carta da Europa

A fronteira

A Hungria, um país da União Europeia, mostra até onde o populismo pode chegar

Rafael Cariello
Em 2010, a coligação de Viktor Orbán conquistou cadeiras suficientes no Parlamento para aprovar, sozinha, reformas constitucionais. Desde então, o líder húngaro conseguiu enfraquecer instituições e mudar as regras eleitorais em benefício próprio. Hoje governa quase sem freios ao seu poder
Em 2010, a coligação de Viktor Orbán conquistou cadeiras suficientes no Parlamento para aprovar, sozinha, reformas constitucionais. Desde então, o líder húngaro conseguiu enfraquecer instituições e mudar as regras eleitorais em benefício próprio. Hoje governa quase sem freios ao seu poder FOTO: NIKOLAY DOYCHINOV_AFP_GETTY IMAGES

Márton Gyöngyösi é a face cosmopolita da extrema direita húngara – se é que isso é possível. O parlamentar de 39 anos pertence ao Jobbik, um partido cujo nome, na indomável língua local, pode ser compreendido como “mais à direita” ou “a melhor escolha”. A legenda, defensora de uma plataforma ultranacionalista, crítica ao “capitalismo global” e ao processo de integração europeia, cresceu muito na última década. Hoje é a terceira maior força no Parlamento.

Gyöngyösi nem de longe tem o perfil típico dos seus correligionários. Foi educado e passou a maior parte da infância e da adolescência fora da Hungria: na Índia, em países árabes, na Europa Ocidental. Seu pai era diplomata. Depois de se formar em economia na Irlanda, trabalhou por algum tempo numa das maiores empresas de consultoria financeira do mundo, a KPMG. Fala um inglês fluente, habilidade de que parece se orgulhar.

Acresce que Gyöngyösi se assemelha ao Super-Homem. Ou, para ser mais preciso, ele tem o mesmo tipo físico ambíguo que, desde os anos 70, Hollywood procura nos atores que interpretam Clark Kent e o Homem de Aço. Por um lado, é caricaturalmente masculino: alto, o tórax largo, o maxilar quadrado. Mas possui também um certo ar de escoteiro, garoto inofensivo, do tipo que ajuda velhinhas a atravessar a rua: sem qualquer sinal de barba, usa óculos e o cabelo partido de lado. Quase sempre tem um sorriso amigável no rosto.

No final de 2012, durante um debate legislativo, Márton Gyöngyösi proferiu uma frase chocante. Defendeu que o governo húngaro deveria fazer um levantamento de todos os integrantes do Parlamento que tivessem ascendência judaica – e torná-la pública. Uma lista de judeus. Eles poderiam representar um risco à segurança nacional. Não era a primeira vez que um integrante do partido da extrema direita húngara, fundado há pouco mais de uma década, fazia declarações antissemitas.

Mais tarde, o mandatário do Jobbik tentaria amenizar o golpe. Havia sido um erro falar em “judeus”, disse ele. Sua preocupação se restringia às pessoas que tinham dupla cidadania húngara e israelense. Opunha-se às intervenções militares de Israel na Faixa de Gaza e queria entender, segundo explicou, o que estava por trás do apoio de integrantes do governo local à política de Israel.

O episódio não impediu que Gyöngyösi fosse reeleito, em 2014. Nem que continuasse a ser uma espécie de porta-voz da sua legenda para a imprensa internacional.

 

Numa segunda-feira gelada em Budapeste, no início de fevereiro, deixei o hotel em que estava hospedado e decidi fazer a pé o caminho até o prédio próximo ao Parlamento onde fica o gabinete de Gyöngyösi. Ele havia marcado a entrevista para as nove e meia da manhã. A caminhada não seria longa – pouco menos de 1 quilômetro – entre a praça da Liberdade, no centro comercial da capital húngara, e a sede do poder político do país, às margens do rio Danúbio. Um resto de neve se acumulava nas calçadas, no meio-fio e nos espaços da praça que, no verão, são bonitos e gramados. Gente pesadamente agasalhada circulava pelas ruas.

Budapeste é uma cidade apinhada de estátuas e monumentos históricos. Numa das extremidades da praça da Liberdade, por exemplo, ergue-se uma obra de formas abstratas, uma espécie de obelisco, em homenagem ao Exército Vermelho. As tropas russas foram responsáveis por liberar o país dos nazistas, ao final da Segunda Guerra. Pelas quatro décadas seguintes, a Hungria permaneceria na órbita política, econômica e militar de Moscou. Do monumento é possível ver ao longe, no fundo de uma das ruas, o Parlamento – uma construção neogótica do século XIX que mais parece uma catedral. Na ampla praça que se abre diante daquele prédio tivera lugar, na véspera, uma manifestação de protesto contra o atual governo húngaro.

Desde 2010 o país é comandado por Viktor Orbán, um primeiro-ministro de agudo estilo populista – espécie de precursor de Donald Trump, ele foi o único líder europeu a declarar apoio ao republicano ainda durante o processo eleitoral norte-americano. No rastro da crise econômica de 2008 e do desmoronamento do sistema político húngaro, o partido de Orbán conseguiu conquistar dois terços das cadeiras do Parlamento, escrever uma nova Constituição, distribuir favores econômicos a empresários amigos e intervir, nos anos seguintes, no Judiciário e na imprensa local. É difícil encontrar algum analista que ainda se refira à Hungria – um país-membro da União Europeia – como uma democracia plena.

Depois da vitória de Orbán, o partido de Márton Gyöngyösi, que em breve eu iria entrevistar, havia se firmado como uma das principais forças de oposição. Sob certos aspectos, contudo, não é fácil diferenciar o extremista Jobbik da agremiação liderada pelo primeiro-ministro. O Fidesz – sigla em húngaro para Aliança dos Jovens Democratas – também costuma se valer de um discurso fortemente nacionalista.

Eu havia topado com um exemplo disso no dia anterior. Durante o protesto contra o governo, um dos manifestantes chamara a minha atenção para um fato curioso. Não há bandeira da União Europeia presa a nenhum mastro diante do prédio do Parlamento.

Nas instituições públicas da Europa, é comum encontrar duas flâmulas: a do país, de um lado, e uma outra, com estrelas amarelas sobre um fundo azul, representando a unidade política do continente. Ali, contudo, na entrada da sede do governo, o segundo estandarte que tremulava, embora também azul e dourado, não era o da União Europeia, mas sim a bandeira adotada pela minoria húngara que vive na Transilvânia. A região, hoje pertencente à vizinha Romênia, no passado já fez parte do país de Orbán. Por causa das punições posteriores à Primeira Guerra Mundial e à derrota do Império Austro-Húngaro, no entanto, a Hungria perdeu boa parte do seu território no início do século XX. Minorias ligadas por laços étnicos e linguísticos ao país se espalham, desde então, por várias nações do Leste Europeu. É o caso na Transilvânia. A defesa dessas populações encontra forte apoio no eleitorado húngaro.

Ocorre que o nacionalismo de Orbán também pode se converter em xenofobia. Entre 2015 e 2016, no auge do fluxo migratório que atravessou a Europa, com centenas de milhares de pessoas fugindo dos conflitos no Oriente Médio, o primeiro-ministro decidiu tomar providências. A primeira foi instalar uma cerca de arame farpado na fronteira do país com a Sérvia e a Croácia, numa tentativa de barrar os migrantes. Nos meses seguintes, passou também a promover uma forte campanha publicitária que “alertava” a população para os perigos que sírios, iraquianos e afegãos representavam para a cultura cristã local, bem como para as mulheres húngaras. Os casos de assédio haviam aumentado no continente europeu desde que aquela massa de gente chegara, dizia o governo. “Você sabia que os atentados terroristas de Paris foram realizados por imigrantes?”, questionavam outdoors espalhados pelo país.

Pode-se dizer que a iniciativa foi bem-sucedida, pelo menos do ponto de vista do Fidesz, cuja aprovação política subiu depois da campanha. “A crise de refugiados favoreceu o Orbán”, me disse o economista húngaro Balazs Szent-Ivanyi, doutor pela Universidade Corvinus, a antiga Universidade Karl Marx de Ciências Econômicas, em Budapeste. “A tevê estatal não parou de veicular notícias de que os refugiados eram gente ruim, perigosa, uma ameaça à Hungria. Embora muitos húngaros nunca tenham visto um refugiado na vida, eles acreditaram que o primeiro-ministro era a pessoa capaz de protegê-los dos imigrantes.”

 

O prédio em que se encontra o gabinete de Gyöngyösi – um caixote branco do tempo do socialismo, onde já funcionou a sede do Partido Comunista – fica a algumas dezenas de metros do Parlamento. O saguão de entrada, com o pé-direito alto e pilotis espalhados pelo lobby, faz lembrar um hotel que um dia já foi luxuoso, parado no tempo. O mobiliário de madeira e couro dá a impressão de estar ali desde os anos 50.

Anunciei que era jornalista e tinha uma entrevista marcada. Atrás de uma bancada de madeira escura, o segurança pediu meu passaporte. Ele vestia uma espécie de uniforme militar, numa cor indefinida, entre o verde e o cinza, e um quepe que não se ajustava bem à cabeça. Conferiu a minha fotografia, na qual apareço escanhoado, e comparou-a com o meu rosto barbudo do outro lado do balcão. Depois passou a folhear o documento, página por página, carimbo por carimbo, como se fosse um policial de fronteira desconfiado.

