistado mais de trinta vezes) e, mesmo sexagenário, continuava dando aulas de ginástica pessoalmente em sua academia em Beverly Hills. Famoso pela empatia instantânea, ele cultivava amizades com  quem o procurava em busca de orientações de saúde, ginástica e motivação. Após décadas de aparições públicas, talvez tenha apenas se livrado do peso do showbizz.

No entanto, para Taberski, a reclusão absoluta de Simmons é esquisita. O diretor gasta boa parte dos primeiros episódios entrevistando pessoas que declaram ter sido “salvas” por Simmons, com quem mantinham contato frequente  – até dois anos atrás, quando ele simplesmente parou de atendê-los. Em entrevista ao New York Times, Taberski confessou que se aproximou de Simmons justamente pela fama e, durante os anos de amizade, nunca omitiu o desejo de fazer um documentário sobre ele. Quando o guru deixou de responder a seus e-mails, ele não deu muita importância, imaginando que ele havia perdido o interesse na parceria. Mais tarde, conversando com amigos em comum, percebeu que não se tratava de um caso isolado. Sem dar satisfação, Simmons abandonou as aulas de ginástica em sua academia Slimmons (uma corruptela de seu sobrenome com o termo “slim”, ou “em forma”), e deixou de falar mesmo com amigos mais próximos. Quando encafifados com seu paradeiro batiam em sua porta, eram dispensados pela empregada.

Impressionado depois da última visita ao ex-patrão, “como amigo”, Oliveira teria alertado o irmão de Simmons ─ concordou em interná-lo em uma clínica de repouso por dez dias. “Eu não acho que estão fazendo o suficiente”, disse Oliveira, pouco antes de desligar o telefone. “Quero que você escreva aí: se não fizerem algo urgente, a próxima notícia que vamos ter do Richard é de que ele morreu.”

Paula Scarpin (siga @paula8scarpin no Twitter)

Paula Scarpin é repórter da piauí desde 2007. Também é responsável pelos podcasts no site da revista

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