questões político-religiosas

Empresários rebatem defensores de Bolsonaro

Publicada pela piauí, entrevista com fundador da Tecnisa provocou reação da comunidade judaica. “Ele não tem legitimidade para falar em nosso nome”, disse ex-presidente da Confederação Israelita do Brasil

Ricardo Lessa
23fev2018_14h05
“A comunidade judaica nunca pode apoiar quem segrega. Por princípio, porque pagou com a carne a segregação”, argumentou Henry Chmelnitsky, presidente do Conselho Geral das entidades ligadas à Federação Israelita do Rio Grande do Sul
“A comunidade judaica nunca pode apoiar quem segrega. Por princípio, porque pagou com a carne a segregação”, argumentou Henry Chmelnitsky, presidente do Conselho Geral das entidades ligadas à Federação Israelita do Rio Grande do Sul ILUSTRAÇÃO: JOÃO BRIZZI

Acomoção foi grande. No mesmo dia em que foi publicada a entrevista do empresário Meyer Nigri, fundador da Tecnisa, em que afirma acreditar que “90% da comunidade judaica seja a favor de Bolsonaro”, a Confederação Israelita do Brasil, a Conib, divulgou uma nota em que lamenta a “atitude de alguns de seus membros, que pretendem identificar a comunidade com um ou outro candidato”. Mas não parou por aí.

Ex-presidente da Conib entre 2009 e 2014, ex-presidente do Hospital Albert Einstein e atual presidente da United Health do Brasil, controladora da Amil, Claudio Lottenberg afirmou que Meyer Nigri não tem “nenhuma legitimidade” para falar em nome da comunidade judaica, “muito menos em estimar percentuais de apoio ao candidato Jair Bolsonaro”.

“Conheço o Meyer Nigri”, disse Lottenberg, “ele é um bom judeu, ótima pessoa, participa de várias obras de caridade, mas exprimiu apenas uma opinião pessoal, como um cabo eleitoral. Nunca teve envolvimento em cargos eletivos dentro da comunidade, que eu saiba, nunca foi eleito para cargo algum na comunidade.”

O presidente do Conselho Geral das entidades ligadas à Federação Israelita do Rio Grande do Sul, ex-vice da Conib e ex-presidente da Federação Israelita gaúcha, Henry Chmelnitsky, de 66 anos, também lamentou a declaração de Meyer Nigri em nome da comunidade. “Em toda minha vida, nunca vi uma reunião com mais de dez judeus, em que nove fossem a favor da direita. Ele não representa a média da comunidade, que sempre transitou pela diversidade e nunca teve lideranças ligadas aos extremos”, disse.

Como mostrou a piauí, o fundador da Tecnisa, em conjunto com Fabio Wajngarten, dono de uma empresa de monitoramento de mídia, tem marcado encontros entre Bolsonaro e integrantes da comunidade judaica em São Paulo. Segundo Meyer Nigri, os “10% [dos judeus]” que seriam contra a candidatura do ex-capitão do Exército comporiam apenas uma “minoria barulhenta”, que tem se manifestado agressivamente em oposição ao pré-candidato.

Com a experiência de quase cinquenta anos de carreira política, passagem pelo PCB, PMDB e agora na presidência do PSDB, o deputado Alberto Goldman, de 80 anos, calcula que o candidato Bolsonaro passe muito longe da maioria da preferência entre os judeus. “Ele deve ter um pouco mais de apoio do que a média nacional, por causa do perfil de classe média alta da comunidade judaica, tradicionalmente conservadora. Se a média nacional for 20%, ele terá um pouco mais de 20%.”

O percentual de 90% de apoio, para Goldman, é “puro chute”. Outro octogenário luminar da comunidade judaica, físico, ex-reitor da USP e atual presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a Fapesp, José Goldemberg, afirma que a informação é “engraçada”. “Duvido muito”, comentou rapidamente.

Mesmo que Nigri tivesse sido eleito para algum cargo de representação da comunidade, não seria o caso de se pronunciar por um ou por outro candidato, para o ex-presidente da Conib. “Eu, membro de uma comunidade e tendo sido presidente da Conib, nunca recebi delegação para me posicionar partidariamente”, disse Claudio Lottenberg. “Posso torcer pelo São Paulo, mas não posso me pronunciar em nome do time, sobre preferência partidária ou opções técnicas.”

A pluralidade sempre preponderou nas nossas organizações, segundo Chmelnitsky, que é também presidente do Sindicato de Hospedagem e Alimentação de Porto Alegre e região. “A comunidade judaica nunca pode apoiar quem segrega. Por princípio, porque pagou com a carne a segregação”, argumentou o gaúcho.

Lottemberg, que participa de grupos comunitários desde os 20 anos, quando foi diretor da Hebraica Jovem, relembra que desde então já existia a prática de convidar candidatos à Presidência para expor suas ideias à comunidade judaica. “Convidamos o Jânio Quadros, que na época era considerado de direita”, lembrou. “A comunidade é absolutamente plural, inclusive há vários judeus em diversos partidos, como Goldman, no PSDB e Jacques Wagner, no PT.”

A opinião de Chmelnitsky é semelhante: “Participei de dois eventos em que ouvi pronunciamentos do Bolsonaro. Ele pertence aos extremos. A comunidade judaica tem seus extremos, mas eles nunca chegaram às lideranças.”

Sobre o caso da Hebraica do Rio, onde o ex-capitão Bolsonaro fez um pronunciamento em abril de 2017, Lottenberg afirma ter sido um evento fora de época, longe da agenda eleitoral, promovido por alguns apoiadores do hoje pré-candidato, mas que recebeu a hostilidade de boa parte da comunidade judaica e a reprovação da Conib. “Meu temor é que a sociedade brasileira em geral tome as declarações dele [Meyer Nigri] como verdadeiras e acredite mesmo que a comunidade judaica é pró-Bolsonaro, o que é um equívoco”, observa Lottenberg.

“Quando fui presidente da Conib”, acrescentou, “recebemos todos os candidatos à Presidência que nos procuraram. Sempre recebi, sempre conversei. Estive recentemente com o Papa Francisco, que não é da minha religião, mas recebeu oito líderes judeus, sem agenda.” “Concordo com o que ele diz, que o que falta no mundo hoje é diálogo, conversa. Me senti identificado.”

Entre suas justificativas para apoiar Bolsonaro, Meyer Nigri disse que o presidenciável seria “pessoalmente comprometido com Israel”. Lottemberg contesta que isso seja apontado como trunfo para conquistar a comunidade. “Todos que apoiam a democracia e apostam no desenvolvimento tecnológico, e isso acontece em diferentes candidatos de diversos partidos, também apoiam Israel”, comentou o ex-presidente do Einstein.

Para o médico, quando for a época, a comunidade judaica deve abrir as portas aos que a consideram um “ativo eleitoral, não quantitativo, mas qualitativo”. Sobre Bolsonaro, Lottenberg acredita que deve-se deixá-lo falar, expor suas ideias, para que as pessoas tenham clareza na opção de voto. “Tenho minhas dúvidas se ele merecerá apoio da comunidade judaica”, e deixa claro, “o meu, não”.

Ricardo Lessa

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