As correntes resultantes do derretimento têm aparecido cada vez mais cedo na primavera. Em 2016, o processo foi tão precoce que houve quem desconfiasse dos instrumentos de medição
Ver dados da foto As correntes resultantes do derretimento têm aparecido cada vez mais cedo na primavera. Em 2016, o processo foi tão precoce que houve quem desconfiasse dos instrumentos de medição FOTO: ROGER J. BRAITHWAITE_UNIVERSIDADE DE MANCHESTER, INGLATERRA_WWW.GIS.NASA.GOV_VIA WIKIMEDIA COMMONS

A Groenlândia está derretendo

O encolhimento do manto de gelo da ilha desencadeia um processo que se retroalimenta e acelera a crise climática global
Elizabeth Kolbert
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As correntes resultantes do derretimento têm aparecido cada vez mais cedo na primavera. Em 2016, o processo foi tão precoce que houve quem desconfiasse dos instrumentos de medição FOTO: ROGER J. BRAITHWAITE_UNIVERSIDADE DE MANCHESTER, INGLATERRA_WWW.GIS.NASA.GOV_VIA WIKIMEDIA COMMONS

No topo do manto de gelo da Groenlândia, assisti, há não muito tempo, uma cerimônia em memória de um homem que não conheci. Era uma cerimônia íntima, só havia quatro pessoas. Temendo que me considerassem uma intrusa, pensei em me afastar, mas estava enganchada a uma corda. E de todo modo queria estar presente.

A solenidade era em memória de Alberto Behar, um cientista da Nasa que trabalhou no Laboratório de Propulsão a Jato, em Pasadena. Embora não tenha pisado paisagens desconhecidas, Behar poderia ser descrito como um explorador do século XXI: ele enviava sondas a esses lugares. Algumas das máquinas que construiu percorreram todo o caminho até Marte e hoje orbitam aquele planeta ou palmilham por sua superfície a bordo do jipe-robô Curiosity. Outros de seus inventos foram empregados na Terra ou, mais especificamente, em seus polos. Behar engendrou uma câmera de vídeo que capturou as primeiras imagens tomadas do interior de uma corrente de gelo na Antártida. Certa vez, na Groenlândia, lançou um bando de patos de borracha num poço de gelo de mais de 1 quilômetro de profundidade, também conhecido como moulin. Cada pato levava uma etiqueta – escrita em groenlandês, inglês e dinamarquês – informando que haveria uma recompensa a quem o devolvesse. Voltaram ao menos dois.

Em janeiro de 2015, Behar sobrevoava Los Angeles em seu monomotor quando foi vítima de um acidente aéreo. Na ocasião de sua morte, estava trabalhando em outra sonda, a “andarilha” – cujo aspecto lembra uma caixa de ferramentas envolta por uma boia –, destinada a medir o fluxo das águas do derretimento, os chamados rios supraglaciais, de difícil acesso em razão de suas bordas de gelo. Cheios de rachaduras nessas bordas, eles em geral despencam sumidouro adentro. A andarilha flutuaria como um pato, coletando e transmitindo dados de tal forma que, ao chegar a um moulin e ser sugada por ele, já teria cumprido seu papel.

Behar estava desenvolvendo essa sonda em colaboração com uma equipe de geógrafos da Universidade da Califórnia, que depois de sua morte levou adiante a iniciativa. A conclusão do projeto acabou se transformando numa espécie de homenagem: os geógrafos lançaram um par de andarilhas num rio supraglacial batizado de Behar.

Acompanhada de diversos pós-graduandos da Universidade da Califórnia e munida de duas sondas andarilhas, voei até o rio Behar em julho do ano passado. Da janela do helicóptero, avistei suas águas, de uma coloração que até então pensava ser reservada aos picolés. Um azul fantástico se sobrepunha a uma brancura imaculada e não menos fantástica. “Groenlândia!”, escreveu o artista plástico Rockwell Kent depois de naufragar num fiorde de gelo[1]: “Ó, Deus, como o mundo pode ser belo!”

Uma turma de estudantes que nos precedeu já havia montado um acampamento, composto de dez barracas cor de laranja, uma delas maior que as demais, para o cozinheiro. Mais abaixo, por quase 1 quilômetro e meio o gelo se estendia, salpicado de buracos perfeitamente redondos medindo por volta de 2,5 a 5 centímetros de diâmetro, com cerca de 30 centímetros de profundidade, contendo água resultante de derretimento. Fincar barracas nesse substrato, parte líquido, parte sólido, se revelara impossível. Destinaram-me uma barraca amarrada a quatro galões de combustível. “Não fume”, alguém me aconselhou.

Na margem do Behar, uma fita amarela de isolamento fora esticada ao longo de mais ou menos 50 metros. Quem se aventurasse além daquele ponto precisava se amarrar a uma corda. Tomei emprestado um equipamento de montanhista, enganchei-me a uma corda e segui para a margem, onde o chefe da equipe, Larry Smith, conversava com dois ou três alunos. Para os padrões locais, o dia estava ameno – com temperatura em torno de zero –, e Smith vestia calça de brim e duas camisas xadrez, uma por cima da outra, além de um boné vermelho de lã no qual se lia “Air Greenland”.

“Está ouvindo isto?”, ele me perguntou. Sobreposto ao rumorejar da água do rio, ouvia-se um bramido, como que de ondas batendo contra um rochedo distante. “É o moulin.

Dezoito meses depois do acidente de avião, falar sobre Behar ainda perturbava Smith, que trazia, num bolso lateral da calça, uma garrafa de meio litro de Coca-Cola. Em campo, Behar praticamente vivia de Coca Diet, ele disse, desculpando-se por portar a versão com açúcar.

Smith abriu a garrafa, deu um gole e passou-a aos demais. Cada um bebeu um pouco. Quando o círculo se completou, ele escreveu seu endereço de e-mail no rótulo da garrafa, e a mensagem: “Quem encontrar, favor entrar em contato.” Em seguida jogou-a no Behar, e ficamos todos observando-a desaparecer no azul gélido, flutuando em direção ao moulin.

 

As pessoas atraídas pelo manto de gelo da Groenlândia tendem a ser do tipo que veleja por fiordes ou pilota monomotores, ou seja, gostam do perigo. Não tenho esse perfil e, no entanto, o gelo me seduz – sua beleza, seu caráter sobrenatural, sua impiedade.

O manto de gelo é uma relíquia da última Era Glacial, quando geleiras de quilômetros de altura espraiavam-se não apenas pela Groenlândia, mas também por amplas porções do hemisfério Norte. Na maioria dos lugares – Canadá, Nova Inglaterra, a região setentrional do Centro-Oeste americano, Escandinávia –, o gelo derreteu há cerca de 10 mil anos. Na Groenlândia, pelo menos por enquanto, ele persiste. No topo do manto deposita-se o firn, um estágio intermediário entre gelo e neve – aquela que caiu no ano passado, no retrasado e no ano anterior ao retrasado. Abaixo do firn, está a neve que caiu quando Napoleão foi derrotado na Rússia e, mais abaixo ainda, a de quando Aníbal atravessou os Alpes. Sobre as camadas mais fundas, depositadas muito antes de qualquer registro histórico, a pressão é enorme, e, comprimido, o firn se transforma em gelo. Na camada mais profunda, há neve que caiu antes do início da última Era Glacial, 115 mil anos atrás.

