Como não há raias no mar, é frequente a troca de chutes, socos, cotoveladas, puxões e "caldos" entre as nadadoras de uma maratona. As ilegalidades acabam passando despercebidas pelos juízes porque acontecem debaixo d
Ver dados da foto Como não há raias no mar, é frequente a troca de chutes, socos, cotoveladas, puxões e "caldos" entre as nadadoras de uma maratona. As ilegalidades acabam passando despercebidas pelos juízes porque acontecem debaixo d'água FOTO: GUSTAVO OLIVEIRA_WBR PHOTO

A pit bull

A preparação da maratonista aquática Ana Marcela Cunha em busca da primeira medalha de uma nadadora brasileira nos Jogos Olímpicos
Luiza Miguez
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Como não há raias no mar, é frequente a troca de chutes, socos, cotoveladas, puxões e "caldos" entre as nadadoras de uma maratona. As ilegalidades acabam passando despercebidas pelos juízes porque acontecem debaixo d'água FOTO: GUSTAVO OLIVEIRA_WBR PHOTO

Era um sábado de maio, em Copacabana, e Ana Marcela Cunha se preparava para nadar por duas horas. O trajeto de 10 quilômetros que percorreria no mar iria simular o desafio que, em menos de três meses, a atleta enfrentaria na mesma praia carioca: a prova olímpica de maratona aquática. Passava um pouco das oito da manhã e a jovem de 24 anos já havia gravado uma entrevista na areia para a televisão e participado de uma sessão fotográfica. Seu entourage se espalhava por um quiosque na altura do Posto 6 e, aos sussurros, transmitia orientações à nadadora, que meneava a cabeça, parecendo concordar com tudo. Espremida num macacão preto de lycra e sem mangas, que lhe cobria o torso e as coxas, Ana Marcela esticava e chacoalhava os braços, empenhada em alongar e aquecer os músculos. “O pessoal da tevê pediu para filmar quando você pisar na água”, informou a assessora de imprensa Roberta Pinto. Enquanto a escutava, Ana Marcela enchia a mão com vaselina e besuntava a pele sob as extremidades do macacão, na esperança de protegê-la do atrito com a roupa durante o nado. “Um cisco antes de você entrar no mar, a gente vai medir a glicose do seu sangue”, avisou o treinador Márcio Latuf.

Perto da nadadora, quatro rapazes também se aqueciam, prestes a encarar o mesmo trajeto de 10 quilômetros. Um deles, Allan do Carmo, vai disputar a prova masculina da maratona nos Jogos do Rio. Os outros três estavam ali apenas como coadjuvantes. Contratados pela Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), tinham a missão de nadar em volta dos competidores olímpicos como se fossem seus adversários. Descontraídos, os moços trocavam provocações à medida que passavam grossas camadas de protetor solar pelo corpo. “O meu protetor tem cheiro de bebê!”, alardeou Ana Marcela, separando-se de sua equipe e se juntando à bagunça dos rapazes. “Eu sou um bebezinho!”, gracejou, fazendo o grupo rir.

Na verdade, a aparência e a postura de Ana Marcela em nada lembram a delicada compleição de um bebê. Dezenove tatuagens lhe decoram a pele, a maioria nos braços e no tronco. Raspados nas laterais, seus cabelos empinam no centro da cabeça e ganham as feições de um corte moicano. Com 1,63 metro de altura, a atleta pesa 67 quilos, quase 10 a mais do que o recomendado para mulheres de sua idade. Tem pés e mãos grandes, os ombros largos e bíceps com 32 centímetros de circunferência cada. A estrutura física robusta, porém, não a atrapalha dentro d’água. Muito pelo contrário. As maratonas de que costuma participar cobrem distâncias que oscilam entre 5 e 36 quilômetros. Nas provas mais extensas, Ana Marcela pode nadar por seis horas ininterruptas. Para aguentar o tranco, necessita tanto de força quanto de calor corporal. A força sobre-humana provém dos seus 55 quilos de músculos. Já os 12 quilos de gordura funcionam como um ótimo isolante térmico e lhe propiciam maior flutuação.

O ano passado revelou-se bastante animador para a atleta baiana. Ela voltou do Mundial de Esportes Aquáticos em Kazan, na Rússia, com três medalhas: ouro na maratona de 25 quilômetros, prata na de 5 quilômetros e bronze na de 10 quilômetros. Foi justamente a terceira colocação na prova de 10 quilômetros que lhe conferiu uma vaga na Olimpíada do Rio. Também em 2015 o Comitê Olímpico do Brasil (COB) a elegeu como atleta do ano. Ana Marcela ainda recebeu da Federação Internacional de Natação (Fina) o troféu de melhor maratonista aquática, honraria que já merecera em 2010 e 2014. Não por acaso, chegará aos Jogos de agosto entre as favoritas.

