questões estudantis

A intolerância faz escola

Agressão armada a aluno de colégio público de São Paulo expõe falha de segurança e conflito ideológico sendo resolvido à faca

Mônica Manir
31mar2018_15h42
ILUSTRAÇÃO: JOÃO BRIZZI

A matéria foi atualizada às 10h00 do dia 2 de abril.

Um aluno introspectivo armado com um facão improvisado, estudantes em greve e pais alarmados são ingredientes de uma história ainda em andamento, mas que já deixou adolescentes feridos, abriu uma investigação policial e provocou um debate sem fim sobre intolerância, educação e segurança em uma das escolas públicas mais respeitadas de São Paulo. Os nomes dos estudantes foram trocados nesta reportagem para preservá-los.

Manhã de terça-feira, 27 de março, na Escola Estadual Professora Zuleika de Barros M. Ferreira, na Pompeia – um bairro de classe média paulistano. Vestidos de preto, alunos saíram em grupo do prédio de murada escura. Os olhares eram vigilantes: corria o boato de que neonazistas estariam à espreita na redondeza. Um carro da Ronda Escolar estava estacionado sobre a calçada do outro lado da rua, com as portas abertas. Alguns pais tinham se programado para pegar os filhos adolescentes. Garotos que se identificavam como “antifascistas” caminhavam até a esquina com a avenida Pompeia, a 50 metros dali, e voltavam. “Estamos circulando para ver se ele aparece”, explicou Julizza Vieira, ex-aluna da escola.

Julizza se referia a Flavio, aluno do Zuleika que no dia anterior esfaqueara o braço de outro garoto. “Foram perguntar se ele era nazista e ele reagiu mal”, disse a menina à piauí. Após esse dia, não haveria aula na semana. Os estudantes entraram em greve. Na terça, vestidos de preto, foram à escola exigir transparência e atitude da direção. No pátio, cantavam: “Eu não mereço isso, eu não vim pra morrer, eu não vim pra correr risco, eu não mereço isso.

 

O episódio que deflagrou o protesto tinha acontecido no intervalo das aulas. Quem contava era João, de 16 anos, aluno do terceiro ano do ensino médio. Ele disse que, enquanto esperavam o professor, alguns alunos desceram para o extenso pátio de colunas azuis e chão de cimento batido. João tomava água no bebedouro e ainda enxugava o queixo quando viu o amigo Marcos, de 17 anos, segurando o próprio braço, ferido na altura do ombro. Na frente dele, Flavio, de 19 anos, tinha algo que reluzia na mão. Uma lâmina aparecia na cena. O fuzuê se armou.

Logo se juntaram outros garotos, uns quinze. O empurra-empurra contornou os bancos laterais do pátio e se concentrou no extremo oposto dos bebedouros. Flavio ainda tinha em mãos o objeto cortante, descrito como um “facão artesanal” nos autos policiais que viriam a documentar a história. A turma tentava acertá-lo, se esquivando da arma.

Em seguida o inspetor de alunos surgiu no quadro. Ao mesmo tempo que se interpunha entre Flavio e os demais, ia levando o portador da faca para dentro do prédio. Passaram pelo tabuleiro de xadrez pintado no piso, enroscaram-se no corrimão que leva ao andar de cima. A poucos metros da entrada da sala da direção, o grupo afunilou-se. João, que até então era espectador, entrou em cena: na tentativa de dar uma voadora nas costas de Flavio, perdeu o equilíbrio e acabou se chocando com uma janela de vidro. Flavio e Marcos foram conduzidos pelo estreito corredor da diretoria, que leva à sala dos professores. A grade vermelha se fechou atrás deles.

“É um dia que precisa acabar, mas não sei se vou conseguir, está marcado no meu corpo”, disse João à reportagem, segurando o punho enfaixado (o corte provocado pelo vidro quebrado lhe rendera oito pontos). Marcos fora levado para o Pronto-Socorro da Barra Funda numa viatura, na companhia da mãe. Flavio, depois de desarmado pela polícia, seguiu em outra viatura, mas na parte de trás do veículo, sem algemas. Paulo Reinaldo Teixeira, coordenador pedagógico do Zuleika, o acompanhou até o 23º Distrito Policial de Perdizes, onde foi registrado um boletim de ocorrência.

Foi Teixeira quem tomou a palavra na manhã de quarta-feira, 28, no auditório do Zuleika, onde cerca de 120 pais compareceram depois de a escola convocar uma reunião extraordinária. Dizendo basear-se no relatado no boletim de ocorrência, afirmou que a briga começou depois que Marcos quis saber de Flavio se ele era nazista. Ao receber uma confirmação, Marcos disse que “era para ele ficar esperto, porque teria problemas lá fora”. “Flavio se sentiu ameaçado”, afirmou Teixeira, recebendo uma enxovalhada de críticas dos presentes.

Tentando dominar um microfone que insistia em falhar, pais e parentes dos alunos exigiam respostas da vice-diretora (a diretora está de férias), do coordenador pedagógico e de professores que se perfilavam na frente do palco. Gritavam e gesticulavam, alguns deles de pé. Queriam saber como um aluno conseguira entrar armado na escola e cobravam, especialmente, segurança contra os neonazistas. Os garotos não queriam retomar as aulas por medo de serem atacados.

