anais da violência

Marielle bate impeachment no Twitter

Três mulheres cariocas, periféricas e negras são os principais nós da rede de 3,6 milhões de tuítes que produziu o maior acontecimento político da mídia social no país

José Roberto de Toledo e Kellen Moraes
17mar2018_02h34
Milena Martins, 17, Marielle Franco, 38, e Elza Soares, 80 – no centro da repercussão, no Twitter, do assassinato da vereadora do PSOL
Milena Martins, 17, Marielle Franco, 38, e Elza Soares, 80 – no centro da repercussão, no Twitter, do assassinato da vereadora do PSOL

O maior acontecimento político-digital no Brasil foi liderado por três mulheres de três gerações diferentes. Os quatro disparos que atingiram Marielle Franco na noite de 14 de março ecoaram muito além do bairro do Estácio, onde ela foi executada, ou da cidade do Rio de Janeiro, onde era vereadora. Romperam fronteiras ao deflagrarem 3,573 milhões de tuítes. Nas 42 horas seguintes, mobilizaram 400 mil usuários do Twitter em 54 países e 34 idiomas. Mas os três nós que amarraram essa rede global têm muito em comum: são mulheres, cariocas, periféricas e negras.

“Nunca vi nada igual”, admira-se Fabio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos de Internet e Cultura, o Labic, da Universidade Federal do Espírito Santo. Como fazem cotidianamente desde 2012, ele e sua equipe capturaram e analisaram os dados. Buscaram tuítes que combinavam “Marielle”, “vereadora”, “rio” e “morte”, entre outras palavras. Não é todo dia que Malini se admira com o que vê no trabalho – o Labic é uma das principais instituições acadêmicas especializadas no estudo de mídias sociais no Brasil, junto com a FGV-DAPP. Mas desta vez Malini se impressionou.

Durante o impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados,  em 2016, o Labic fez a mesma pesquisa. Os pesquisadores acharam 3,357 milhões de tuítes publicados sobre o tema ao longo de 72 horas. O impeachment estabelecera um recorde em eventos políticos – recorde quebrado pela reação ao assassinato de Marielle. Foram 200 mil tuítes a mais e em menos tempo. Não só.

A distribuição das publicações e o alcance dos compartilhamentos delas mudaram radicalmente nesses dois anos que separam um evento de outro. “A polarização política aparece muito mais diluída agora”, nota Malini. Em discussões ideologizadas, como foi no impeachment de Dilma, o mapa das relações entre os usuários costumava mostrar dois grandes grupos antagônicos tomando para si quase todo o espaço do debate digital. Não mais.

No gráfico produzido com os 3,6 milhões de tuítes sobre a execução da vereadora do PSOL, toda a parte central aparece dominada por veículos e pessoas ligadas a meios de comunicação. Mas eles orbitam em torno do perfil “@mariellefranco”. A vereadora é o nó central da trama: a ela se refere a maior parte dos tuítes. 

A posição ao norte ou ao sul é aleatoriamente gerada pelo programa que faz o desenho. O que conta é a disposição relativa dos nós: usuários com mais relações entre si ficam mais próximos uns dos outros, formando sub-redes (coloridas para distingui-las). Quanto menos relações em comum, mais distantes eles ficam uns dos outros no mapa. A centralidade e o tamanho de um nó também são importantes porque mostram que em torno dele se articulam os demais. No caso de Marielle, o fato de ela aparecer no meio e do tamanho que apareceu articulando-se com os veículos de comunicação e empurrando as bolhas ideológicas para a periferia indica uma despolarização rara do debate político.

E esse não é o único sinal de implosão da bolha ideológica e partidária de antes. As manchas laranja (tuítes em inglês) e verde (espanhol) mostram grande alcance internacional.

Os antigos polos da direita (rosa) e da esquerda (verde mais escuro) foram desidratados. Seus maiores destaques são o “@psoloficial”, do partido da vereadora, e o da “@midianinja”. Quem ganhou espaço foi um novo grupo que costumava ficar alijado do debate político no Twitter. Desta vez, tornou-se o maior de todos e está pintado em lilás e azul claro. Reúne perfis de origens variadas, de youtubers a celebridades, passando por artistas e desconhecidos. Em alguns casos, ex-desconhecidos.

Com pouco mais de mil seguidores, o perfil @badgcat foi responsável pelo tuíte mais citado após o assassinato da vereadora do PSOL. Dizia: “marielle morreu dps de denunciar abuso dos militares e a galera tá falando “morreu pelas mãos bandidos que ela defende”. acho que ela morreu pelas mãos dos bandidos que você defende, amigo”. Mais de 33 mil retuítes transformaram sua dona no segundo nó mais importante da rede formada a partir da tragédia – atrás somente pelo da própria Marielle.

A autora do tuíte, a @badgcat, tem 17 anos, é negra e militante. Ela mora em Queimados, na Baixada Fluminense, a mais de 50 quilômetros do local onde a vereadora do PSOL foi assassinada. Milena Martins contou à piauí que não pôde ir ao protesto contra a morte de Marielle. Não teve dinheiro para a passagem. Mia, como é chamada, cuida da avó, de 95 anos, cega e surda.

Ela reclama que, depois de eleita, mesmo estando cada vez mais ativa como vereadora, Marielle havia desaparecido do noticiário. “A mídia tá muito ocupada em nos fazer acreditar que política é só Bolsonaro e Lula. Eles não nos deixam conhecer as Marielles.”

Informada pela piauí de que seu tuíte era recordista de compartilhamentos, @badgcat respondeu, por meio de seu perfil no Instagram: “Fico lisonjeada por poder dar voz à revolta.”

