A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

João Doria, prefeito de São Paulo. Foto: Reprodução
João Doria, prefeito de São Paulo. Foto: Reprodução

Doria: o gestor que quer ser prefeito, mas nega ser político

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
01.out.2016 | 10h30 |

Por Lucas Ferraz

Em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto para a Prefeitura de São Paulo, o candidato João Doria Jr. (PSDB) disputa a primeira eleição de sua vida fazendo força para ser visto como “um gestor e um empresário”. Isso, no entanto, não o tem impedido de repetir, ao longo da campanha, as velhas e conhecidas contradições do mundo político do qual tanto quer se distanciar.

Apresentador de TV, publicitário e jornalista, Doria entrou na disputa pela administração da capital paulista com o apoio do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o principal fiador de sua candidatura. Mas o movimento acabou fragmentando o PSDB paulista. De um lado, ficaram os que seguiram firme, apoiando Doria e Alckmin. Do outro, estão aqueles que chegam a pregar voto contra eles.

“Não sou político, volto a afirmar isso”, tem repetido Doria. “Sou um administrador, um gestor”.

No último domingo (25), no debate da TV Record, não foi diferente. O candidato Major Olímpio (SD) questionou Doria sobre a aliança de 13 partidos que o lançou na corrida pela prefeitura. Citou as acusações de que o governador de São Paulo teria cedido secretarias e cargos a outros partidos com atuação na cidade em troca de apoio político a candidatura do empresário e, por fim, perguntou se o tucano achava que a prática havia sido “ética e moral”.

Visivelmente irritado, Doria alçou a voz e pediu respeito aos políticos. Incluiu-se – quase que por um deslize – no grande clube do qual não pretende fazer parte:

“Você, nesse momento, é nosso adversário aqui e é tratado com todo respeito…. Seja respeitoso com a classe política e com aqueles que lhe tratam com respeito. O governo de São Paulo lhe trata de forma respeitosa. Você deve tratar de forma respeitosa o governador e aqueles que lhe acolhem, inclusive o presidente de seu partido, Paulinho da Força [que integra a base do governo Alckmin]”.

Por meio de sua assessoria de imprensa, Doria diz que está na política porque quer “trabalhar pela cidade com sua experiência de gestor”.

Mas, na Record, ainda em torno das alianças de campanha, o tucano foi direto. Defendeu a coligação com unhas e dentes, repetindo um discurso visto e revisto em muitas outras partes do país:

“(A coligação) É uma demonstração clara de ação republicana. Não de partilha. Não fizemos partilha de nenhuma natureza. Temos muito orgulho de ter composto um arco de alianças com 12 partidos, 13 com o PSDB. Nada foi feito de irregular. Ela é boa para a cidade”.

Porém tramita na Justiça Eleitoral um pedido de abertura de investigação apresentado pelo Ministério Público por suposto abuso de poder de Alckmin. Ao se esforçar para ter Doria na disputa eleitoral do ano, teria oferecido cargos no governo. O curioso é que o MP se posicionou desta forma, tomando por base uma representação apresentada pelo senador tucano José Aníbal e pelo vice-presidente do PSDB, Alberto Goldman, que não anda nada contente com a dupla Doria-Alckmin. Essa espécie de fogo-ex-amigo chamou a atenção e para na imprensa. Há registros do caso tanto em O Estado de S. Paulo quanto na Folha de S. Paulo.

Mas Doria, o candidato que não quer ser político, nega que haja um racha em sua sigla. Na sabatina do jornal El País/TV Brasil, foi enxuto, como muitos outros antes dele em situações semelhantes:

“Não tem crise, não”.

DE OLHO

Acontece que Andrea Matarazzo, nome de força do PSDB de São Paulo, deixou a legenda recentemente chamando Doria de “piada pronta”. Filiou-se ao PSD e se tornou o vice na chapa de Marta Suplicy (PMDB).

O ex-governador e hoje ministro das Relações Exteriores José Serra (PSDB) chegou a declarar que “não sabia” nem que Doria era filiado a seu partido, apontando uma espécie de irrelevância política dele.

No último dia 24, um terço dos membros da cúpula do PSDB de São Paulo abdicou dos cargos na executiva municipal, num boicote a Doria. E, por fim, está Goldman, que tem usado seu site para descrever o candidato tucano como um oportunista que não tem preparo para administrar São Paulo:

“Quem é esse personagem que se apresenta como ‘o novo’ como se isso, por si só, fosse uma virtude? Vou mostrar que usa métodos velhos, que tem sido a marca de atuação de grande parte dos candidatos em nosso país, e o faço através de seu histórico público e privado e de suas declarações”.

Prática comum entre os políticos tradicionais, Doria também tem inflado dados de sua biografia. Em seu site, apresenta-se como secretário de Turismo da Prefeitura de São Paulo entre os anos de 1983 e 1986. Mas a informação não é de todo precisa. Segundo Lei de Acesso à Informação obtida junto à prefeitura, o cargo só foi oficialmente criado na cidade de São Paulo há três anos. O tucano, na verdade, presidiu a São Paulo Turismo, que tinha funções e atribuições semelhantes.

Questionado sobre essa informação, Doria manteve-se firme. Diz que, sim, foi secretário de Turismo da cidade de São Paulo. Confira a nota completa.

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo