esquina

A demolição

Uma camelô na periferia do Rio

Luiza Miguez
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Na sexta-feira, 9 de março, Luciana Damasceno cozinhava em casa quando o telefone tocou. “O pessoal da prefeitura está aqui”, avisou o marido dela, apreensivo. A moça largou as tarefas domésticas e desceu depressa a ladeira que dava acesso à praça Miami, na Vila Kennedy, favela da Zona Oeste carioca. De longe, avistou agentes municipais, PMs e algumas escavadeiras. Caminhando até o quiosque onde vendia sucos, vitaminas, água, café, sanduíche natural, bolos e salgados, a comerciante repetia para si mesma: “Fica calma! Eles provavelmente só vieram fazer uma faxina e tirar as barracas velhas.”

Nascida e criada na Vila Kennedy, Luciana Damasceno tem 34 anos e sustentava a família com o que faturava no pequeno quiosque verde. Ela ganhou o negócio do pai, um peixeiro, em 2003. O espaço de aproximadamente 2 metros quadrados acomodava uma geladeira, um freezer, uma chapa, uma refresqueira, uma pia e uma vitrine para os quitutes.

Tentando manter a calma, a vendedora começou a atender a freguesia enquanto, de soslaio, observava as escavadeiras colocarem abaixo os quiosques ao seu redor. Alguns comerciantes nem sequer conseguiram salvar as comidas e os equipamentos. “Eles vão deixar só a minha barraca, eles vão se compadecer”, murmurava Damasceno, grávida de três meses. Quando uma das máquinas se voltou para seu quiosque, a comerciante – que é evangélica da Igreja Metodista Wesleyana – agarrou a mão do marido e se ajoelhou em frente ao estabelecimento. “Eu não conseguia orar. Apenas pensava: ‘Deus, me ajude.’” Quase que instantaneamente, a imagem do casal ajoelhado se espalhou por sites de notícias e pelas redes sociais.

A escavadeira, hesitante, acabou recuando. Mas pouco depois, por ordem dos agentes, retornou à carga. Comovidos com o desespero da vendedora, moradores da favela entraram no quiosque e gritaram: “Este aqui ninguém vai derrubar!” Damasceno teve receio de que os vizinhos se machucassem. Por isso, agradeceu o apoio e pediu que todos saíssem da barraca. Em seguida, recolheu suas coisas e, junto do marido, assistiu à demolição da frágil estrutura. No fim daquela sexta-feira, dezenas de quiosques estavam destruídos.

À noite, na cama, como não conseguia pregar os olhos, a comerciante resolveu cantar uma música gospel. “Só Deus para me fazer dormir…” Despertou no dia seguinte com o som do telefone. Era alguém avisando que um carro viria buscá-la. A prefeitura desejava conversar com os camelôs prejudicados pelas demolições.

 

Luciana Damasceno e o marido ganhavam a vida no quiosque da praça Miami sem licença municipal. Já haviam sido notificados durante a gestão anterior, do emedebista Eduardo Paes, mas nunca as autoridades impediram o casal de trabalhar. Coordenada pela Secretaria Municipal de Ordem Pública, a ação do dia 9 de março não tinha precedentes na Vila Kennedy.

Em fevereiro, a favela se tornou “laboratório” da intervenção federal que o governo federal impusera ao Rio de Janeiro. Foi na comunidade com 41 500 habitantes que as Forças Armadas realizaram as primeiras operações de segurança no estado. Palco de arrastões e roubos de carga, a Vila Kennedy se encontra sob domínio do Comando Vermelho, a maior das três facções que controlam o narcotráfico fluminense.

A prefeitura alega que destruiu os quiosques por solicitação da PM, após denúncias de que a praça abrigava práticas criminosas. Comerciantes locais especulam que um drone do Exército teria flagrado o armazenamento de drogas em algumas barracas. Como as demolições repercutiram pessimamente, o prefeito Marcelo Crivella, do PRB, logo emitiu uma nota afirmando que houve “uso desproporcional da força” e que afastaria os funcionários envolvidos.

“Só quero minha licença e mais nada”, respondeu Damasceno no encontro com os representantes da prefeitura, quando lhe perguntaram do que necessitava para retomar o trabalho. Uma semana depois, Crivella liberou cestas básicas aos afetados, se comprometeu a regularizar a situação deles e os autorizou a reabrir o comércio em tendas de plástico, que o próprio município lhes cedeu. “Ele também garantiu que vai dar quiosques novos para a gente”, contou a vendedora. “Dar não, né? Devolver.”

 

Há alguns meses, a comerciante gastou todas as economias na compra de um terreno em Campo Grande, bairro tradicional da Zona Oeste. “Meu sonho é sair da Vila Kennedy”, explicou. O quiosque que ela mantinha na praça Miami exibia vários sinais de bala. “Quando caía uma caixa na barraca, a gente logo se jogava no chão pensando em tiroteio.” Com apenas 4 anos, o filho de Damasceno fica sempre longe do portão de casa para se proteger da violência.