Fazia então onze meses que eu vivia na França. Como chegara a Budapeste num voo direto de Paris, e a Hungria faz parte do espaço europeu de livre circulação de pessoas, nenhum controle daquele tipo havia sido feito no aeroporto. Era de todo modo estranho que viesse a acontecer agora, no centro da capital húngara. Eu já havia apresentado aquele mesmo documento em diversas instituições públicas europeias sem que nenhum funcionário tivesse se ocupado dos carimbos no meu passaporte.

O segurança se deteve no meu visto mais recente, emitido quase um ano antes, e disse que ele estava vencido. Expliquei que não era aquele visto que autorizava a minha permanência na Europa, mas um documento de estadia concedido pelo governo francês. De maneira despreocupada, eu o havia deixado no hotel – um erro, como eu começava a me dar conta. Disse ao funcionário que não havia problema, eu podia ir buscar o documento, estava adiantado para a entrevista. Ele balançou a cabeça e me deu as costas. Chamou então um colega, com quem passou a conversar em húngaro.

Já inquieto, mandei uma mensagem a Georgina Bernáth, secretária de Márton Gyöngyösi, explicando o que se passava. Antes que ela pudesse responder, o segurança com o uniforme militar exigiu a minha atenção. Informou-me que não devolveria o meu passaporte: ele estava retido. Eu também não deveria sair dali, ele disse. Estava chamando a polícia.

De um momento para o outro, várias pessoas já se envolviam na confusão. Uma mulher alta, que parecia ter alguma autoridade sobre os seguranças do prédio, discutia com a secretária de Gyöngyösi, que a essa altura já havia chegado. Dizia que não poderia autorizar a minha entrada. De nada adiantou a explicação oferecida por Bernáth de que de fato eu estava ali para fazer uma entrevista, marcada semanas antes. Havia riscos de segurança caso o meu acesso ao prédio fosse autorizado, reagiu a mulher.

O próprio Gyöngyösi apareceu, simpático, sorridente. Cumprimentou-me. Tentou argumentar com o segurança, sem efeito. Depois procurou me tranquilizar: não era nada, o funcionário estava sendo zeloso, bastava eu mostrar o documento francês às autoridades e tudo estaria resolvido. Dispôs-se, inclusive, a remarcar a reunião, assim que eu tivesse sido liberado.

Os dois policiais que atenderam ao chamado – um homem e uma mulher – eram gentis. Ouviram o que eu tinha a dizer. Perguntaram onde era o hotel. Eu seria conduzido por eles até lá. Despedi-me de Gyöngyösi e de sua secretária, Bernáth. O carro da polícia estava parado diante do prédio. Os policiais abriram a porta traseira e pediram que eu me acomodasse. O passeio na patrulhinha húngara até a praça da Liberdade foi breve.

Eu ainda ficaria quase três horas na companhia de meus educados vigias, com a viatura policial estacionada o tempo todo na porta do meu hotel. No início da tarde, depois da intervenção da embaixada brasileira e da checagem dos meus documentos, fui afinal liberado.

 

A transição para o capitalismo, na Hungria, foi conduzida pelo próprio establishment comunista.

Depois de anos de crise econômica, o cargo de primeiro-ministro e outros postos-chave do governo haviam sido entregues, em 1988, a um grupo de jovens reformistas – comunistas de carteirinha, mas convencidos de que o país se encontrava num beco sem saída e era hora de implementar princípios liberais, tanto na política quanto na condução da economia.

O novo primeiro-ministro, Miklós Németh, tinha então 40 anos. Havia começado a vida profissional como professor universitário, e recebera parte do seu treinamento em Harvard, nos Estados Unidos. Ele e seu grupo defendiam, havia algum tempo, a necessidade de reformas para tentar salvar o que fosse possível do regime húngaro. A economia planificada se mostrava incapaz de gerar o crescimento desejado. Desde os anos 70 o país vinha tomando empréstimos no Ocidente. Os recursos eram usados, sobretudo, para importar os bens de consumo que a Hungria não conseguia produzir na quantidade desejada – tevês, geladeiras – e assim tentar manter o apoio da população. Nos anos 80, com o aumento da dívida e a dificuldade para se obter novos empréstimos, as filas diante das lojas aumentaram, e com elas a insatisfação popular.

No auge da crise, o líder que comandava a Hungria havia três décadas, János Kádar, deixou o poder. Os dirigentes do partido consideraram então que fazia sentido dividir o ônus cada vez maior de administrar o país com aquele punhado de jovens petulantes. Que, aliás, poderiam contar com o apoio do líder reformista soviético, Mikhail Gorbachev.

Uma das primeiras medidas tomadas pelo novo governo teve forte simbolismo. Tratava-se de tentar reabilitar politicamente o líder da Revolução de 1956, Imre Nagy. A célebre e frustrada reação dos húngaros aos rigores stalinistas e ao poder soviético – talvez o fato histórico decisivo do país no pós-guerra – durou apenas algumas semanas. A resistência das milícias locais foi esmagada por tropas e tanques russos. Derrotado, Nagy seria condenado à morte em 1958 e enterrado num jazigo não identificado de um cemitério na periferia de Budapeste.

A revolta contra Moscou havia sido tratada, por três décadas, como uma tentativa de “contrarrevolução” burguesa. Agora a comissão oficialmente designada pelo Partido Comunista para reescrever a história admitia que se tratara, em 1956, de um levante popular contra um “poder oligárquico”. O processo culminou num estranho ritual: um funeral solene para Nagy, realizado exatos 31 anos depois de sua morte, no dia 16 de junho de 1989.

Estima-se que cerca de 200 mil pessoas tenham se reunido na monumental praça dos Heróis, na capital húngara, para assistir à cerimônia fúnebre. Seis caixões se enfileiravam naquele dia sobre o palco, onde líderes políticos, inclusive dos partidos de oposição que começavam a se organizar livremente, puderam discursar. Num dos ataúdes estavam os restos mortais de Nagy, que haviam sido desenterrados. Quatro esquifes continham os corpos exumados de outros líderes de 1956, também assassinados pelos russos. O sexto caixão, vazio, homenageava todos os outros mortos em combate com as tropas soviéticas. A tevê estatal húngara transmitiu, por horas, a cerimônia e os discursos. Pelo menos parte do Partido Comunista parecia disposta a permitir que o país inteiro assistisse ao fim simbólico do regime.

 

Naquele dia, András Dési acompanhou o funeral de Nagy no sofá de casa, pela tevê. Nas décadas seguintes, Dési faria carreira como jornalista, cobrindo temas militares e de política internacional. Passou boa parte da vida profissional fora da Hungria, trabalhando como correspondente em Bonn, Berlim e Paris. Hoje tem 51 anos, cabelos brancos e um jeito sério, quase sisudo, amenizado pelo hábito de usar óculos com aros coloridos, vermelhos.

Em junho de 1989, ele ainda era um jovem promissor, prestes a se formar numa das mais prestigiosas universidades do mundo socialista, o Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou – apelidado por Henry Kissinger, o ex-secretário de Estado norte-americano, de a “Harvard da União Soviética”.

Dési havia chegado a Budapeste duas semanas antes da cerimônia fúnebre, depois de passar quatro anos na capital do mundo comunista. Voltava, entre outras razões, porque tinha conquistado uma vaga como estagiário no mais importante diário da Hungria, o Népszabadság (pronuncia-se “Nêp-sabád-tchég”, nome que significa “a liberdade do povo”). A experiência profissional, obrigatória para a sua formação universitária, poderia lhe garantir uma vaga no jornal depois que recebesse o diploma. Era tudo o que ele queria.

Quando foi viver em Moscou, em 1985, Dési ainda sonhava em um dia se tornar diplomata. Mas não demorou a mudar de ideia. “Eu não gostava do excesso de hierarquia. Além disso, teria que me filiar ao Partido Comunista, o que eu não queria fazer.” Um pouco por influência familiar – a mãe era produtora do programa de música clássica na tevê estatal –, vislumbrou uma alternativa no jornalismo.

Dési tinha adquirido o hábito, na Rússia, de jogar tênis pelas manhãs. Queria manter o hobby e sabia que os jornalistas costumavam começar a trabalhar mais tarde. Foi algo que contou a favor da escolha profissional, ele disse. Também gostava da ideia de ver o seu nome impresso na página. Se tudo isso não bastasse, o Népszabadság ainda oferecia, àquela altura, um emprego próximo do ideal para quem não se adaptava bem à rígida hierarquia comunista.

Desde o início de 1989, como parte das reformas por que passava o país, a redação do mais importante diário húngaro já não obedecia a um editor-chefe nomeado pelo partido. Numa conquista de fazer inveja à equipe de qualquer veículo de comunicação ocidental, os jornalistas haviam adquirido o direito de escolher pelo voto quem ditaria os rumos do jornal. Os repórteres se sentiam à vontade para entrevistar políticos da oposição, e opiniões divergentes começavam a aparecer nas páginas do diário.