O manto de gelo é tão monumental – no centro, atinge mais de 3 quilômetros de altura – que cria seu próprio clima. A massa gigantesca deforma a Terra, pressionando o leito de rocha centenas de metros manto adentro. A força gravitacional que exerce afeta inclusive a distribuição dos oceanos.

Em anos recentes, com o aumento da temperatura global, o manto de gelo despertou de seu sono pós-glacial. Correntes resultantes do derretimento, como o rio Behar, sempre se formaram, mas agora elas aparecem a altitudes cada vez maiores e cada vez mais cedo na primavera. Em 2016, o derretimento foi tão precoce, já em abril, que, quando os dados começaram a chegar, muitos cientistas não acreditaram neles. “Precisei verificar meus instrumentos”, disse-me um deles. Em 2012, observou-se derretimento bem no topo do manto de gelo. O ritmo da mudança surpreendeu até os cientistas que elaboram os modelos climáticos. Somente nos últimos quatro anos, mais de 1 trilhão de toneladas de gelo se perderam – o equivalente a 400 milhões de piscinas olímpicas, ou o bastante para preencher uma piscina de 7 metros de profundidade e pouco maior do que a Grécia.

Um cubo de gelo esquecido numa mesa de piquenique derrete de forma metódica e previsível. Uma geleira do tamanho da Groenlândia não se comporta do mesmo modo: ocorrem inúmeros processos retroalimentados que, por sua vez, podem desencadear mais processos e subprocessos. Quando, por exemplo, a água acumula na superfície do manto de gelo, a reflexividade muda. O aumento da absorção da luz do sol também aumenta o derretimento, o que, por sua vez, conduz a mais absorção, num ciclo que se perpetua. Marco Tedesco, pesquisador do Observatório Terrestre Lamont-Doherty da Universidade Columbia, refere-se a esse efeito como “canibalismo do derretimento”. À medida que moulins se formam a altitudes cada vez maiores, mais água é levada da superfície do gelo para o leito rochoso, mais abaixo. Esse fenômeno lubrifica a base, o que acelera o movimento do gelo em direção ao oceano. Em certo momento, esses processos que se retroalimentam tornam-se autossustentáveis. É possível que esse momento já tenha chegado.

 

De acordo com a Encyclopedia of Snow, Ice and Glaciers, o gelo glacial “se comporta como um material viscoplástico não linear”. Em outras palavras, o gelo, assim como a água, flui. Por razões ainda não totalmente compreendidas, ele flui mais rápido em certas partes do manto que em outras. As regiões em que ele flui com especial rapidez são conhecidas como correntes de gelo.

O Projeto de Testemunho de Gelo do Leste da Groenlândia, ou Egrip na sigla em inglês, está sediado numa das mais extensas e largas dessas correntes: a corrente de gelo do Nordeste da Groenlândia, ou Negis. Em junho do ano passado, voei até lá num Hercules C-130 (ou Herc, entre os iniciados) equipado para pousar na neve. O avião possuía pequenos foguetes (Unidades de Auxílio à Decolagem, ou Jatos) montados sob cada asa. Os Jatos estavam lá para entrar em ação caso a temperatura subisse demais e a pista do Egrip, toda ela de gelo, se tornasse viscosa.

O Egrip é chefiado por Dorthe Dahl-Jensen, uma glaciologista dinamarquesa de fala mansa, olhos azuis brilhantes e uma mecha assimétrica de cabelos brancos. Aos 58 anos, ela vem trabalhando no manto de gelo praticamente todo verão dos últimos 35 anos. De início, como pós-graduanda da Universidade de Copenhague, precisou persuadir o geofísico Willi Dansgaard, seu professor, a deixá-la ir – ele se opunha à ideia, porque, da última vez que ele viajara com uma estudante, o cozinheiro do acampamento se apaixonou por ela e parou de cozinhar. E, de fato, em sua primeira viagem ao manto de gelo Dahl-Jensen também se apaixonou. Ela e o marido, o glaciologista j. p. Steffensen, têm quatro filhos. No verão, revezam-se entre a família e as operações no gelo.

O Egrip ainda é, em grande medida, um projeto em andamento. A temporada de campo de 2015 se ateve ao transporte de instalações provenientes de uma estação defunta, a cerca de 440 quilômetros de distância – cozinha, sala de recreação, banheiro, refeitório e escritório. Suas 35 toneladas foram atreladas a esquis e arrastadas por um trator adequado a suportar grandes cargas.

Quando cheguei, no meio da temporada de 2016, o Egrip ainda estava sendo construído. Haviam criado uma rede de túneis abobadados com pisos e paredes esculpidos no gelo, que brilhavam de qualquer ângulo que se olhasse, um cenário de As Mil e Uma Noites. Num dos túneis, uma motosserra escavou uma fossa, ao lado da qual um carpinteiro instalava uma plataforma de madeira. Os tijolos de gelo extraídos da perfuração da fossa foram arrastados à superfície e deram forma àquele que, acredito, será o bar ao ar livre mais setentrional deste mundo.

Tudo isso – túneis, fossa, plataforma – foi feito de forma a acomodar uma enorme perfuratriz que, em parte, viera comigo no Herc. A ideia do projeto é enfiar a máquina até o fundo do manto de gelo, a cerca de 2 quilômetros e meio da superfície. Graças ao modo como se consolidou o manto de gelo, uma camada sobreposta à outra, ao descer, a broca estará na verdade perfurando história. (Em se tratando de uma corrente de gelo, é possível entrar não apenas duas, mas uma série de vezes naquele que é mais ou menos o mesmo ponto de um rio.) Se tudo correr conforme o planejado, disse Dahl-Jensen, a perfuração estará concluída em 2020. Nesse meio-tempo, a corrente de gelo vai se mover na superfície à razão de 15 centímetros por dia, e, com ela, o Egrip, o que significa que o buraco perfurado vai começar a entortar. Um dos maiores desafios do projeto é evitar que a perfuratriz fique presa.

 

O prédio principal do Egrip – aquela edificação que foi arrastada pela superfície de gelo – é uma espécie de domo geodésico duplo, em que uma estrutura repousa sobre a outra, como a tampa na caçarola. No topo, vê-se uma cúpula, uma torre de observação. Um revestimento de borracha preta recobre domos e torre, de forma que, a meus olhos, o todo se assemelha a uma enorme bomba-relógio.

