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A dialética trilógica

Uma escola de finlandês nada ortodoxa
Julio Lamas
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

A designer paulistana Kátia Nishida não vê a hora de realizar um sonho tão antigo quanto incomum: viver na Finlândia. Mais do que a educação de primeira linha e a segurança, o que atrai a nissei de 27 anos no país escandinavo é o heavy metal. “Nightwish, HIM, Insomnium, Children of Bodom, Apocalyptica… Todas as minhas bandas favoritas são de lá”, diz um tanto eufórica, enquanto passa a mão pelos cabelos multicoloridos. De fato, os finlandeses vêm se destacando há algum tempo como obstinados metaleiros. De acordo com uma pesquisa do Encyclopaedia Metallum, site colaborativo que virou referência entre os fãs do estilo, existem 54 grupos do gênero para cada 100 mil pessoas na terra do Papai Noel. Trata-se, segundo o mesmo levantamento, de um recorde mundial. “Pena não haver, no Brasil, uma quantidade parecida de cursos de finlandês”, lamenta a moça, que já esteve duas vezes em Helsinki.

Depois de muita procura, a designer encontrou uma das únicas escolas latino-americanas que ensinam o idioma presencialmente (a maioria só oferece aulas a distância). Localizado nos fundos de um edifício comercial em São Paulo, o Trilogy Institute se define como uma “universidade livre e terapêutica de línguas”, por adotar um método que almeja “combater as neuroses dos alunos” enquanto lhes desvenda os segredos do finlandês.

O curso tem hoje apenas quatro estudantes, incluindo Nishida. Eles pagam 350 reais por mês para assistir a duas horas semanais de aulas. “Normalmente, quem nos procura são jovens que planejam estudar na Finlândia”, esclarece Päivi Tiura, num português repleto de sotaque. Loira e magra, a professora nasceu em Helsinki há setenta anos e se mudou para o Brasil na década de 90. Seu jeito dócil e discreto não combina nada com as letras das músicas que costuma traduzir em classe. “Pessoalmente, considero o heavy metal muito violento. Prefiro o tango.” O ritmo portenho chegou à Finlândia logo após a Segunda Guerra Mundial e acabou ganhando imensa popularidade. “Somos a Buenos Aires nórdica”, compara Tiura.

 

Nos dois andares do Trilogy Institute, espalham-se diversas pinturas da docente, que também ministra aulas de aquarela. Boa parte dos quadros exibe motivos florais ou personagens de filmes hollywoodianos. “Já ensinei o finlandês para uma centena de alunos, pelo menos”, estima a professora, ressaltando que pouquíssimos se tornaram fluentes. “Em geral, os estudantes pegam apenas o básico, frases do tipo Hey! Mitä kuuluu? (Oi! Como vai você?) e Hyvää, kiitos kysymästä (Bem, obrigado por perguntar). Aprender o idioma pode ser uma experiência frustrante. Não ajuda saber inglês ou alemão, uma vez que o finlandês tem maior proximidade com o estoniano e o húngaro.”

Sob a perspectiva de um anglófilo, a língua nativa de Tiura alcança o grau 4 de dificuldade numa escala de 1 a 5, conforme o Foreign Service Institute, órgão do Departamento de Estado norte-americano. É mais complexa que o norueguês ou o malaio e mais simples que o japonês ou o árabe. “Não concordo de jeito nenhum, cara! Quando me dá um tilt na aula, desembesto a pensar em japonês”, refuta a sorridente Nishida, que fala o idioma dos pais com desenvoltura.

Em média, são necessárias 1 100 horas de estudo para que o aprendiz consiga usar o finlandês no trabalho ou num curso universitário. “Além de abdicar das preposições e dos artigos, a língua não distingue o gênero masculino do feminino, o que desnorteia um pouco quem se expressa em português. Não há, por exemplo, nenhuma diferença entre ‘ele’ e ‘ela’”, explica a nissei. “Se você quiser indagar algo como ‘Na minha casa também?’, deverá dizer Talossanikinko?”, emenda Tiura, anotando a expressão na lousa. Talo significa “casa”, ssani explicita o adjunto adverbial de lugar, kin passa a ideia de “também” e ko é a partícula que indica se tratar de uma pergunta. “Complicado, né? Por isso, o aluno aprenderá mais facilmente o finlandês se vencer seus traumas e inseguranças. Daí utilizarmos um sistema terapêutico de ensino”, conclui a professora, agora em tom pastoral.

 

O modelo pedagógico do Trilogy, batizado de “método psicolinguístico trilógico”, presta-se igualmente aos outros idiomas que se lecionam ali: sueco, alemão, espanhol, italiano, francês e português para estrangeiros. Foi desenvolvido a partir das ideias do psicanalista Norberto Keppe, que criou a escola. Seus funcionários mencionam o nome dele com reverência e sempre antecedido pela palavra “doutor”. Fotos do brasileiro de 89 anos figuram nas paredes do instituto junto dos retratos de Jesus Cristo, do astrônomo Johannes Kepler, de Platão e do engenheiro Nikola Tesla, responsável por descobertas fundamentais no campo do eletromagnetismo. “Doutor Keppe é um homem culto e humilde, que uniu a ciência à filosofia e à teologia para formular a dialética trilógica, uma linha de pensamento capaz de resolver todos os problemas da humanidade”, exagera Tiura. “Nosso material didático reúne vários de seus textos.”

Formado em Viena, o psicanalista publicou 37 livros. Morou treze anos entre a Europa e os Estados Unidos, ora estudando, ora proferindo palestras e clinicando. “Fui paciente dele na Finlândia. Graças às suas teorias, curei neuroses que não conseguia superar com a ajuda de outras abordagens”, atesta a professora. Quando o terapeuta voltou para o Brasil, Tiura resolveu deixar o país natal e segui-lo. “Minha família achou que eu estivesse maluca.”

Atualmente, a finlandesa não só dá aulas como distribui o Stop, jornal do Trilogy, em locais movimentados da cidade. A publicação “científica trilógica” dissemina as curiosas ideias de Keppe, que ultrapassam a seara da psicologia. Algumas delas: as doenças são sempre psicossomáticas; prótons e elétrons não existem; o físico Albert Einstein maculou todo o conhecimento contemporâneo ao propor que a energia advém da matéria; o evolucionismo de Charles Darwin é uma aberração.

Para coroar a extravagância da escola, os ventiladores que refrescam suas salas funcionam por meio de um motor projetado pelo psicanalista. “Nós ainda não o vendemos, mas já fechamos contrato com um fabricante chinês”, afirma a professora. Informes do Trilogy anunciam que o invento gasta 90% menos energia que os motores convencionais.

Na internet, quase não existem artigos de terceiros questionando ou corroborando os pensamentos de Keppe. O instituto tampouco permite que jornalistas vejam as aulas. “Precisamos respeitar a intimidade dos alunos, pois nossos cursos lembram sessões de terapia em grupo. Os estudantes abrem o coração para enxergar o que os impede de avançar no novo idioma e na vida”, descreve Tiura. Dos quatro aprendizes de finlandês, apenas Kátia Nishida concordou em dar entrevista. “Tem gente que fica incomodada com o método e abandona a escola. Parece uma coisa de seita, mas o pessoal do Trilogy é muito bonzinho e não obriga ninguém a nada. Acredita naquilo quem quer. Eu mesma só desejo aprender a língua e ouvir minhas bandas de metal.”

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