Entre as novas lideranças que ganhavam espaço estava Viktor Orbán, então com 26 anos, apenas dois a mais que Dési. No funeral de Nagy, o líder do Fidesz foi o último a discursar. Usava jeans, cabelos revoltos e tinha a barba por fazer. Ao lado dos caixões, exigiu a retirada imediata das tropas soviéticas do país – um tema que para muita gente ainda era tabu. Diante da tevê, András Dési gostou do que ouviu. “O discurso teve um impacto impressionante. Nas primeiras eleições depois da transição, eu votei no Fidesz.”

 

Dizer, quase três décadas depois, que a opinião de Dési sobre Viktor Orbán mudou é um eufemismo.

Nos últimos anos, o Népszabadság, onde o jornalista fez toda a sua vida profissional, se estabeleceu como um dos poucos meios de comunicação independentes na Hungria. À sua volta, outros veículos – inclusive canais de tevê e sites noticiosos – passaram a sofrer pressões cada vez maiores. Em alguns casos, empresários próximos ao Fidesz simplesmente compraram empresas de mídia, transformando-as em publicações pró-governo.

No caso específico dos jornais e revistas, que enfrentam crescentes dificuldades financeiras desde o advento da internet, o governo tratou de utilizar as verbas de publicidade de maneira discricionária. Em particular os amplos recursos das empresas estatais. Aos amigos, a compra de anúncios. Para a imprensa crítica, os rigores do mercado.

Um trabalho acadêmico recente, realizado por dois economistas húngaros – um pesquisador da Universidade da Califórnia em Berkeley; outro da Central European University, uma instituição com sede em Budapeste –, procurou medir as compras de anúncios em diários de grande circulação feitas por 200 companhias controladas pelo Estado, entre 1994 e 2016. Logo após a eleição de Orbán em 2010, o dispêndio publicitário das estatais no Magyar Nemzet – uma publicação cujo dono ajudou a fundar o Fidesz – deu um salto, constataram os pesquisadores. Esse gasto maior com a publicação pró-governo ocorreu em detrimento dos veículos críticos. Nos anos de 2012 e 2013, as empresas públicas chegaram a comprar um valor nove vezes maior, em propaganda, no Magyar Nemzet do que no Népszabadság. Isso apesar de a circulação do diário governista ser inferior à do concorrente.

“Nós perdemos muita propaganda depois de 2010”, observou András Dési. No final do ano passado, parecia-lhe evidente que não apenas a possibilidade de se manter empregado estava ameaçada. Depois de anos de embate entre o governo e o Népszabadság, Dési já não tinha certeza se conseguiria continuar a exercer o jornalismo.

 

O funcionário na recepção de um dos prédios da CEU, a Central European University (Universidade da Europa Central), pediu para ver o meu passaporte. “Esta é uma instituição privada, e nós precisamos controlar quem entra e quem sai”, explicou. Não muito longe da porta havia uma imagem que de certa forma confirmava aquela informação: um retrato do investidor George Soros, uma das trinta pessoas mais ricas do mundo, segundo a revista Forbes.

Soros, nascido na Hungria, mudou-se para Londres ainda jovem, em 1947. Estudou na London School of Economics e mais tarde se radicou nos Estados Unidos, onde fez sua fortuna no mercado financeiro. É desde os anos 80 um dos principais apoiadores – com dinheiro e recursos materiais – do processo de democratização do Leste Europeu, e da Hungria em particular. Doava máquinas de xerox, ainda no período comunista, para os grupos de oposição que produziam os samizdats, as publicações clandestinas contrárias ao regime. A CEU nasceu depois da queda do Muro, em 1991, de uma doação de Soros – um fundo de onde ainda hoje a instituição retira a maior parte dos recursos que usa para se manter. Oferece cursos de pós-graduação em ciências sociais e tem como objetivo declarado “apoiar a construção de sociedades abertas e democráticas”.

Entreguei o passaporte ao recepcionista, que anotou os meus dados e devolveu o documento. Eu informei que era jornalista e estava ali para entrevistar o cientista político Gábor Tóka. Ao próprio Tóka eu havia dito, quando o procurei pela primeira vez, que gostaria de tentar entender como a Hungria, um dos países-modelo no processo de abertura democrática pós-1989, podia ter se tornado algo que ele mesmo descrevia como “um regime autocrático”, um lugar em que quase todo poder passara a se concentrar nas mãos de uma única pessoa, o primeiro-ministro Viktor Orbán.

Embora não muito alto, Tóka faz lembrar um jogador de rúgbi, ou um integrante de torcida organizada do futebol inglês. É muito branco, tem o pescoço largo e os cabelos cor de palha cortados rente à cabeça. O professor da CEU não usou a imagem, mas o modo como descrevia a história política recente no seu país fazia lembrar um desastre de avião: muita coisa tem que dar errado ao mesmo tempo para que o pior aconteça.

A narrativa de Tóka colocava ênfase no fato de que, por mais de uma década, a Hungria havia tido um sistema partidário organizado a partir de dois polos principais. De um lado, os socialistas, que governavam em aliança com os liberais. De outro, o Fidesz, partido de Orbán, que desde meados dos anos 90 se apresentava aos eleitores como uma legenda de direita conservadora.

Enquanto socialistas e liberais implementavam reformas pró-mercado e procuravam atrair investimentos internacionais, o Fidesz lançava mão de um discurso nacionalista, uma retórica de “lei e ordem”, de defesa das minorias húngaras nos países vizinhos e dos valores cristãos da nação.

O discurso tinha uma longa tradição no país. A historiadora Éva Balogh, que fugiu da Hungria em 1956 e depois se tornou professora em Yale, nos Estados Unidos, associa a força do nacionalismo ao fato de os húngaros terem estado sob o domínio de potências estrangeiras na maior parte do tempo, desde o século XVI: primeiro os otomanos, depois os austríacos e, mais recentemente, os russos. A circunstância de falarem uma língua completamente diferente das que são usadas por todos os seus vizinhos – eslavos, germânicos e latinos – contribui para intensificar os ímpetos identitários.

Com a abertura econômica nos anos 90 e a entrada de empresas multinacionais na Hungria, o discurso nacionalista passou a servir de refúgio também para quem se sentia inseguro – ou prejudicado – pelas mudanças por que passava o país. Antes de 1989, mesmo a parcela da população que tinha baixa escolaridade podia contar com um emprego garantido nas ineficientes indústrias comunistas. Agora essas pessoas enfrentavam dificuldade para encontrar lugar no mercado de trabalho, que premiava os operários qualificados, contratados pelas empresas da Europa Ocidental que se instalavam no país. As desigualdades aumentaram. Mesmo parte da classe média, cuja vida de modo geral melhorou, passou a se sentir insegura com as exigências de competição e eficiência da nova economia.

“Eu diria que foram essas pessoas, as que se sentiram mais inseguras, que acabaram ficando mais sensíveis à mensagem política populista”, avaliou o economista húngaro Kálmán Kalotay, que trabalha na Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, a Unctad.

 

Em 2006, pela primeira vez desde a transição para o capitalismo, um partido conseguiu manter o controle do Parlamento depois de um período de quatro anos no governo. O sucesso eleitoral dos socialistas não era difícil de ser explicado. Dois anos antes, a Hungria tinha finalmente sido incorporada à União Europeia. A economia crescia e a renda aumentava. Havia a expectativa de que em breve o país poderia abandonar a moeda local – o forinte – e adotar o euro.

“Quando nos tornamos parte da União Europeia, achei que a democracia estava consolidada”, me disse George Bólgar, um radialista de 70 anos que começou a carreira na estação estatal húngara, em 1968, e ainda está em atividade. “Parecia irreversível. Estávamos entre amigos, na Europa, onde sempre quiséramos estar. Só havia um caminho, e ele era para a frente. Logo nos tornaríamos um país ocidental.”

A oferta de dinheiro fácil que caracterizou os primeiros anos do século XXI também chegou ao país. Bancos estrangeiros se dispunham a fazer empréstimos aos húngaros em moeda estrangeira – na maior parte dos casos, em franco suíço – a juros muito baixos, nunca antes vistos por ali. Boa parte da classe média financiou carros e imóveis dessa maneira. Havia um sentimento geral de aumento da riqueza.

“Durante esses quatro anos, entre 2002 e 2006, mais ou menos todo mundo estava satisfeito. Foi por isso que os socialistas foram reeleitos”, avaliou Bólgar.

Mas havia também problemas, e eles ajudavam a entender por que a vitória sobre o Fidesz fora conquistada com uma margem estreita de votos. A percepção generalizada era a de que a corrupção tinha aumentado sob o governo socialista. “Desde os anos 90, os partidos chegaram a um acordo tácito de que o dinheiro oficialmente reservado para a campanha política não era suficiente, e que eles precisavam encontrar outras fontes de recursos para financiar a democracia”, explicou-me Gábor Tóka, o cientista político da CEU. “Todo mundo passou a pegar dinheiro nas transações de governo, em especial nos governos locais.”

“Os socialistas eram corruptos, não há dúvida”, garantiu András Dési, o jornalista do Népszabadság, citando suspeitas de superfaturamento nas obras do metrô de Budapeste. “Mas a corrupção era diferente do que acontece agora. Era descentralizada, e o dinheiro servia a propósitos pessoais, sobretudo.”

