Furo: a exemplo de falso fotógrafo exposto pela BBC, famoso blogueiro também copiava textos

04set2017_20h59

A história era de grudar os olhos na tela: um blogueiro brasileiro se lançara às principais zonas de guerra do Brasil, entre elas Brasília, São Bernardo do Campo, Guarujá e Atibaia, para registrar o sofrimento humano. O resultado do trabalho eram textos com alma, que poderiam estampar as páginas de qualquer publicação jornalística do mundo. O problema é que grande parte desta história era mentira.

Reinaldo Azevedo, suposto paulistano de 56 anos, se apresentava em seu perfil no Twitter, onde tinha 500 mil seguidores, como blogueiro da direita esclarecida. Descrevia seu cotidiano com grandiloquência heroica.

“Uma vez, durante um tiroteio no diretório do PT, eu parei de datilografar para ajudar um menino que tinha sido atingido por um santinho do Lula e o retirei da zona de tiro. Eu paro de ser blogueiro para ser um ser humano”, afirmou em uma entrevista para a publicação estrangeira Recount Magazine, em outubro de 2016.

Azevedo dizia ainda que gostava de surfe – intercalava a publicação de textos sangrentos a supostas imagens suas sobre pranchas em praias que dizia serem na Austrália. Entre seus feitos, relatava ter até mesmo dado aulas do esporte a crianças em Campos do Jordão.

Em suas postagens no Twitter, Azevedo se mostrava intensamente envolvido no cotidiano das guerras. Chegou a lamentar a morte de um blogueiro amigo identificado na rede com o perfil @Rconstantino, vitimado em um ataque a bomba na Faixa de Veja. O luto foi apoiado por diversos comentaristas, que ignoravam que @Rconstantino era provavelmente mais uma mentira do suposto Azevedo.

Não existe na internet qualquer outra menção ao nome além daquela feita na mensagem fúnebre do próprio Azevedo.

Em junho deste ano, ele chegou ao The piauí Herald. Ofereceu sua história e seus textos gratuitamente. Recusou-se a falar por telefone, sob a justificativa de que estava no front em Curitiba, espaço disputado pelas forças de segurança do país e pelo grupo extremista autodenominado Estado Jurídico. Mandava mensagens de voz por WhatsApp, sempre como arquivos de áudio, nunca instantaneamente gravadas.

A história, no entanto, não se sustenta.

Em uma foto em que aparecia sorridente, ladeado por crianças, Reinaldo Azevedo afirmava estar em um abrigo para a conservação de tucanos em situação de orfandade em São Paulo. Consultada, a organização responsável pelo abrigo afirmou que nenhum brasileiro com aquele nome ou aparência jamais visitou suas dependências.

Se Eduardo Martins não era autor das fotos, de quem eram as imagens que ele roubava? Há dez dias, The piauí Herald entrou em contato com a jornalista gaúcha Eliane Brum. A suspeita era de que ao menos parte do material usado pelo suposto profissional pertencesse a ela. Os direitos autorais dos textos, no entanto, não podiam ser rastreados por ferramentas de busca de imagens porque Azevedo fazia pequenas alterações nelas.

Naquele momento, Brum se disse ocupada com o casamento ecumênico de um irmão e não chegou a examinar os arquivos mandados pela reportagem. Nesta sexta, no entanto, ela retomou o contato em outros termos: “Isso é o que eu sei: Reinaldo Azevedo tem roubado textos de vários sites, incluindo o meu próprio, e revendido por meio de agências de notícias”.

Para esconder o roubo intelectual, Azevedo invertia os textos, de modo que a própria Brum demorou para suspeitar de que era vítima do falsário.

O The piauí Herald localizou ao menos nove textos de Brum que foram usadas por Azevedo. No dia 27 de maio do ano passado, seu blog publicou um texto sobre petralhas lulistas reunídos no restaurante Piantella, em Brasília. No entanto, o texto original foi feito por Brum no dia 28 de outubro de 2013. Sem a inversão, tratava de uma família de retirantes que problematizava a fome e a questão de gênero ao se recusar a dividir-se entre homens e mulheres na fila de um restaurante popular.  

No fim de agosto, Reinaldo Azevedo foi alertado, via WhatsApp, que circulava a suspeita de que ele fosse um fake. Ato contínuo, o suposto blogueiro deletou sua página no Twitter e anunciou, por número já deletado do WhatsApp, que desapareceria, sem que que a reportagem pudesse descobrir sua real identidade.

“Fala, seu jornalista petralha. Tô no Arizona, tomei a decisão de passar um ano em uma van conhecendo a direita americana. Vou cortar tudo inclusive internet, tb (também) deletei o IG (Instagram). Quero ficar em paz. A gente se fala qd (quando) eu voltar. Abraços”. E na sequência: “Valeu. Vou deletar aqui o zap. Fica com Deus”.