Nossa cultura, impregnada de psicologia pop, pergunta obsessivamente: Você é feliz? Mas é como se existisse um único enredo bom, um só script satisfatório
Ver dados da foto Nossa cultura, impregnada de psicologia pop, pergunta obsessivamente: Você é feliz? Mas é como se existisse um único enredo bom, um só script satisfatório IMAGEM: RICHARD RUSSELL

A mãe de todas as perguntas

Filhos e clichês da identidade feminina
Rebecca Solnit
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Nossa cultura, impregnada de psicologia pop, pergunta obsessivamente: Você é feliz? Mas é como se existisse um único enredo bom, um só script satisfatório IMAGEM: RICHARD RUSSELL

Há alguns anos, dei uma palestra sobre Virginia Woolf. No mo­mento das perguntas, o assunto que pareceu despertar mais interesse entre o público era se Woolf não deve­ria ter tido filhos. Atenciosa, respondi que ela, ao que consta, pensou em ter filhos no começo do casamento, de­pois de ver a alegria da irmã, Vanessa Bell, com os seus. Mas, com o tempo, ela passou a considerar a maternidade uma ideia imprudente, talvez devido a sua instabilidade psíquica. Ou talvez, sugeri, Woolf quisesse ser escritora e dedicar sua vida à arte, o que fez com extraordinário sucesso. Durante a apre­sentação, eu havia citado de maneira positiva passagens sobre a necessidade de matar “o Anjo do Lar”, a voz inte­rior que instrui muitas mulheres a se sacrificar como servas da vida domés­tica e do ego masculino. Fiquei sur­presa que o conselho de asfixiar o espírito da feminilidade convencional suscitasse essa conversa.

O que eu devia ter dito àquela pla­teia era que especular sobre o status reprodutor de Woolf constituía um desvio absurdo e enfadonho das mag­níficas questões presentes em sua obra. (Creio que a certa altura falei “Foda-se essa merda”, passando o sentido geral da coisa e encerrando o assunto.) Afi­nal, filhos muita gente faz, mas Ao Farol e As Ondas só uma pessoa fez, e era por causa disso que estávamos de­batendo Woolf.

Perguntas daquele tipo me eram bem familiares. Dez anos antes, duran­te uma conversa que deveria girar em torno de um livro meu sobre política, um entrevistador britânico insistiu que, em vez de falar sobre os frutos da mi­nha mente, deveríamos falar sobre os frutos do meu ventre – ou a falta deles. Ele me perguntava obstinadamente por que eu não tinha filhos. E não se dava por satisfeito com nada que eu dissesse. Parecia defender que eu deve­ria ter filhos, que era incompreensível que eu não tivesse, e assim tínhamos que ficar falando sobre os filhos que eu não fiz, em vez de falar sobre os livros que eu havia feito.

Quando saí dali, minha assessora de imprensa escocesa – uma moça miú­da, de 20 e poucos anos, com sapati­lhas cor-de-rosa e um belo anel de noivado – estava espumando de raiva. E esbravejou: “Ele nunca perguntaria isso a um homem.” Tinha razão. (Hoje em dia, uso esse argumento para re­bater alguns entrevistadores: “Você perguntaria isso a um homem?”) Per­guntas como essa parecem nascer da ideia de que não existem mulheres – esses 49% da espécie humana com necessidades tão variadas e desejos tão misteriosos quanto os outros 51% –, mas apenas a mulher, aquela que deve casar, ter filhos, permitir que os homens entrem e os bebês saiam, como um elevador da humanidade. Essas questões, na essência, não são pergun­tas e sim declarações que afirmam que nós, com a veleidade de nos ima­ginarmos como indivíduos, definindo nosso próprio curso, estamos erradas. O cérebro é um fenômeno individual que gera as mais variadas criações; o útero gera apenas um tipo de criação.

Quanto a mim, não tenho filhos por diversas razões: lido muito bem com os anticoncepcionais; a despeito de gostar de crianças e adorar ser tia, também aprecio a solidão; fui criada por gente bruta e infeliz e não quis re­produzir essa forma de criação nem criar seres humanos que pudessem sentir por mim aquilo que às vezes eu sentia por meus pais; o planeta não tem condições de sustentar mais gente do Primeiro Mundo, e o futuro é mui­to incerto; e eu realmente queria es­crever livros, vocação que, tal como a exerço, exige muito. Não sou dogmáti­ca contra ter filhos. Poderia ter tido em outras circunstâncias e estaria bem – como estou agora.