 

Há tempos Flavio é tachado de extremista pelos colegas. Segundo depoimentos de colegas de classe, ele teria desenhado a suástica mais de uma vez em uma das lousas e na própria carteira. A escola alegou à piauí que só tomou conhecimento desses relatos nesta semana. Outras histórias, não confirmadas pela direção, sustentam que Flavio usara uma camiseta com a bandeira dos Estados Confederados – aqueles que defenderam a escravidão na Guerra Civil americana. E que, no Facebook, seguia páginas como Orgulho de Ser Branco e outras que também pregam ódio racial. A reportagem não conseguiu confirmar essas informações.

Flavio é descrito pelos colegas como introspectivo. “Ele nunca falava com ninguém, ficava sempre de cara fechada”, disse Mariana, 16 anos. Iara, também de 16 anos, manifestou simpatia pelo garoto: “Fiquei morrendo de dó, cada um pode ser o que quiser, desde que respeite o outro.” João divergiu: “Racismo não é ideologia, é crime”. João é negro. Marcos, o garoto agredido no braço, é branco como Flavio. Nas redes sociais, circula a informação falsa de que Marcos é negro.

Por telefone, a mãe de Flavio falou com a piauí, fazendo breves comentários e desligando rapidamente. “É tudo falso, ele não é neonazista e nunca foi, o meu filho nem sai de casa”, disse, argumentando que o jovem agiu em legítima defesa. “O menino falou que ia matar ele na saída.” Ela acrescentou que pretende processar sites que divulgaram a história.

Em outubro passado, Flavio foi suspenso por dois dias após ameaçar com faca outro colega por conta de uma desavença depois de um jogo de vôlei. A cena ocorreu fora da escola, mas ainda dentro do perímetro escolar, a 100 metros a partir do portão de entrada. Nesta área, por lei, a responsabilidade pela segurança dos alunos é da instituição. “Os responsáveis foram convocados e buscaram acompanhamento psicológico para o filho”, diz Teixeira. “O que estava dentro da governabilidade da escola, ou seja, medidas disciplinares e pedagógicas, foi feito.”

A mãe de Flavio pediu transferência do filho para outra escola. Ele vai responder por crime de lesão corporal.

 

No Zuleika, estão matriculados 642 alunos no ensino médio. A escola tem notas em português e matemática acima da média da rede estadual segundo o Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp) de 2017. Os alunos reclamam da falta de mestres. Teixeira reconhece o problema: “No momento, duas turmas estão sem professores de geografia e português.”

Apenas 20% da lista de chamada, segundo a vice-diretora Henriete Barcelos Mano, moram na Pompeia. A maioria vem de bairros periféricos como Morro Doce, Perus, Taipas, Pirituba e Jaraguá. Muitos descem do ônibus no Shopping Bourbon ou no Sesc Pompeia e sobem a avenida até o prédio de fachada escura. A caminhada é curta, cerca de 300 a 400 metros, mas o suficiente para eles se sentirem vulneráveis. Por isso, uma das reivindicações mais contundentes durante a reunião com os pais, da qual a piauí participou, foi o reforço do policiamento na região.

Os adultos afirmaram que haviam tirado seus filhos de áreas mais conturbadas para estudar em uma região melhor. Em reportagem publicada pelo jornal espanhol El País no ano passado, o Zuleika aparecia como opção de pais que decidiram migrar os filhos de instituições particulares para públicas. No encontro, as opiniões se dividiram. Houve quem ponderasse sobre a necessidade de uma formação que pregasse valores humanitários para combater a intolerância e a violência; outros pais chegaram até mesmo a questionar a presença no Zuleika de jovens com passagem pela Fundação CASA (instituição para menores infratores ligada ao governo estadual).

Uma das alunas insistiu que a diretoria já havia sido avisada das suásticas de Flavio, mas nada fizera: “Foi pura ‘ignoração’.” A pedagoga Renata de Toledo Sierra, mãe de uma das garotas, enfatizou a necessidade de diálogo: “Essa gestão não sabe gerir os conflitos com esses adolescentes, não sabe ouvir.”

O coordenador pedagógico afirmou que, depois do acontecido em outubro, nenhum outro incidente com Flavio foi comunicado à direção da escola até o embate na segunda-feira. “Compreendo a agressividade manifestada por pais e alunos, o que também é reflexo do momento sociopolítico do país”, disse. “Mas são inaceitáveis tantas acusações, principalmente aquelas vindas de pessoas que não estão presentes para conhecer a realidade da escola.” Ele citou “inúmeras ocasiões” em que os pais foram convidados a participar das instâncias internas de decisões como o conselho de escola e a Associação de Pais e Mestres, mas poucos teriam comparecido. “Isso é reflexo da nossa incipiente participação política na sociedade”, afirmou.

Tony Shigueki Natakani, professor de sociologia, disse estar angustiado com o que ouviu na reunião com os pais. Ele lembrou que, no ano passado, lidara com um aluno do Zuleika que se dizia simpático a ideias do movimento integralista – criado nos anos 30 no Brasil, tinha inspiração fascista e carregava o lema Deus, Pátria e Família.

Colegas de Natakani que trabalham na rede de ensino também dividiram com ele relatos de casos de neonazismo em sala de aula. Eis a razão do projeto Cultura da Paz, que o professor teria proposto no início deste ano a fim de desenvolver posicionamento crítico em relação à intolerância e à agressividade. “Ideologias como o neonazismo crescem no medo”, disse. O professor também quer frequentar o pátio algumas vezes na semana, para ficar mais próximo dos alunos. Ainda não sabia da suástica desenhada em um muro interno da escola, perto de um dos gols da quadra, que continua na parede.

Mônica Manir

Mônica Manir é jornalista.

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