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Foto: Agência Brasil
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Os dados equivocados usados na defesa do senador afastado Aécio Neves

por Leandro Resende, Hellen Guimarães e Juliana Dal Piva
26.maio.2017 | 07h30 |

No início desta semana, o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG) publicou sua última coluna no jornal Folha de S. Paulo e postou um vídeo no Facebook falando sobre as gravações feitas pelos donos da JBS com ele e os resultados da operação Patmos, deflagrada pela Polícia Federal na última quinta-feira (18). A Lupa analisou os dois materiais.

“Vi minha irmã ser detida pela polícia sem absolutamente nada que justificasse tamanha arbitrariedade”

FALSO

Andrea Neves, irmã do senador Aécio Neves (PSDB-MG), foi alvo da operação Patmos, da Polícia Federal, no último dia 18, depois de citada na conversa em que o tucano pede R$ 2 milhões ao empresário Joesley Batista, dono da JBS. Na gravação, Joesley conta que havia se encontrado com Andrea e ouvido dela que Aécio precisava de “dois milhões [de reais] para pagar advogados”. Em seguida, o senador agradece Joesley por tê-la recebido e indica o primo Frederico para o recebimento desses valores. Com base nesse material, a Procuradoria Geral da República (PGR) pediu a prisão preventiva de Andrea Neves. Para o procurador-geral, Rodrigo Janot, a detenção dela era necessária porque havia “risco concreto” de “destruição de eventuais provas”. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin concordou com Janot e autorizou a detenção de Andrea na última quinta-feira. Ela é considerada operadora de Aécio. O senador nega irregularidades. Em sua última coluna na Folha e em vídeo publicado no Facebook, diz que, na conversa em questão, oferecia a Joesley a oportunidade de comprar o apartamento de sua mãe pelo valor citado.

Procurado para comentar esta checagem, Aécio não retornou.

*Atualização em 17h04 do dia 26 de maio de 2017: em nota, a assessoria de Aécio Neves informou que a defesa de Andrea Neves já se pronunciou sobre o assunto. “A irmã do senador não participou de prática de crime algum, tendo procurado o delator apenas para propor a ele a venda de um apartamento de sua mãe, avaliado em R$ 40 milhões, e que já havia sido oferecido a outros empresários. A partir daí foi o delator quem apresentou a proposta do empréstimo, já objetivando forjar situação criminosa para obter benefício da delação premiada”


“Fui afastado do cargo para o qual fui eleito por mais de 7 milhões de mineiros”

VERDADEIRO

Na última quinta-feira, o ministro do STF Edson Fachin realmente determinou o afastamento de Aécio Neves do cargo de senador em decorrência das gravações feitas pela JBS. Dados públicos disponíveis no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também demonstram que o senador tucano teve 7.565.377 votos nas eleições de 2010.


“Setores da imprensa vêm destacando uma acusação do delator de que, em 2014, eu teria recebido R$ 60 milhões em ‘propina’. Mas (…) isso se refere exatamente aos R$ 60 milhões que a JBS doou legalmente às campanhas do PSDB naquele ano”

EXAGERADO

Consulta feita no site do TSE com CNPJs da JBS revela que, em 2014, a empresa doou R$ 56,5 milhões ao PSDB. Nesse total, que fica abaixo do citado por Aécio, estão os repasses feitos diretamente ao comitê do então candidato à Presidência da República, ao Diretório Nacional do PSDB e a outras campanhas tucanas. Só o comitê de Aécio Neves recebeu R$ 40,3 milhões. Vale destacar ainda que, na acusação de Joesley, a menção é feita a R$ 60 milhões pagos como propina, por meio de notas frias de empresas indicadas pelo senador.

Procurado, o PSDB informou que “as informações citadas pelo senador Aécio Neves têm como fonte as prestações de conta que constam no TSE”.

*Atualização em 17h04 do dia 26 de maio de 2017: a assessoria do senador Aécio Neves completou a resposta enviada pelo PSDB, e informou que outros R$ 4 milhões foram doados à pré-campanha do tucano à Presidência, em 2014. 