Há pessoas que, embora queiram ter filhos, não os têm por várias razões – pessoais, médicas, emocionais, fi­nanceiras, profissionais; outras não querem, e ninguém tem nada a ver com isso. Só porque é uma pergunta passível de resposta não significa que a pessoa tenha obrigação de respondê­la ou que ela deva ser feita. A pergunta que o entrevistador me fez foi inde­cente, pois pressupunha que as mu­lheres deveriam ter filhos e que as atividades reprodutoras de uma mu­lher eram um assunto naturalmente público. Sobretudo, a pergunta pres­supunha que, para as mulheres, só existia uma maneira certa de viver.

Mas mesmo dizer que só existe uma maneira certa de viver pode ser uma for­mulação demasiado otimista, visto que as mães também são sistematicamente consideradas relapsas. A mãe pode ser tratada como criminosa se deixar o fi­lho sozinho por cinco minutos, mes­mo que o pai da criança a tenha deixado sozinha por vários anos. Al­gumas mulheres me disseram que, depois de terem tido filhos, passaram a ser tratadas como seres apáticos desprovidos de inteligência, que não merecem consideração. Muitas ti­veram de ouvir que não podem ser levadas a sério como profissionais porque em algum momento vão en­gravidar. E muitas mães que de fato se saem bem no exercício da profissão são suspeitas de estar negligenciando alguém. Não existe uma resposta sa­tisfatória para a pergunta “Como é ser mulher”; o truque talvez esteja em sa­ber repelir o questionamento.

 

Falamos sobre questões abertas, mas também há as fechadas, aquelas para as quais só há uma resposta certa, pelo menos no que concerne a quem pergunta. São indagações que nos forçam a concordar com elas ou que nos ferem quando delas divergi­mos; que trazem suas próprias respos­tas e cujo objetivo é coagir e punir. Uma das minhas metas na vida é me tornar bem rabínica, conseguir res­ponder perguntas fechadas com per­guntas abertas, ter autoridade interna para frear a aproximação de intrusos e pelo menos me lembrar de questionar: “Por que você está perguntando isso?” Descobri que essa é sempre uma boa resposta para uma questão antipática, e as perguntas fechadas costumam ser antipáticas. Mas, no dia do meu inter­rogatório sobre filhos, fui tomada de surpresa (e estava com um sério jet lag) e só fiquei pensando: Por que é tão previsível que façam essas pergun­tas tão infames?

Talvez parte do problema seja ter­mos aprendido a questionar as coisas erradas sobre nós mesmos. Nossa cul­tura está impregnada de uma espécie de psicologia pop que pergunta obses­sivamente: Você é feliz? E pergunta­mos isso num reflexo tão condicionado que parece a coisa mais natural do mundo querer que um farmacêutico numa máquina do tempo vá entregar um lote de tranquilizantes e antipsicó­ticos em Bloomsbury, o bastante para a vida toda, pois assim seria possível reo­rientar uma incomparável estilista lite­rária feminista para a produção de uma ninhada de bebês Woolf.

As perguntas sobre a felicidade ge­ralmente pressupõem que sabemos como deve ser uma vida feliz. Muitas vezes se descreve a felicidade como o resultado de uma longa fieira de coi­sas – casamento, prole, bens próprios, experiências eróticas –, embora baste um milionésimo de segundo para nos lembrarmos de um monte de gente que tem tudo isso e mesmo as­sim é infeliz.

Recebemos fórmulas padronizadas a torto e a direito, mas essas fórmulas cos­tumam falhar. Apesar disso, elas não param de chegar. E chegam, e chegam. Convertem-se em prisões e castigos; a prisão imaginária acorrenta muita gen­te na prisão de uma vida que segue as receitas à risca, e mesmo assim é tre­mendamente infeliz.

Talvez o problema seja literário: re­cebemos um roteiro único sobre o que é ter uma boa vida, ainda que não sejam poucos aqueles que sigam o script fielmente e mesmo assim têm uma vida ruim. Falamos como se existisse um único enredo bom e um único fi­nal feliz, embora as inúmeras formas que uma vida pode assumir floresçam – e murchem – ao nosso redor.

Mesmo os que vivem a melhor ver­são do roteiro familiar nem sempre têm a felicidade como recompensa. Não é algo necessariamente ruim. Co­nheço uma mulher que viveu um ca­samento de muito amor por setenta anos. Sua vida é cheia de sentido, e ela vive de acordo com seus princípios; é amada e respeitada pelos seus descen­dentes. Mas eu não diria que ela é fe­liz; sua compaixão pelos vulneráveis e a preocupação com o futuro lhe dão uma visão sombria do mundo. Para descrever o que ela experimenta, em vez de felicidade, precisamos de uma linguagem melhor. Existem critérios totalmente diferentes para uma boa vida, que podem ser mais importantes para alguns – amar e ser amado, ter satisfação, honra, sentido, profundida­de, engajamento, esperança.