Nos últimos tempos, a vendedora e o marido haviam duplicado a jornada de trabalho. Iniciavam o expediente às três da manhã e só o encerravam às oito da noite. Pretendiam embolsar cerca de 1 500 reais por semana para pagar o pedreiro que tocava a obra em Campo Grande. “Estava difícil, mas a gente ia levando. Agora já não sei…” Por enquanto, a comerciante se vira na tenda de plástico doada pela prefeitura.

“Tem vitamina?”, indagou um cliente. “Não tem, não, meu amor. Só tem café”, respondeu Damasceno. Era a sexta venda que perdia naquela manhã abafada. Sem geladeira, pia, refresqueira ou espaço para armazenar alimentos, só lhe restava vender sanduíches e café. Enquanto entregava o troco para outro freguês, se assustou com os policiais que, saídos de um camburão, prendiam um traficante perto da praça.

A vendedora pegara no batente logo cedo. Muito antes do almoço, porém, seu reduzido estoque de produtos terminou. Ela, então, guardou no carro os poucos equipamentos que havia trazido – a vitrine de salgadinhos, a chapa, o cooler –, assegurou-se de que a tenda estava acorrentada no solo e partiu.

Luiza Miguez

Luiza Miguez é checadora de apuração e repórter da piauí

Leia também

Últimas Mais Lidas

Civilização e barbárie

Jair Bolsonaro não é um candidato a mais na disputa

Maria vai com as outras #4: Profissão família

A jornalista Leticia Nascimento, o radialista Paulinho Coruja e a atriz Vanessa Lóes contam como deixaram suas carreiras para cuidar dos filhos e da vida doméstica

piauí estreia colunas diárias sobre as eleições

Nove cientistas políticos e jornalistas vão debater a campanha deste ano

As Boas Maneiras – sinal de alerta

Filme de Marco Dutra e Juliana Rojas coloca em cena a improvável relação homossexual entre patroa e empregada para despistar o espectador de seu verdadeiro tema

Dario, o órfão, ex-ladrão e ex-grosso que virou Dadá

O campeão mundial em 70 relembra o seu começo no futebol, do primeiro chute aos 19 anos ao técnico que percebeu nele, apesar dos tropeções, um goleador

A revolta dos trolls, e a vingança na Justiça

Alvos nas mídias sociais, jornalistas contra-atacam com processos, denúncias ao Ministério Público e conversa com empregadores dos haters

Como uma lesão levou a uma revolução no jeito de chutar

Didi, bicampeão mundial em 58 e 62, explica como criou a “folha seca”, o chute de três dedos mais cheio de veneno do futebol

Garrincha treinava, mas não ouvia o professor

Nilton Santos, Zezé e Aymoré Moreira recuperam as histórias do mais habilidoso – e o que menos se levava a sério – ponta-direita que o Brasil já viu

Outro 1 a 2 em Copa, 68 anos atrás

Zizinho, Barbosa, Nilton Santos e o técnico Flávio Costa reconstituem as horas seguintes ao Maracanaço, a tragédia do Mundial de 1950

Auto de Resistência – arte crua para vida bruta

Longa vencedor do 23º Festival de Documentários É Tudo Verdade 2018 revela o lado mais assassino do Estado brasileiro

Mais textos
1

Auto de Resistência – arte crua para vida bruta

Longa vencedor do 23º Festival de Documentários É Tudo Verdade 2018 revela o lado mais assassino do Estado brasileiro

2

Auto de Resistência – arte crua para vida bruta

Longa vencedor do 23º Festival de Documentários É Tudo Verdade 2018 revela o lado mais assassino do Estado brasileiro

3

Auto de Resistência – arte crua para vida bruta

Longa vencedor do 23º Festival de Documentários É Tudo Verdade 2018 revela o lado mais assassino do Estado brasileiro

4

Auto de Resistência – arte crua para vida bruta

Longa vencedor do 23º Festival de Documentários É Tudo Verdade 2018 revela o lado mais assassino do Estado brasileiro

5

Auto de Resistência – arte crua para vida bruta

Longa vencedor do 23º Festival de Documentários É Tudo Verdade 2018 revela o lado mais assassino do Estado brasileiro

6

Auto de Resistência – arte crua para vida bruta

Longa vencedor do 23º Festival de Documentários É Tudo Verdade 2018 revela o lado mais assassino do Estado brasileiro

7

Auto de Resistência – arte crua para vida bruta

Longa vencedor do 23º Festival de Documentários É Tudo Verdade 2018 revela o lado mais assassino do Estado brasileiro

8

Auto de Resistência – arte crua para vida bruta

Longa vencedor do 23º Festival de Documentários É Tudo Verdade 2018 revela o lado mais assassino do Estado brasileiro

9

Auto de Resistência – arte crua para vida bruta

Longa vencedor do 23º Festival de Documentários É Tudo Verdade 2018 revela o lado mais assassino do Estado brasileiro

10

Auto de Resistência – arte crua para vida bruta

Longa vencedor do 23º Festival de Documentários É Tudo Verdade 2018 revela o lado mais assassino do Estado brasileiro