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Foto: mariellefranco.com.br/Divulgação

Marielle: desembargadora, deputado e pastor não checaram antes de postar. E era bem fácil…

por Leandro Resende
19.mar.2018 | 20h27 |

Momentos de crise são terreno fértil para a disseminação de informações falsas. E, com a morte da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL), assassinada na última quarta-feira junto com seu motorista, Anderson Gomes, não foi diferente.

Nos últimos dias, as redes sociais foram inundadas por mentiras sobre o passado da jovem política. Algumas delas foram compartilhadas por pessoas que, depois, resolveram explicar por que tinham agido daquela maneira, revelando um roteiro típico da disseminação de informações falsas. Algo que todos podem facilmente evitar.

A imagem que supostamente mostra Marielle Franco sentada no colo do traficante Marcinho VP foi compartilhada pelo pastor evangélico Marcos Carvalho, que também é subtenente da Polícia Militar em Arraial do Cabo, cidade do litoral Fluminense. Ele usou seu Facebook para distribuir o conteúdo. Depois apagou a postagem.

Em sua foto de perfil, Carvalho aparece ao lado do deputado federal Cabo Daciolo (Avante-RJ), que foi eleito pelo PSOL em 2014, mas expulso da legenda em 2015. Na segunda-feira (15), o pastor gravou um vídeo pedindo “perdão” por ter compartilhado a foto e disse que tinha retirado a imagem de um “grupo de WhatsApp”.

A postagem de Carvalho teve milhares de curtidas e foi fartamente compartilhada no Facebook. “A imagem apareceu em um grupo que eu faço parte. E eu postei no Facebook, dizendo que ‘a imagem falava por si’, simplesmente isso (….) Peço perdão aos familiares e amigos da Marielle”, escreveu Carvalho. Procurada para comentar o caso, a Polícia Militar do Rio não se manifestou. O pastor também não retornou os contatos da Lupa.

A desembargadora Marília Neves, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), foi outra pessoa a afirmar no Facebook que Marielle estava “engajada com bandidos”. Depois, em entrevista ao Jornal O Dia disse que apenas tinha reproduzido um comentário que lera no Facebook – sem mostrar arrependimento. Em nota enviada pelo TJ-RJ, Marília Neves diz que se precipitou: “A conduta mais ponderada seria a de esperar o término das investigações, para então, ainda na condição de cidadã, opinar ou não sobre o tema”.

Um terceiro propagador de informações equivocadas sobre a vereadora carioca foi o deputado Alberto Fraga (DEM-DF). Ele e a desembargadora são alvos de  representação do PSOL. No Twitter,  o parlamentar propôs que seus seguidores conhecessem “o novo mito da esquerda, Marielle Franco”. E passou a descrevê-la: “engravidou aos 16 anos, ex-esposa do Marcinho VP, usuária de maconha, defensora de facção rival e eleita pelo Comando Vermelho, exonerou recentemente 6 funcionários, mas quem a matou foi a PM”. Horas mais tarde, apagou o conteúdo. Nesta segunda-feira, suspendeu suas contas no Facebook e no Twitter.

Checar uma foto como a que mostra uma mulher no colo de um homem não demandaria mais do que cinco minutos de dedicação. Além de métodos mais tradicionais, como comparar a semelhança física entre os retratados e as pessoas citadas, há mecanismos de busca capazes de ajudar o cidadão a checar a veracidade de uma imagem.

O mecanismo de buscas do Google Imagens, por exemplo, é usado por checadores mundo afora para executar essa tarefa. Veja o passo a passo que você pode seguir:

1. Salve a foto que você quer checar em seu computador ou celular

2. Acesse o Google Imagens

3.Clique no ícone com uma câmera fotográfica e carregue a imagem (pela URL ou por seu arquivo). Analise os resultados que o buscador oferece e se permita duvidar. Será que essa imagem faz sentido no contexto em que está sendo usada agora?

Além do Google, há serviços de verificação de imagens no Yandex, no Bing e no TinEye. Eles funcionam de forma semelhante.

Em abril de 2017, a Lupa publicou cinco dicas para ir além e conferir se uma informação é de boa qualidade. Relembre a seguir:

1. Duvide de quem cita dados sem revelar fontes.

2. Duvide daqueles que promovem uma relação causal simples, dizendo que A provoca B. Há sempre diversos fatores envolvidos na concretização de um fato.

3. Desconfie de números absolutos sem contexto. Ir de 1 para 2 é um aumento de 100%. Dependendo do assunto, trata-se de algo irrelevante. Peça porcentagens e valores absolutos.

4. Cuidado com as cifras muito exatas sobre temas como violência. Esses dados mudam a cada instante e nem sempre são computados usando a mesma metodologia.

5. Suspeite de frases que contenham expressões como “a maior/menor/melhor/pior do mundo”. Elas tendem – no mínimo – ao exagero.

Visite o site www.fakeounews.org para mais dicas.

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