Outro problema era o excesso de gastos do governo, algo que tampouco havia sido inaugurado pelos socialistas – embora eles tivessem aprofundado o problema, entre 2002 e 2006. “Os socialistas implementaram políticas que aumentaram ainda mais o déficit”, disse o economista Balazs Szent-Ivanyi. “Uma delas foi dobrar o salário dos servidores públicos. Fazia algum sentido. Eles ganhavam muito mal, de modo geral. Mas era algo que o governo não tinha condições de bancar. A dívida pública do país, que havia baixado nos anos 90, voltou a subir e ultrapassou o equivalente a 80% do PIB.”

Tudo somado, os socialistas se viram obrigados a adotar uma política de ajuste fiscal assim que foram reeleitos, em 2006. “Eles se deram conta de que as coisas não podiam continuar daquele jeito”, afirmou Szent-Ivanyi. Se os déficits de quase 10% do PIB continuassem a ser praticados, “o país não seria mais capaz de se financiar, de pegar novos empréstimos”.

O então primeiro-ministro, Ferenc Gyurcsány, reuniu os parlamentares do partido, disposto a convencê-los de que era imperativo tomar duras medidas de austeridade. Aquilo que eles não haviam podido nem mesmo mencionar durante a campanha agora se tornava inadiável. A fim de convencer os correligionários mais resistentes à mudança, Gyurcsány proferiu a frase que selaria o destino político dos socialistas na Hungria. Era preciso reconhecer, ele disse, que ao fazer a campanha sem mencionar a necessidade de ajustes eles haviam enganado os eleitores. “Nós mentimos de manhã, de tarde e à noite”, declarou o primeiro-ministro, numa reunião a portas fechadas do partido.

A frase, obviamente, foi gravada. Viria a ser entregue aos meios de comunicação pouco tempo depois, às vésperas das eleições municipais – que na Hungria ocorrem no mesmo ano que a eleição nacional, para o Parlamento, apenas com alguns meses de intervalo. Àquela altura, em meados de 2006, as medidas de ajuste fiscal já estavam sendo implementadas. De forma nada surpreendente, o apoio da população aos socialistas caía drasticamente. Num ambiente de crescente insatisfação, o efeito da confissão feita por Gyurcsány foi devastador. Protestos explodiram na capital do país.

“As manifestações que se seguiram foram violentas”, me disse András Dési num café em Budapeste. “Duraram uns dez dias. Ameaçavam todo mundo. Muita gente ficou em casa. Foi por sorte que ninguém morreu. A última vez que havia acontecido algo tão violento assim foi em 1956. Não é óbvio que havia gente do Fidesz envolvida. Mas havia hooligans e manifestantes de extrema direita. Uma mistura estranha.”

Houve protestos na frente do Parlamento e também diante da tevê pública, na praça da Liberdade. “Aconteceu uma briga grande, nas escadarias da emissora. A polícia tentou detê-los”, contou Dési. “Não conseguiram defender o prédio”, lembrou George Bólgar, o radialista. “A incapacidade dos policiais era ao mesmo tempo ridícula e chocante. Dentro da estação de tevê, por sorte, os manifestantes não foram violentos. Não atacaram ninguém. Entraram no prédio, queriam que as exigências deles fossem lidas, mas não tinham líderes e não sabiam direito o que fazer.”

Por vários dias, dois ou três carros da polícia ficaram estacionados na porta do Népszabadság. “Havia rumores de que manifestantes violentos pudessem ir ao jornal” e tentar invadi-lo, disse Dési. Perguntei se ele chegou a ter medo. “Não”, respondeu. “Eu achava que eles não iriam até lá. A redação ficava longe, em Buda” – área mais nobre, residencial, separada do lado Peste pelo Danúbio – “e eles são preguiçosos. Era mais fácil ir ao prédio da tevê ou ao Parlamento.”

 

Quando parecia que a situação econômica e social do país não podia piorar, veio a crise financeira de 2008. A Hungria foi atingida em cheio pelos problemas de crédito e de redução do crescimento econômico na Europa justo quando já sofria os efeitos do esforço de contenção fiscal. A economia entrou em queda livre, encolhendo quase 7% em 2009. Do dia para a noite, o forinte perdeu valor em relação ao franco suíço, divisa em que a classe média tinha se endividado. Ainda que os juros contratados fossem baixos, o valor a ser pago saltou, quase dobrando de tamanho.

Tudo somado, os efeitos políticos foram devastadores, me disse Gábor Tóka, ao tentar explicar os diversos fatores que tinham contribuído para a vitória esmagadora do Fidesz nas urnas, em 2010. “Uma das pernas do sistema político húngaro, que era quase bipartidário, caiu”, afirmou o professor da CEU, referindo-se aos socialistas. “Praticamente deixou de existir.”

András Dési tinha acabado de voltar à Hungria, no início de 2010, depois de uma temporada como correspondente do Népszabadság em Berlim. Desembarcou em Budapeste pouco antes das eleições. “Já dava para ter certeza de que o Fidesz iria ganhar”, lembrou. “Mas eu fiquei surpreso com o fato de eles terem conseguido uma maioria de dois terços das cadeiras no Parlamento.”

 

O jornalista Gábor Horváth era até o ano passado o editor da seção de notícias internacionais do Népszabadság. Como András Dési, que fazia parte da sua equipe, Horváth estudou no Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou. Anos mais tarde voltaria à capital russa, como correspondente. Também trabalhou nos escritórios do jornal em Havana e Washington.

Quando o procurei, no início de fevereiro, dizendo que iria à Hungria e gostaria de entrevistá-lo, Horváth sugeriu que nos encontrássemos para um almoço. Numa sexta-feira de tempo particularmente miserável em Budapeste, circulei pelo antigo gueto judaico da cidade ao seu lado, atrás de um restaurante. Os prédios do bairro – cujas fachadas ainda parecem, em muitos casos, deterioradas – abrigam hoje em dia uma porção de bares e casas noturnas, e são frequentados pelos jovens americanos e europeus que não param de chegar à cidade – relativamente barata, o que a torna atrativa para estudantes.

Após rodarmos por alguns minutos, Horváth acabou se decidindo por uma casa de comida tailandesa. Almoçamos num balcão próximo à janela, com vista para a rua, estreita e um pouco suja. Ao fazer uma síntese da atual situação política do país, o jornalista disse o seguinte: “Hoje, na Hungria, se Viktor Orbán quisesse passar uma lei que lhe concedesse o direito da primeira noite” – o privilégio supostamente concedido aos senhores feudais de dormir com a noiva de seus vassalos – “nada poderia impedi-lo de aprová-la.”

A tirada, embora um exagero, não era de todo absurda. Ilustrava a quase total ausência de freios e contrapesos institucionais, no país, ao poder do primeiro-ministro – os checks and balances que impedem uma democracia de se tornar um regime arbitrário. O problema é que Orbán conseguiu esse feito – o de se livrar de quase todas as amarras ao seu poder – seguindo à risca as regras constitucionais do país, que jamais puderam prever uma situação como a da eleição de 2010.

O sistema eleitoral húngaro foi concebido durante a transição para a democracia com dois objetivos. O primeiro era o de garantir que as diversas forças da oposição ao comunismo tivessem representação política. Assim, pouco mais da metade das cadeiras do Parlamento passou a ser dividida entre as legendas de maneira proporcional à fração de votos de cada uma, num sistema parecido com o que é adotado no Congresso brasileiro ou no Parlamento italiano, e que estimula o multipartidarismo. Em contrapartida, os legisladores desejavam que as siglas que obtivessem a maior fatia de votos em cada eleição pudessem estabelecer governos relativamente fortes, com coalizões não muito grandes. Por causa disso, cerca de 45% das cadeiras foram reservadas para uma disputa num sistema majoritário do tipo americano ou britânico, que tende a concentrar os votos nas duas maiores legendas.

“Um dos objetivos era evitar aquele tipo de Parlamento dividido, fracionado, como havia na Itália ou na Polônia, que tornava muito difícil governar”, me disse o húngaro Gábor Halmai, especialista em direito constitucional e professor do Instituto Universitário Europeu, em Florença. “Precisávamos de um governo estável. Não queríamos essas crises parlamentares constantes.”

Até 2010, o sistema funcionou a contento. Por causa da conjugação de regras majoritárias e proporcionais, o partido que conseguia ganhar a preferência do eleitorado tendia a ter uma participação parlamentar ainda maior do que a obtida nas urnas. Pouco mais de 40% dos votos dos eleitores, por exemplo, eram suficientes para obter mais de 50% das cadeiras.

Depois de eleita, contudo, a legenda majoritária precisava conquistar dois terços dos votos de todos os parlamentares se quisesse aprovar qualquer reforma constitucional – uma regra que obrigava o partido vencedor a negociar com as demais legendas eleitas, inclusive parte da oposição. Isso funcionava como um contrapeso a possíveis tendências autoritárias do governo de turno.

Outro “freio” era exercido pela Corte Constitucional – responsável pelo mesmo tipo de controle de constitucionalidade das leis a cargo, no Brasil, do Supremo Tribunal Federal, mas projetada para intervir com muito mais frequência no processo legislativo. Funcionava como uma espécie de instância revisora das decisões do parlamentarismo unicameral húngaro.

Essas garantias de nada serviram após a vitória esmagadora do Fidesz nas urnas. Com a implosão dos socialistas, o partido de Orbán, em aliança com os democratas-cristãos, conseguiu 53% dos votos em 2010, maioria que o sistema eleitoral húngaro transformou em 68% das cadeiras do Parlamento – mais de dois terços delas, portanto. O Fidesz dispunha, sozinho, de uma bancada suficiente para mudar toda e qualquer lei do país.