“Oxe! Olha só o mar que acabou de entrar!”, exclamou a nadadora naquele sábado de maio, espantada com as ondas cada vez maiores de Copacabana. Eram quase nove da manhã. Impaciente, Ana Marcela ajustava sem parar o maiô, a touca e os óculos de mergulho. Alguém lhe informou a temperatura do oceano – 26ºC. “Um forno!”, reclamou a maratonista, que prefere nadar em águas mais frias.

Longe dela e dos outros atletas, uma moça relativamente miúda sugava um pacotinho de suplemento alimentar e, muito séria, alongava-se em silêncio. Esticada sobre um tapete de ginástica, Poliana Okimoto contorcia os quadris e agitava as pernas, observada por seu marido e treinador, Ricardo Cintra. Em Kazan, na maratona de 10 quilômetros, a nadadora paulista de 33 anos ficou com o sexto lugar, dois segundos atrás de Ana Marcela. Embora tenha lhe garantido a classificação olímpica, a performance não a satisfez. O Brasil é a única nação que contará com duas maratonistas aquáticas nos Jogos do Rio. Vantajosa para o país, tal situação acirra intensamente a já feroz rivalidade entre Ana Marcela e Poliana.

À beira do mar, recrudescia um cheiro enjoativo de óleo diesel, disseminado pelos quatro botes que a CBDA alugara para transportar as equipes dos atletas durante o treinamento. As comitivas pretendiam acompanhar de perto o desempenho dos três competidores olímpicos. Às nove em ponto, quando curiosos e fãs da modalidade se acumulavam na areia, os esportistas saíram correndo em direção à água. Poliana e os quatro rapazes iam na frente. Sem conseguir se desvencilhar dos pedidos de selfie, Ana Marcela os seguia, atrasada.

 

No próximo dia 15 de agosto, também às nove da manhã, 25 nadadoras disputarão a maratona aquática na Olimpíada. Dez delas conquistaram o direito de estar no Rio porque chegaram entre as dez primeiras colocadas na prova de 10 quilômetros em Kazan. Uma competição na cidade portuguesa de Setúbal, ocorrida depois do mundial na Rússia, definiu outras dez atletas que brigarão por medalhas nas águas cariocas. As demais participarão dos Jogos a convite da própria Federação Internacional de Natação, todas oriundas de países onde a Fina acredita que a modalidade possa se desenvolver.

O trajeto circular que as competidoras irão percorrer no Rio será delimitado por boias instaladas entre os postos 5 e 6 da praia de Copacabana. Elas saltarão de uma plataforma sustentada por uma balsa e, durante cerca de duas horas, darão quatro voltas na “pista”. Ganhará a prova quem bater primeiro a mão num pórtico fixado a poucos metros da largada. Os momentos iniciais dentro d’água deverão seguir o mesmo roteiro brutal de outras maratonas. Como não há raias no mar, é comum a troca de chutes, socos, cotoveladas, puxões e “caldos” entre as atletas, sobretudo na primeira volta, quando as nadadoras ainda estão emboladas. Claro que práticas dessa natureza são proibidas. Um grupo de juízes aponta as deslealdades mais graves e pune as responsáveis com um cartão amarelo, desclassificando aquelas que trapaceiam a partir da segunda vez. Entretanto, a maioria das ilegalidades acaba passando despercebida porque ocorre debaixo d’água. Não à toa, na tentativa de evitar lesões, certas nadadoras optam por saltar da plataforma alguns segundos depois do primeiro pelotão.

Ao longo da prova, além de driblar o contato físico com as adversárias, cada esportista precisa prestar atenção na temperatura do mar. Se a água estiver fria demais (abaixo dos 18ºC), a atleta corre o risco de hipotermia. Ou melhor: sua temperatura corporal pode cair drasticamente. Se o oceano estiver acima dos 30ºC, o risco é inverso. A competidora se vê ameaçada pela hipertermia, elevação excessiva da temperatura corporal. Em ambas as circunstâncias, aumentam as chances de parada cardíaca ou perda da consciência. Para fugir de tamanhos perigos, não é raro que nadadoras abandonem a disputa quando notam que atingiram seu limite – uma percepção nem sempre possível, já que a adrenalina produzida durante a prova mascara os efeitos da temperatura marítima sobre o organismo. Há seis anos, nos Emirados Árabes, a Fina precisou interromper a Copa do Mundo de Natação justamente porque o maratonista norte-americano Fran Crippen morreu enquanto competia, devido a uma pane cardíaca provocada pela água muito quente.