No meu segundo dia lá, todos se reuniram no domo para assistir à “primeiríssima” defesa de uma dissertação de mestrado no gelo, conforme se anunciava. As cadeiras da sala que em geral servia à recreação foram dispostas como numa sala de aula, e o orientando da glaciologista Dahl-Jensen, um rapaz de barba chamado Kristian Høier, se levantou para discutir sua pesquisa. Embora a exposição fosse em inglês, não consegui entender boa parte dela, coalhada de minúcias das equações empregadas em seu modelo matemático. Ele parecia nervoso e suspirava alto – tampouco entendi a razão, já que era óbvio que a primeiríssima defesa de mestrado no gelo resultaria na primeiríssima aprovação de uma dissertação defendida naquele mesmo cenário. Quando a exposição terminou, Dahl-Jensen abriu um engradado de garrafas de champanhe e todos vestimos parcas, calçamos botas pesadas e fomos em direção ao bar ao ar livre. Anoitecia, mas, como em junho o sol jamais se põe no nordeste da Groenlândia, ainda estava claro. A neve, lisa e espraiada a perder de vista, havia adquirido uma tonalidade azulada. Dahl-Jensen propôs um brinde a Høier, que parecia decidido a embebedar-se o mais depressa possível. Deixei minha taça no bar e entrei para apanhar a máquina fotográfica. Ao voltar, minha bebida estava a meio caminho de se transformar em sorvete de champanhe.

Como o nome indica, a Negis corre rumo ao nordeste. A cabeceira, por assim dizer, fica no centro da Groenlândia, perto do ponto mais alto do manto de neve; a foz, no estreito de Fram. Lá, icebergs do tamanho de bairros inteiros se partem ou se desprendem, e põem-se a flutuar para longe. A seu tempo, também o Egrip, como uma barcaça à deriva, vai chegar ao Fram e tombar dentro dele.

Por toda a Groenlândia, correntes de gelo como a Negis estão acelerando o ritmo e despejando um volume cada vez maior de gelo direto nos oceanos. No momento, estima-se que a ilha esteja perdendo igual volume de gelo tanto com os desprendimentos quanto com o derretimento. Um grupo de cientistas argumenta que, desses dois fenômenos, a perda por derretimento é mais inquietante, uma vez que, num mundo em aquecimento, ela tende a aumentar. Contudo, o comportamento das correntes de gelo não é consenso entre os cientistas, e por isso há quem postule que, exatamente pelo mesmo motivo, a escalada dos desprendimentos representa risco potencial maior ainda.

“O jeito mais rápido de se livrar de um manto de gelo é jogá-lo no oceano.” É o que me explica Sune Olander Rasmussen, o gerente de campo do Egrip.

“As correntes de gelo nos surpreenderam muito”, diz Dahl-Jensen. “Perfurar até uma corrente dessas e verificar como ela de fato flui, quanto está se deslocando e como está o derretimento lá no fundo – este, a meu ver, é o objetivo mais importante desse projeto.”

Quando uma corrente de gelo começa a acelerar, talvez seja impossível detê-la. “Em alguns casos, o que temos, em teoria, é esse processo irreversível”, afirma Kerim Nisancioglu, um climatologista da Universidade de Bergen que trabalha no Egrip. “Uma vez iniciado, a água vai que vai.”

“O sistema é colossal”, prossegue Nisancioglu, referindo-se à corrente de gelo sobre a qual nos encontramos. “É um bocado de água para escoar. Por isso, a coisa toda pode durar um bom tempo. Até onde vai? A corrente vai continuar acelerando indefinidamente, até acabar o gelo? Não sabemos.” Por si só, a Negis tem potencial para aumentar o nível dos mares em 90 centímetros.

A primeira tentativa de perfurar o manto de gelo da Groenlândia aconteceu no começo dos anos 60 em Camp Century, um posto avançado do Exército norte-americano. Cerca de cinquenta anos mais tarde, essa base permanece, disparado, a maior edificação já construída no gelo da ilha – ou melhor, debaixo dele. O Camp Century tinha bar, capela, barbearia, cinema e reator nuclear. Tudo conectado por uma rede de túneis de neve como a do Egrip, mas que se estendia por quilômetros. Aparentemente a finalidade da base era promover a ciência, mas uma investigação realizada pelo governo dinamarquês na década de 90 mostrou que o objetivo anunciado era de fachada. O Exército americano estava na verdade desenvolvendo um novo sistema de armazenamento de mísseis balísticos intercontinentais. Seu plano era instalar uma ferrovia subglacial a partir da qual os mísseis seriam despachados para toda parte. O nome de código dado ao programa era Projeto Iceworm [Minhoca do Gelo].

Ainda que a atividade no Camp Century não constituísse um segredo, a presença de visitantes era proibida. A perfuração produzia centenas de cilindros de gelo – cada um com 1 metro e meio de comprimento e 10 centímetros de diâmetro, aproximadamente – que eram armazenados num freezer em New Hampshire. Até que Willi Dansgaard, o professor de Dahl-Jensen, se apossou deles.

Dansgaard, morto em 2011, era um especialista na química das precipitações. Ao analisar uma amostra de água de chuva, ele era capaz de, com base na composição isotópica do líquido, determinar sob qual temperatura a precipitação se formara. E percebeu que seu método também se aplicava à neve: ele podia ler os cilindros de Camp Century como uma espécie de almanaque do clima na Groenlândia, que lhe dizia como a temperatura havia mudado de uma camada de gelo a outra, ou seja, ano a ano.

De modo geral, os resultados obtidos confirmaram o que já se sabia sobre a história do clima. O professor observou, por exemplo, que a Groenlândia experimentara uma onda de frio de 1300 a 1800 – a chamada Pequena Era Glacial. Descobriu que, em boa parte dos últimos 10 mil anos, a ilha gozara de relativo calor e que, ao longo de dezenas de milhares de anos antes disso, havia sido gélida.

Mas Dansgaard se deparou com algo inteiramente inesperado. Pela análise dos cilindros, tudo indicava que em meio à última Era Glacial as temperaturas haviam subido mais de 8 graus em cinquenta anos. Depois, caíram de novo de forma quase tão abrupta. E isso não acontecera uma só vez, mas várias.

Todo mundo, inclusive Dansgaard, ficou perplexo. Uma variação de temperatura de cerca de 8 graus? Era como se, de repente, Nova York se transformasse em Houston, ou Houston em Riad. Era possível que dados assim discrepantes correspondessem a eventos reais? Ou será que ele errara nos cálculos?

Nos quarenta anos seguintes, cinco outros testemunhos de gelo completos foram extraídos de diferentes partes do manto. A cada vez, as mesmas variações radicais reapareceram. Nesse meio-tempo, outros dados climáticos – como depósitos de pólen num lago na Itália, sedimentos oceânicos no mar da Arábia e estalactites numa caverna na China – revelaram o mesmo padrão. As variações de temperatura ficaram conhecidas como “eventos Dansgaard-Oeschger” (ou D-O), em homenagem a Dansgaard e a seu colega suíço Hans Oeschger. Nos últimos 115 mil anos, tais eventos já ocorreram 25 vezes.

Eras glaciais são desencadeadas por mudanças pequenas e periódicas na órbita da Terra, que alteram a incidência de luz solar nas diferentes partes do globo em diferentes épocas do ano. Os eventos D-O, que ocorreram a intervalos irregulares, não possuem causa aparente. A melhor explicação já dada é que a própria complexidade do sistema climático o torna instável – capaz, portanto, de mudar de um estado para outro.

