figuras do vale-tudo

Lula, Alckmin e dois canos fumegantes

Tucano atribui ao PT responsabilidade indireta pelos tiros que atingiram a caravana do ex-presidente e confere ao petista o papel de vítima

José Roberto de Toledo
28mar2018_10h37
FOTOS: DANILO VERPA/ ZANONE FRAISSAT_FOLHAPRESS

Fora o solitário 1% de intenção de voto espontânea no Datafolha, até que a corrida presidencial estava bem armada para Geraldo Alckmin. O tucano superara o risco de disputar votos com um antipolítico popular tipo Luciano Huck; o rival Jair Bolsonaro havia sido contido pela onda de opinião pública que se seguiu ao assassinato de Marielle Franco; e o favorito da disputa estava prestes a levar a culpa pelo desmonte da Lava Jato e ainda ter a candidatura cassada pela Justiça Eleitoral. Bastava jogar parado e ganhar por falta de oponente, mas Alckmin arriscou dar um pique. Estabacou-se.

Quatro tiros acertaram dois ônibus da caravana de Luiz Inácio Lula Silva enquanto o petista e sua entourage percorriam estradas paranaenses, na terça-feira. Esses quatro tiros não tiveram a mesma precisão dos que mataram Marielle. Nem talvez a mesma intenção assassina. Acertaram apenas as carrocerias – em lados diferentes e ao mesmo tempo, sugerindo que havia dois atiradores. Para azar deles, num dos ônibus atingidos viajavam repórteres que cobrem a caravana. Por isso, a narrativa prevalente do ataque foi ditada sob o ponto de vista dos alvos, e não de quem só colhe aspas, como sói acontecer no império do jornalismo declaratório.

Assim, os primeiros títulos genéricos e que deixam espaço para dúvida – como “tiros atingem ônibus de caravana de Lula, dizem petistas” – logo viraram afirmações categóricas: “Caravana de Lula sofre ataque a tiros no Paraná.” Havia os estampidos, havia os buracos de bala e havia o depoimento dos próprios repórteres.

Entrevistado sobre o ataque logo antes de assistir à pré-estreia da cinebiografia do bispo Edir Macedo – dono TV Record e da Igreja Universal do Reino de Deus –, Alckmin pareceu ignorar a gravidade de um candidato a presidente da República como ele entrar literalmente na linha de tiro. Atribuiu a culpa aos alvos: “Estão colhendo o que plantaram”, afirmou o tucano sobre os petistas. À repórter Anna Virginia Balloussier, da Folha, acusou o PT de tentar rachar o Brasil. “Acabaram sendo vítimas”, concluiu. Exatamente. Acabaram sendo vítimas. O melhor papel em uma trama eleitoral tão radicalizada quanto a de 2018.

O nome do filme a que Alckmin tinha ido assistir é Nada a Perder. O candidato do PSDB tem pouco a ganhar fazendo uma declaração duplamente desastrada sobre o que a polícia do Paraná (governado pelo tucano Beto Richa) ainda investiga, mas já classifica como tentativa de assassinato. É o contrário de Lula. Ao passar ao papel de vítima – como reconheceu Alckmin –, o petista fica na mesma situação do bispo Macedo na tela. Lula já tinha perdido. Agora, ganhou a chance de recuperar alguma coisa.

Como pode o líder disparado nas pesquisas de intenção de voto (17% na espontânea, e de 34% a 37% nos cenários estimulados pelo Datafolha) não ter nada a perder? Intenção é fumacinha. Lula não pode perder votos que só existiriam se ele conseguisse chegar à urna. Dificilmente chegará. Condenado e sem mais chance de recurso à segunda instância, o ex-presidente caiu no rol dos que a Lei da Ficha Limpa proíbe de disputar eleições. Sua candidatura tem tudo para ser indeferida pelo Tribunal Superior Eleitoral, o TSE. Não só.

Do jeito que o Supremo Tribunal Federal encaminhou a revisão da jurisprudência que determina a prisão imediata dos condenados em segunda instância ficou parecendo que o desmantelamento iminente da Lava Jato é obra de Lula e de mais ninguém.