 

Em vez de ocorrer no mar, o grosso do treinamento para a maratona se dá em piscinas, onde as atletas têm maior controle sobre as técnicas de nado, o que lhes permite aprimorá-las. A intimidade com o oceano é adquirida principalmente ao longo das próprias competições. Por isso, quanto mais desafios em águas abertas as nadadoras enfrentarem, mais preparadas estarão para as disputas seguintes. Natural de Salvador, cidade rodeada pela Baía de Todos os Santos, Ana Marcela convive com o Atlântico desde bebê. Aos 2 anos, aprendeu a nadar. Aos 6, começou a competir em piscinas por um clube baiano. Aos 12, profissionalizou-se e estreou em provas marítimas. Aos 14, já integrava a Seleção Brasileira. Em parte, o sucesso da jovem se deve à obstinação de seus pais, a ex-ginasta Ana Patrícia Cunha e o ex-nadador George Cunha, que sempre sonharam em ter uma filha esportista e administram a carreira de Ana Marcela com extremo rigor.

Na piscina, a atleta se destacou especialmente nas provas de fundo (800 e 1 500 metros), que exigem muita força e resistência. Mas foi no mar que se revelou um prodígio. Em 2006, com 14 anos, participou em Belém (PA) de uma das maratonas que compõem o circuito internacional da Fina e conquistou um inusitado bronze. Ficou dois minutos atrás das alemãs Britta Kamrau-Corestein e Angela Maurer, 27 e 31 anos à época.

A partir daí, Ana Marcela recebeu várias propostas de emprego e acabou aceitando a da Universidade Santa Cecília (Unisanta), em Santos, no litoral paulista, para onde se mudou em 2007. Festejou o acordo com sua primeira tatuagem. Desenhou, num dos pés, o cavalo-marinho que simboliza a instituição. O contrato de trabalho incluía um bom salário, cujo valor a atleta não divulga, mas que se mostrou suficiente para bancar toda a família. Seus pais puderam, assim, abdicar do pet shop que possuíam em Salvador, mudar de estado e se dedicar integralmente à carreira da filha. Mais do que nunca, procuravam certificar-se de que Ana Marcela se esforçava nos treinos e se mantinha saudável. “Meu pai sempre teve medo de eu me machucar antes de uma prova”, contou a nadadora no campus da Unisanta. Proibiu-a, por exemplo, de fazer educação física e chegar perto da quadra no colégio. “Ele sabia que, se eu chegasse, iria correr atrás de uma bola.” Certa vez, a escola precisou segurar a garota na diretoria para impedi-la de jogar futebol com os colegas. “Não adiantou nada. Pulei a janela do diretor e fui mesmo assim.”

Os treinos diários na Bahia aconteciam de manhã. Em Santos, a carga dobrou. Foi lá que Ana Marcela passou a contar com a supervisão do técnico Márcio Latuf. “Eu nadava cedo pela manhã e ia para o colégio”, relembrou a esportista. “Depois do almoço, retornava à piscina e treinava mais algumas horas.” Só folgava aos domingos. Não lhe sobrava tempo para ser adolescente.

Hoje, a atleta ainda mora com a família, num apartamento a dez minutos de caminhada da Unisanta, e continua a sustentá-la. Desde 2013, ganha a Bolsa Pódio, que lhe garante um valor mensal de 15 mil reais, pago pelo Ministério do Esporte. Também recebe uma remuneração da universidade santista e dispõe de cinco patrocínios – dos Correios, da Marinha, da Speedo, da Nissan e do curso de inglês Englishtown. O pai da nadadora evita dizer exatamente quanto a filha fatura por mês. Mas estimativas que correm no meio esportivo apontam algo em torno de 100 mil reais.

Pelo celular, ele e a mulher dão e pedem notícias para Ana Marcela o tempo inteiro (“Estamos indo ao mercado”, “Cadê você?”). Frequentemente, em Santos, pode-se encontrá-lo à beira da piscina, acompanhando o treinamento da nadadora. Quase metade das dezenove tatuagens que a esportista traz no corpo é dedicada à família – uma coroa com o nome completo e a data de nascimento do pai, outra com os mesmos dados da mãe, os símbolos dos signos materno e paterno (Aquário e Áries), uma âncora que remete “à base familiar” e os personagens do desenho Os Flintstones, Fred, Wilma e Pedrita, que representam os Cunha. Há ainda o trecho de uma canção da banda Charlie Brown Jr., Dias de Luta, Dias de Glória, tatuado igualmente pelos pais.

A mãe, Ana Patrícia, é quem prepara a alimentação da atleta, que necessita emagrecer até a Olimpíada. Atualmente, ela exibe quase 18% de gordura corporal, mas precisa chegar a 14% ou 15%. Segue, então, uma dieta rigorosa, prescrita pela nutricionista Yana Glaser. Louca por acarajé, vatapá e caruru, a nadadora se vê obrigada a almoçar feito uma modelo. Come apenas uma colher de carboidrato integral (arroz ou macarrão), outra com algum tipo de grão (lentilha, feijão, quinoa), poucas gramas de carne magra, salada e legumes. À noite, só lhe permitem proteínas (frango, peixe ou carne vermelha) e salada. Nos finais de semana, o controle diminui e a deixam exagerar numa das refeições. O exagero: substituir o carboidrato integral pelo comum ou, se quiser ir a um japonês, degustar sashimis à vontade, mas no máximo quatro sushis.