“Trata-se de uma grande interação entre geleiras, oceanos, atmosfera, gelo presente no mar”, Dahl-Jensen me explicou em seu escritório, que fica no topo do domo e, como uma casa numa árvore, pode ser alcançado por uma escada externa. Conversávamos poucas horas após a defesa da dissertação de mestrado, e o sol enfim mergulhava em direção ao horizonte.

“Mas ainda estamos batalhando para compreender como ocorrem essas mudanças tão grandes e abruptas”, ela prosseguiu. “Acho que compreendê-las é o desafio mais importante que enfrentamos. Porque, se não entendermos como elas se deram no passado, não teremos as ferramentas para compreender os riscos no futuro.”

Todos os eventos D-O registrados antecedem o surgimento da civilização e isso não deve ser mera coincidência. Em termos climáticos, os últimos 10 mil anos têm se revelado excepcionalmente estáveis. Basta voltarmos um pouco no tempo e mudanças devastadoras se apresentam em continuação. De um jeito ou de outro, nossos ancestrais sobreviveram a esse caos, mas, antes do advento da agricultura, as pessoas se deslocavam com pouca bagagem. Jamais permaneciam num mesmo lugar por tempo suficiente para o desenvolvimento de sociedades complexas e de tudo que as acompanha – cidades, metalurgia, criação de animais, escrita, dinheiro. Quando ocorria um evento D-O, bandos de caçadores-coletores provavelmente juntavam tudo e seguiam adiante. Era isso ou a extinção.

 

A Groenlândia é a maior ilha do mundo, a não ser que se queira computar a Austrália, em geral classificada à parte, uma vez que é um continente. O manto de gelo recobre cerca de 80% do território, o que faz dela um dos lugares menos verdes do planeta.

“A Groenlândia deveria se chamar Islândia, e a Islândia, Groenlândia”, diz com alguma irritação Inuuteq Holm Olsen, o representante da Groenlândia na Embaixada da Dinamarca nos Estados Unidos. [Greenland significa terra verde; Iceland, terra do gelo.] “Você não imagina quantas vezes já ouvi isso.” Se fosse independente, a Groenlândia seria o maior país da Europa, embora, geologicamente, ela pertença à América do Norte. Se considerarmos apenas o território não coberto por gelo – mais de 440 mil quilômetros quadrados –, já teremos uma área maior que a Alemanha. No presente, porém, a ilha é governada pelo Reino da Dinamarca, e Olsen ocupa um escritório no porão da embaixada dinamarquesa, em Washington. Como boa parte dos groenlandeses, ele é de origem inuíte.

Enquanto puderam, os dinamarqueses mantiveram a Groenlândia sob uma espécie de quarentena ao contrário: o objetivo não era impedir que os residentes saíssem, mas que todo o resto não entrasse. Estrangeiros desejosos de visitá-la tinham de pedir permissão a Copenhague, e as dificuldades para obter um visto eram “sérias e muitas”, queixou-se Rockwell Kent em 1930. (Àquela altura, não existia nada parecido com propriedade privada na ilha, e mesmo hoje, em consonância com a tradição inuíte, a terra é propriedade de todos.) Segundo os dinamarqueses, essa regra vigorava para o bem dos groenlandeses, isto é, para protegê-los das “tendências destrutivas” da vida moderna. Ainda na década de 40, muitas famílias moravam em casas de turfa e a iluminação provinha de lampiões de óleo de foca.

Durante a Segunda Guerra Mundial, com a Dinamarca ocupada pelos nazistas, os Estados Unidos construíram várias bases aéreas na Groenlândia. Ao final do conflito, os nativos já haviam experimentado a vida moderna – tanto em termos de destruição como em outros aspectos – e não era viável retomar o modo de vida anterior. O que se seguiu foi o que um cronista dinamarquês descreveu como um “avanço social espetacular, sem paralelo em profundidade, extensão ou velocidade em qualquer outra parte do mundo”.

Hoje a Groelândia tem 56 mil habitantes – 12 mil deles conectados à internet –, cinquenta fazendas e, para os padrões americanos, quase nenhuma árvore. (Os salgueiros-anões alcançam cerca de 30 centímetros.) Um groenlandês que conheci, e que deixou a ilha pela primeira vez na vida para ir a uma reunião no norte do estado de Nova York, disse que a melhor parte de sua viagem tinha sido descobrir o ruído do vento acariciando as folhas.

“Amo esse barulhinho”, ele me disse. “Chuuuch, chuuuch.

A ilha conta com algumas poucas estradas – para ir de uma cidade a outra, pega-se em geral um barco ou avião – e, a não ser pelas fábricas de processamento de peixe, são poucas as indústrias. Um subsídio anual de 535 milhões de dólares, enviado pelos dinamarqueses, constitui quase um terço do Produto Interno Bruto. As relações entre doador e donatário são tensas, mas dentro de critérios escandinavos.

Em 2008, a população votou maciçamente a favor de maior autonomia. Por meio de um acordo de autogoverno, aprovado em Copenhague e Nuuk (a capital da Groenlândia), ela obteve o direito de negociar alguns de seus tratados internacionais – daí o escritório de Olsen, no porão da embaixada dinamarquesa. O groenlandês, um dialeto inuíte, tornou-se a língua oficial, e o subsídio anual proveniente de Copenhague foi limitado por um teto.

A Groenlândia celebra sua autonomia expandida em 21 de junho. No aniversário do ano passado, num esforço por demonstrar solidariedade, o governo dinamarquês instruiu suas agências e embaixadas a hastear a bandeira da Groenlândia. Com um círculo metade vermelho, metade branco, sobreposto a um retângulo dividido pelas mesmas cores, só que invertidas, a bandeira representa o manto de gelo sobre o oceano, com o sol se pondo nas ondas. Muitas agências dinamarquesas atenderam ao pedido, mas, canhestramente, hastearam a bandeira de cabeça para baixo.

“Temos uma série de problemas pós-coloniais”, me disse Niviaq Korneliussen, de 26 anos, talvez a romancista mais lida da ilha. “Há muito racismo de ambas as partes, e muitos jovens odeiam os dinamarqueses porque seus pais também os odiavam. Há um longo caminho a ser percorrido até que as coisas melhorem.”

 

Quase um terço da população da ilha mora em Nuuk [“A Península”, em groenlandês], de longe a maior cidade da Groenlândia. Fui visitá-la em minhas excursões pelo manto de gelo. Na viagem de táxi de dez minutos do aeroporto até o Centro, acho que cruzei os três semáforos da ilha.