Conectada, a militante do movimento negro registrou no Medium: “Sou adotada por família branca e EXTREMAMENTE mais privilegiada do que grande parte dos negros brasileiros por esse simples fato. Sempre me portei como menina branca, visto que meus pais me criaram como se ‘raça não importasse’, dentro do discurso do ‘somos todos iguais’, e por isso eu nunca entendi exatamente por que não gostavam de mim, eu só sabia que não gostavam.” O privilégio a que ela se refere não é financeiro, mas ao fato de pertencer a uma família branca e tudo o que isso implica.

Os milhares de RTs obrigaram @badgcat a desligar as notificações de seu celular. Junto com os elogios vieram as mensagens agressivas, as ameaças e o ódio. “A próxima a morrer é tu se ficar falando mt”, escreveu o perfil @FelipeA72601589.

Mas Mia não era a única mulher negra a falar muito e alto nas mídias sociais. Entre os 3,6 milhões de tuítes sobre o assassinato de Marielle, o que mais agradou internautas foi escrito por uma cantora de 80 anos de idade. Elza Soares escreveu: “Das poucas vezes que me falta a voz. Chocada. Horrorizada. Toda morte me mata um pouco. Dessa forma me mata mais. Mulher, negra, lésbica, ativista, defensora dos direitos humanos. Marielle Franco, sua voz ecoará em nós. Gritemos.”

Recebeu mais de 50 mil “likes”. A cantora octogenária, carioca de Padre Miguel, juntou-se assim à adolescente da Baixada para tecer a rede digital que cobriu Marielle. 17, 38 e 80 anos. Três negras, três nós, três gerações – juntas na mesma indignação.

José Roberto de Toledo (siga @zerotoledo no Twitter)

Editor-executivo da piauí (site), foi repórter e colunista de política na Folha e no Estado de S. Paulo e presidente da Abraji

Kellen Moraes (siga @leitoramedia no Twitter)

Jornalista especializada em mídia digital, é gerente de produto da Rádio Novelo. Trabalhou na piauí e no El País Brasil.

Leia também

Relacionadas Últimas

Longe do centro

Quem é e o que pensa a adolescente que protagonizou o debate que tomou o Twitter após o assassinato de Marielle Franco no Rio de Janeiro

Aos “Bastardos da PUC”, com carinho

A carta de Marielle Franco para os bolsistas da universidade privada

Sem polícia à vista, mulheres velam Marielle

A PM ficou longe dos protestos contra o assassinato da vereadora do PSOL no Rio; cortejo fúnebre foi liderado por cordão de mulheres negras

A vida e a morte de uma voz inconformada

Os últimos momentos de Marielle Franco, a vereadora do PSOL executada no meio da rua no Rio de Janeiro sob intervenção

Bolsonaro achata a curva

Pesquisa inédita do Ideia Big Data mostra que desaprovação ao governo oscila de 41% para 37% após presidente moderar discurso contra Mandetta e defender a cloroquina

Foro de Teresina #95: Os mitos da pandemia, a queda de braço com Mandetta e o bate-cabeça na economia

O podcast de política da piauí comenta os principais fatos da semana

Pão ázimo e um computador

Como famílias judaicas contornam o isolamento durante o Pessach, a festa religiosa que celebra a liberdade

Nos presídios, terreno livre para o coronavírus

Superlotação e falta de equipes médicas atrapalham medidas de prevenção da doença

Paulo Freire, um Homem do Mundo – Um sonho da bondade e da beleza

Alvo de ofensa proferida pelo capitão que ocupa o Palácio do Planalto, educador ganha desagravo em documentário

Rumo às urnas, estetoscópio é a nova arminha

Criticado por Bolsonaro, ministro da Saúde ganha popularidade nas redes durante epidemia e sinaliza força de candidatos médicos nas próximas eleições

Aula de risco

Reabrir colégios, como sugeriu Bolsonaro, aumenta perigo de contaminação para 5 milhões de brasileiros de mais de 60 anos que moram com crianças em idade escolar

A Terra é redonda: Coroa de espinhos

Especialistas discutem quem é o inimigo que está prendendo bilhões em casa e como vamos sair da pandemia causada pelo coronavírus

Resultado de teste de covid-19, só um mês depois do enterro

Se Brasil repetir padrão chinês, hospitalizações por síndromes respiratórias graves apontam para 80 mil casos no país

Mais textos
2

Resultado de teste de covid-19, só um mês depois do enterro

Se Brasil repetir padrão chinês, hospitalizações por síndromes respiratórias graves apontam para 80 mil casos no país

3

Onze bilhões de reais e um barril de lágrimas

Luis Stuhlberger, o zero à esquerda que achava que nunca seria alguém, construiu o maior fundo multimercado fora dos Estados Unidos e, no meio da crise, deu mais uma tacada

4

Direito à despedida

As táticas de médicos e famílias para driblar a solidão de pacientes de covid-19 nas UTIs

5

Não tenho resposta para tudo

A vida de uma médica entre seis hospitais e três filhos durante a pandemia

6

Uma esfinge na Presidência

Bolsonaro precisa do impeachment para fazer sua revolução

7

Ciência em Krakatoa

O Brasil vive um transe que mistura Monty Python e Sexta-Feira 13. O que será de nós quando isso acabar, o que faremos com relação a novas epidemias?

9

E se ele for louco?

Suspeitar da sanidade mental de Bolsonaro não permite encurtar caminho para afastá-lo; saída legal é o impeachment

10

Foro de Teresina #94: A subnotificação do vírus, Bolsonaro acuado e a economia desgovernada

O podcast de política da piauí comenta os principais fatos da semana