 

Parte de meu empenho como es­critora tem sido encontrar formas de valorizar o que é impalpável e subestimado, em descrever sombras e ma­tizes de significado, em celebrar a vida pública e a vida solitária, em encontrar – na expressão de John Berger – “outra maneira de contar”, o que também explica por que é tão desalentador esse repisar constante das mesmas velhas maneiras de contar.

A conservadora “defesa do casa­mento”, que na verdade não passa de uma defesa do velho esquema hierár­quico que era o casamento convencio­nal antes que as feministas começassem a transformá-lo, infelizmente não é monopólio dos conservadores. Muita gente em nossa sociedade se aferra à piedosa crença de que, para os filhos, a família heteronormativa apresenta uma aura mágica maravilhosa, o que leva muitos casais a se manter em ca­samentos infelizes, destrutivos para todos os que estão por perto. Conhe­ço gente que hesitou por muito tem­po antes de sair de um casamento pavoroso, porque a velha fórmula in­siste que uma situação que é terrível para um ou para os dois genitores será, de alguma maneira, benéfica para os filhos. Mesmo mulheres com maridos violentamente abusivos são, com frequência, pressionadas a con­tinuar em situações tidas como tão maravilhosas que tais detalhes nem vêm ao caso. A forma prevalece sobre o conteúdo. No entanto, tenho visto a alegria do divórcio e as inúmeras formas que podem ser assumidas por fa­mílias felizes, cada vez mais variadas, desde um genitor só e um filho só até incontáveis configurações de múlti­plos lares e famílias ampliadas.

Depois que escrevi um livro sobre mim e minha mãe, que se casou com um profissional liberal muito bruto, teve quatro filhos e vivia nervosa de raiva e infelicidade, uma entrevistado­ra me emboscou ao perguntar se era por causa do meu pai violento que eu não conseguira encontrar um compa­nheiro. A pergunta vinha carregada de pressupostos espantosos sobre o que eu queria fazer com minha vida e o direito da entrevistadora de nela se in­trometer. O livro The Faraway Nearby [O Próximo Distante] discorria de ma­neira serena e indireta, eu pensava, sobre minha longa jornada rumo a uma vida de fato agradável, e era uma tentativa de dar conta da fúria da mi­nha mãe, inclusive falando de sua ori­gem estar no fato de ela ter ficado presa a expectativas e papéis femini­nos convencionais.

Tenho feito da minha vida o que de­cidi fazer, e não era isso que minha mãe ou a entrevistadora imaginavam. Decidi escrever livros, estar cercada por gente inteligente e generosa e ter gran­des aventuras. Algumas dessas aventu­ras incluem homens – casos passageiros, grandes paixões e relações duradouras – e incluem também desertos distantes, mares árticos, cumes de montanhas, levantes e desastres, exploração de ideias, arquivos, registros e vidas.

 

As receitas da sociedade para a rea­lização pessoal parecem gerar grande infelicidade, tanto nas pessoas que são estigmatizadas por­que não podem ou não querem adotá­las como naquelas que as adotam, mas não encontram a felicidade. Cla­ro que existem pessoas com vidas bem convencionais que são muito felizes. Conheço algumas, assim como co­nheço muitos monges, padres e frei­ras no celibato e sem filhos, gays divorciados e todo o leque de entre­meio. No verão passado, minha amiga Emma entrou na igreja acompanhada do pai, e o marido dele foi logo atrás acompanhando a mãe de Emma; os quatro, mais o novo marido dela, formam uma família excepcional­mente amorosa e unida, que luta pela justiça em suas atividades po­líticas. Neste verão, nos dois casa­mentos a que fui havia dois noivos e nenhuma noiva; no primeiro deles, um dos noivos chorou porque passa­ra a maior parte da vida privado do direito de casar e nunca pensou que veria seu próprio casamento.

Apesar disso, as mesmas e velhas perguntas continuam rondando – ain­da que pareçam mais uma espécie de sis­tema coercitivo do que questões de fato. Na visão de mundo tradicional, a feli­cidade é algo essencialmente parti cular e egoísta. As pessoas sensatas buscam seu interesse particular e, quando se saem bem, supõe-se que sejam felizes. A própria definição do que significa ser humano é estreita, e o altruísmo, o idealismo e a vida pública (exceto como fama, prestígio ou sucesso material) não têm muito lugar na lista de dese­jos. Raramente surge a ideia de buscar significado na vida; as atividades corriqueiras não só são tidas como in­trinsecamente significativas, mas são tratadas como as únicas opções dota­das de significado.