Nuuk fica na costa sudoeste. Fundada no princípio do século XVIII por Hans Egede, um missionário noruego-dinamarquês, até 1979 a cidade era conhecida como Godthåb [“Boa Esperança”, em dinamarquês]. Quando Egede chegou, descobriu que os nativos não conheciam pão e, portanto, não tinham uma palavra equivalente. O missionário então traduziu a conhecida passagem da Oração do Pai-Nosso, nos seguintes termos: “A foca nossa de cada dia nos dai hoje.” Atualmente, uma estátua gigante de Egede se ergue sobre a cidade, assim como o Cristo sobre o Rio de Janeiro.

Minha visita a Nuuk coincidiu com um encontro político promovido pelo maior sindicato da Groenlândia. Como muitos dos políticos eleitos estariam presentes, uma tarde resolvi ir até lá. Ao longo da caminhada, passei por um conjunto de dez prédios de apartamentos idênticos, ao estilo soviético, construídos na década de 60, quando a Dinamarca resolveu esvaziar muitas das aldeiazinhas de pescadores e concentrar a população em cidades maiores. A seu tempo, aqueles apartamentos com eletricidade e água encanada decerto pareciam o ápice da modernidade; hoje, circundado por prédios mais novos e elegantes, o conjunto é considerado uma espécie de favela.

O encontro político acontecia num grande ginásio com teto abobadado. Dentro, cerca de 100 pessoas seguiam o debate “A Groenlândia está pronta para a indústria da mineração?”. Havia tradução simultânea do groenlandês para o dinamarquês, do dinamarquês para o groenlandês e de ambas essas línguas para o inglês. Peguei um fone de ouvido, mas o canal do inglês vivia sumindo – depois de um tempo, me ocorreu que eu talvez fosse a única que tentava acioná-lo. Em mesas dispostas em círculo, os partidos políticos distribuíam doces, panfletos e brindes. Crianças lindíssimas corriam de lá para cá para apanhar balões e doces. Comecei a conversar com o responsável pela mesa do Partii Naleraq, Per Rosing-Petersen. (Hoje em dia, quase todos os sobrenomes dos groenlandeses são dinamarqueses e, graças a centenas de anos casando-se uns com os outros, muitos têm olhos azuis.) Acabei por descobrir que ele era membro do Parlamento groenlandês. O Partii Naleraq oferecia braceletes de plástico alaranjados com a frase: Tassa asu! Naalagaafinngorta! – que Rosing-Petersen me traduziu como: “Vamos lá! Independência!”

“Noventa por cento das empresas na Groenlândia pertencem a dinamarqueses, e eles próprios as gerenciam”, disse Rosing-Petersen. “Os groenlandeses são a classe operária. Eu chamo isso de apartheid, um apartheid de fato. Queremos mudar esse quadro.”

Embora o movimento pela independência não possua relação direta com as mudanças climáticas, os vínculos indiretos são muitos. Para se tornar independente, a Groelândia precisaria renunciar ao subsídio anual pago pela Dinamarca, o que abriria uma grande lacuna em seu orçamento. Como a ilha é rica em minerais, a exploração ficará mais fácil à medida que os invernos se tornarem mais curtos, e os portos, livres do gelo o ano todo. Segundo alguns informes, os depósitos de terras-raras só perdem em extensão para os da China; a ilha também possui importantes jazidas de ferro, zinco, molibdênio e ouro. Em 2014, o governo lançou um plano prevendo que pelo menos três novas minas entrassem em operação em quatro anos. “É necessário que os recursos minerais trabalhem a nosso favor”, afirmava o documento.

Ao lado da mesa do Partii Naleraq estava a do Siumut, o partido do governo. Outro membro do Parlamento cuidava dela, Jens-Erik Kirkegaard, que, fiquei sabendo, tinha sido o ministro da Indústria e dos Recursos Minerais quando da divulgação do tal plano.

“Ainda não recebemos essa dádiva”, reconheceu Kirkegaard. Naquela ocasião, não havia nenhuma mina em funcionamento na ilha, e a única em construção – uma mina de rubi ao sul de Nuuk – estava parada, porque seus financiadores canadenses haviam ficado sem dinheiro. Para Kirkegaard, o grande culpado tinha sido o colapso no preço das commodities.

“Alguns anos atrás, os preços dos minerais estavam bem altos, mas caíram brutalmente”, ele disse. Ainda assim, estava otimista. Quanto mais o manto de gelo derretesse, mais atenção a Groenlândia receberia.

“A mudança no clima faz um belo trabalho de marketing para nós”, ele disse. “Fica mais fácil atrair investimentos.” E, com uma estação prolongada para transportes marítimos, os custos vão cair: “Alguns projetos que não eram economicamente viáveis talvez se viabilizem com a mudança das condições.”

 

O Instituto de Recursos Naturais da Groenlândia – Pinngortitaleriffik, em groenlandês – situa-se num elegante prédio de madeira e vidro na periferia de Nuuk. No dia seguinte ao encontro político no ginásio, fui falar com Lene Kielsen Holm, uma antropóloga social que estuda a percepção que os groenlandeses têm da mudança climática. Holm realiza boa parte de seu trabalho em Qaanaaq, uma cidade no extremo noroeste da ilha, fundada no início da década de 50, quando os Estados Unidos decidiram expandir uma de suas bases aéreas – Thule – e forçaram um considerável contingente da população local a deixar a área. Qaanaaq, com seus 630 habitantes, é um dos poucos lugares em que as pessoas ainda sobrevivem do que conseguem caçar e pescar.

“Essa gente sempre se adaptou às mudanças do meio ambiente”, diz Holm, referindo-se aos caçadores e pescadores que costuma entrevistar. “Elas estão incorporadas ao cotidiano das pessoas, são parte da cultura. Se não tivessem esse tipo de know-how, a população não sobreviveria.”

Muitos me falaram da extraordinária capacidade de resiliência dos groenlandeses. “A Dinamarca vai desaparecer”, disse Rosing-Petersen. “A Holanda vai desaparecer. Mas a Groenlândia vai ficar. Temos nos adequado a diferentes condições de vida há 5 mil anos.”

É verdade que a vida na Groenlândia é dura. Em Qaanaaq, nos meses de inverno, a temperatura média fica em torno de 25 graus centígrados abaixo de zero, e o sol jamais se mostra acima da linha do horizonte. “Quando a longa escuridão se esparrama sobre a ilha, ela revela muitas coisas ocultas, e os pensamentos dos homens seguem caminhos tortuosos”, disse um groenlandês do oeste ao explorador Knud Rasmussen, por volta de 1904.

Contudo, o registro da fixação humana na Groenlândia dá testemunho de muito mais que a mera engenhosidade de seus habitantes. Dependendo de como se queira fazer essa conta, a ilha já serviu de cemitério a quatro, cinco ou mesmo seis sociedades.

O primeiro povo a migrar, conhecido como Independência I, chegou lá, provavelmente via Canadá, há cerca de 4 500 anos, instalando-se num território especialmente inóspito, distante cerca de 650 quilômetros a nordeste do local onde hoje se situa o Egrip. O Atlas of the North American Indian observa que o grupo Independência I “carecia de dois fatores que, mais tarde, os moradores do Ártico considerariam essenciais: roupas adequadas e combustível para fazer fogo numa paisagem desprovida de árvores”. De algum jeito, viveram ali por quase um milênio. Depois, desapareceram.