 

Imediatamente o governo recém-eleito tratou de ocupar ou reformar grande parte das instituições húngaras. A primeira mudança importante foi feita na própria Corte Constitucional, o único órgão que àquela altura ainda tinha autonomia para barrar as iniciativas de Orbán. Expandido, o tribunal passou a ter quinze juízes, em vez dos onze que originalmente o compunham. Todos os novos integrantes foram nomeados pelo governo. Como se isso não bastasse, novas regras, que limitavam o poder revisor da Corte, foram aprovadas.

O passo seguinte foi escrever uma nova Constituição, processo que começou ainda em 2010. O esboço do texto foi produzido por um deputado do Fidesz no Parlamento Europeu. “Ele chegou a dizer, com muito orgulho, que havia escrito a Constituição no seu computador, numa viagem de trem entre Estrasburgo e Bruxelas”, contou o constitucionalista húngaro Gábor Halmai.

A nova Lei Fundamental do país, como seria chamada, foi apresentada para debate e emendas em março de 2011. Em abril, estava aprovada. Os partidos de oposição, dizendo-se marginalizados de todo o processo, se retiraram da Casa no dia da votação, recusando-se a apreciar o texto. Apenas o Jobbik permaneceu, e votou contra.

“Formalmente, foi um processo legal”, avaliou Halmai. “Mas na prática o Fidesz não envolveu nenhum partido de oposição, nenhum grupo da sociedade civil, nenhum especialista em direito constitucional fora de seus quadros. Fizeram tudo da noite para o dia. De um ponto de vista mais substantivo, não foi um processo legítimo.”

Não é essa, por óbvio, a opinião do partido no poder na Hungria. “Nós demos um mês inteiro para o Parlamento discutir exclusivamente a Lei Fundamental”, me disse o porta-voz do governo, Zoltán Kovács. “Foi uma decisão da oposição não participar. Foram eles que decidiram não tomar parte nas discussões do novo texto. Quiseram, assim, transformar a nova Constituição num tema político.”

Mas não ficou por aí. Com todos os poderes que tinha nas mãos, o Fidesz pôde mudar à vontade as regras eleitorais antes do pleito de 2014. Decidiu então tornar mais difícil a coligação entre partidos de oposição, deu direito de voto a uma parte das minorias húngaras que vivem nos países vizinhos e aumentou o prêmio, em cadeiras no Parlamento, à legenda mais votada nas urnas.

Ninguém se surpreendeu quando a coligação entre o Fidesz e os democratas-cristãos voltou a obter o maior número de escrutínios, em 2014. Eles haviam perdido parte do eleitorado, é verdade. Se em 2010 tinham conquistado 53% dos votos, agora contavam com o apoio de 45% dos eleitores. Mas as novas regras transformaram esse resultado em 67% das cadeiras do Parlamento. Mais de dois terços do total, novamente. Boa parte dos analistas políticos e integrantes da oposição hoje consideram quase impossível, no futuro próximo, retirar o Fidesz do poder pelo voto.

Na volta do almoço no restaurante tailandês, o jornalista Gábor Horváth me disse que já não considerava o seu país uma democracia plena. Lembrou, de toda forma, que não havia presos políticos na Hungria. “Isso aqui não é a Rússia, não é a Turquia”, ressaltou, lançando mão de uma comparação que eu ouviria com frequência naqueles dias. Turistas e moradores de Budapeste transitavam pelas ruas do bairro judeu no início da tarde. “Você olha ao redor”, me disse Horváth, “e esta parece uma cidade normal, como outra qualquer.”

 

Desde que tomou posse em 2010, Viktor Orbán tem adotado medidas econômicas intervencionistas, do tipo que Donald Trump apoiaria e que Marine Le Pen promete fazer, se vencer as eleições na França. Pode-se dizer que Orbán sempre esteve na vanguarda da onda populista. Ele, Trump e Le Pen desconfiam da livre movimentação de pessoas e do livre-comércio, e prometem proteger os trabalhadores de seus países erguendo barreiras às forças econômicas externas.

Entre outras iniciativas, o primeiro-ministro húngaro impôs cortes aos preços cobrados pelas empresas de energia – de gás e eletricidade – aos consumidores residenciais. A cada mês, na conta de gás – largamente utilizado no país para o aquecimento doméstico –, o cliente húngaro é informado de quanto pagaria antes da intervenção estatal e de quanto deve pagar agora, com o desconto imposto pelo governo.

Os eleitores ficaram satisfeitos. Empresas estrangeiras, em contrapartida, entregaram suas licenças e desistiram de atuar na Hungria. Várias deixaram o país entre 2015 e 2016, depois de uma mudança na legislação que lhes permitiu abrir mão do direito de explorar e operar a distribuição de gás. Os clientes foram transferidos a uma empresa nacional húngara. Além de terem visto diminuir os seus lucros na venda de energia, as companhias também vinham tendo que pagar novos impostos, criados pelo governo depois de 2010.

“Algumas empresas começaram a perder dinheiro. Os proprietários estrangeiros ficaram bastante satisfeitos em poder passar o negócio adiante”, disse o economista Kálmán Kalotay, da Unctad.

O poder político concentrado também permitiu ao Fidesz criar novas oportunidades econômicas para empresários e comerciantes próximos ao partido. “Orbán quis criar uma espécie de capitalismo nacional, com a ajuda de seus clientes e amigos”, afirmou Kalotay. “Há novos capitalistas no país.”

Ele deu dois exemplos, repetidos com frequência por analistas dentro e fora da Hungria. Numa de suas iniciativas, o governo revogou as antigas licenças de lojas de tabaco, antes autorizadas a vender cigarros, sob o argumento de querer proteger os jovens desse consumo nocivo. Dezenas de milhares de comerciantes foram afetados pela decisão. O poder público emitiu então novas autorizações, em número menor, cuja posse seria decidida por meio de licitações.

“Houve denúncias de favorecimento político”, afirmou Kalotay. O também economista Péter Mihályi, professor da Universidade Corvinus, contou a mesma história quando o encontrei em seu escritório, em Budapeste. Havia a suspeita de que muitas das novas concessões tivessem sido distribuídas para pessoas próximas ao Fidesz. “Quem definia as novas licenças era gente do partido, localmente. A imprensa mostrou que, em muitos casos, os dossiês de candidatura eram praticamente iguais, mas um dos concorrentes acabava sendo mais bem avaliado do que o outro.” O governo nega ter havido qualquer forma de favorecimento.

Um caso análogo, dizem os críticos, aconteceu com o direito de explorar jogos de azar. “Antigas concessões para explorar o jogo foram retiradas do dia para a noite”, contou Péter Mihályi. “Depois esse direito foi redistribuído.” O principal beneficiado pelas novas licenças foi o produtor de cinema húngaro András Vajna, próximo a Orbán, conhecido por ter participado da realização de filmes como Rambo e O Exterminador do Futuro 3, nos Estados Unidos. Além de passar a controlar cassinos, Vajna também ganhou o direito de explorar o jogo online. O produtor ainda acumula um cargo no governo: é o responsável pela agência de incentivo ao cinema no país.

Os relatos de favorecimento a “empresários amigos” não se restringem aos casos das lojas de tabaco e do jogo, contudo. “O mundo dos negócios está completamente distorcido”, me disse Éva Balogh, a ex-professora de história em Yale, que mantém um dos principais sites de acompanhamento, em inglês, da situação política em seu país natal, o Hungarian Spectrum. “O governo tem tal influência no mercado que não se pode mais falar de um mercado independente. Você não consegue nada sem o Estado.”

 

Um dos homens mais ricos do país, Lajos Simicska, foi por décadas uma das pessoas mais próximas do atual primeiro-ministro e participou, nos anos 80, da criação do Fidesz. O seu principal negócio é uma construtora, mas ele detém também outras companhias, como jornais e uma empresa de outdoors. O número de licitações vencidas pela empreiteira de Simicska cresceu de maneira notável entre 2010, quando o partido que ele ajudou a fundar chegou ao poder, e 2014, quando ele e Orbán entraram em conflito e puseram fim à antiga parceria.

“A princípio, quase todas as licitações ligadas à construção de estradas, infraestrutura e energia caíam nas mãos de um único amigo de Orbán, um oligarca”, disse o economista Kálmán Kalotay, referindo-se a Simicska. “Depois eles brigaram.” As razões do rompimento entre Orbán e Simicska são enigmáticas. Ninguém sabe explicar com clareza o que aconteceu. O que se sabe é que, desde o início de 2015, as empresas do “oligarca” começaram a perder contratos ou mesmo a ser excluídas de licitações públicas.

“Enquanto foi uma pessoa próxima do primeiro-ministro, Simicska vencia tudo”, relatou András Dési, em Budapeste. “Depois, quando se desentenderam, ele deixou de ganhar.” O Népszabadság foi responsável, lembrou Dési, por revelar muitos desses casos suspeitos. “Mostramos como pessoas próximas ao primeiro-ministro venciam licitações públicas. Para tudo, construção de estradas, tudo.”

Zoltán Kovács, o porta-voz do governo, rejeitou qualquer alegação de favorecimento a “empresários amigos” de Orbán. “As regras de licitação são transparentes”, ele disse. “São as mesmas para todos, e todos recebem o mesmo tipo de tratamento.”

