questões literárias

A marca de Roth

Influência do autor de O Complexo de Portnoy, que morreu aos 85 anos em Nova York, é cada vez mais poderosa

Leandro Sarmatz
23maio2018_16h11
O escritor em uma lanchonete em Newark, Nova Jersey, em 1968
O escritor em uma lanchonete em Newark, Nova Jersey, em 1968 / FOTO: BOB PETERSON/THE LIFE IMAGES COLLECTION/GETTY IMAGES

Philip Roth, cuja morte foi anunciada nesta quarta-feira, tinha 85 anos e não publicava livros desde 2010. Nêmesis, seu último romance, escapava das estratégias usuais de suas obras produzidas ao longo dos anos 2000 – aquela ficção tardia em torno de personagens igualmente tardios e em tom quase elegíaco – e parecia um retorno temporal e geográfico, mas também emocional, aos contos que, no final dos anos 50, bagunçaram o coreto das letras do seu país. O jovem de primeira ou segunda geração de imigrantes que abria as cortinas de casa e deixava que o “outro” (o goy, o público mais amplo, as outras comunidades) pudesse ver a mobília desarrumada, o pai em mangas de camisa, a mãe e as irmãs em roupas íntimas e puídas.

A energia dos romances de Roth parece inesgotável. Entre Saul Bellow e John Updike, para ficar no arco geracional que todos os compêndios desenham no espaço, Roth parecia ter mais imaginação e potência narrativa. Bellow é, sobretudo, linguagem, aquela língua luxuriante que amálgama Shakespeare e peroração rabínica, maldição iídiche e literatura francesa. Updike, quase que só interessado no mundo WASP (branco, anglo-saxão e protestante), a cada dia parece mais eclipsado. Roth, mesmo tendo abdicado – por velhice, cansaço, ou esgotamento geral – da literatura, permaneceu vibrando nos últimos anos. E não apenas porque a Library of America, coleção de clássicos norte-americanos, o tenha entronizado em uma dezena de volumes encadernados. Sua marca na literatura, em vez de minguar, parece cada vez mais poderosa. De Junot Díaz a Ocean Vuong, passando por Paul Beatty, Tracy K. Smith e Aleksandar Hemon, e tantos outros, os filhos de imigrantes, os descendentes daqueles que foram trazidos à força para o continente, os recém-chegados, ainda oferecem o melhor depoimento da vertiginosa experiência norte-americana. Os altos e baixos do império em debacle, esse refrão de This Is America sai da voz dos netos de gente de Odessa, dos bisnetos de quem comeu o pão que o diabo amassou no sul do país depois de ter sido arrancado da África, dos filhos de quem veio do Vietnã depois da guerra. Essas vozes entoam a verdadeira canção norte-americana. O resto, quando muito, é nostalgia do chá das cinco.

 

Cada um tem o seu Roth, eu também tenho vários, claro, mas vou e volto sempre a Complexo de Portnoy (1969), Operação Shylock (1993) e O Teatro de Sabbath (1995). Em algum momento do início dos anos 90, mal saído da adolescência e intoxicado de Gregor Samsa e Joseph K., me deparei com o Portnoy. Foi um desses momentos epifânicos: então um “Kafka americano” também podia estar falando daqueles deprimentes jantares na casa da sua tia em que a fórmula Holocausto, diabetes e Israel era pronunciada a cada frase. Naquela mesma década, trinta anos depois da publicação original do romance, Roth iria escrever os outros dois livros. Operação Shylock trazia – e ainda traz – uma miríade de questões para judeus que vivem em outros países que não Israel, na “diáspora”. É o romance mais político do autor, que numa entrevista disse não possuir “um osso religioso” em seu corpo. De certa forma, é o Orientalismo de Roth, a leitura criativa e a contrapelo (à Edward Said) de toda uma cultura, no caso, as ilusões e autoenganos (políticos, culturais) na relação com frequência tempestuosa e emocional entre judeus e Israel. Não à toa o livro gira todo em torno de um falso Philip Roth que vai para a Terra Santa advogar um certo “diasporismo”, o retorno de judeus para aqueles lugares que seus pais e avós escaparam por um triz (isso quando escaparam), os países do leste europeu. Swift não faria melhor.

O Teatro de Sabbath pode ser lido como um Portnoy com (muito) mais células mortas. É como se o arco de ultraje, humor autodepreciativo, desejo desordenador e sátira judaica traçado em Portnoy tivesse sua conclusão nas mãos (artríticas e obscenas) de Mickey Sabbath, talvez o mais perfeito retrato do artista quando velho. Ainda hoje possui uma carga ofensiva como poucas obras contemporâneas. Embora vasto e ambicioso, o éthos literário de Sabbath abriria caminho para os livros breves – e devastadores sob qualquer ponto de vista – dos anos 2000, obras como O Animal Agonizante, Indignação e A Humilhação. Numa outra pauta, pode-se advogar que essas obras de Roth formam o primeiro grande retrato do que é ser um adulto na terceira idade. Ainda o desejo e muita fúria e quase nenhuma vontade de parar. Poucos artistas nos humanizaram aos 60 e 70 anos como Roth. Os homens e mulheres de suas obras finais não entregam os pontos. E nem deveriam. Porque não são “velhinhos” (adoráveis e certamente infantilizados, uma baixa na nossa percepção da passagem do tempo), apenas são adultos mais experientes, mais melancólicos, mais lanhados que a média e que provavelmente já viram de tudo. Como o seu próprio criador, aliás, que agora sai de cena.

Leandro Sarmatz

Leandro Sarmatz, poeta, jornalista e escritor, é editor da Todavia

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