Fora os pais da atleta, ninguém sabe mais do paradeiro de Ana Marcela que os fiscais da Wada, a Agência Mundial Antidoping. A esportista compartilha seu cronograma com a entidade, que a submete periodicamente (e de surpresa) a exames de sangue e urina. Entre janeiro e maio, ela já havia sido testada seis vezes. A coleta ocorre geralmente pela manhã, e a urina recolhida precisa ser a primeira do dia. “Por isso, acordo sempre prevenida. Já me acostumei a ir ao banheiro somente na hora de sair de casa”, explicou a nadadora.

 

Foi apenas em 2008, na China, que se disputou a primeira prova olímpica de maratona aquática, como parte do programa de natação. Ana Marcela tinha 16 anos na ocasião da seletiva para os Jogos de Pequim. Entrou no mar de Sevilha, cidade espanhola onde acontecia a classificatória, sem nenhuma expectativa. Nadou os 10 quilômetros e, quando bateu a mão no pórtico de chegada, contou as meninas ao redor. Estupefata, contou de novo, e de novo, e de novo. O improvável acontecera. “Eu estava entre as dez primeiras, estava dentro!”, recordou.

Quatro meses depois, em agosto de 2008, aterrissou na China e, mal adentrou a vila olímpica, deu de cara com atletas de peso: o velocista Usain Bolt e os nadadores César Cielo e Michael Phelps. “Fiquei que nem criança, deslumbrada.” Coroou a viagem tatuando no ombro direito os aros que simbolizam os Jogos Olímpicos.

Na época com 25 anos, Poliana Okimoto também fazia parte da delegação brasileira. E já era considerada uma veterana, que nadava profissionalmente desde 1996. Ela e Ana Marcela não podiam ter personalidades mais diferentes. A baiana fala alto e gosta de algazarra. A paulista de ascendência japonesa é bastante séria e calada. Mesmo fisicamente, as duas em nada se parecem. Mignon, Poliana pesa cerca de 50 quilos – 17 a menos que a rival. Define-se como friorenta e, por isso, detesta nadar sob baixas temperaturas. Tampouco se sente à vontade no mar. Tem medo de arraias, tubarões e outros bichos, que, de vez em quando, causam problemas às maratonistas. Em 2007, por exemplo, Ana Marcela nadava em Melbourne, na Austrália, e começou a sentir uma dor intensa já na primeira volta da competição. Seu corpo queimava e a garganta fechava, dificultando-lhe a respiração. Apesar dos pesares, conseguiu terminar a prova e, na linha de chegada, ficou apavorada ao constatar que estava cravejada de águas-vivas, animais translúcidos e gelatinosos que liberam uma substância urticante.

Em Pequim, porém, as atletas não tinham com o que se preocupar. A maratona aconteceria num lago construído especialmente para a prova. “Sem bichos!”, comemorou Poliana. No dia 20 de agosto, o lago amanheceu muito calmo e quase não ondulava quando as nadadoras iniciaram o confronto. Márcio Latuf, treinador de Ana Marcela, acompanhou a competição meio distraído. “Já me sentirei satisfeito se Ana não chegar em último lugar”, pensava enquanto circulava o lago numa bicicleta. Por um telão, viu de relance duas inglesas despontarem na frente. Continuou a pedalada até que alguém de sua equipe gritou: “Veja só a Ana!” Ela disputava a terceira posição com Poliana e a alemã Angela Maurer. A uns 400 metros da chegada, no entanto, as três acabaram ultrapassadas pela russa Larisa Ilchenko, que seguiu numa reta e superou também a dupla inglesa. Ana Marcela foi a quinta a bater a mão no pórtico. Poliana chegou em sétimo.

Até então, apenas outras duas nadadoras brasileiras haviam alcançado resultado tão bom numa Olimpíada: Piedade Coutinho, em Berlim (1936), e Joanna Maranhão, em Atenas (2004). Ambas competiam em piscina e conquistaram o quinto lugar – a primeira nos 400 metros livres e a segunda nos 400 metros medley. “A gente comemorou por uma semana”, contou George Cunha, pai de Ana Marcela. Assim que retornou ao Brasil, a atleta teve permissão para sair da dieta e resolveu celebrar a façanha olímpica com a família numa pizzaria. No meio da refeição, alguém acessou um site de notícias pelo celular e viu que Ricardo Cintra, marido e treinador de Poliana, comentava a disputa de Pequim. Queixava-se de Ana Marcela, alegando que a baiana jogara o corpo parrudo contra a paulista no finalzinho da prova e a atrapalhara – manobra arrojada, embora legal, que de fato ocorreu. “O cara falava que ia me pegar, bater mesmo. Achei um absurdo!”, afirmou Cunha. “Escrevi no próprio site: estou aqui comemorando e te esperando.” Depois, registrou um boletim de ocorrência, em que acusava Cintra de ameaçá-lo, mas preferiu não levar a pendenga adiante. Quando conversei com o marido de Poliana, ele não quis tratar do episódio. Numa entrevista logo após a maratona da China, a nadadora paulista reconheceu que não terminara a prova contente e que ainda não sabia lidar com o corpo a corpo dentro d’água. Sobre a oponente de Salvador, disse: “Nós somos como o Alain Prost e o Ayrton Senna. Uma não existe sem a outra.”

