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Incerteza é a única coisa certa na eleição

Entre eleitores “nem nem” e eventuais órfãos da candidatura Lula, quase dois terços ainda podem mudar seu voto

José Roberto de Toledo
05fev2018_19h50

Amaneira mais rápida de compreender o tamanho da incerteza que domina a disputa presidencial em curso é visualmente. O gráfico tipo candelabro que ilustra este texto resume todos os nove cenários testados pelo Datafolha na sua pesquisa sobre o primeiro turno. Cada candidato é uma vela: quanto mais alta, maior sua intenção de voto; quanto mais curta, maior a consistência de seu eleitor. A existência de velas muito longas é sinal de grande incerteza – por implicarem que mudanças no cenário eleitoral provocam alterações profundas no comportamento do eleitorado.

A candidatura de Lula é a primeira vela à esquerda. Além de ocupar uma posição bem mais alta do que as outras, é uma das mais curtas. Isso significa que pouco importa quem sejam seus adversários, sua intenção de voto quase não varia: vai de 34% a 37%. Na média ponderada de cinco cenários, fica em 35%. Isso indicaria presença certa no segundo turno, não estivesse sua candidatura sob risco crescente de ser apagada pela Justiça Eleitoral. Essa pequena vela determina o tamanho e a posição de todas as demais.

A maior vela do gráfico está na ponta oposta à do ex-presidente e representa eleitores sem candidato. É a segunda mais alta do candelabro porque até 32% do eleitorado diz que votaria em branco, anularia ou não saberia em quem votar quando Lula sai da lista. Se o petista reaparece, esses eleitores desiludidos caem para até 12%, tornando esta vela a mais longa e bruxuleante de todas. Seu brilho intermitente ofusca a maioria das análises sobre o significado da mais recente pesquisa Datafolha.

Grosso modo, 20% dos aptos a votar em 7 de outubro ficam sem candidato quando o nome de Lula não aparece entre as opções. Outros 15% migram de cara para algum dos outros candidatos. Mas 20% não. Demorarão mais a se decidir, mas decidirão. A julgar pelas duas eleições presidenciais de que Lula participou como cabo eleitoral, a grande maioria desses 20% vai votar em alguém. Se será num petista, dependerá do sucesso da tática usada pelo PT para substituir Lula na urna eletrônica.

Se for eficaz, Jaques Wagner (ou outro petista, como Fernando Haddad) tenderá a crescer e disputar uma vaga no segundo turno. O baiano tem 2%. No limite, poderia chegar a 22%, que é mais do que Jair Bolsonaro tem hoje quando Lula não é candidato.

Mas e se a tática petista – de insistir com Lula até a undécima hora e, por tabela, ocultar seu potencial substituto – não funcionar? Nesse caso, esses 20% tendem a se dispersar. Hoje, Marina Silva, da Rede, e Ciro Gomes, do PDT, são os nomes com maior potencial de herdarem parte desses eleitores. Isso também fica demonstrado no gráfico, pois são os dois candidatos que já têm as velas mais longas. A de Marina varia de 7% (com Lula) a 16% (sem Lula). A de Ciro, de 6% (idem) a 13% (ibidem).

Medindo de outra maneira: sem Lula, as intenções de voto em Ciro aumentam 78%, em média; e em Marina, 74%, também em média. Nenhum outro candidato a presidente ganha proporcionalmente tanto quanto eles com a saída do petista – com duas exceções. Fernando Collor, do PTC, vê sua taxa aumentar 72%; e Manuela D’Ávila, do PCdo B, mais do que dobra (108% de crescimento). Mas como ambos partem de apenas 1%, suas velas continuam curtas.

A possibilidade de dispersão do eleitorado lulista vem somar-se aos 43% de eleitores “nem nem” – que não votam nem em Lula nem em Bolsonaro – revelados pela piauí, a partir de pesquisa Ibope. Juntos, produzem um grau de incerteza inédito em eleições presidenciais desde o fim da ditadura militar. É como se quase dois terços do eleitorado estivesse oscilando para lá e para cá, como a chama fraca de uma vela exposta ao vento. Daí que se possa fazer raras afirmações peremptórias sobre esta eleição.

Uma das poucas, derivadas da pesquisa Datafolha, é que Lula e Bolsonaro pararam de crescer. Ambos bateram em limites de resistência. Não são tetos de concreto – podem, dependendo do esforço, ser empurrados. Mas o fato de os líderes de intenção de voto não terem crescido e, no caso de Bolsonaro, até oscilado negativamente, indica que ambos esgotaram o manancial de eleitores que precisavam apenas saber que eles estão candidatos para declararem voto em um ou em outro. Para furar esse patamar, ambos precisarão buscar outro tipo de eleitor, mais de centro.

