A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Oficina da Lupa checa verbetes de Fernando Haddad e Eduardo Paes na Wikipédia

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
08.out.2016 | 15h35 |

Na primeira edição da Oficina de Fact-checking da Agência Lupa, evento feito em parceria com a Wiki Educação Brasil, 16 universitários checam os verbetes sobre os prefeitos Fernando Haddad (São Paulo) e Eduardo Paes (Rio de Janeiro) na Wikipédia.

A oficina acontece em São Paulo, durante o Festival piauí GloboNews de Jornalismo, que, neste ano, tem como tema o poder e a política.  Acompanhe a cobertura no Twitter, seguindo o @agencialupa e a hashtag #OficinaLupa.

Abaixo você acompanha a evolução do trabalho.

FERNANDO HADDAD

Por Maryanna Nascimento

Consta no verbete da Wikipédia que o prefeito de São Paulo tinha uma meta de ampliar a malha cicloviária em seu primeiro mandato:

“Até o fim da gestão Haddad, mais 400 km de malha cicloviária na capital”

VERDADEIRO, MAS

Segundo o site PlanejaSampa, que reúne metas da Prefeitura de São Paulo, o objetivo de Fernando Haddad em seu primeiro mandato era realmente construir 400 quilômetros de ciclovias. No entanto, até 31 de agosto de 2016, tinha inaugurado 354,1 km.

Sobre o mesmo assunto, o verbete ainda informa que:

“Em abril de 2016 a marca dos 400 km de ciclovias foi superada”

FALSO

Detalhamento sobre o avanço mensal da meta aparece no site PlanejaSampa. Somando todas as entregas mensais da gestão Haddad, conclui-se que, até abril de 2016, o prefeito havia inaugurado 313,7 quilômetros de “vias cicláveis”.

Vale ressaltar, no entanto, que somando esse total ao das gestões municipais anteriores, é possível dizer que a cidade de São Paulo passou de 400 quilômetros de “vias cicláveis”. De acordo com a própria prefeitura, Haddad assumiu a cidade com “64,7 km de ciclovias e 31,9 km de ciclorrotas”.


Por Marina Milhomem

No tópico referente à campanha de 2012, o verbete da Wikipédia informa que:

“No dia 18 de junho de 2012, o PT (de Haddad) formalizou aliança municipal com o PP…”

VERDADEIRO

Em vídeo disponível no canal TV UOL, é possível ver o encontro entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o então candidato a prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) e o presidente estadual do Partido Progressita (PP) à época, Paulo Maluf. No encontro, os três oficializaram a aliança tendo em vista a disputa municipal daquele ano. A reunião ocorreu na casa de Maluf e aconteceu no dia 18 de junho de 2012.


Por Renan Barbosa

No tópico referente às eleições de 2012, o verbete informa que:

“Em 7 de outubro (Haddad) recebeu 1.776.317 votos válidos, ficando em segundo lugar com 28,98%, atrás de José Serra (PSDB)”

e que:

“Na votação do dia 28 de outubro, Fernando Haddad foi eleito prefeito de São Paulo, com 3.387.720 votos (55,57% dos votos válidos)”

VERDADEIRO

Em consulta ao site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na seção sobre dados das eleições anteriores, é possível confirmar a informação sobre o primeiro e o segundo turnos. Vale ressaltar que Fernando Haddad, no segundo pleito de São Paulo naquele ano, recebeu 3.387.720 de votos “válidos” – e não apenas votos.


Por Isabelle Resende

No tópico sobre mobilidade urbana, consta a seguinte informação:

“Em dezembro de 2015, o site especializado em arquitetura ArchDaily classificou o projeto de mobilidade urbana do governo Haddad como ‘inspirador'”

VERDADEIRO

No dia 17 de dezembro, o site da revista digital ArchDaily publicou, em sua versão em português, uma lista de “líderes, projetos e personalidades mais inspiradores da arquitetura em 2015”. O projeto de mobilidade urbana implementado durante o governo Haddad, em especial, a criação de uma rede de ciclovias, de faixas exclusivas para ônibus e a abertura da Avenida Paulista para pedestres aos domingos, foi realmente um dos selecionados na categoria Comprometimento Urbano.