 

Praticamente todas as maratonistas já sofreram reclamações de jogo sujo – ou, no mínimo, de truculência. Em maio, pedi para Luiz Lima, secretário Nacional de Esporte de Alto Rendimento do Ministério do Esporte, analisar o comportamento de algumas das atletas que virão aos Jogos do Rio. “A francesa Aurélie Muller, medalha de ouro em Kazan, é tranquila. Em contrapartida, a holandesa Sharon van Rouwendaal, medalha de prata no mesmo mundial, gosta de criar confusão.” E Ana Marcela?, perguntei. “É a pit bull das águas abertas. Não mexa com a fera”, brincou Lima. Carioca de 38 anos, ele figura entre os melhores nadadores do país nas provas oceânicas de fundo. Compete no mar desde 2002 e, há mais de uma década, dá aulas de natação na praia de Copacabana. Enxerga Ana Marcela como “uma atleta leal, ainda que nada ingênua”. “Ela sabe defender seu espaço. Joga mesmo o corpo para cima das adversárias. Só que faz isso sem machucar ninguém.”

O pai da esportista contou que, no princípio da carreira, a filha se preocupava muito em não trombar com as rivais. “Mas a gente trabalhou para tirar esse pudor dela, até porque havia Angela Maurer, que costumava encher Ana de porrada.” Sete vezes campeã mundial, a atleta da Alemanha – que se aposentou recentemente – é quase 10 centímetros mais alta que a brasileira. As duas nadaram juntas pela primeira vez em 2006, na prova de Belém, quando a baiana chegou em terceiro, uma posição abaixo da europeia. “Desta vez, vou ganhar dela”, pensava Ana Marcela sempre que a enfrentava. O desejo finalmente se concretizou no mar de Santos, em 2009, durante a terceira edição do Troféu Renata Agondi. Enquanto Maurer amargava um indigesto sexto lugar, a competidora de Salvador festejava a medalha de ouro.

Pouco tempo depois, a brasileira liderava uma prova na Argentina e tinha a alemã em seu encalço. Estavam na reta final da competição. “De repente, senti que alguém agarrava meu pé e me puxava”, lembrou Ana Marcela. Era Angela Maurer, que rapidamente a ultrapassou. Não bastasse, outras duas nadadoras superaram a baiana, que acabou em quarto, espumando de raiva. “Eu fiquei ‘p’ da vida! Mas aprendi a lição. Hoje tenho a manha de deixar os pés constantemente duros. Se as adversárias me puxam, reajo logo com um chute”, confessou, rindo. Quando recebe socos no estômago, também muito comuns, dá um encontrão na agressora.

Certa ocasião, no elevador de um hotel em Cancun, no México, Ana Marcela esbarrou com Maurer. “Encara ela, encara ela”, incitava a equipe da brasileira. A baiana atendeu prontamente o apelo e cravou os olhos na muralha alemã de quase 1,80 metro. A muralha aceitou o desafio, e as duas permaneceram um bom tempo imóveis, frente a frente, como lutadoras em apresentações de UFC. “Esse negócio de pit bull da maratona… Todo mundo diz isso de mim mesmo”, reconheceu Ana Marcela. “Eu até concordo, mas no sentido de ir para cima, de não bancar a boba, de querer muito ganhar. O cão vê a presa e vai com tudo. É assim que eu sou.”

 

A rotina de treinamentos a que a baiana se submete pode fazê-la nadar 9 quilômetros num único dia. De segunda a sábado, a atleta acorda por volta das seis da manhã e, às sete, chega ao campus da Unisanta. Nada ao longo de duas horas e segue para a academia, onde permanece mais uma hora. Depois, passa por uma sessão de massagem e vai almoçar. Três vezes por semana, nada outras duas horas à tarde. Na piscina, usa um par de palmares, equipamento redondo, de plástico e preso aos dedos, que aumenta a superfície das mãos e obriga a esportista a deslocar um volume maior de água durante as braçadas, o que lhe exige o emprego de mais força. Ela também costuma carregar na cintura um pequeno paraquedas aberto, que fica submerso e lhe oferece bastante resistência. Enquanto treina, a frase que mais ouve de Márcio Latuf é “Presta atenção nessa perna!”.