Outro empreendedor que tem obtido sucesso ao prestar serviços para o Estado desde 2010 é Lőrinc Mészáros. Além de dono de uma empreiteira, Mészáros é prefeito da vila de Felcsút, a cidadezinha em que Orbán passou a infância e onde ainda hoje mantém uma casa. Mészáros é também o presidente da fundação que administra o time de futebol local, o Academia Puskás, clube não por acaso fundado pelo próprio Orbán – um entusiasta do futebol e, naturalmente, do maior ídolo do esporte na história da Hungria, Ferenc Puskás.

“Mészáros é um tipo simplório”, me disse o economista Péter Mihályi. “Um vizinho de Orbán nessa cidadezinha. De lá, conseguiu construir um império. Ele começou a ficar rico antes de 2010, mas o processo se acelerou depois.”

A empreiteira de Mészáros participou da construção, em Felcsút, onde ele é prefeito, de uma “arena” para o Academia Puskás, clube que ele preside. O novo estádio, concluído em 2014, tem capacidade para 3 500 pessoas. A população total da cidadezinha é um pouco menor, de cerca de 2 mil pessoas. A arena “Pancho” – cujo nome faz referência ao apelido de Puskás quando ele jogava pelo Real Madrid – fica na mesma rua da casa de Viktor Orbán em Felcsút. Poucos metros separam uma construção da outra.

 

Logo após romper com o primeiro-ministro, no início de 2015, os dois principais meios de comunicação controlados pelo empresário Lajos Simicska – um jornal diário e um canal de tevê a cabo especializado em notícias – deram uma guinada na cobertura que faziam do governo, tornando-se muito mais críticos.

Essa impressão, compartilhada por qualquer interlocutor em Budapeste, foi confirmada por Ádám Szeidl, da CEU, e Ferenc Szűcs, da Universidade da Califórnia em Berkeley – os mesmos que investigaram os gastos com publicidade feitos pelas empresas estatais húngaras. Os pesquisadores mediram a frequência com que eram publicadas reportagens que tratavam de suspeitas de corrupção no Magyar Nemzet, o principal jornal de Simicska, antes e depois do rompimento político.

Szeidl e Szűcs constataram que aumentou de maneira notável, no diário do oligarca, a quantidade de textos que faziam referência à possível malversação de verbas por parte do Fidesz – a tal ponto que, entre julho de 2015 e julho de 2016, esse tipo de cobertura passou a ser tão frequente no Magyar Nemzet quanto era no Népszabadság. Dois anos antes, entre julho de 2013 e julho de 2014, tal tipo de noticiário estava praticamente ausente na publicação de Simicska.

O governo reagiu. Desde a vitória de Orbán em 2010, dois diários de Simicska – o Magyar Nemzet e uma publicação distribuída gratuitamente, o Metropol, comprado em 2011 – vinham recebendo entre 60% e 80% – dependendo da data de medição – do total de investimentos publicitários feitos pelas empresas estatais em todos os diários húngaros. Depois do rompimento entre o empresário e Orbán, em contrapartida, a compra de publicidade nos dois veículos passou a representar entre 10% e 40% do total gasto pelas estatais. Isso sem que tivesse ocorrido nenhuma mudança radical no número de leitores ou de exemplares distribuídos.

A briga entre Simicska e o primeiro-ministro também coincidiu com uma inflexão na intervenção de outros empresários nos meios de comunicação. “Desde 2014, há essa expectativa de que pessoas ricas próximas ao Fidesz devem investir mais na mídia”, disse Gábor Tóka em seu escritório, na CEU. “De alguma maneira eles acreditavam que a mídia ainda não era suficientemente favorável ao governo.”

Assim, o segundo maior canal de televisão do país, a TV2, passou a ser controlado por András Vajna no final de 2015. O mesmo Vajna que havia recebido concessões de cassino e de jogos online. O governo também controla, diretamente, os canais da tevê pública, cuja cobertura jornalística se tornou, desde 2010, quase caricata.

“Se, por exemplo, um membro do Parlamento europeu faz alguma crítica ao governo húngaro, eles editam o discurso de maneira a torná-lo palatável para o partido no poder”, disse Tóka. “Ou podem fazer uma campanha contra essa pessoa. São notícias falsificadas.”

O cientista político chamou a atenção para o fato de que a TV2, de Vajna, “é ainda mais propagandística do que o canal do governo”. “Se aparece algum rosto novo na oposição, eles farão uma reportagem tentando jogar essa pessoa em descrédito.” Foi o que aconteceu com o principal líder do Jobbik, o partido de extrema direita. Parece não haver dúvidas, no grupo próximo a Orbán, de que a legenda ultranacionalista representa o maior perigo de perda de votos para o Fidesz nas próximas eleições, em 2018. Assim, recentemente a TV2 veiculou reportagens que “acusavam” Gábor Vona, o dirigente do Jobbik, de ter tido relacionamentos homossexuais no passado. Vona, líder de um partido frequentemente preconceituoso, que tem minorias como alvo, na verdade seria gay.

Anita Kőműves, uma repórter de 33 anos que até 2016 trabalhava no Népszabadság, riu quando eu pedi para que ela me descrevesse em detalhes a notícia que foi ao ar na TV2. “Esse sujeito, Gábor Vona, obviamente não é homossexual. O Jobbik é um partido superconservador, esse cara é casado, tem dois filhos. Mas conseguiram um depoimento de um crossdresser, um artista que foi muito famoso na Hungria. Todo mundo sabe quem ele é. Conseguiram que ele dissesse para a câmera que tinha informações de que o Vona era gay. Depois acharam uma foto do Vona se encontrando com um amigo. Eles estavam se cumprimentando com um beijo no rosto, o que é usual na Hungria. Mas tiraram a foto num determinado ângulo que parecia que eles estavam se beijando na boca. A tevê usou essa foto como se fosse uma prova da homossexualidade do Vona.”

“Mas como se faz a chamada de uma notícia dessas?”, eu quis saber. O que o apresentador diz?

“Novas alegações sobre o líder do Jobbik: achamos uma foto”, ela narrou.

“Isso apareceu na TV2”, continuou. “É esse canal que faz as campanhas difamatórias. Nos canais públicos, por sua vez, em geral há dois tipos de assunto. Um deles é a economia. ‘A economia está ótima. Todo mundo recebeu aumento. Vamos poder comprar um monte de coisas.’ E reportagens contra imigrantes. Parece propaganda russa dos anos 80. Sério. É horrível.”

O cenário, contudo, não é monolítico. O canal de tevê de maior audiência, RTL Klub, pertence a um grupo alemão e não participa do tipo de campanha promovido pelos concorrentes. Entre 2010 e 2014, contudo, manteve-se cautelosamente distante das disputas políticas e preferiu reduzir o espaço dedicado ao jornalismo sério em sua grade de programação. “A maior parte das notícias era sobre assuntos de interesse geral, crimes, esse tipo de coisa”, explicou Gábor Tóka.

Em 2014, depois que o governo criou um novo imposto sobre as receitas de propaganda das tevês – uma taxação que afetava particularmente o canal controlado pelo grupo alemão –, a RTL Klub começou a veicular reportagens críticas ao governo. “Colocaram no ar todas as histórias de corrupção que não haviam coberto nos anos anteriores”, disse Tóka.

Segundo Anita Kőműves, o renovado espírito crítico do canal surtiu algum efeito, mas também deixou claro a que ponto o governo tem sido capaz de controlar informações na Hungria. “Há 2 milhões de pessoas em Budapeste; o resto da população” – cerca de 8 milhões – “vive em pequenas cidades”, explicou a jornalista. “Se algo não aparece no jornal da noite, nos canais de tevê, ninguém sabe que aquilo aconteceu.”

Ela disse ter tido uma prova disso quando, certa noite, recebeu um telefonema da mãe, que não mora na capital. “Você viu essa história do estádio de futebol ao lado da casa do primeiro-ministro?”, quis saber, interpelando a filha jornalista. “Fazia tempo que nós escrevíamos sobre o caso do estádio, mas ele só ficou realmente conhecido quando apareceu na tevê, no RTL Klub”, explicou Kőműves.

“Isso é revoltante!”, insistiu sua mãe, ao telefone. Do outro lado da linha, a jornalista não se conteve: “Mãe, aquele estádio já está lá há anos!”

A disposição do governo para manipular notícias e usar os meios de comunicação para atacar políticos da oposição cria um grave empecilho à democracia, observou Gábor Tóka. “Você vai pensar duas vezes antes de concorrer para o Parlamento. Vai pensar no que pode em algum momento ser mostrado ou dito para os seus filhos, para o seu cônjuge. Qualquer coisa pode ser usada para desacreditar você. É melhor ter todos os seus impostos perfeitamente em ordem, por exemplo; 225% em ordem. Você deve se preocupar com todo esse tipo de coisa antes de concorrer, porque tudo pode ser usado contra você.”

 

Não são apenas os políticos profissionais, adversários de Orbán, que têm razão para tomar precauções. Semanas antes de viajar para Budapeste, procurei por e-mail um pesquisador que trabalha numa instituição pública húngara. No primeiro contato, ele se mostrou disposto a conceder uma entrevista. Poucos dias depois recebi uma nova mensagem, em que ele pedia desculpas, mas dizia que não poderia falar. “O lugar onde eu trabalho não toleraria declarações políticas da minha parte”, justificou.

