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À mesa com o poder

As voltas que o Piantella deu
Consuelo Dieguez
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

O restaurante Piantella fica no meio da quadra comercial 202, na Asa Sul de Brasília, entre prédios modernistas projetados ainda nos primeiros anos da capital federal. Quando abriu as portas, em 1976, levava o nome de Tarantella, mas seria rebatizado pouco tempo depois, no começo dos anos 80, quando outro estabelecimento de mesmo nome, no Rio de Janeiro, reclamou a precedência da marca. Àquela altura, no entanto, o homônimo de Brasília já ganhara fama nacional. Transformara-se no restaurante mais concorrido da capital ao se converter na trincheira dos políticos de oposição, quando ser de oposição significava enfrentar o regime militar.

“Todas as grandes discussões nacionais nas décadas de 70 e 80 passaram pelo Piantella. Era impossível não se tramar ali o que seria discutido no Congresso”, contou-me um jornalista, assíduo frequentador do local. Foi no Piantella que, à boca pequena, Ulysses Guimarães, líder do MDB, começou a discutir com seus pares a lei de anistia aos presos e exilados políticos, que seria promulgada pelos militares em 1979. Foi também no Piantella que, em 1984, começou a ganhar força a discussão sobre eleições diretas para presidente.

No início dos anos 90, com a chegada de Fernando Collor de Mello ao poder, uma turma de políticos com mentalidade de novos-ricos desembarcou na capital. Estabelecimentos mais afeitos ao espírito da época e ao gosto da República das Alagoas abriram em Brasília. O Piantella foi aos poucos perdendo sua freguesia tradicional e entrou em crise. Em 1999, um advogado emergente nas rodas do poder e frequentador do restaurante, Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, propôs sociedade ao antigo dono. Ele e o mineiro Marco Aurélio Costa permaneceriam juntos à frente do negócio até 2014, quando Kakay assumiu sozinho o empreendimento. Foi um desastre.

Na tentativa de atrair nova clientela, o advogado promoveu uma reforma radical no estabelecimento. Àquela altura já famoso por defender réus do mensalão e da Lava Jato, Kakay resolveu mudar tudo: da decoração ao cardápio. Sem o charme de taberna e desprovido da história que lhe dera fama, o novo Piantella afundou de vez. No dia 31 de agosto do ano passado, enquanto o Senado aprovava o impeachment da presidente Dilma Rousseff, Kakay anunciou a amigos, pelo WhatsApp, o fechamento do restaurante.

 

Cerca de dois meses depois, contudo, o Piantella ressuscitava pelas mãos do empresário Omar Resende Peres, dono dos tradicionais restaurantes Fiorentina e Bar Lagoa, no Rio de Janeiro. Nos últimos anos, Peres tem se dedicado a recuperar restaurantes renomados do Rio. Sua estratégia tem sido a de deixá-los o mais próximo possível do que tinham sido no auge de sua trajetória, apostando na tradição.

No Piantella, repetiu a estratégia de sucesso. Uma das maneiras que encontrou de reavivar o passado foi espalhar pelo estabelecimento fotografias com as quais os antigos frequentadores se identificassem, e que chamassem a atenção dos novos clientes para o valor histórico do local. Comprou 300 imagens produzidas por Orlando Brito, decano do fotojornalismo brasileiro, emoldurou as imagens em preto e branco e cobriu as paredes do restaurante com os retratos.

Num momento em que os políticos estão em baixa, o Piantella, com sua viva coleção de fotos históricas, acabou se transformando numa espécie de templo em homenagem à classe. “Está todo mundo ali”, disse-me Peres. “Dos mitos, como dr. Ulysses, a ladrões, como Sérgio Cabral. Toda a classe está representada. Dos seus melhores aos seus piores personagens.”

Não demorou para que o restaurante se tornasse novamente um importante ponto de encontro na capital federal. As fotos, no entanto, não se limitaram a cumprir o papel que o novo dono esperava delas. Além de motivo de orgulho – era o que Peres almejava –, tornaram-se também objeto de raiva, irritação, inveja, despeito, vaidade, risos ou mesmo desprezo.

Assim foi que uma foto do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, cochichando no ouvido do senador mineiro Aécio Neves (agora suspenso), teve que ser retirada do salão principal e colocada em uma parede escondida num canto do restaurante. Como na foto Aécio aparece em segundo plano, alguns políticos mais próximos do mineiro viram na imagem uma tentativa do proprietário do Piantella de privilegiar o governador paulista. Pediram para que fosse realocada. No seu lugar apareceu outra fotografia: de Aécio, justamente, sendo saudado por uma multidão. Aí foi a vez da turma de Alckmin chiar.

Nem mesmo a enorme foto de Juscelino Kubitscheck ao lado de sua mulher, dona Sarah, no dia da inauguração de Brasília, escapou de intriga. Ao entrar no Piantella e se deparar com a foto de Juscelino, o filho do ex-presidente João Goulart, João Vicente, agastou-se. Achou um absurdo o pai não estar na mesma parede, com o mesmo destaque. Após reclamar com Peres, ligou para a mãe, a ex-primeira-dama Maria Thereza Goulart, para pedir que mandasse uma foto do casal presidencial em grandes dimensões, que hoje enfeita o local.

 

Para muitos, há um claro componente ideológico na posição de certas fotos. As de Lula e Dilma, por exemplo, identificam os banheiros da casa. Nos espaços mais nobres do restaurante estão agrupadas as fotos de políticos de maior relevância. Pelo menos na visão do proprietário. Ulysses Guimarães, por exemplo, aparece em mais de uma parede.

O deputado Miro Teixeira, da Rede do Rio de Janeiro, era um jovem político do MDB quando começou a frequentar o restaurante. Numa noite em março passado, ele me disse que o local está recobrando a antiga atmosfera. “É ótimo para vir conversar. Boa parte de quem vem para cá é gente conhecida e isso facilita o contato”, disse-me, após se despedir dos comensais de uma grande mesa, políticos de partidos diversos.

Era quase meia-noite e o restaurante estava praticamente vazio. Numa mesa festiva, um grupo terminava de jantar. Entre eles estava Simone Tristão, mulher de José Dirceu, e alguns amigos. Uma criança, animada, passeava entre as poucas mesas ainda ocupadas. A menina aproximou-se do local onde eu jantava, puxou assunto e contou-me, sem que eu perguntasse, que seu pai estava “em Curitiba, trabalhando” (um mês depois Dirceu seria solto pelo Supremo). E, na sua inocência infantil, me puxou pela mão até a escada. Apontou para a foto de José Dirceu na parede e confidenciou, orgulhosa: “Esse aí é o meu pai.” Depois correu para junto dos seus.

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