Por Tiago Aguiar

Na seção referente à política estudantil, a Wikipédia informa que:

“Fernando apoiou a nova chapa que concorria ao centro acadêmico, ironicamente chamada The Pravda”

e que

Com a vitória, tornou-se em 1984 presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto”

VERDADEIRO, MAS

Perfil publicado na revista piauí em outubro de 2011, confirma a informação. Fernando Haddad não apenas apoiou a chapa, mas tornou-se tesoureiro da gestão de 1984. Além disso, segundo documento da Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, disponível no site Migalhas, Haddad foi presidente da gestão do Centro Acadêmico XI de Agosto de 1985. 


Por Victor Hugo Silva

No tópico referente à distribuição de livros didáticos, o verbete afirma que:

“Durante sua gestão (de Haddad), o Programa Nacional de Livros Didáticos (PNLD) distribuiu mais de 700 milhões de livros gratuitos para estudantes do ensino fundamental e ensino médio”

INSUSTENTÁVEL

O balanço referente à quantidade de exemplares adquiridos pelo programa é feito anualmente, mas Fernando Haddad tomou posse como Ministro da Educação em 29 de julho de 2005 e deixou o cargo em 24 de janeiro de 2012.  Não há, no site do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), dados relacionados às datas das aquisições. O órgão é vinculado ao Ministério da Educação e responsável pelo programa de distribuição de livros. Considerando apenas os anos completos da gestão de Haddad, entre 2006 e 2011, é possível garantir que o PNLD adquiriu 644.676.653 livros para os ensinos fundamental e médio.


Por Raphael Concli

Na seção sobre o governo federal, consta a seguinte frase:

“Ainda em 2007, (Haddad) instituiu o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que passa a medir a qualidade do ensino fundamental e médio”

VERDADEIRO

O Ideb é parte do Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação instituído em 2007 no segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, quando Haddad era ministro da Educação. Concebido pelo Inep, autarquia ligada ao Ministério da Educação, o Ideb foi construído a partir de dados que já eram coletados anteriormente: a aprovação escolar, extraída do Censo Escolar, e as médias de desempenho das provas Brasil e Saeb. Em sua primeira divulgação, revelou notas referentes ao ano de 2005.


Por Amanda Prado

Na seção sobre mobilidade urbana, o verbete destaca que:

“Até setembro de 2014, a gestão Haddad já havia licitado 97 km para construção de corredores de ônibus, sendo 37 km já em execução”

DE OLHO

Segundo o site PlanejaSampa, que reúne as metas da prefeitura de São Paulo na gestão Haddad, a meta era construir 150 quilômetros de novos corredores de ônibus até o fim da gestão. Até 1 de setembro de 2016, haviam sido “construídos ou requalificados 42,3 km”

No mesmo tópico, consta a informação de que Haddad superou:

“A meta das faixas exclusivas, tendo implementado mais de 200 km delas na cidade”

VERDADEIRO

De acordo com o PlanejaSampa, a Secretaria Municipal de Transportes implantou 423,3 quilômetros de faixas exclusivas à direita no viário destinadas ao transporte coletivo. Somados aos 90 quilômetros já existentes, a cidade passou a contar com 513,3 quilômetros de trajetos específicos para os ônibus. A meta era fazer 150 quilômetros.


 EDUARDO PAES

Por Matheus Pimentel

Na seção sobre a atividade parlamentar de Eduardo Paes na Câmara dos Deputados, o verbete da Wikipédia atribuiu ao atual prefeito do Rio a autoria de uma emenda a uma lei que versa sobre o ProUni:

“Durante seu segundo mandato (de Paes), o então deputado acrescentou à Lei 11.128 uma emenda que estendia o direito de requerer a bolsa do Programa Universidade para Todos (ProUni), beneficiando os estudantes que cursaram o ensino médio em instituições privadas com bolsa parcial. A lei foi aprovada em 12 de maio de 2005.”