O técnico de 60 anos iniciou a carreira em 1980. Nas primeiras décadas de trabalho, assessorava apenas nadadores velocistas, aqueles que se dedicam às disputas mais curtas. Só começou a orientar maratonistas em 2007, quando Ana Marcela ingressou na Unisanta. “Eu desconhecia muita coisa sobre a modalidade. Pensava que, para preparar um maratonista, bastava mandá-lo nadar longas distâncias. Hoje sei que é preciso ensiná-lo a tolerar a fadiga na reta final das provas.” Latuf e Ana Marcela, além de se encontrarem seis dias por semana durante os treinamentos, viajam juntos para as competições. Convivem tanto que a atleta incorporou o sotaque do técnico, natural de Ribeirão Preto (SP). “Oxe, Marrrcião, que treino foi esse, mano?”, costuma reclamar, misturando o erre acentuado do interior paulista às expressões da Bahia.

A preocupação de Latuf com a fadiga da esportista faz todo sentido se levarmos em conta que, numa maratona de 10 quilômetros, as competidoras tendem a nadar unidas por quase 8. Conquistarão o ouro, a prata e o bronze aquelas que, nos 2 quilômetros derradeiros, ainda tiverem energia e força para arrancar velozmente e se distanciar do pelotão. Em geral, na segunda e terceira voltas da prova, quando ainda estão juntas, as atletas se dedicam a analisar a estratégia das concorrentes e a reavaliar a delas próprias. “É uma hora meio chata”, resumiu Poliana Okimoto. O pelotão costuma assumir um desenho triangular, que lembra a disposição das bolas de sinuca no princípio de um jogo. Dentro do triângulo, as nadadoras precisam decidir em que ponto preferem ficar. Se permanecerem muito na frente, gastarão energia demais para vencer a resistência do mar e abrir caminho. Tampouco convém manter-se muito atrás: caso as rivais da dianteira aumentem bastante a velocidade, pode se tornar impossível alcançá-las. O mais comum é que, nessa fase da disputa, as competidoras troquem de posição com frequência. Colocam-se no bloco da frente para pegar velocidade e na retaguarda se desejam descansar. Os treinadores avaliam que, para ter chances de medalha, as esportistas necessitam figurar sempre entre as seis primeiras.

 

Era julho de 2011. Em Xangai, na China, Ana Marcela brigava por uma vaga na Olimpíada de Londres. Estava com 19 anos. Sentia-se poderosa, numa curva ascendente, e tinha certeza de que se classificaria. Cinquenta e seis atletas lançaram-se ao mar naquela manhã, mas somente as dez que tocassem primeiro o pórtico de chegada iriam para a Inglaterra. Confiante, a pit bull despontou na frente e liderou o pelotão por boa parte da prova. A água beirava os 30ºC, temperatura considerada alta demais. Quando a competição se aproximava do fim, Ana Marcela perdeu o fôlego e sentiu os músculos entrarem em colapso. Várias adversárias a ultrapassaram. A baiana acabou completando a jornada em 11º lugar, com o curioso tempo de duas horas, dois minutos, 22 segundos e dois centésimos. Estava fora dos Jogos de Londres.

Logo depois da desclassificação, George Cunha recebeu cinco ligações da filha. Ela chorou nas primeiras, mas na quinta parecia menos arrasada: “Ainda tenho mais uma prova aqui, meu pai. Agora vou me concentrar.” Referia-se a uma competição de 25 quilômetros, que ocorreria dentro de quatro dias, igualmente em Xangai.

Na manhã da prova, ela e Angela Maurer nadaram lado a lado por mais de cinco horas. Um confronto aquático de tal porte exige o mesmo esforço que um atleta despende numa corrida terrestre de 100 quilômetros. Ana Marcela, entretanto, demonstrava suportar bem o calvário. “Sempre que a avistava, a menina me dava um tchauzinho, toda animada”, recordou Latuf. Naquele dia, o ouro ficou com a brasileira. A alemã, que chegou três segundos atrás da rival, levou a prata.

Tão importante quanto minimizar a fadiga numa prova com mais de uma hora é administrar corretamente os momentos de se alimentar. Ao longo do percurso, as nadadoras podem ingerir uma solução que lhes repõe alguns nutrientes: carboidrato, sódio, potássio e aminoácidos. Não raro, o líquido de gosto ruim também traz uma dose de cafeína, que deixa as esportistas mais dispostas. Se ficar muito desnutrido, o corpo entenderá que precisa economizar energia, e a performance das atletas diminuirá. Facultativo, o “pit stop alimentar” acontece em pontos previamente definidos pelos organizadores. Uma maratona de 10 quilômetros costuma ter três deles. Em movimento, as competidoras recebem das equipes garrafinhas plásticas com os suplementos. Elas, então, se viram para cima e, nadando de costas, engolem a solução o mais depressa possível.

Em 2012, Ana Marcela assistiu à Olimpíada de Londres pela televisão. “Ganhei os 25 quilômetros. Preparada eu estava…”, repetia para si mesma. No Hyde Park, as maratonistas nadariam num lago artificial que, em pleno verão inglês, se mantinha frio. Única brasileira na disputa, Poliana Okimoto se aquecia para enfrentar os 19ºC da água. Desta vez, Prost iria competir sem a presença de Senna.