Ao Independência I seguiu-se o Independência ii, grupo que também se extinguiu. Enquanto isso, um povo conhecido como Saqqaq chegou ao oeste da ilha. Eles resistiram quase 2 mil anos e foram substituídos por aqueles que os arqueólogos chamam de Dorset. Análises recentes de dna extraído de seus restos sugerem que tanto os Saqqaq como os Dorset desapareceram sem deixar descendentes. Do nascimento de Cristo até Carlos Magno, tudo indica que a Groenlândia permaneceu inabitada.

No fim do século X, a ilha foi repovoada, dessa vez a partir do leste, e por um contingente de noruegueses chefiados por Erik, o Vermelho. Não se sabe se Erik deu ao lugar o nome de Groenlândia porque, à época, ela de fato era mais verde, ou porque julgou que seria uma boa jogada de marketing. Os noruegueses estabeleceram duas colônias principais: o Assentamento Ocidental, não muito longe da Nuuk de hoje, e o Assentamento Oriental, que, na verdade, ficava no sul. Esses assentamentos prosperaram e cresceram, até que alguma coisa deu muito errado. Quando Hans Egede partiu para a Groenlândia, em 1721, esperava levar o protestantismo aos noruegueses, que haviam perdido a Reforma. Dos assentamentos, porém, só restavam ruínas.

Desde então, os arqueólogos estabeleceram que o Assentamento Ocidental acabou por volta do ano 1400, e o Oriental, poucas décadas mais tarde. Em termos climatológicos, esse timing é sugestivo. Os europeus chegaram à Groenlândia durante o chamado Período Quente Medieval, e desapareceram não muito depois de iniciada a Pequena Era Glacial.

Ainda assim, os arqueólogos procuram outras explicações para esse desaparecimento. Já se aventou a hipótese de os noruegueses terem sido subjugados pelos inuítes, que, provenientes também do Canadá, chegaram à ilha aproximadamente em 1200. Ou de eles terem perecido em consequência de uma queda no valor do marfim de morsa. No livro Colapso, o biólogo americano Jared Diamond atribui seu fim a um bizarro conservadorismo cultural autopunitivo. Os colonos europeus haviam levado gado bovino, carneiros e ovelhas, insistindo em seus animais de criação. Teriam se dado bem melhor se tivessem adotado uma dieta marinha, como os inuítes.

“Os noruegueses morreram de fome quando tinham à disposição abundantes recursos alimentícios”, escreve Diamond. Contudo, segundo pesquisa mais recente, baseada na composição isotópica dos ossos dos noruegueses, os europeus abandonaram, sim, suas vacas. À época do desaparecimento, pelo menos metade das calorias ingeridas provinha de carne de foca.

“Pode ser que tenham cansado de comer carne de foca”, comenta Niels Lynnerup, da Universidade de Copenhague, um dos cientistas à frente dessa pesquisa.

Thomas McGovern, professor de arqueologia da Faculdade Hunter, estuda esses noruegueses há 35 anos. “É aquilo: você percebe que é capaz de sobreviver, de se adaptar, de agir com inteligência e, ainda assim, pode acabar extinto”, ele me disse.

Na medida em que a Groenlândia vai aquecendo, o registro dos assentamentos noruegueses, assim como todas as pistas que eles podem nos dar, vai sendo apagado. “No passado, esses sítios passavam boa parte do ano congelados”, continuou McGovern. “Quando eu ia ao sul da Groenlândia nos anos 80, podia pular nas trincheiras que o pessoal abrira nos anos 50 e 60, e, das paredes laterais, destacavam-se cabelos, penas, lã e ossos de animais muitíssimo bem preservados.” Um aluno de McGovern que começou sua pesquisa em 2005 esteve nesses sítios e só encontrou um mingau em decomposição.

“Estamos perdendo tudo”, afirma McGovern. “Basicamente, temos o equivalente a uma biblioteca de Alexandria no solo, e ela está em chamas.”

 

A cidade de Ilulissat, a 560 quilômetros ao norte de Nuuk, acima do Círculo Polar Ártico, abriga um dos sítios arqueológicos mais ricos da Groenlândia – um trecho de tundra ártica que foi habitado pelos Saqqaq, pelos Dorset e, por fim, pelos inuítes. Perto do assentamento abandonado há uma saliência de pedra que pende sobre um fiorde. Velhos groenlandeses costumavam saltar de lá, a fim de não se tornar um fardo para suas famílias, ou assim reza a lenda. No dia em que visitei o local, encontrei vários turistas dinamarqueses tirando fotografias e espantando mosquitos. Em vez de saltar, admiramos a paisagem.

Do fiorde à nossa frente erguia-se uma vasta e improvável coleção de icebergs. Grudados uns nos outros, pareciam uma metrópole congelada. Torres apoiavam-se sobre arcos, que por sua vez pressionavam palácios – todos de gelo. Empoleirados sobre alguns dos icebergs viam-se icebergs menores, qual minaretes. Havia também pirâmides e o que me pareceu uma catedral. Aquela cidade de gelo se alongava por quilômetros. Tudo era de um branco ofuscante, a não ser pelas piscinas da água produzida pelo derretimento, com sua fantástica coloração azul-picolé. Nada se movia, e, à parte o zumbido dos mosquitos, ouvia-se apenas o tamborilar da água que escorria dos icebergs.

A pedra do suicídio é um bom lugar para a gente se sentir pequeno – por isso, suponho, foi escolhida para aquele fim. De pé, na beirada, pude imaginar como os Saqqaq e os Dorset ficaram intimidados com a beleza inumana. Hoje, contudo, até o sublime foi desbancado.

A cidade gelada provém da corrente de gelo Jakobshavn. Como a Negis, a Jakobshavn tem sua origem no centro da Groenlândia, mas corre na direção oposta, rumo a um comprido fiorde. No ponto em que o gelo encontra a água, há uma frente de desprendimento onde se formam os arcos e castelos glaciais, que fluem pelo fiorde na direção de Ilulissat (o nome da cidade significa icebergs em groenlandês) e continuariam até o mar, caso não fossem bloqueados por uma moraina submarina composta de dejetos de rochas resultantes do encolhimento do manto de gelo, ao final da última Era Glacial. Os icebergs maiores ficam presos na moraina, ao passo que os menores se perfilam atrás deles, como num monumental engarrafamento de trânsito. O maior de todos, que pesa mais de 100 milhões de toneladas, pode passar anos estacionado antes de se adelgaçar o bastante para seguir flutuando livremente. (Acredita-se que um desses icebergs gigantes, depois de se soltar de Ilulissat, tenha afundado o Titanic.)

Oito mil anos atrás, a Jakobshavn preenchia completamente o fiorde, até a moraina. Em meados do século XIX, quando ocorreram os primeiros registros a seu respeito, a frente de desprendimento se deslocara 16 quilômetros em direção a terra. E, ao longo dos 150 anos seguintes, tornou a se deslocar aproximadamente 20 quilômetros.

