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Reprodução do videoclipe
Reprodução do videoclipe

20 anos sem Renato Russo: o Brasil está mais perto ou mais longe da ‘Perfeição’?

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
09.out.2016 | 00h05 |

Em 1993, o grupo Legião Urbana levou às paradas de sucesso uma música que atacava as mazelas de um Brasil recém-saído de um processo de impeachment. Na voz de Renato Russo, cuja morte completa 20 anos na terça-feira (11), “Perfeição” elencava feridas históricas. Entre outros temas, a letra falava da alta criminalidade, dos índices de mortalidade infantil, da baixa frequência escolar e estupros. O videoclipe da canção foi eleito o melhor do milênio em enquete realizada pela MTV Brasil.

Nele, o vocalista aparece deitado em meio a pétalas, enquanto seus companheiros empunham instrumentos num descampado castigado por um vento incessante.

Vinte e três anos se passaram. Terá o país se afastado daquelas imperfeições? De nove problemas cantados — e cujos números de 1993 foram comparados aos de agora—, quatro melhoraram.

O Brasil tem menos jovens fora das escolas, o analfabetismo caiu, e a mortalidade infantil, também. O país também conseguiu diminuir a fome vergonhosa. Contudo, em outras três situações, o cenário se agravou. Cresceram os homicídios por arma de fogo, o número de mortes em rodovias federais e os focos de queimadas. Não há dados públicos para analisar estupros, roubos ou trabalho escravo. Faltam estatísticas históricas ou trabalhos que sigam a mesma metodologia, o que permitiria comparações.

Resta a esperança cantada por Renato ao final: “Nosso futuro recomeça/ Venha, que o que vem é perfeição”.

Relembre abaixo a letra de “Perfeição” e confira as checagens nos hyperlinks:

Perfeição (Renato Russo)

1

Vamos celebrar a estupidez humana

A estupidez de todas as nações

O meu país e sua corja de assassinos

Covardes, estupradores e ladrões

Vamos celebrar a estupidez do povo

Nossa polícia e televisão

Vamos celebrar nosso governo

E nosso Estado, que não é nação

Celebrar a juventude sem escola

As crianças mortas

Celebrar nossa desunião

Vamos celebrar Eros e Thanatos

Persephone e Hades

Vamos celebrar nossa tristeza

Vamos celebrar nossa vaidade.

2

Vamos comemorar como idiotas

A cada fevereiro e feriado

Todos os mortos nas estradas

Os mortos por falta de hospitais

Vamos celebrar nossa justiça

A ganância e a difamação

Vamos celebrar os preconceitos

O voto dos analfabetos

Comemorar a água podre

E todos os impostos

Queimadas, mentiras e sequestros

Nosso castelo de cartas marcadas

O trabalho escravo

Nosso pequeno universo

Toda a hipocrisia e toda a afetação

Todo roubo e toda indiferença

Vamos celebrar epidemias:

É a festa da torcida campeã.

3

Vamos celebrar a fome

Não ter a quem ouvir

Não se ter a quem amar

Vamos alimentar o que é maldade

Vamos machucar um coração

Vamos celebrar nossa bandeira

Nosso passado de absurdos gloriosos

Tudo o que é gratuito e feio

Tudo que é normal

Vamos cantar juntos o Hino Nacional

(A lágrima é verdadeira)

Vamos celebrar nossa saudade

E comemorar a nossa solidão.

4

Vamos festejar a inveja

A intolerância e a incompreensão

Vamos festejar a violência

E esquecer a nossa gente

Que trabalhou honestamente a vida inteira

E agora não tem mais direito a nada

Vamos celebrar a aberração

De toda a nossa falta de bom senso

Nosso descaso por educação

Vamos celebrar o horror

De tudo isto – com festa, velório e caixão

Esta tudo morto e enterrado agora

Já que também podemos celebrar

A estupidez de quem cantou esta canção.

5

Venha, meu coração está com pressa

Quando a esperança está dispersa

Só a verdade me liberta

Chega de maldade e ilusão

Venha, o amor tem sempre a porta aberta

E vem chegando a primavera –

Nosso futuro recomeça:

Venha, que o que vem é perfeição.

*Esta reportagem foi publicada na edição de 9 de outubro de 2016 do jornal Folha de S.Paulo.

* Mario Luis Grangeia é autor de “Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática” (Civilização Brasileira)

** Esta reportagem foi publicada em 9 de outubro de 2016 pelo jornal Folha de S.Paulo (Ilustrada).

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