Dentro do lago, Poliana sofria para acompanhar o pelotão. Na altura do sétimo quilômetro, sucumbiu à hipotermia. Começou a manifestar câimbras muito dolorosas, não sentia mais os pés nem as mãos e reparou que estava ficando roxa. Às tantas, já não conseguia diferenciar direito a fantasia da realidade. Com medo de apagar, abandonou a competição.

 

Não ter participado da Olimpíada de Londres fez Ana Marcela questionar seus treinamentos. “Percebi que precisava sair da minha zona de conforto”, explicou. Em 2013, depois de sete anos na Unisanta, aceitou uma proposta do Sesi (Serviço Social da Indústria) e se mudou com a família para São Paulo. Os novos empregadores lhe ofereceram uma estrutura de ponta e a oportunidade de trabalhar ao lado de colegas talentosas, como Daynara de Paula, campeã sul-americana de nado borboleta, e Etiene Medeiros, recordista mundial dos 50 metros costas. No Sesi, a baiana também passou a ser comandada por um técnico mais jovem, Fernando Possenti, que tinha 34 anos à época e nadava maratonas aquáticas desde 1998.

Quando chegou a São Paulo, a atleta pesava 70 quilos e exibia aproximadamente 20% de gordura corporal. Mais do que a recolocar em forma, Possenti procurou analisar o nado da pupila, braçada a braçada. Para tanto, pôs uma câmara na piscina, que registrava todos os movimentos dela. “Assim, pude notar que Ana parecia um ventilador nadando”, comparou. A esportista girava os braços rapidamente e sem eficiência, o que aumentava seu cansaço e a fazia perder força nos últimos metros das provas. Com a ajuda do treinador, a nadadora aprimorou a posição dos cotovelos, punhos e quadris, a amplitude das braçadas, a maneira de respirar e o ritmo das pernadas. Quanto mais melhorava a técnica, mais energia economizava. Seis meses após o ingresso no Sesi, Ana Marcela conquistou sua primeira medalha num mundial de esportes aquáticos: o de Barcelona, na Espanha. Chegou em segundo lugar na maratona de 10 quilômetros e, de quebra, abocanhou o bronze na prova de 5 quilômetros.

Em 2014, a atleta e Possenti passaram 180 dias viajando por três continentes. Participaram de competições na Argentina, no Canadá, em Portugal, no México e na China. Em setembro, resolveram se defrontar com a Travessia Capri–Nápoles, na Itália, uma prova de 36 quilômetros que, até então, nenhuma brasileira vencera. Usando uma touca com estampa verde-amarela semelhante à do capacete de Ayrton Senna, Ana Marcela nadou durante seis horas e 24 minutos. O técnico a acompanhou montado num caiaque. De tempos em tempos, pedia: “Mais força, mais força!” Ela não só ficou em primeiro lugar como quebrou o recorde feminino da travessia. A segunda colocada, Pilar Geijo, da Argentina, chegou longos dez minutos após a brasileira. A vitória contribuiu para que, no fim de 2014, a Fina elegesse Ana Marcela como a melhor maratonista aquática do mundo e Fernando Possenti como o melhor treinador.

Em julho de 2015, a nadadora desembarcou no mundial de Kazan com confortáveis 65 quilos e 14% de gordura corporal. Enxuta e musculosa, alcançara a melhor forma de toda a carreira e acabou ganhando medalha nas três provas em que se inscreveu – o revezamento misto de 5 quilômetros, a maratona de 25 quilômetros e a de 10 quilômetros, que serviu de classificatória para os Jogos do Rio. No entanto, em outubro do ano passado, a dez meses da Olimpíada, a equipe da atleta fez um anúncio surpreendente: Ana Marcela deixaria o Sesi e retornaria à Unisanta. Oficialmente, George Cunha explicou que a decisão se baseava em questões financeiras – sua filha embolsaria um salário maior na universidade santista. Já nos bastidores, corria o boato de que os pais da esportista haviam se desentendido com Possenti.

“As coisas entre nós caminharam bem nos primeiros dois anos e meio”, limitou-se a dizer Cunha quando mencionei o episódio. “E o que caminhou mal nos seis meses seguintes?”, insisti. Ele desconversou. “Quem fez essa lambança foram os pais da Ana”, declarou Possenti a um site pouco depois da reviravolta, protestando contra um “surto de ideias mirabolantes” que o casal tivera. Hoje, o técnico ainda evita dar detalhes sobre a briga, mas continua magoado. “Enquanto treinava a Ana, minha filha nasceu e fiquei sem vê-la durante todo o primeiro mês de vida dela. Dedicava-me integralmente ao trabalho. E agora não poderei concluir o que comecei… Lidar com a Ana é fácil. Difíceis são os pais.”