Depois, no final dos anos 90, a imponente retração da Jakobshavn de repente se tornou uma debandada. Entre 2001 e 2006, a frente de desprendimento recuou 15 quilômetros, e, apenas nos últimos quinze anos, ela perdeu mais terreno que em todo o século anterior. O fiorde se estende ainda por pelo menos mais 60 quilômetros, e se aprofunda à medida que avança para a terra. Neste momento, nada parece capaz de impedir que a frente de desprendimento recue por completo.

“Agora, parece que não há como interromper essa retração”, disse David Holland, um professor da Universidade de Nova York que se vale de focas equipadas com sensores eletrônicos para estudar a Jakobshavn. (Quando as focas emergem, após mergulhar, os sensores transmitem dados sobre as condições no fiorde.)

Paralelamente à retração da frente de desprendimento, a corrente de gelo ganha velocidade. Isso parece resultar de outro processo contínuo de retroalimentação. Desde a década de 90, a Jakobshavn quase triplicou sua velocidade. No verão de 2012, estabeleceu aquele que se acredita ser um recorde para correntes de gelo: percorria 45 metros por dia, ou mais de 1,80 metro por hora – uma velocidade claramente não glacial. Sua área de captação é menor que a da Negis, mas ela possui gelo suficiente para elevar o nível global dos mares em 60 centímetros.

 

Um bocado de Ilulissat cabe aos cachorros. Eles têm seus próprios bairros – amplas extensões de poeira e rocha onde vivem acorrentados ao redor de tanques de água de proporções industriais. Nos passeios pela cidade, encontrei três assentamentos de cães que se esparramavam por vários acres, e, atrás do meu hotel, também havia um pequeno acampamento secundário. Sob o sol interminável do verão, os cães pareciam sofrer. Deitados, resfolegavam sob a grossa capa de pelos. Vez por outra, um grupo começava a latir, os demais faziam eco à gritaria e a cidade toda parecia uivar.

Os cachorros de Ilulissat são todos da mesma raça, um tipo de husky particularmente resistente ao frio que os inuítes levaram quando emigraram para a Groenlândia. Para manter a pureza da raça, não se admite nenhuma outra ao norte do Círculo Polar Ártico.

Os huskies costumavam ser essenciais à vida na ilha. “Me dê cachorros, me dê neve e pode ficar com o resto”, teria dito certa vez o explorador Knud Rasmussen, nascido em Ilulissat em 1879. Ainda em 1995, a cidade de 4 600 habitantes abrigava mais de 8 mil cães. Nos últimos vinte anos, a população canina despencou. Hoje, não passam de 2 mil. Também isso é um indicativo do aquecimento global.

Ole Dorph, o prefeito de Ilulissat, trabalha num gabinete envidraçado da prefeitura surpreendentemente grande. Ele tem 61 anos, um rosto sulcado e usa óculos de armação retangular. Dorph cresceu ali e me contou que, quando criança, a cidade tinha gelo de novembro a abril. Durante esses meses, para pescar e caçar focas os habitantes usavam trenós puxados por cachorros.

“Nos velhos tempos, você podia pegar seu trenó e ir até a ilha Disko”, disse ele. A ilha, a maior da Groenlândia (à parte a própria Groenlândia), dista cerca de 50 quilômetros a oeste de Ilulissat, do outro lado da baía de mesmo nome.

Como nenhum navio com suprimentos conseguia atracar no porto, durante seis meses por ano os habitantes da ilha tinham de viver das provisões que o comércio oferecia, e do que mais conseguissem apanhar. Quando, na primavera, o gelo se partia e a primeira embarcação chegava, “todo mundo ficava muito feliz”, lembra Dorph. “Podíamos comprar maçãs.” Para anunciar a aproximação do navio, a cidade “disparava três tiros de canhão: bum, bum, bum”.

Então, já na década de 90, a baía começou a congelar cada vez mais tarde, até que, por fim, passou a não congelar mais. “A última vez que tivemos gelo utilizável por aqui foi em 1997”, disse o prefeito.

A ausência da cobertura de gelo da baía de Disko é parte de um declínio generalizado do gelo no mar Ártico – um declínio tão brusco que, dentro de poucas décadas, provavelmente teremos águas abertas no verão do polo Norte. Como o gelo no mar reflete a radiação do sol, ao passo que a água a absorve, trata-se de uma perda que terá enormes implicações para o planeta como um todo. (O gelo no mar não contribui para o aumento do nível das águas, porque, ao flutuar, ele desloca quantidade equivalente de água.) Na própria Ilulissat, o impacto mais óbvio tem sido nos transportes. Como a baía deixou de congelar, os navios de suprimentos podem atracar em janeiro, o que tornou os trenós obsoletos. Os cães passaram a não valer a carne de foca necessária para alimentá-los. Muitos foram sacrificados. Os remanescentes são empregados sobretudo em práticas esportivas.

Dorph me disse que as pessoas em Ilulissat estavam “tristes, porque os cachorros estão morrendo”, mas que essa infelicidade era mais ou menos contrabalançada pelos benefícios das águas abertas. A maior fonte de receita da cidade é a pesca do halibute, e o pequeno porto está repleto de barcos de pescadores.

“Os pescadores podem sair com seus barcos no inverno”, observa o prefeito. “E gostam disso. O preço do peixe está em alta, portanto estão vivendo um momento bom.”

Lembrei-me do que ouvira em Nuuk – que a mudança climática, embora lamentável em muitos aspectos, trazia consigo uma promessa econômica para os groenlandeses. Perguntei a Dorph, membro do partido do governo, sobre a independência da Groenlândia.

“Espero que aconteça em dez ou, talvez, vinte anos”, disse ele. “Ela é chave para nosso crescimento.”

 

Num fim de tarde em Ilulissat, aluguei um barco para subir a costa. O proprietário e também capitão era o dinamarquês Anders Lykke Laursen. Ele me encontrou no porto, usando óculos de sol com lentes amareladas, úteis para identificar blocos flutuantes de gelo. O barco, ele me assegurou, tinha casco duplo e obedecia a todos os requisitos exigidos pela Autoridade Marítima Dinamarquesa. Caso acertássemos algum pedaço de gelo, ele já foi avisando: “O barulho vai ser grande, mas não se preocupe.”

A 16 quilômetros ao norte de Ilulissat, passamos pela minúscula cidadezinha de Oqaatsut, uma coleção de casas de cores brilhantes engastadas nas rochas. (Em groenlandês, oqaatsut significa “cormorões”, “corvos-marinhos”.) Do barco, não se via vivalma, mas quando, mais tarde, fui procurar na lista telefônica – há uma edição que abrange toda a Groenlândia, com cerca de 3 milímetros de espessura –, encontrei dezoito números telefônicos em Oqaatsut. Seguimos adiante, desviando de blocos de gelo flutuantes do tamanho de uma geladeira, assim como de vários icebergs enormes que haviam se desprendido da moraina. Para além de Oqaatsut, a costa se eleva. A mais de 40 metros de altura, uma cachoeira se retorcia entre as rochas. Em qualquer outra parte do mundo, as cachoeiras são grande atração turística, mas, no enorme vazio do centro-oeste da Groenlândia, aquela nem nome tinha.