“Não sabia que na minha frente estava um criminoso”

CONTRADITÓRIO

Na gravação (a partir dos 23min) que o empresário Joesley Batista fez com Aécio Neves, há um trecho em que o empresário fala abertamente sobre as investigações da Operação Greenfield, que estavam sendo feitas pela Polícia Federal naquele momento sobre ele e sobre sua empresa. Joesley também conta ao senador que tem um informante entre os investigadores do Ministério Público: “eu consegui informação lá de dentro. Consegui botar um cara lá também”. E Aécio questiona: “Onde?”. E Joesley revela que é na Procuradoria. Na última quinta-feira, o procurador Ângelo Goulart Villela foi preso na Operação Patmos por suspeita de vender informações.

Procurado para comentar esta checagem, o senador não retornou.

*Atualização em 17h04 do dia 26 de maio de 2017: em nota, a assessoria de Aécio Neves informou que ele “desconhecia qualquer condenação de Joesley Batista por crime. Os contatos mantidos com o senador ao longo dos anos sempre tratou de assuntos lícitos e jamais envolveram atos criminosos, nem mesmo benefícios para as empresas do delator, conforme o próprio diretor da JBS, Ricardo Saud, declarou em sua delação: “ Ele (Aécio) nunca fez nada pela JBS.”


“Nenhum de meus atos legislativos e políticos demonstram qualquer intenção de obstruir a Lava Jato ou qualquer outra investigação, tampouco interferir em instituições encarregadas de apurar os fatos”

FALSO

Na gravação que foi entregue à PGR, Aécio propõe que Joesley o ajude a pressionar o presidente da Câmara, o deputado Rodrigo Maia, para que ele vote matérias que incluem a anistia ao caixa dois. Diz que trabalha “nisso igual um louco” e sugere que “alguém” de Joesley mande “um recado pro Rodrigo” para “assustar um pouco”. Nas palavras de Aécio: “Tem que votar essa merda de qualquer maneira (…) Eu tô assustando ele (Rodrigo Maia). Se a gente conseguir isso (anistia do caixa dois), já dá 80% do problema”. Em outro momento, Aécio critica o ministro da Justiça, Osmar Serraglio, e menciona que é preciso escolher os delegados da PF antes de distribuir os inquéritos abertos contra políticos.

Procurado, o senador não retornou.

*Atualização em 17h04 do dia 26 de maio de 2017: em nota, a assessoria de Aécio Neves informou que “inexiste qualquer projeto ou proposição da sua parte que configure empecilho à Lava Jato. Ao contrário disso, ele apoiou e trabalhou junto à bancada do PSDB em favor da aprovação de sugestões feitas pelo juiz Sérgio Moro e pelo procurador-geral da República incorporadas ao projeto de abuso de autoridade.  Também foi um dos primeiros dirigentes partidários a apoiar a operação. Em relação a PF, o senador sempre atuou em defesa da autonomia da entidade”. 


“Não fiz dinheiro na vida pública”

CONTRADITÓRIO

As declarações de bens que Aécio Neves fez à Justiça Eleitoral mostram que seu patrimônio cresce desde 2010. Naquele ano, quando concorria ao Senado, o tucano declarou bens que somavam R$ 617,9 mil. Entre eles estavam três terrenos em Minas Gerais, 50% de um imóvel no município de Cláudio (MG), um apartamento na Lagoa, no Rio de Janeiro, e um apartamento em Belo Horizonte. Quatro anos depois, quando concorreu à Presidência da República, o tucano apresentou um patrimônio de R$ 2,5 milhões, 305% acima do valor anterior. Em 2014, Aécio tinha todos os bens declarados em 2010 e ainda cotas de uma rádio, no valor de R$ 700 mil, e ações herdadas do pai, no valor de R$666.660,00, além de um veículo Land Rover, avaliado em R$ 166,5 mil. Na época, o senador mantinha duas aplicações de renda fixa, um rendimento de previdência privada, e saldos em duas contas correntes – valores que somam R$ 364,4 mil.

Em nota, Aécio informou que o aumento de seu patrimônio não tem relação com o exercício de seus mandatos, e é resultado da transferência de ações de uma rádio, feita por sua mãe, e de parte da herança de seu pai.

*Atualização em 17h04 do dia 26 de maio de 2017: em nota, o senador Aécio Neves informou que seu apartamento no Rio de Janeiro fica em Ipanema, e não na Lagoa. Confira aqui a nota completa. 

**Esta reportagem foi publicada na edição impressa do jornal Folha de S.Paulo no dia 26 de maio de 2017.

*** Hellen Guimarães sob a supervisão de Juliana Dal Piva.

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CONTRADITÓRIO
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SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
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