esquina

A diferença é a música

Uma rádio cultural de Brasília pena para fechar as contas

Daniela Pinheiro
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

O primeiro a chegar foi o vendedor da loja de colchões ao lado. Em seguida, apareceu um senhor calvo e atarracado com exames de laboratório embaixo do braço, depois uma senhorinha de cabelos azuis agarrada à própria bolsa. Vieram ainda dois adolescentes de mochilas e, por último, uma balzaquiana, ou algo assim, vestida de preto.

Sem alarde, ocuparam parte das cadeiras de plástico cor de laranja em frente ao palco – um tablado de madeira erguido a 1 metro do chão, protegido por portas de vidro basculantes, que lembrava um aquário gigante. Ali, repousavam solenes um piano de cauda Yamaha e uma banqueta de couro preto.

A plateia estava espremida entre a parede de uma agência bancária e o vão que leva ao banheiro do subsolo do Conjunto Nacional, o shopping center mais antigo e popular de Brasília.

Passava das seis quando uma senhora loira vestida com um elegante tubinho preto, colar de pérolas e cabelo à Grace Kelly subiu ao palco e anunciou com a voz aveludada ao microfone: “Boa noite, esta é a sua Brasília Super Rádio FM Estéreo, cultural e educativa. Ao vivo do palco-auditório Mário Garofalo, ouvida em qualquer lugar do mundo.”

Começava mais uma apresentação de Um Piano ao Cair da Noite. Transmitido há 27 anos ininterruptos, o recital de uma hora é o mais longevo programa de música ao vivo de uma rádio brasileira em atividade e um dos poucos remanescentes do gênero. Em Brasília e Goiânia, é captado por ouvintes sintonizados na frequência modulada de 89,9 mega-hertz, mas pode ser acessado também por qualquer computador conectado à internet.

A emissora é tão familiar aos brasilienses quanto rotatórias em forma de tesourinhas, CPIs e superquadras sem esquina. Resiste firme à investida do rock, sertanejo, baladas românticas, axé e funk. Ali só se ouvem boleros, swings, tangos, chorinhos, ópera, jazz, músicas orquestradas, clássicas e temas de cinema, entremeados com notícias nacionais e boletins exclusivos de emissoras estrangeiras.

“Manter uma rádio cultural no Brasil é uma tarefa imensa”, comentou Lúcia Garofalo depois de deixar o palco, enquanto o pianista Toninho dedilhava a primeira canção da noite, The Windmills of  Your Mind, de Michel Legrand. “Música erudita não traz dinheiro ou muitos ouvintes”, completou, ajeitando o colar de pérolas. “Até hoje nem eu sei como não fui à falência.”

Aos 67 anos, Lúcia é apresentadora, proprietária, locutora, produtora e diretora da Brasília Super Rádio FM. Fala num tom grave e macio que descansa em cada sílaba, provocando um rallentanto inebriante. Há quem diga que só ela consegue fazer a frase “Acabamos de ouvir Noturno em Mi Bemol Maior, Opus 9, nº 2, de Chopin” soar como um poema de Bocage.

A Brasília Super Rádio FM nasceu das boas relações e da obstinação do marido de Lúcia, o jornalista Mário Garofalo, morto em 2004. Solar, extrovertido, hedonista e com gosto musical refinado, Garofalo chegou a Brasília a convite do presidente Juscelino Kubitschek, de quem se tornou amigo. Decano da sala de imprensa da Presidência da República, sempre esteve perto do poder, o que o ajudou a conseguir a concessão da rádio por dez anos, renováveis por outros quarenta, com o objetivo de tocar “só música de qualidade” em Brasília.

Católico fervoroso, Garofalo abriu a primeira transmissão da emissora em 30 de junho de 1980 com uma bênção à rádio gravada pelo papa João Paulo II durante sua visita ao Brasil. Até hoje, aos domingos, pontualmente às 11h55, ouve-se o noticiário semanal da Rádio Vaticana, seguido do pronunciamento papal, do Angelus e da bênção de Bento XVI, em tradução simultânea. Todos os dias, às seis da tarde, escuta-se um trecho da Ave Maria, de Gounod.

Para muitos brasilienses, tornou-se um hábito ouvir os clássicos orquestrados do Almoço Musical, as óperas de sábado da Vesperal Lírica e a seleção de jazz para insones do Suave é a Noite. “Só nós temos uma programação diária com duas horas obrigatórias de música erudita”, comentou Lúcia.

De acordo com o Ibope, a rádio ocupa a antepenúltima posição em audiência na cidade, à frente apenas da Rádio Senado e da Mega FM. Segundo Lúcia, seus ouvintes têm entre 35 e 60 anos, são da classe AA e só mudam de estação quando querem ouvir notícias de outras emissoras.

Antes de Toninho atacar A Dança Ritual do Fogo, de Manuel de Falla, ela discorreu sobre as mudanças no negócio. Contou que, nos anos 80, Um Piano ao Cair da Noite contava com dezenove músicos de smoking tocando ao vivo com participação eventual de pianistas renomados como Arnaldo Cohen e Arthur Moreira Lima. Hoje, cinco músicos se revezam semanalmente ganhando por hora. Ao todo a rádio tem oito funcionários e uma dívida galopante por falta de pagamento de direitos autorais.

Apesar de anunciantes de peso, como o governo do Distrito Federal, o Banco de Brasília e a Petrobras, Lúcia Garofalo – que é aposentada pelo Senado Federal – disse ter que tirar dinheiro do próprio bolso para acertar as contas. “E os apresentadores de alguns programas trabalham voluntariamente”, contou.

Com a morte de Garofalo, ela passou a tocar sozinha a empreitada. Sem herdeiros, entrou numa disputa litigiosa com o único filho do marido, que pretende vender a rádio para um grande grupo comercial. “Nunca deixamos de transmitir um programa em toda a nossa história.”

Com All My Loving, dos Beatles, Toninho encerrou o bis. As palmas brotaram e alguns espectadores se entreolharam com uma expressão de bem-estar. Como se obedecessem a uma ordem, dispersaram-se ao mesmo tempo. O último a se afastar foi o funcionário da loja de colchões, que saiu a passos lentos, sem olhar para trás, fazendo da caneta descartável uma batuta. Assobiava, aplicado, a melodia de New York, New York.

Daniela Pinheiro

Daniela Pinheiro foi jornalista da piauí entre 2007 e 2017

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