Uma das razões pelas quais as pes­soas se prendem à maternidade como elemento essencial da identidade femi­nina é a crença de que são os filhos que permitem consumar a capacidade de amar. Mas há tantas coisas a amar além da prole, tantas coisas que precisam de amor, tantas outras tarefas no mundo que cabem ao amor…

São muitas as pessoas que questio­nam as escolhas dos que não têm fi­lhos, tidos como egoístas por recusar os sacrifícios que acompanham o papel de genitor; elas se esquecem de que, para quem ama intensamente os filhos, talvez sobre menos amor pelo resto do mundo. Christina Lupton, escritora que também é mãe, apresen­tou recentemente algumas coisas que teve de abandonar quando estava to­mada pelas exigentes tarefas da mater­nidade, entre elas:

Todas as maneiras de cuidar do mundo que não são tão facilmente va­lidadas quanto cuidar dos filhos, mas que são, da mesma forma, fundamen­talmente necessárias para que os filhos cresçam bem. Refiro-me aqui à escrita, à criação, à política e ao ativismo; à leitura, ao discurso público, aos protes­tos, ao ensino, à realização de filmes… As coisas que mais valorizo e das quais acredito que virá qualquer melhoria na condição humana são, em sua maio­ria, brutalmente incompatíveis com o trabalho concreto e imaginativo de cuidar dos filhos.

 

Uma das coisas fascinantes na sú­bita aparição de Edward Snowden, alguns anos atrás, foi a incapaci­dade de muita gente em entender como um rapaz podia abrir mão da receita da felicidade – salário alto, em­prego estável, casa no Havaí – para se tornar o foragido mais procurado do planeta. Ao que parece, a premissa dessas pessoas é que, como todos são egoístas, Snowden só poderia estar fa­zendo aquilo por ser interesseiro e que­rer atenção ou dinheiro.

Na primeira onda de comentários, Jeffrey Toobin, o especialista jurídico daNew Yorker, escreveu que Snowden era “um narcisista enfatuado que mere­ce ir para a cadeia”. Outro especialista anunciou: “Eu acho que o que temos em Edward Snowden é apenas um jo­vem narcisista que pensa que é mais inteligente do que todos nós.” Outros imaginaram que ele estava revelando os segredos do governo americano a soldo de um país inimigo.

Snowden parecia um sujeito de ou­tro século. Em seus contatos iniciais com o jornalista Glenn Greenwald, ele se nomeava Cincinnatus – o estadista romano que agia em prol da sociedade, sem procurar se promover. Era sinal de que Snowden formara seus ideais e modelos longe das fórmulas padroni­zadas de felicidade. Outras épocas e outras culturas costumavam fazerper­guntasdiferentes das que fazemos ago­ra: O que de mais significativo você pode fazer com sua vida? Qual é sua contribuição para o mundo ou para sua comunidade? Você vive de acordo com os seus princípios? Qual será seu legado? O que significa sua vida? Tal­vez nossa obsessão com a felicidade seja uma maneira de não responder a essas outras perguntas, uma maneira de ignorar a amplitude que as nossas vidas podem ter, o resultado que o nosso trabalho pode trazer, a abrangência que o nosso amor pode alcançar.

Há um paradoxo no cerne da ques­tão da felicidade. Há alguns anos, Todd Kashdan, professor de psicologia na Universidade George Mason, di­vulgou estudos concluindo que as pes­soas que julgam importante ser feliz são as que têm maior probabilidade de se deprimir: “Organizar a vida tentan­do ser mais feliz, fazer da felicidade o objetivo primeiro da vida atrapalha a pessoa ser de fato feliz.”

Finalmente tive meu momento rabí­nico na Inglaterra. Depois de superar o jet lag, fui entrevistada ao vivo por uma mulher com uma entonação compassi­va e elegante. “Então”, ela disse, num trinado, “você foi ferida pela humani­dade e se refugiou nas paisagens da natureza.” A conotação era óbvia: eu, um excepcional e deplorável exemplar, estava ali em exposição, uma estranha no ninho. Virei para o público e per­guntei: “Algum de vocês já foi ferido pela humanidade?” Riram comigo; na­quele momento, percebemos que todos tínhamos nossas esquisitices, estáva­mos todos no mesmo barco, e que é para isso mesmo – para cuidar das nos­sas feridas, ao mesmo tempo aprenden­do a não ferir os outros – que estamos aqui. E também pelo amor, que vem sob inúmeras formas e pode ser dirigi­do a inúmeras coisas. Há muitas per­guntas na vida que valem a pena fazer, mas talvez, se formos sábios, nós possa­mos entender que nem toda pergunta precisa de resposta.

Trecho do livro A Mãe de Todas as Perguntas, a ser lançado este mês pela Companhia das Letras.

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