VERDADEIRO, MAS

A Lei 11.128 de fato trata do ProUni. Ela é originária da Medida Provisória 235/2005. No site da Câmara, há dois registros de emendas de autoria de Paes: aqui e aqui.

O site da Câmara Notícias informa que a aprovação da Lei 11.128 no plenário realmente ocorreu em 12 de maio de 2005, incluindo a emenda proposta por Eduardo Paes. Nela, os estudantes que cursaram o ensino médio em instituições privadas com bolsa parcial também passariam a poder requerer o benefício do ProUni, assim como estudantes de escola particular com bolsa integral ou de escola pública.

No entanto, o então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, vetou o artigo 2º da Lei 11.128, citando como justificativa do veto precisamente a inclusão de bolsistas parciais no projeto.  Na justificativa do veto, é dito que incluir no programa os estudantes com bolsa parcial configuraria um “desvirtuamento do enfoque do ProUni, que é um programa de concessão de bolsas, visando garantir acesso ao ensino superior para um público bastante determinado: o estudante de baixa renda que, de outra forma, não chegaria a cursar o ensino superior. Esse é o foco do ProUni. Presumir que o bolsista parcial do ensino médio faz parte desse mesmo público é absolutamente falacioso”.

O veto permanece até hoje, outubro de 2016. Na página do ProUni no site do Ministério da Educação, está esclarecido que estudantes do ensino médio privado com bolsa parcial não podem concorrer aos benefícios do programa.


Por Felipe Saturnino

Consta no perfil do prefeito do Rio no Wikipédia que no primeiro dia de seu mandato em 2009:

“Eduardo Paes revogou o decreto 28.878, que instituía o sistema de aprovação automática na rede municipal de ensino.”

VERDADEIRO

Segundo o site de Decretos Municipais do Rio de Janeiro, em 1.º de janeiro de 2009, data de sua posse como prefeito, Eduardo Paes publicou o decreto 30.340, que rescinde a aprovação automática nos âmbitos da rede de pública de ensino municipal. A publicação revogou o decreto 28.878  do governo Cesar Maia, que permitia a progressão automática no sistema de avaliação dos alunos.


Por Raquel Soto Raffaelli

Na biografia de Eduardo Paes no Wikipédia também está a informação de que:

“Nas eleições municipais de 2008 foi eleito vereador pelo Partido da Frente Liberal”

FALSO

De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a informação publicada está incorreta. O prefeito Eduardo Paes venceu as eleições municipais de 2008 para prefeito do Rio com 50,83% dos votos válidos. Nesse período, o político já estava no PMDB. Portanto, não poderia ter sido eleito como vereador.


Por Lucas Alves

No perfil do prefeito Eduardo Paes no Wikipédia não há menções sobre sua participação na disputa eleitoral em outubro de 2016.

Participação nas eleições municipais do Rio de Janeiro de 2016

DE OLHO

No entanto,  o prefeito Eduardo Paes teve importante papel na corrida por sua sucessão.  Ele apoiou o candidato do PMDB, Pedro Paulo Carvalho, para a prefeitura do Rio. O candidato ficou em 3º lugar no primeiro turno e obteve 16,12% dos votos válidos, perdendo para Marcelo Crivella (PRB) e Marcelo Freixo (PSOL), que foram ao segundo turno. O apoio do prefeito pode ser verificado aqui, aqui e aqui.


Por Paulo André Silveira Júnior

Na seção biográfica, o verbete informa que Eduardo Paes:

“É um advogado”

FALSO

Embora ele seja formado em direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Paes não tem registro disponível para consultam nem na OAB-RJ nem no Cadastro Nacional de Advogados, que reúne todos os registros profissionais da classe no país. A profissão de advogado só pode ser exercida no Brasil mediante inscrição na Ordem dos Advogados (OAB).


