questões da política

Faltam as togas

A Lava Jato ainda deve ao país uma resposta sobre o papel do Judiciário no maior esquema de corrupção do planeta

Malu Gaspar
18abr2017_12h11
FOTO: BRUNO POLETTI/FOLHAPRESS

Apesar do volume e da crueza das revelações dos delatores da Odebrecht, persiste uma enorme lacuna nas centenas de horas de depoimentos judiciais replicados pela imprensa ao longo dos últimos dias. Tanto a companhia quanto os procuradores da Lava Jato estão devendo uma resposta à pergunta que muitos se fazem, a esta altura. Ou o maior esquema de corrupção do planeta se desenrolou nas barbas de juízes ineptos e desinformados, ou a empresa escondeu dos olhos do público (e do Ministério Público) a participação (ou a omissão deliberada, ou a complacência, ou tudo isso junto) do Judiciário nas irregularidades cometidas ao longo dos anos. Quem conhece o mundo dos empreiteiros sabe que uma liminar concedida em um momento estratégico de uma licitação pode virar o jogo a favor de um competidor. Sabe também o valor de uma decisão da alta corte suspendendo investigações da Polícia Federal sobre uma obra ou concorrência. E sabe que, se para a Odebrecht todos tinham um preço, não faz sentido imaginar que os juízes brasileiros eram exceção.

Pelo menos um episódio, em meio a vários outros, os delatores da Odebrecht têm a obrigação de esclarecer. Trata-se de uma história contada em detalhes pelo ex-senador Delcídio do Amaral, em delação. Segundo ele, a presidente Dilma Rousseff nomeou o desembargador Marcelo Navarro para o Superior Tribunal de Justiça em troca de seu voto em favor da soltura de Marcelo Odebrecht e do presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Azevedo, na época também preso em Curitiba. Navarro teria sido indicado pelo então presidente da corte, Francisco Falcão, que garantia ter o controle da turma que julgaria os pedidos de habeas corpus dos dois empreiteiros. Com Navarro no time, teria dito Falcão, a soltura era certa. Navarro foi nomeado e realmente votou pela libertação. Mas, segundo Delcídio, os outros membros da turma do STJ teriam ficado sabendo do acerto e se rebelado, votando contra. Os empreiteiros continuaram presos, e a Odebrecht passou a considerar seriamente a hipótese de um acordo com o MP. Todos os citados pelo ex-senador negaram o conluio. Ainda assim, nos subterrâneos de Brasília, circularam diversas versões a respeito dos termos e valores do acerto entre Falcão, o governo e a Odebrecht. A delação dos executivos da empreiteira deveria ao menos esclarecer, afinal, se relato tão grave é verdadeiro ou falso. Até agora, porém, reina o silêncio.

Proteger os membros do Judiciário é a estratégia óbvia para uma empresa que tem um futuro repleto de pendências a resolver com a Justiça e contempla o sério risco de entrar em recuperação judicial. Não é razoável, porém, que uma operação com a envergadura e a ambição da Lava Jato aceite esse tipo de omissão.

Os procuradores certamente perceberam o jogo da Odebrecht e deixaram rolar – pelo menos por enquanto. Fizeram um cálculo político, já que o acordo era considerado essencial para a Lava Jato. Nos últimos momentos da negociação, porém, exigiram algo que deixou os advogados da empreiteira de cabelo em pé: todos os documentos relativos a contratos com escritórios de advocacia feitos pela Odebrecht enquanto durou o esquema de corrupção deveriam ser entregues ao MP – o que só foi feito depois de alguma hesitação. Os investigadores esperam poder identificar, nesses pagamentos, evidências de propinas pagas a juízes por meio de parentes e prepostos. Sabem que, uma vez fechado um acordo, todos estão sujeitos a serem chamados para complementar suas confissões. Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa já estão na fila – esta dificilmente escapará de revelar como conseguiu sepultar, na Justiça, a Operação Castelo de Areia, que apurava um esquema de corrupção semelhante ao descoberto agora. Espera-se que a Odebrecht não seja exceção, e que a caixa-preta do Judiciário venha a ser aberta em breve. Mas essa, a Lava Jato ainda está devendo.

Malu Gaspar (siga @malugaspar no Twitter)

Malu Gaspar, repórter da piauí, é autora do livro Tudo ou Nada: Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X, da Editora Record

Leia também

Últimas Mais Lidas

A sua melhor tradução

Um glossário para entender a fala dos morros cariocas, segundo a prosa do escritor Geovani Martins

O Processo – observação em crise

Como todo observador intransigente, diretora Maria Augusta mais constata do que revela no documentário sobre o impeachment de Rousseff

Lula pode estar na cadeia e na urna ao mesmo tempo?

A rara combinação de chances que permitiria uma candidatura do ex-presidente conduzida de dentro da prisão

Febre cede, mas epidemia ainda mata

Desinformação e corte de verbas sustentam mortes por febre amarela; busca pela doença no Google cai 80%

Incomum, decisão pró-Bretas envolveu falha judiciária

Ao menos 19 juízes não conseguiram da Justiça duplo auxílio-moradia; AGU levou 29 meses para recorrer de sentença a favor de Bretas

A Melhor Escolha – jornada para redimir o passado

Filme de Richard Linklater tenta repetir fórmula de outros longas do cineasta, mas falha do ponto de vista comercial e artístico

Rabino pede desculpas por participar de ato ecumênico no ABC

Em vídeo, Alexandre Leone disse que participação em evento inter-religioso em favor de Lula foi “desacertada”

Intervenção no Rio cancela missão militar do Brasil na África

Governo Temer havia se comprometido a enviar 1 mil soldados à República Centro-Africana, mas desistiu

O dia em que a história não aconteceu

A sexta-feira se anunciava como o dia em que Lula seria preso, faria um discurso histórico ou fugiria: no fim, nem recorde de curiosidade bateu

Noite em claro no sindicato

Melancolia e euforia durante a vigília nos Metalúrgicos do ABC contra prisão de Lula

Mais textos