esquina

A locutora

Uma pioneira no rádio mineiro

Bernardo Esteves
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Minutos antes do começo da partida, Isabelly Morais repetia baixinho a escalação do Bahia, olhando concentrada para a cola que tinha preparado. A equipe já se aquecia no gramado da Arena Fonte Nova, em Salvador, onde em instantes enfrentaria o Atlético Mineiro pelo Campeonato Brasileiro. Morais se preparava para narrar o jogo pela Rádio Inconfidência. Faria a transmissão no estúdio da emissora, na região central de Belo Horizonte, acompanhando a partida pela tevê.

Sentada numa mesa de seis lugares, a moça estava rodeada por homens – dois radialistas da casa, um estudante de jornalismo e um menino de 10 anos convidado para comentar o jogo, além do repórter da piauí. Cinco dias antes, Morais – uma universitária que completara 20 anos havia três semanas – se tornara a primeira mulher a narrar uma partida de futebol no rádio mineiro.

Ela acompanhava de perto o noticiário do Atlético e conhecia bem a equipe, ainda que desfalcada de vários titulares, mas não tinha a mesma familiaridade com o time da casa. A zaga baiana, em especial, a assombrava: formada por Thiago Martins, com a camisa 2, e Tiago, com a 3, era garantia de confusão. A dupla de volantes – Juninho, 5, e Allione, 8, que exibem porte físico parecido e jogavam na mesma região do campo – também a preocupava.

Pega de surpresa por um ataque atleticano aos quatro minutos, a locutora só teve tempo de prolongar o nome do artilheiro quando os visitantes abriram o placar. “Passe para o Robinhooooo!”, exaltou-se, antes de emendar com um grito longo e agudo de gol, cujo “o” fechado ela puxava para o “a”, como se gritasse gââââl! Nos momentos em que se encrencava diante de algum nome, saía-se com fórmulas como “contra-ataca o time do Bahia” ou “passou a bola para seu companheiro”.

No intervalo, um técnico da emissora entrou no estúdio e disse que Morais havia subido muito o tom na hora do gol, e que, por isso, o som tinha estourado. Pediu à jovem que afastasse o microfone da próxima vez que fosse gritar. A narradora teve a chance de pôr a orientação em prática logo aos nove minutos do segundo tempo, quando Edigar Junio converteu um pênalti para o Bahia. A moça ainda narrou outras duas bolas na rede: a virada do time da casa e o empate do Atlético, em novo gol de Robinho, que ela anunciou com um grito seguro de dezesseis segundos.

 

Isabelly Morais juntou-se a uma linhagem rara de mulheres que atuam num meio predominantemente masculino. As pioneiras foram Claudete Troiano e Zuleide Ranieri, que narraram partidas nos anos 70 pela Rádio Mulher. Luciana do Valle – esposa de Luciano, um dos grandes nomes do ramo no Brasil – também conduziu a transmissão de jogos de futebol nos anos 90, mas pela televisão. Hoje há pouquíssimas narradoras em atividade, como Clairene Giacobe, da Rádio Estação Web, de Porto Alegre, e Núbia Alves, da Rádio Universitária, de Goiânia.

Morais estuda jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais. Está no quinto período e nunca havia trabalhado com rádio até julho deste ano, quando foi contratada como estagiária da Rádio Inconfidência, onde cumpre jornada de seis horas por dia e ganha um salário mínimo. Natural de Itamarandiba, cidade mineira com 34 mil habitantes no Vale do Jequitinhonha, mudou-se para a capital em 2015, assim que ingressou na faculdade.

Muito ligada a futebol desde criança, era torcedora ativa no Twitter e queria trabalhar com jornalismo esportivo. Almejava participar de mesas-redondas. Em vez de ler os comentários dos telespectadores, papel normalmente reservado a mulheres em programas do gênero, pretendia analisar as partidas ao lado dos colegas homens.

Nunca havia pensado em narrar até ir atrás de José Augusto Toscano, coordenador do Departamento de Esportes da Rádio Inconfidência, em busca de estágio. Ele é funcionário concursado da emissora pública, que pertence ao estado de Minas. Há anos desejava ter uma narradora na equipe: “Minha vontade era abrir a porteira e quebrar um paradigma nesse meio tão retrógrado.” Sondada se toparia o desafio, a jovem respondeu que aceitava tentar – e acabou ficando com a vaga.

A estudante começou a treinar as narrações em casa, assistindo a velhas partidas do Brasileirão pela internet. Praticou no quarto, no banho e até no ônibus. Só se soltou de verdade quando, pela primeira vez, gritou gol para valer, durante uma partida entre o América Mineiro e o ABC, pela série B do Campeonato Brasileiro. “Eu nunca tinha gritado tanto”, rememorou, dias depois. “Minha voz não acabava mais.”

 

A vida de Morais virou pelo avesso com a repercussão de sua estreia. A mineira foi parar na tevê e nas redes sociais e deu entrevistas para repórteres de norte a sul do país. “Tive que marcar horário com os jornalistas como se fosse um dentista agendando consultas”, contou. Vieram enxurradas de elogios e mensagens de estímulo, mas também críticas e manifestações sexistas.

Nada que fosse inédito em sua breve carreira: trabalhando como repórter, Morais já ouviu de um cartola que só responderia as suas perguntas porque ela é bonita; de um ex-jogador a quem pediu um favor ao fim de uma entrevista, recebeu a insinuação: “Esse favor vai sair de graça?” A locutora diz não se importar que falem mal de sua voz ou narração. “Critiquem a técnica – tenho pouquíssima mesmo –, mas me olhem como profissional, e não como mulher.”

A moça ainda não tem um bordão próprio, nem vai se apressar para criá-lo. “Será minha identidade, quero que nasça naturalmente.” Não deve demorar muito, a julgar pela descontração que manifestou na narração daquele domingo. Morais ficou à vontade para fazer piada com os colegas de estúdio e criticar os jogadores em campo – como o centroavante atleticano Rafael Moura, apagado na partida. “Ele não encaixa no jogo, assim não precisa nem entrar.”

José Augusto Toscano – o padrinho da narradora, que comentava o jogo do estúdio – ironizou a lentidão de Moura, notando que o atacante ostentava um porte físico parecido com o seu, marcado por uma respeitável barriga. Morais entrou na brincadeira e disse que o chefe seria um pouco mais ágil em campo. Toscano agradeceu a cortesia: “Está de folga amanhã.”

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

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