Em dois meses, a média ponderada de Lula nos cinco cenários em que aparece oscilou de 36% para 35%. Bolsonaro aparece nos nove cenários pesquisados pelo Datafolha. Do fim de novembro ao fim de janeiro, sua média ponderada variou de 19% para 18%. No caso de Lula, os limites superior (37%) e inferior (34%) não se alteraram, mas no de Bolsonaro eles oscilaram dois pontos percentuais para baixo: de 22% para 20%, de 17% para 15%.

Não se deve ver nessa oscilação um sinal de derretimento da candidatura do militar reformado, como muitos políticos e analistas gostam de pensar. Bolsonaro tornou-se o porta-voz de uma porção expressiva da sociedade, que defende o “punitivismo”, o armamentismo e o conservadorismo de costumes. Enquanto for o candidato mais viável para disseminar esses pontos de vista numa campanha, Bolsonaro dificilmente cairá abaixo de 15%.

Esse limiar cria um patamar mínimo para todos os outros candidatos que pretendem chegar ao segundo turno presidencial. Ficar abaixo de 15% é ser, na melhor das hipóteses, o primeiro dos derrotados. Não paga placê. Isso porque nenhum candidato petista a presidente teve menos de 15% dos votos totais no primeiro turno de sete eleições consecutivas. Por pior que seja o momento do PT, ainda é o partido com maior taxa de simpatizantes (20% no Datafolha) e o segundo partido em número de filiados e deputados federais. Logo, 15% é a nota de corte das candidaturas presidenciais que querem ser levadas a sério.

Por enquanto, todos os demais candidatos a candidatos não pensam nisso, mas nos 50% a 60% de eleitores que imaginam estar disponíveis. Por isso tanta gente acha que tem chance de virar presidente, não importa quão baixo apareça na pesquisa. O festival de candidatos nanicos não vai durar até o começo oficial da campanha, porém. A não ser que pretendam promover uma festa canibal, com um comendo as chances do outro de crescer.

Até o momento, só Marina ultrapassa o limiar de 15% estabelecido por Bolsonaro e pelo candidato petista. Mesmo assim, a fundadora da Rede só o faz em um cenário improvável, no qual nem Lula nem Geraldo Alckmin, do PSDB, aparecem na disputa. Ciro só chega perto dos 15% quando nem Lula nem Marina (ou Alckmin) estão na lista de candidatos. Alckmin chega, no máximo, a 11%, e apenas quando nem Lula nem Marina são candidatos a presidente.

Não vale nem a pena gastar bits comentando as chances dos demais, por enquanto. Joaquim Barbosa e Luciano Huck precisam primeiro se filiar a um partido e demonstrar que estão dispostos a encarar todos os senões da vida partidária: as barganhas, os é-dando-que-se-recebe e outras coisinhas mais. João Doria está tão popular quanto seus antecessores no cargo de prefeito. As candidaturas de Rodrigo Maia e Henrique Meirelles são mais singulares do que seu dígito solitário de intenção de voto.

O que se pode concluir do Datafolha é que nunca houve eleição presidencial tão incerta desde a redemocratização. E essa incerteza ainda vai prosperar, à medida que mais candidaturas nanicas e balões de ensaio serão lançados em março para tentar cativar os 43% do eleitorado “nem nem” e sustentar o mito do Macron brasileiro. O balonismo eleitoral só deve começar a refluir em abril, quando os não-filiados e os ocupantes de cargos eletivos serão obrigados a parar de blefar e falar sério.

Mesmo assim, o destino de 20% do eleitorado que é francamente lulista permanecerá incerto e não sabido se, como previsto, novos recursos judiciais conseguirem estender a sobrevida da candidatura de Lula até a disputa entrar na sua reta final.

Se o turfe ainda serve de metáfora nesta corrida presidencial, a dupla de primeiros colocados será formada por, no mínimo, um candidato que vai atropelar nos instantes finais. Se não dois. É páreo para chibatadas, quedas de cavaleiro e uso de Photochart.

José Roberto de Toledo (siga @zerotoledo no Twitter)

Jornalista da piauí, foi repórter e colunista de política na Folha e no Estado de S. Paulo e presidente da Abraji

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