questões cinematográficas

É Tudo Verdade – No centenário das revoluções (I)

A mostra comemorativa do centenário das revoluções russas fez lembrar de retrospectiva promovida nos anos 60 pela Cinemateca Brasileira

Eduardo Escorel
11maio2017_15h25

Eis o blogueiro de volta. As férias permitiram, entre outras coisas, acompanhar o Festival É Tudo Verdade um pouco melhor do que nos anos anteriores, ainda assim sem conseguir assistir à maior parte da atraente programação.

Entre as mostras oferecidas durante o Festival, a comemorativa do centenário das revoluções russas de fevereiro e outubro, além de dar acesso a 12 documentários raros, fez lembrar da retrospectiva ‘História do Cinema Russo e Soviético’, promovida em 1961/62 pela Cinemateca Brasileira, no quadro da VI Bienal de São Paulo.

Quem teve a ventura de acompanhar, há 55 anos, essa memorável retrospectiva em São Paulo ou no Rio de Janeiro, foi apresentado a cerca de cinquenta filmes dos grandes mestres do cinema soviético – Eisenstein, Pudovkin, Kulechov e Dovjenko, entre outros. Alguns documentários, ainda menos conhecidos na época do que os filmes de ficção, também foram exibidos: A Sexta Parte do Mundo (1926) e Um Homem com uma Câmera (1929), ambos de Dziga Vertov, e Turksib (1929), de V. Turin. Ter assistido a esses filmes, no início da década de 1960, foi uma experiência formadora marcante.

Passado mais de meio século, Amir Labaki e Luis Felipe Labaki, pai e filho, curadores da retrospectiva 100: De volta à URSS, ofereceram uma requintada seleção exclusivamente de documentários, realizados entre 1926 e 1989, incluindo filmes de Dziga Vertov e Aleksándr Sokúrov, além, entre outros, de Esfir Chub, Roman Karmén e Artavazd Pelechian.



A disponibilidade de tempo do atual septuagenário não sendo a mesma do adolescente de 1961/62, só foi possível assistir a seis dos filmes exibidos. Ainda assim, supriram algumas lacunas importantes deixadas pela retrospectiva anterior.

Naquela época, a principal fonte de informação sobre o cinema russo e soviético era o livro de Jay Leyda, publicado em 1960 – Kino: A History of Russian and Soviet Film. Apesar de incluir o filme de Dziga Vertov que inaugurou a retrospectiva do É Tudo Verdade – Avante, Soviete! (1926) – na filmografia do volume, Leyda menciona Avante, Soviete! apenas de passagem em uma única página. A extraordinária repercussão de Encouraçado Potemkin depois da estreia para convidados, em dezembro de 1925, e do lançamento para o público no mês seguinte, pode ter relegado o filme de Vertov a segundo plano.

Leyda descreve a estrutura narrativa de Avante, Soviete! como sendo feita de um paralelismo simples: “agora as coisas são assim, elas eram dessa maneira naquela época; ou, as coisas conosco são assim, elas eram desse modo nos países capitalistas.” Além disso, Leyda nada diz.

O lançamento, em 1971, do livro póstumo sobre Dziga Vertov de George Sadoul, com prefácio de Jean Rouch, trouxe o que deve ser a primeira apreciação mais detida de Avante, Soviete! fora da União Soviética. Sadoul planejara escrever sobre Vertov, cujos manifestos e filmes estudou nas várias viagens que fez a Moscou. A partir das anotações feitas durante a projeção, ele apresenta Avante, Soviete! como “um balanço da URSS no período da reconstrução, tendo como perspectiva o socialismo futuro” e após indicar “o tom oratório da obra” descreve o quinto rolo, no qual “Moscou é pintada em dia de eleição, e a sequência é em parte situada diante do Soviete de Moscou, a prefeitura da capital, na rua Tverskaïa (atualmente rua Gorki)”.

Para Sadoul, esse quinto rolo, “como todo o filme, é de primeira ordem. Ninguém antes de Dziga Vertov havia criado um documentário semelhante. […] Esse extraordinário tom de voz gritado através de alto-falantes na tela por esse filme mudo, é aparentado diretamente a Vladimir Maïakovski do qual Vertov evidentemente se declara seguidor. O milagre é que ele encontra o tom do poema em um discurso fílmico ritmado, poético, político, martelado por fórmulas escritas e imagens que são alternadamente um soco ou um leitmotiv.

Segundo Sadoul, “esse poema visual terá uma posteridade fecunda. O sexto rolo, que opõe igreja e escola noturna, cervejaria e clube operário, asilo e sanatório noturnos, antes de fazer um painel de Moscou à noite, misturados aos prazeres e às jazz-bands dos Nepmans [literalmente, homens da NEP, empreendedores privados da NEP – sigla da Nova Política Econômica implantada por Lenin em 1921], é por seu assunto e por seu tratamento uma sequência da Sinfonia de uma Grande Cidade que Ruttmann, como discípulo fiel, realizará um ano depois – inspirando-se em um documentário realizado só por Mikhaïl Kaufman [irmão de Vertov], Moscou, que mostrava a capital em um dia, da alvorada ao anoitecer.”

Moscou, segundo filme exibido este ano na retrospectiva do É Tudo Verdade, foi, na verdade, segundo informa o catálogo do Festival, dirigido por Mikhaïl Kaufman e Iliá Kopálin. (cont.)

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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