esquina

4:20

Tabacaria nos trilhos suburbanos

Caio Sartori
IMAGEM: ANDRÉS SANDOVAL_2017

O trem para na estação de Tomás Coelho, na Zona Norte do Rio de Janeiro, e uma legião de camelôs invade a composição. Água, doces, latões de cerveja, fones de ouvido, CDs de louvor e ioiôs do Ben 10 são alguns dos produtos que, divulgados num carioquês inconfundível e a preços baratíssimos, despertam a atenção dos passageiros.

Mas o que realmente mobiliza o vagão, atraindo olhares até mesmo dos comerciantes concorrentes, é o pregão de uma moça simpática que, muito à vontade, anuncia a faceta legalizada de um mercado proibido. “Ó a tabacaria da Paulinha, hein! Seda da Smoking é 5 reais! Original! Não rasga e não muda o gosto do baseado!”

Paulinha, mulher negra de estatura média, sorriso largo e fácil, alinha o conforto ao marketing na hora de montar o look para um dia de trabalho. Usa short de ginástica, tênis de corrida e uma camiseta branca com a estampa “4:20”, código universal entre maconheiros, numa referência à hora e ao Dia da Maconha (20 de abril, na data apresentada à maneira americana). Por baixo da blusa, veste um top com estampa das folhas da Cannabis sativa e a inscrição “Sua presença me deu onda”, alusão ao hit do último verão, do funkeiro mc G15.

Diariamente, a ex-empregada doméstica Ana Paula Jesuino, 33 anos, moradora de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, leva toda sorte de apetrechos auxiliares ao consumo da canábis para o ramal de Belford Roxo, que sai da Central do Brasil, no Centro do Rio, em direção ao município homônimo à linha, também na Baixada. Tem seda, tem bong de plástico – uma espécie de cachimbo –, tem desbelotador – usado para triturar a erva – com a imagem de Bob Marley. Paulinha é celebridade. Sua presença no vagão, a julgar pelo sorriso no rosto dos passageiros, dá onda. “Aqui todo mundo me conhece”, garante a vendedora. “Ela é uma instituição desse ramal”, confirma um usuário do trem.

A moça começou a trabalhar como camelô há pouco mais de um ano, por causa da crise, em parte, mas também movida pela vontade de mudar de profissão. No começo havia quem fechasse a cara ao ver os produtos e o jeitão despojado-porém-impositivo da vendedora, que mais desfila do que anda. “Hoje em dia já normalizou. Tem até senhorinha que compra”, disse.

Numa tarde quente no início de abril, durante uma longa espera na estação Mercadão de Madureira, um passageiro negro e de cabelo black power pediu licença para entrar na conversa. Com voz suave, fez seu aparte: “Cheguei à conclusão de que todo mundo fuma um baseado. Outro dia fui ao casamento da minha prima, casamento de crente, e vi o filho do pastor fumando num canto.”

 

O trem para em Del Castilho, e as portas do vagão, como é de costume, ficam num abre e fecha incessante, defeituoso. Quando Paulinha tenta sair, elas se fecham subitamente, e a ambulante se vê presa, com parte do corpo ainda dentro do trem. Um grupo de vendedores pede ajuda a um funcionário. Dentro e fora do vagão as pessoas se mobilizam, preocupadas. Até que as portas se abrem e ela escapa. “Aaaaah, é a Paulinha!”, comentam, em tom de brincadeira, os amigos.

A vendedora se senta numa cadeira de plástico sob a sombra e, copo na mão, logo é servida por um dos parceiros. O latão de Antarctica acabara de sair do isopor. A espera pela próxima composição ainda demoraria cerca de meia hora.

A próxima parada é a do Jacarezinho, localizada à beira da favela de mesmo nome – que, embora ocupada por uma Unidade de Polícia Pacificadora desde 2013, é com frequência atravessada por tiroteios entre o tráfico e a polícia, o tráfico e o tráfico. Mal se percebe a existência da estação, que se confunde com as casas e o comércio em volta.

O “cheiro da marola” que invade o trem confirma se tratar de lugar propício para o consumo e o comércio canábico. Tanto assim que Paulinha e o marido decidiram instalar ali a unidade fixa de seu comércio móvel, uma tabacaria – barraquinha amarela, toldo azul – gerida por ele, onde são vendidos os mesmos produtos que a mulher leva nos trens. A composição diminui a marcha, para, e Paulinha vai até a porta. Bota a cabeça para fora e reforça a propaganda: “Aí, Jacarezinhô… barraquinha da Paulinha, hein?!” Depois volta ao miolo do vagão, sempre com o mesmo sorriso no rosto. O trem acelera rumo à Central.

Diferentemente de outros ramais, reformados, o de Belford Roxo ainda circula com vagões antigos, muitas vezes precários, e sem passagem direta de um para outro – o que dificulta a vida dos camelôs. A sujeira das janelas, somada ao alto-falante que mal funciona para anunciar a estação subsequente, pode deixar confuso um passageiro de primeira viagem. Há até os antiquíssimos vagões sem ar-condicionado, que percorrem a linha férrea de janelas abertas. A concessionária SuperVia, administradora do modal, atribui o mau funcionamento do ramal aos recorrentes atos de vandalismo. Em fevereiro último, o preço da passagem subiu. Para embarcar nas composições que atendem às regiões menos abastadas do Grande Rio, é preciso desembolsar 4,20 reais.

Apesar do sucesso como show woman nas viagens movidas a marketing de guerrilha, nas finanças não raro o trabalho de Paulinha vira fumaça. Um bom dia de vendas rende cerca de 50 reais, ela diz, não mais.

Há outras dificuldades. Certa vez, enquanto trabalhava pelos trilhos do subúrbio, a vendedora foi abordada por agentes da Guarda Municipal. Incertos quanto à legalidade dos produtos ofertados, tentaram tomar o ganha-pão da vendedora. Nada feito: Paulinha sacou da bolsa as notas fiscais do material. Não havia crime ali e “eles não tiveram o que fazer”, contou.

Outro complicador está no ritmo de consumo do que ela vende. “Não é água, não é biscoito. Ninguém vai fumar 33 baseados num dia”, explicou. Não falta, porém, quem lhe seja devoto. Foi o caso de um jovem que, ao comprar uma resma de seda, analisou a vendedora de alto a baixo com um sorriso no canto da boca e, como quem consegue um gole d’água num dia de sol, saudou a rainha do trem: “A senhora me salvou.”

Caio Sartori

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