Sob a condição de ter a sua identidade preservada, esse pesquisador concordou em me encontrar para um café. “A Hungria não é mais um país democrático”, disse. “Mas também não é uma ditadura, ainda.” Contou que seu chefe na instituição, que depende de verbas públicas, havia desencorajado explicitamente os pesquisadores a se manifestarem politicamente em público.

O temor de muita gente no serviço público, até nos escalões mais baixos, é o de perder o emprego, caso se manifestem de alguma maneira que possa ser considerada imprópria pelo governo. Nem todos se abstêm de falar, é preciso dizer. Encontrei pesquisadores, como o economista Péter Mihályi, empregado numa universidade pública, que não se importam em dizer o que pensam. A legislação trabalhista húngara, de toda forma, permite a demissão de servidores com relativa facilidade, explicou-me o próprio Mihályi. Daí a cautela.

“Há medo, isso é certo”, disse Balazs Szent-Ivanyi, que já há alguns anos mora no Reino Unido e dá aulas na Universidade de Aston. “Basta prestar atenção ao que aconteceu no Facebook. Nos primeiros anos do governo Orbán, vários dos meus amigos postavam comentários ou textos críticos. Agora, só os que moram fora do país fazem isso.”

Um funcionário de uma empresa estatal de energia fez um relato parecido. “Claro que eu correria o risco de ser demitido se eu fizesse qualquer tipo de crítica pública ao governo, mesmo que não fosse sobre energia. Eu tenho opiniões sobre vários assuntos, mas eu nunca as compartilho no Facebook.” E no setor privado? Há risco semelhante? “No setor privado eu poderia dizer o que penso, mas também precisaria ter cuidado”, explicou.

As razões da cautela, mesmo para quem não é empregado do governo, ficariam claras mais tarde, numa entrevista que fiz com uma estudante húngara. Em 2010, ela havia apoiado o Fidesz. Em 2014, decidira votar no Jobbik. Não por concordar com as posições “radicais” do partido de extrema direita, como fez questão de dizer, mas para tentar impedir que Orbán conquistasse, mais uma vez, uma maioria de dois terços no Parlamento. Ela pediu que eu preservasse a sua identidade, mesmo sabendo que o texto seria publicado no Brasil, em português.

“Não quero que meu nome apareça. Mas o medo que tenho não é agora, é no futuro. Se eu quiser trabalhar em algum lugar, num ministério, numa instituição em que essas coisas sejam importantes para quem estiver me selecionando, eu posso perder a chance de ter o emprego. Temos essa insegurança. Não sei se o que eu digo agora pode me prejudicar no futuro.”

 

Gábor Tóka, o cientista político da CEU, teve a preocupação de não exagerar o significado desses relatos. “Não posso julgar casos individuais. Posso imaginar que esse medo exista. Mas não estou seguro de que haja justificativa suficiente para esse tipo de temor.” Ninguém que ele conhecesse havia sido demitido por emitir opiniões que desagradassem o governo, disse. “Mas eu consigo imaginar que algumas pessoas estejam preocupadas. É um sistema autoritário.”

Ele próprio não tinha o que temer, garantiu: “Eu tenho o emprego mais seguro do país.” A CEU, afinal, é uma universidade privada. Não apenas: formalmente, ela é uma instituição em parte norte-americana, e seus diplomas são automaticamente reconhecidos nos Estados Unidos e na Hungria. Não existia chance de ele ser dispensado por criticar o governo, afirmou Tóka.

A conversa em que ele me disse isso havia ocorrido em janeiro, por Skype. Àquela altura, pelo menos um integrante do Fidesz já havia declarado que o governo húngaro desejava “varrer do país” as ONGs apoiadas financeiramente pelo megainvestidor George Soros e sua fundação, a Open Society. Referia-se a organizações altamente respeitáveis, como a Transparência Internacional e o Comitê Helsinki Húngaro, que fazem um trabalho importante de garantia dos direitos civis no país.

“Para qualquer governo que deseje limitar a democracia, as ONGs incomodam”, me disse Gábor Gyulai, responsável por coordenar, no Comitê Helsinki, as iniciativas de defesa dos direitos de refugiados na Hungria. “Como a maioria das organizações de direitos humanos neste pedaço do mundo, somos em parte financiados pela Open Society, somos financiados pelo dinheiro de George Soros. Eles usam isso para dizer que representamos interesses estrangeiros. Falam uma coisa que é inacreditável: ‘Essas ONGs não foram eleitas por ninguém e portanto não podem emitir opiniões políticas.’ Mas nós não nos manifestamos sobre política partidária: nós denunciamos as políticas do governo que violam os direitos humanos. E todo mundo tem o direito de expressar opiniões. Isso não é um privilégio dos políticos.”

Embora também fosse bancada por Soros, a CEU não vinha sendo mencionada por integrantes do governo Orbán nas ocasiões em que se ocupavam, publicamente, das instituições financiadas pelo investidor húngaro. A regra valeu até fevereiro deste ano, quando uma revista recém-comprada por uma ideóloga ligada ao Fidesz trouxe uma reportagem que fazia pela primeira vez, de maneira explícita, a pergunta: até quando a CEU poderia permanecer na Hungria?

Em fevereiro, poucas semanas depois de aquele texto ser publicado, os professores e pesquisadores da universidade ainda não tinham clareza sobre o seu real significado. “Todo mundo está especulando”, me disse Éva Bognár, pesquisadora de mídia na Central European University. “Ninguém sabe se é uma mensagem de que a CEU será a próxima. Ou se é só uma ameaçada velada. Do tipo: É melhor vocês se comportarem.”

Tóka tampouco sabia dizer, com certeza, o que o governo pretendia ao permitir que gente ligada ao Fidesz criticasse a instituição. “As ONGs são alvos fáceis: proveem ajuda legal, levantam histórias de corrupção, fazem pesquisa que é usada pela mídia crítica. A universidade é mais difícil de entender. Não tenho ideia.”

Depois de uma pausa, em que pareceu pensar, levantou uma hipótese: “Talvez eles tenham que achar inimigos contra quem se mobilizar, antes das eleições do ano que vem. E há também uma necessidade permanente, nos regimes autoritários, de intimidar alguém. Assim os jornalistas ficam um pouco mais cautelosos. Os servidores públicos, idem. Algum promotor que tenha um momento de boa consciência pode pensar duas vezes antes de agir.”

Na última semana de março, parte do mistério se desfez. O governo Orbán apresentou um projeto de emenda à lei de educação superior no país que afetava diretamente a entidade fundada por George Soros. As novas regras em discussão exigiriam a abertura de um campus da universidade nos Estados Unidos para que a instituição continuasse a desfrutar de seu status binacional. Criariam empecilhos adicionais para que a CEU “húngara” possa emitir diplomas em nome da CEU “americana”. E dificultariam a contratação de professores de fora da União Europeia (americanos, por exemplo). Num comunicado em sua página na internet, a universidade afirmou que, se aprovadas, aquelas medidas tornariam impossível “a continuidade de suas operações” em Budapeste.

 

Como boa parte dos jornais do mundo, o Népszabadság passou a última década fazendo ajustes: demitiram gente, diminuíram a redação e o número de páginas impressas. András Dési e seus antigos colegas na editoria internacional – Anita Kőműves, a jovem promissora, e Gábor Horváth, o editor – dizem, contudo, que a chegada de Viktor Orbán ao poder agravou a situação. “Os problemas pioraram depois de 2010”, contou Dési. “A política do Fidesz era – e ainda é – a de conquistar e controlar a mídia. Eles pressionaram as empresas públicas a não anunciar nos jornais independentes.” Aos poucos, disse o jornalista, as empresas privadas também se afastaram. “Fábricas de carro, supermercados também deixaram de anunciar. Eles achavam que poderiam ter problemas com o governo.”

Em 2014, a empresa que publicava o Népszabadság foi vendida para um especulador austríaco. O jornalão tradicional perdia dinheiro, mas a MediaWorks, que o controlava – e que também detinha o principal diário esportivo do país, revistas femininas e publicações regionais importantes –, era lucrativa. O novo proprietário, me disse Gábor Horváth, se ocupava sempre desse tipo de negócio: compra, reestruturação, venda. “Ninguém gostava quando ele aparecia, porque ele era aquele sujeito que, nos filmes, compra a fábrica para fechá-la.”

Não demorou para que começassem a correr boatos na redação. “No início de 2016, surgiram histórias de que seríamos vendidos de novo”, contou Kőműves. “Diziam que a MediaWorks seria comprada por alguém próximo ao primeiro-ministro. Achávamos que passaríamos por um processo mais ou menos lento de conversão do jornal em um instrumento de propaganda, com a contratação de novos editores e a demissão dos jornalistas mais críticos. Passamos meses nesse estado de apreensão e ansiedade.”

Em setembro, veio o alívio. “Recebemos mensagens de fontes no Parlamento. Diziam que haviam decidido adiar a intervenção no Népszabadság até as eleições seguintes, de 2018. Serviu para nos acalmar. Tínhamos mais dois anos!”