Por Plínio Luís Pereira Lopes

No verbete da Wikipedia sobre Eduardo Paes, consta que ele foi nomeado Secretário Municipal do Meio Ambiente em 2001:

‘’Com a segunda eleição de Maia em 2000, foi nomeado Secretário Municipal do Meio Ambiente da administração carioca a partir do início do mandato em 2001.’’

VERDADEIRO, MAS

César Maia foi eleito pela segunda vez para a prefeitura do Rio de Janeiro em 2000. No site da Câmara dos Deputados consta que Eduardo Paes se licenciou do mandato de deputado federal para assumir o cargo de Secretário do Meio Ambiente do Rio de Janeiro no período de 1º de janeiro a 12 de fevereiro de 2001, e de 16 de fevereiro de 2001 a 3 de abril de 2002.

Porém, a Lupa verificou que no site da Prefeitura do Rio de Janeiro e no perfil do Linkedin de Eduardo Paes, a informação está incorreta. Em ambos os casos, consta que ele foi Secretário do Meio Ambiente do Rio de Janeiro desde 2000.


Por Letícia Lopes Oliveira

No verbete da Wikipédia de Eduardo Paes consta a seguinte informação sobre sua candidatura à prefeitura do Rio em 2008:

“Em outubro de 2007, Eduardo Paes é lançado pelo PMDB como candidato à prefeitura do Rio.”

EXAGERADO

Segundo a lei 9.504, que vigorava à época da candidatura de Paes, em seu artigo oitavo, “a escolha dos candidatos pelos partidos e deliberação sobre coligações deverão ser feitas do período de 10 a 30 de junho do ano em que se realizarem as eleições.”

A convenção do PMDB para as eleições municiais de 2008 foi registrada pela Folha de S. Paulo e pela Agência Brasil. O encontro decisivo aconteceu no dia 22 de junho de 2008. Portanto, em outubro de 2007, Eduardo Paes era um dos pré-candidatos do PMDB à prefeitura. No dia da convenção ele disputou a vaga  por meio de prévias com os colegas do partido Marcelo Itagiba e Jorge Coutinho. Paes venceu a disputa interna com 136 votos.


Por William Boessio

No verbete da Wikipédia, consta que, em 2008, foi eleito pelo PFL:

“…com apoio de seu amado filho Fernando Paes de Carvalho…”

FALSO

Eduardo Paes tem dois filhos: Bernardo e Isabela Paes, conforme informa em sua página do Facebook.

O mesmo artigo fala sobre a obra de duplicação do Elevado do Joá, realizada na gestão de Paes como prefeito. O verbete informa que:

“A obra visa aumentar 35% a capacidade de tráfego na região”

EXAGERADO

Em publicação feita em janeiro de 2015 no site da Prefeitura do Rio de Janeiro indicava que, após a conclusão das obras, o Elevado do Joá proporcionaria um aumento de 35% na capacidade de escoamento de tráfego no trecho Lagoa-Barra. Porém, em postagem sobre a inauguração da obra, em maio de 2016, o site da prefeitura passou a dizer que a obra aumentaria a capacidade de tráfego no trecho em 30%.


SERVIÇO:

MARATONA DE CHECAGENS LUPA E WIKIPÉDIA

Quando: dias 7, 8 e 9 de outubro (sexta, sábado e domingo, durante o Festival Piauí GloboNews de Jornalismo)

Onde: No Colégio Dante Alighieri, em São Paulo (SP)

O quê: Workshop de fact-checking e edição, dividido em três dias. Na sexta-feira, apresentação da metodologia da Lupa e do passo a passo de edição na Wikipédia. No sábado e no domingo, workshop para checar, editar e melhorar verbetes relacionados a poder e política.

Com quem: Equipe de jornalistas da Agência Lupa e colaboradores Grupo Wiki Educação Brasil.

Apoio: Revista piauí, Abraji, Twitter, Grupo Wiki Educação Brasil, Google e Colégio Dante Alighieri.

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
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