Presidente do tribunal, Cármen Lúcia pautou o julgamento do habeas corpus em favor do ex-presidente antes da apreciação da ação direta de inconstitucionalidade que pretende derrubar a prisão após a segunda instância. Tivesse sido o inverso, todos os condenados como Lula seriam beneficiados e, juntos, escapariam da cadeia. Mas seria o julgamento de uma ideia e, portanto, despersonalizado. Não teria barba.

Não foi o que aconteceu. Cármen Lúcia não pautou a ação que mudaria a jurisprudência sobre o assunto (prevalecia a estimativa de que, por maioria de 6 a 5, os ministros reverteriam decisão anterior do próprio tribunal). Ao colocar na frente o HC a favor de Lula, o Supremo personificou o julgamento. Se o petista não for preso, quem está na cadeia após condenação em segunda instância será libertado por efeito indireto do habeas corpus que o tribunal vier a conceder a ele. Seria mais um desastre de opinião pública para o PT.

Aí vieram os ataques verbais, depois os ovos, seguidos das pedras e, por fim, as balas. O PT, de acusado, virou acusador. De algoz, vítima. Só falta o Supremo não conceder o habeas corpus e Lula ir parar na cadeia. Seria o fecho de ouro para o processo de vitimização. Nesse cenário, se Alckmin não mudar seu discurso sobre o ataque, correrá risco crescente de seguir patinando e virar uma espécie de candidato a vice de Bolsonaro.

José Roberto de Toledo (siga @zerotoledo no Twitter)

Jornalista da piauí, foi repórter e colunista de política na Folha e no Estado de S. Paulo e presidente da Abraji

Leia também

Relacionadas Últimas

A “precaríssima” situação de Lula e do Supremo

Como o tribunal deu salvo-conduto provisório ao ex-presidente para adiar a resolução de um impasse entre seus ministros

PSB veta apoio a Alckmin

Resolução contra tucanos aprovada pelo partido aposta em Joaquim Barbosa, mas deixa brecha para Ciro Gomes

Maria vai com as outras #5: Não me chamo mãe

Uma cozinheira e uma professora de química contam como a maternidade afetou suas escolhas profissionais

O amigo oculto de Temer

Dono de empreiteira é apontado nas investigações como operador do ex-presidente

Um infográfico interativo sobre a avaliação do governo Bolsonaro

Clique nas setas para selecionar um grupo específico e conhecer os números

A vingança da Lava Jato

Após contra-ataque do Supremo, operação responde com prisão de Temer e recado a tribunal

Foro de Teresina extra: A prisão de Michel Temer

Podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Foro de Teresina #43: Viagem à Trumplândia e o troca-troca pela Previdência

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Aposta de alto risco

Bolsonaro deposita todas as fichas em “relação monogâmica” com Trump, com implicações para a autonomia do Brasil; cabe às alas mais moderadas do governo tentar reduzir danos dessa decisão

Bolsonaro desce a ladeira

Presidente perdeu 15 pontos de popularidade desde janeiro; segundo o Ibope, novo governo só tem 34% de ótimo e bom

Trilogia do Luto – filme como instrumento de vingança

Cristiano Burlan expõe memórias, culpa e busca por justiça no terceiro documentário sobre mortes na família

Mais textos
1

A metástase

O assassinato de Marielle Franco e o avanço das milícias no Rio

2

Bolsonaro desce a ladeira

Presidente perdeu 15 pontos de popularidade desde janeiro; segundo o Ibope, novo governo só tem 34% de ótimo e bom

3

Foro de Teresina extra: A prisão de Michel Temer

Podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

4

Brutalidade que os laudos não contam

Na reconstituição da ação policial mais letal da década no Rio de Janeiro, vísceras à mostra e suspeitas de tortura

5

Minhas casas, minha vida

Patrimônio imobiliário da família Temer cresce quase cinco vezes em vinte anos e chega a 33 milhões de reais

7

Aposta de alto risco

Bolsonaro deposita todas as fichas em “relação monogâmica” com Trump, com implicações para a autonomia do Brasil; cabe às alas mais moderadas do governo tentar reduzir danos dessa decisão

8

A vingança da Lava Jato

Após contra-ataque do Supremo, operação responde com prisão de Temer e recado a tribunal

9

Bolsonaro fala outra língua

O ex-capitão é o único presidenciável da era da conectividade

10

A cara do PMDB

Quem é, de onde veio e o que quer o chefe do maior partido brasileiro e candidato a vice-presidente de Dilma Rousseff