Por algum tempo a antiga redação do jornal, em Buda, estivera sob reformas. Quando marcaram a reinauguração para outubro de 2016, aquilo foi tomado como um renovado sinal de que conseguiriam sobreviver, pelo menos por mais algum tempo. O último dia no prédio do lado Peste foi uma sexta-feira, dia 7 de outubro. A equipe de mudança viria buscar objetos, computadores – os bens pessoais e de trabalho dos jornalistas – no sábado.

Os funcionários foram instruídos a separar suas coisas e colocá-las em caixas numeradas, para que pudessem ser redistribuídas na nova sede. A organização para a mudança acontecia simultaneamente à preparação do jornal do dia seguinte. “Estávamos fechando a edição de sábado”, contou Dési. “Eu deixei a redação por volta das oito da noite. Combinamos de nos encontrar no domingo, por volta do meio-dia, na nova redação. A ideia era comermos uma pizza juntos, para estrear o novo prédio, e depois recomeçar o trabalho.”

No sábado pela manhã, assim que acordou, Anita Kőműves alcançou o celular e notou duas mensagens na tela do aparelho. “Havia uma chamada perdida de um amigo. E o título de uma matéria de um site de notícias, que dizia: ‘A publicação do Népszabadság foi suspensa.’ Imediatamente eu soube a razão para o meu amigo ter me ligado. E soube também que não se tratava de uma suspensão. O jornal tinha acabado. Isso era óbvio.”

O Népszabadság – o mais confiável diário húngaro, e o mais crítico ao governo Orbán – não voltaria a ser impresso. No domingo, os funcionários, ainda sem saber o que aconteceria, tentaram entrar na nova redação, mas foram impedidos pelos seguranças do prédio. O acesso aos e-mails pessoais também estava bloqueado. O arquivo eletrônico do diário, na internet, saiu do ar – e assim permaneceria, por algum tempo.

Ainda no fim de outubro, duas semanas depois da “suspensão” da publicação, veio o anúncio público de que o especulador austríaco venderia a MediaWorks para uma companhia obscura, sem tradição no negócio de mídia. O bem mais valioso do pacote era um conjunto de jornais locais espalhados pelo país, uma dúzia deles, com boa leitura no interior – alguns com tiragem semelhante à do próprio Népszabadság. Desde então essas publicações passaram a ter uma linha editorial pró-governo.

Todos os jornalistas e especialistas de mídia com que conversei em Budapeste dizem que a empresa obscura que comprou a MediaWorks é ligada ao prefeito de Felcsút e amigo de Orbán, Lőrinc Mészáros. “É ele que não publica o Népszabadság”, resumiu Gábor Tóka.

O porta-voz Zoltán Kovács negou ter havido qualquer ingerência do governo no assunto. Havia sido o mercado, ele disse, quem ditara o destino da publicação. “Mostre-me alguém em qualquer lugar do mundo, ou no seu país, que iria financiar um jornal incapaz de ser lucrativo. Os fatos são que o jornal tinha grandes prejuízos.”

“Foi uma operação humilhante para nós, mas que funcionou perfeitamente”, avaliou András Dési, referindo-se, entre outras coisas, à exigência de que os próprios jornalistas empacotassem boa parte da redação, como se fossem mudar de prédio. No dia seguinte ao daquele logro, quando a suspensão do jornal foi anunciada, Dési estava com a mulher no supermercado. “Às nove e meia da manhã um colega me ligou. Ele disse que tinha uma notícia triste para me dar. Imediatamente achei que alguém tinha morrido. Na verdade, era o Népszabadság que tinha morrido.”

Eu quis saber como ele havia reagido à notícia. Com um mal-estar físico, respondeu o jornalista. “Foi chocante. Tive a sensação de que o mundo estava rodando.”

 

Em sua sala na Universidade Corvinus, Péter Mihályi avaliou que, tudo somado, já se pode considerar a Hungria uma autocracia. “Semelhante, de muitas formas, ao que acontece na Turquia e na Rússia”, completou, fazendo referência aos regimes comandados por Recep Erdoğan e Vladimir Putin. “É verdade que não há presos políticos. Mas o denominador comum importante é o fato de serem países conduzidos por um único homem.”

A aproximação não é apenas uma observação teórica. Em sua política externa, o governo húngaro tem se voltado para Moscou. Vladimir Putin e Viktor Orbán se encontraram três vezes nos últimos três anos. No compromisso mais recente, em fevereiro, em Budapeste, o primeiro-ministro húngaro criticou as sanções econômicas impostas pela Europa à Rússia. As políticas de manipulação da mídia e de ataque às ONGs “ocidentais” na Hungria seguem o modelo já praticado, há um bom tempo, pelo líder russo.

Como o bloco europeu pôde permitir que um regime como o de Orbán se consolidasse dentro de suas fronteiras? Gábor Horváth, o antigo editor de internacional no Népszabadság, argumenta que faltam instrumentos ao bloco para lidar com uma situação como a da Hungria. Para entrar na União Europeia, o país candidato precisa cumprir uma quantidade assustadora de exigências – inclusive quanto ao bom funcionamento de sua democracia –, mas uma vez lá dentro há pouco que Bruxelas possa fazer. “É muito difícil impor sanções.”

Há intervenções pontuais possíveis, quando leis e regras específicas do bloco não são seguidas. Isso aconteceu no caso húngaro. Houve iniciativas de Orbán que foram questionadas pelos parceiros europeus e, em alguns casos, ele teve que recuar e mudar a letra da lei. Mas o sentido e o resultado final do processo não foram alterados.

A principal sanção de que a União Europeia pode se valer, quando compreende que um governo está pondo em risco a qualidade da democracia ou o estado de direito, é grave. A rigor, corresponde a uma quase exclusão do país do concerto regional: a suspensão do direito de voto daquele integrante no Conselho Europeu, em que se reúnem os chefes de Estado ou de governo de todos os países-membros. “Mas você precisa de uma decisão de consenso para aplicar esse tipo de punição”, observou Horváth.

A dificuldade de se tomar tal medida foi ilustrada recentemente. O governo de direita na Polônia entrou em conflito com a mais alta corte do país, recusando-se a aceitar decisões dos juízes. A Comissão Europeia – órgão executivo do bloco – alertou as autoridades polonesas. Mas justamente a Hungria anunciou que vetaria qualquer tentativa de impor sanções à Polônia. Orbán deve poder contar com a reciprocidade dos poloneses quando for necessário.

Quis saber de Gábor Tóka o que poderia impedir o regime húngaro de se tornar ainda mais autoritário. Reclinado na sua cadeira, ao final de um dia de trabalho, o cientista político respondeu que, a rigor, quase nada. Há inclusive incentivos políticos para que a situação se agrave, ele disse. “Quanto mais tempo você passa no poder, e quanto mais você aceita certas coisas, certas práticas, mais provável se torna que você vá direto para a cadeia caso deixe o poder. Assim, você fica ainda mais disposto a fazer o que for preciso para permanecer onde está.” Fez uma pausa. “Não é possível que eles se enganem: vai ter muita gente disposta a processá-los se tiverem a oportunidade.”

Gábor Horváth parecia ter uma opinião semelhante. “O que o governo está fazendo é estúpido. Muito bem, eles devem conseguir ficar no poder por mais do que oito anos. Talvez dezesseis.” Mas em algum momento, especulou o jornalista, correm o risco de serem depostos violentamente. “Porque, desse jeito, apenas uma revolução poderá tirá-los do poder.”

 

Algum tempo depois do fechamento do Népszabadság, Anita Kőműves e Gábor Horváth conseguiram novos empregos. Ele, como editor-chefe do único jornal de centro-esquerda que ainda é publicado no país. Kőműves passou a trabalhar numa revista semanal, ligada ao mesmo grupo que publica o diário sob o comando de Horváth.

András Dési, contudo, continuava desempregado. A crise estrutural do setor e a intervenção do governo no mercado de mídia – uma combinação que havia conseguido tirar o principal jornal independente do país de circulação, facilitando o trabalho de Orbán – também o haviam atingido em cheio.

“Eu estou procurando emprego”, ele me disse, sem parecer muito esperançoso. “Acho que o tipo de atividade jornalística a que me dediquei diariamente por 27 anos chegou ao fim. Acabou. A mídia húngara não tem mais lugar para mim. Há muita gente desempregada. Ninguém me ofereceu um trabalho. Procurei, mas disseram que não havia vagas. É difícil. Vou ter que me reinventar, talvez ir para outras direções.”

Explicou que havia considerado a possibilidade de deixar a Hungria, mas sem grande ânimo. Preferia ficar. “Eu gosto Mmuito daqui. É o meu país. E também não quero dar a eles o gosto de me verem ir embora.”

Estávamos num café próximo à praça da Liberdade, decorado com móveis de madeira clara e tijolinhos à mostra nas paredes. O estabelecimento comercial faria boa figura em Nova York, Londres ou Paris. Agradeci a Dési pela conversa. Ele disse que não havia de quê, e se dispôs a tirar uma foto, caso precisássemos, para ilustrar a reportagem. A oferta contrastava com a cautela, talvez excessiva, de outros entrevistados. Foi o que eu disse a ele. “Não tenho medo”, reagiu Dési. “Algumas pessoas estão com medo. Tenho amigos que estão com medo. Mas eu falo com quem quiser falar comigo. Sou um cidadão.”

Rafael Cariello

Rafael Cariello foi repórter e editor da piauí. Também foi editorialista e correspondente da Folha de S.Paulo em Nova York

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