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Foto: Reprodução Youtube
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Os exageros e as verdades dos presidenciáveis no Fórum da Liberdade

por Chico Marés
17.abr.2018 | 06h00 |

Na última terça-feira (10), presidenciáveis foram a Porto Alegre para participar do Fórum da Liberdade. No evento, cada um deles teve 20 minutos para fazer uma exposição geral e responder duas perguntas do público. A Lupa checou as falas dos pré-candidatos. Confira abaixo o resultado:

“A geração de emprego está acontecendo de forma cada vez mais acelerada”
Henrique Meirelles, pré-candidato à presidência pelo MDB, em palestra feita no Fórum da Liberdade, em 10 de abril de 2018A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Mensal (PnadC/M), do IBGE, mostra que o número de pessoas empregadas no Brasil caiu de 91,9 milhões para 91,1 milhões no último trimestre móvel disponível (dezembro de 2017, janeiro e fevereiro) frente ao anterior (setembro, outubro e novembro de 2017). Foi a primeira queda após oito meses de crescimento. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, mostra, por sua vez, que houve crescimento no número de vagas formais nos meses de janeiro e fevereiro de 2018: 143 mil. Em dezembro de 2017, a redução no número de empregos havia sido de 328 mil. Procurado, Meirelles não retornou.


“Estatística do Banco Mundial: qual o tempo que se gasta [com burocracia] para abrir uma empresa no Brasil? 101 dias”
Henrique Meirelles, pré-candidato à presidência pelo MDB, em palestra feita no Fórum da Liberdade, em 10 de abril de 2018Segundo o Banco Mundial, citado pelo próprio Meirelles, o tempo médio necessário para abrir um negócio no Brasil em 2017 foi de 79,5 dias – não 101. Ainda que o número não seja tão alto quanto o citado pelo ex-ministro da Fazenda, trata-se do sexto pior índice do mundo neste quesito entre os países pesquisados, atrás somente de Venezuela, Camboja, Haiti, Suriname e Eritreia. Procurado, Meirelles não retornou.


“O Brasil tem hoje metade das matrículas que os colombianos dão aos seus jovens de 18 a 25 anos”
Ciro Gomes, pré-candidato à presidência pelo PDT, em palestra feita no Fórum da Liberdade, em 10 de abril de 2018

Os dados internacionais sobre o assunto, compilados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e pela Unesco, não tratam especificamente da faixa etária citada pelo pré-candidato. E, em faixas etárias similares, os dois países apresentam desempenhos parecidos.

Segundo a OCDE, em 2015, no Brasil, 68,5% dos jovens de 15 a 19 anos estavam matriculados em algum nível de ensino. Na Colômbia, eram 55,1%. Na faixa etária dos 20 aos 29 anos, os países tinham, respectivamente, 21,6% e 19% da população matriculada.

Segundo a Unesco, também em 2015, a razão bruta de matrículas no ensino superior era de 51% no Brasil e 56% na Colômbia. Essa métrica compara o número total de matriculados (de qualquer faixa etária) com a população que está na idade considerada adequada ao ensino superior. Procurado, Ciro não respondeu.


“É o melhor momento desde o pós-guerra. O mundo deve crescer 4% [ao ano]”
Geraldo Alckmin, pré-candidato à presidência pelo PSDB, em palestra no Fórum da Liberdade, em 10 de abril de 2018A previsão do FMI para o crescimento mundial nos próximos três anos fica em torno de 3,7% ao ano, número próximo ao citado por Alckmin. Isso não representa, no entanto, o melhor momento da economia mundial desde o pós-guerra, como ele citou. Segundo o Banco Mundial, entre 1961 e 1973, o mundo cresceu entre 4,3% e 6,6% ao ano. Procurado, Alckmin não respondeu.


“Nas grandes democracias do mundo, [de] 2 a 4 partidos têm 70% dos votos no parlamento”
Geraldo Alckmin, pré-candidato à presidência pelo PSDB, em palestra feita no Fórum da Liberdade, em 10 de abril de 2018Ao analisar a composição da câmara baixa de 20 democracias que se destacam no mundo hoje em dia, a Lupa constatou que, em apenas duas delas, a soma dos votos dados aos quatro maiores partidos representados é inferior a 70%. No Chile, a conta dá 63,9% e, na Holanda, 60,7%.

No Brasil, por sua vez, as quatro maiores agremiações da Câmara Federal (PT, PMDB, PP, PSDB) somam 41,1% das cadeiras.

Nem todas as democracias importantes do mundo possuem câmaras altas, e algumas possuem modelos com cadeiras vitalícias (Casa dos Lordes, no Reino Unidos) ou com representantes que não são eleitos diretamente (Bundesrat, Alemanha), o que dificulta a comparação.

Entre os que elegem todos os seus membros diretamente, apenas na Índia (59,4%) e, novamente, na Holanda (58,6%) os quatro maiores partidos têm menos de 70% dos assentos. No Senado, atualmente, PMDB, PSDB, PT e PP têm, juntos, 45 dos 81 senadores, ou seja, 55,5% do total.


“Ano a ano, caímos no ranking da Liberdade Econômica. Estamos já na posição 153”
João Amoedo, pré-candidato à presidência pelo Novo, em palestra feita no Fórum da Liberdade, em 10 de abril de 2018Amoedo se refere ao Índice da Liberdade Econômica (IEF), estudo elaborado anualmente pelo think tank conservador americano Heritage Foundation. Na edição de 2018, o Brasil ficou na 153ª posição – o que significa que, entre os 180 países analisados, há 152 onde a economia é mais livre do que a do Brasil. O país vem perdendo posições desde 2012, quando atingiu o 99º lugar, a melhor colocação até então.

O IEF leva em consideração quatro variáveis: estado de direito, tamanho do governo, eficiência regulatória e abertura do mercado. De acordo com a classificação do IEF, o Brasil está entre os países considerados “não-livres”, um grupo à frente apenas dos países “repressores”, como Venezuela, Cuba e Coreia do Norte.


“Em 1980, o Brasil tinha um produto industrial equivalente a 30% do PIB [total] (…) Hoje, a indústria de transformação está reduzida a ridículos 11%”
Ciro Gomes, pré-candidato à presidência pelo PDT, em palestra feita no Fórum da Liberdade, em 10 de abril de 2018Desde a década de 1980, a participação da indústria de transformação no PIB do Brasil cai. Em 1980, representava 33,7%. Em 2017, essa participação foi de 11,8%, o menor índice da série histórica.

Em 1947, a indústria representava 19,9% do PIB brasileiro. No final da década de 1950, essa proporção começou a crescer, atingindo seu ápice em 1985, quando chegou a 35,9%. De lá para cá, o setor industrial perdeu peso na economia nacional, voltando a patamares inferiores a 20% nos anos 1990 e chegando a 11,8% em 2017. Veja aqui dados compilados sobre o assunto.

*Parte desta reportagem foi publicada pela edição impressa do jornal Folha de S.Paulo no dia 17 de abril de 2018.

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