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Agência Lupa e o combate a notícias falsas

por Cristina Tardáguila
06.abr.2017 | 08h00 |

Se a mentira tem um dia só para ela, a verdade também merecia um, ao menos um. E foi guiada por essa certeza que a International Fact-Checking Network (IFCN), rede mundial de plataformas que checam o grau de veracidade de dados e informações contidos em discursos públicos, transformou o dia 2 de abril de 2017 no primeiro Dia Internacional do Fact-Checking. É a luta contra a notícia falsa entrando no calendário global e ganhando uma data especial.

Nos últimos anos, a divulgação de informações não verificadas espalhou pânico em comunidades carentes e em bairros ricos do Rio de Janeiro mais de uma vez e embasou teorias conspiratórias na área da saúde que poderiam ter prejudicado milhares de cidadãos.

No mundo, não foi diferente. Uma falsa vacina contra a Aids provocou alvoroço no Gabão. No Canadá, um professor que jamais havia pisado em Nice, na França, foi acusado de ter cometido o atentado de 14 de julho, com um caminhão. Nos Estados Unidos, o homem que, segundo levantamento do Huffington Post, foi capaz de pronunciar 71 informações questionáveis em apenas 60 minutos virou presidente.

É hora, portanto, de o cidadão saber que notícias falsas dão (muito) dinheiro a seus criadores – como bem revelou reportagem publicada no caderno Ilustríssima. Também é hora de ficar claro que existem técnicas simples e eficientes para fazer frente a essa praga.

Há cinco dicas básicas – bem básicas – dos checadores a serem seguidas por aqueles que defendem informação de boa qualidade. A primeira é: duvide de quem cita dados sem revelar fontes. É fácil manipular uma informação agindo assim. A segunda dica: duvide daqueles que promovem uma relação causal simples, dizendo que A provoca B. Há sempre diversos fatores envolvidos na concretização de um fato. Terceira: desconfie de números absolutos sem contexto. Ir de 1 para 2 é um aumento de 100%. Dependendo do assunto, trata-se de algo irrelevante. Peça porcentagens e valores absolutos. Quarta: cuidado com as cifras muito exatas sobre temas como violência. Esses dados mudam a cada instante e nem sempre são computados usando a mesma metodologia. Quinta: por fim, suspeite de frases que contenham expressões como “a maior/menor/melhor/pior do mundo”. Todas tendem ao exagero.

Temos hoje 114 plataformas de checagem ativas no mundo. Dez delas acabam de passar por uma auditoria externa independente e receber o selo de qualidade da IFCN. Segundo os auditores, são iniciativas comprovadamente apartidárias, que prezam pela transparência e pela metodologia de trabalho, além de ostentar política pública efetiva para a correção de eventuais erros. Fazer checagem está na moda, mas uma checagem só tem credibilidade quando atende a essas cinco exigências. Fique de olho.

Ainda vale destacar que redes internacionais de especialistas de diversas áreas estudam formas de combater a desinformação. O First Draft News e o Trust Project são exemplos que aproximam jornalistas, veículos de comunicação e empresas digitais.

O site www.factcheckingday.com traz um calendário de atividades relacionadas à checagem de dados. Quem está cansado de ler ou ouvir mentira deve conferir as oportunidades que serão oferecidas aqui e ali. Novos checadores são bem-vindos.

CRISTINA TARDÁGUILA é diretora da Agência Lupa e autora do livro “A Arte do Descaso” (Intrínseca)

*Este artigo foi publicado na edição impressa do jornal Folha de S.Paulo do dia 6 de abril de 2017.

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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VERDADEIRO
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VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
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