Por fim, depois de cerca de três horas, divisamos nosso destino: uma angra recoberta de pedras. O lugar tampouco tinha nome. Suas coordenadas – 69º52’5.66” N e 50º19’4.15” W – me haviam sido enviadas por Eric Rignot, um glaciologista da Universidade da Califórnia em Irvine. A angra era rasa, e nós remamos até a praia num bote de borracha, afastando os pedaços de gelo com os remos.

Rignot, que cresceu na França, estuda os mantos de gelo da Groenlândia e da Antártida. Há dois anos, publicou um artigo no qual argumentava que uma porção importante do manto de gelo da Antártida Ocidental – o setor do mar de Amundsen – entrara em “retração irreversível”. O setor em questão contém mais de 830 mil quilômetros cúbicos de gelo, o que significa que, se a análise de Rignot estiver correta, ele vai elevar o nível global dos mares em 1,20 metro.

Quando o artigo foi publicado, a Mother Jones, revista liberal americana, estampou: “Chegou o momento vai-dar-merda do aquecimento global.”

Rignot e três de seus estudantes haviam acampado numa colina íngreme, pouco acima do nível da praia, onde fincaram um conjunto de barracas defronte de um fiorde preenchido por uma geleira. Ao sol oblíquo das nove da noite, a geleira conhecida como Kangilernata parecia cintilar. Sua frente de desprendimento, uma parede de 39 metros de altura, se refletia de cabeça para baixo nas águas azuis esbranquiçadas do fiorde. E, mais para trás, o gelo se estendia até a linha do horizonte. De novo, fui atingida – vagamente nauseada – pela escala desumana da Groenlândia.

Professor e estudantes monitoravam os movimentos da Kangilernata com um radar portátil que parecia uma rede giratória de badminton. “Medimos milimetricamente as mudanças nas condições da geleira”, Rignot disse. “É como se fizéssemos um filme do fluxo.” Mas, mesmo sem equipamentos sofisticados, era visível a retração da geleira. Rignot apontou uma faixa acinzentada de 15 metros de largura ao longo das paredes do fiorde, que mostrava quanto a Kangilernata havia perdido em altura. Morainas pretas como carvão marcavam a retração da frente de desprendimento. Nos últimos quinze anos, a frente recuou mais de 3 quilômetros.

A Kangilernata é uma geleira de terminação marinha. Jakobshavn também, assim como a maioria das geleiras do oeste da Antártida. Isso significa que elas têm um pé na água e, à medida que o mundo aquece, derretem tanto de baixo para cima como de cima para baixo. A Nasa está tão preocupada com esse efeito que lançou um programa com o sugestivo nome de Ocean Melting Greenland [Derretimento da Groenlândia pelos Oceanos], cuja sigla, omg, coincide com a abreviação da expressão Oh, My God. Rignot é um de seus principais pesquisadores.

Na Kangilernata, dia sim, dia não, a equipe media as temperaturas da água na base da frente de desprendimento. Isso implicava entrar no fiorde com um barco inflável, descer alguns instrumentos pela lateral e torcer para que o gelo que se desprendia não inundasse o bote.

“O que mais me preocupa é que esse tipo de experimento só pode ser feito uma vez”, disse Rignot. “Muita gente não percebe isso. Se começarmos a abrir as comportas de algumas dessas geleiras, ainda que interrompamos nossas emissões e tenhamos de volta um clima melhor, o mal já estará feito. Não existe botão vermelho que o interrompa.”

 

Visitei o manto de gelo da Groenlândia pela primeira vez no verão de 2001. Àquela época, exemplos de mudança climática não eram evidentes. Hoje eles estão por toda parte – nas ruas alagadas da Flórida e da Carolina do Sul, nas florestas infestadas de besouros do Colorado e de Montana, nas águas demasiado quentes do Atlântico, dos Grandes Lagos e do Golfo do México, nas pilhas de mexilhões mortos que emergiram na costa de Long Island no verão de 2016 e nos montes de peixes mortos que recobriram as margens do rio Yellowstone.

Contudo, o problema com o aquecimento global – e o motivo pelo qual se resiste a exemplos eloquentes, mesmo com ruas inundadas, florestas morrendo e mexilhões apodrecendo nas praias – é que a experiência não constitui um guia apropriado para compreender o que ocorre. O clima opera com uma defasagem temporal. Quando se acrescenta dióxido de carbono à atmosfera, leva décadas – em termos técnicos, milênios – para que o planeta se reequilibre. A mortandade dos peixes no verão de 2016 é produto de um aquecimento que se tornou inevitável vinte ou trinta anos atrás, e os efeitos do aquecimento produzido hoje serão sentidos em sua totalidade só quando os bebês atuais tenham atingido a meia-idade. Assim, embora estejamos vivendo o clima do passado, já determinamos o do futuro.

Essa temporalidade retroativa do aquecimento global faz com que todas as advertências – de cientistas, governos, agências governamentais e, em especial, de jornalistas – pareçam histéricas, ainda que nem transmitam a urgência necessária. Uma vez iniciado o processo de retroalimentação, o clima pode mudar com muita rapidez, e mudar radicalmente. Ao final da última Era Glacial, durante um evento batizado de “pulso de derretimento 1A”, o nível dos mares subiu a uma razão de mais de 30 centímetros por década. É provável que as “comportas” já estejam abertas e que grandes porções da Groenlândia e da Antártida estejam destinadas a derreter. É somente o gelo diante de nós que segue congelado.

No meu último dia em Ilulissat, decidi que, como eu talvez não voltasse, seria melhor rever a cidade de gelo. A caminho dela, atravessei um dos abrigos empoeirados de cães e passei pelo velho heliporto da cidade, onde, para estimular o turismo, uma entidade filantrópica dinamarquesa planeja erigir um mirante para a contemplação do fiorde. (O belvedere “fornecerá um lugar na primeira fila para assistir ao derretimento do manto de gelo”, afirmou o gerente da entidade em junho passado, quando o projeto vencedor foi anunciado.) A cidade de gelo não me pareceu ter mudado muito, e reconheci alguns arcos e castelos que tinha visto antes. Era uma manhã sem nuvens, e, de novo, à exceção dos mosquitos, nada se movia. Eu levara comigo um caderno e comecei a listar as formas que via. Um iceberg lembrava um hangar, outro, o Guggenheim. Anotei uma esfinge, um pagode e um couraçado; um celeiro, um silo e a Ópera de Sydney.

Na volta para a cidade, segui outra rota, que me conduziu ao cemitério de Ilulissat. Nos túmulos havia cruzes brancas de madeira e flores de plástico de um colorido brilhante. Foi uma visão adorável, estranhamente alegre, a do cemitério com vista para o gelo.

[1] Fiordes são golfos estreitos e escarpados comuns na Escandinávia e na Groenlândia.

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