Em janeiro de 2016, a nadadora retomou o treinamento com Márcio Latuf na Unisanta. Uma psicóloga supervisionou o regresso. “Ela deixou de ser a adolescente que você conheceu. Está bem mais madura”, explicou de antemão para o treinador. Latuf contou que, quando reencontrou a atleta, se surpreendeu com a melhora de seu condicionamento físico. Ponderou, no entanto, que a esportista perdeu velocidade. Para os Jogos de agosto, o técnico pretende que Ana Marcela mantenha a resistência adquirida no Sesi e recupere a rapidez de outrora. “Se conseguirmos, estaremos bem próximos da medalha.”

 

Desde 2014, Poliana Okimoto também integra a equipe de maratona aquática da Unisanta. Ela e Ricardo Cintra, contudo, preferem treinar no Esperia, clube paulistano a mais de 70 quilômetros de Santos. Logo depois de chegar à universidade, Poliana sofreu uma lesão e ficou três meses parada. “Rompi uma vértebra da cervical”, explicou, à beira da piscina do Esperia. Era uma manhã fria e chuvosa de maio. A nadadora esticava a todo tempo a manga do casaco e esquentava as mãos, metendo-as entre as pernas. Ela relembrou, pesarosa, a competição de Setúbal em que se machucou. Ocupava o segundo lugar, com Ana Marcela à frente, quando tirou a cabeça da água para se orientar e uma onda lhe atingiu o rosto, lesionando seu pescoço. Lento, o processo de recuperação a impediu de se preparar direito para a seletiva olímpica de 2015, em Kazan. Receosa de engordar enquanto se restabelecia, alimentava-se pouco. Sua taxa de glicose baixou e o desânimo a invadiu. Julgava-se velha, ultrapassada. “Imaginei que nunca mais ganharia nada e não tinha força nem pra viver.” Com 32 anos, fazia uma série de balanços. Constatava, por exemplo, que as amigas já tinham filhos. “Eu, em compensação, não arranjo tempo nem pra criar um cachorro ou cuidar de uma planta.” Cogitou abandonar a carreira.

Na seletiva de Kazan, saiu nervosa do mar, lamentando a sexta colocação – resultado que, no entanto, lhe garantiu uma vaga nos Jogos cariocas. Ela e o marido tiraram férias após a classificatória e, mal retomaram os treinamentos, resolveram dar uma cartada insólita: buscariam auxílio com parte da equipe de Ana Marcela.

Gustavo Magliocca e Yana Glaser, médico e nutricionista da baiana, trabalham numa mesma clínica esportiva em São Paulo. No final de 2015, Poliana os procurou. A nutricionista assessorava Ana Marcela havia quase três anos e estabelecera com a nadadora uma relação muito afetuosa. “Recordo-me perfeitamente do dia em que atendi Poliana pela primeira vez. Parecia que eu estava cometendo uma traição. Senti dor de barriga e tudo!” Preocupada com o que Ana Marcela pudesse pensar, avisou-a sobre a nova paciente. A atleta não gostou muito da notícia, mas a digeriu sem maiores traumas. Já os pais dela… “Foi um horror! Quando descobriram, criou-se um caos”, disse Glaser. “Até hoje não nos falamos.”

A nutricionista, às vezes, precisa viajar com as duas para garantir que disponham de refeições saudáveis e seguras em hotéis ou nos locais de competição. Em abril, as acompanhou à Flórida, nos Estados Unidos, onde disputariam uma maratona de 5 quilômetros. “Aí eu ia conversar com a Ana Marcela, e o Ricardo Cintra se irritava comigo. Depois, eu ia atender a Poliana, e a Ana ficava de birra”, descreveu. “O problema não é nem uma, nem outra. Creio que, se deixassem, elas virariam amigas. O problema são as pessoas que as cercam. Os pais da Ana querem proteger a filha, e o Ricardo Cintra quer proteger a mulher. Uma loucura…”

Confusões à parte, o fato é que Poliana se sente melhor desde que aderiu à equipe da adversária. “Tenho a impressão de que estou novamente com 20 anos!” Em fevereiro, quando as duas nadadoras partiram para Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, e se enfrentaram numa prova de 10 quilômetros, o estômago de Yana Glaser embrulhou ao saber que Poliana conquistara o segundo lugar e Ana Marcela chegara em terceiro, dez centésimos depois. Na competição da Flórida, o resultado se repetiu: a atleta paulista derrotou outra vez a oponente da Bahia. “Pensei que Ana Marcela fosse imbatível, que Poliana nunca mais a venceria”, confidenciou a nutricionista. “Mas agora está vencendo, né?” Glaser disse que não esconde de Poliana seu apreço por Ana Marcela e garantiu que cuida de ambas com o mesmo empenho. “Faço tudo para que estejam bem nutridas. O resto é com elas.”

Quando indagada sobre as farpas trocadas pelas duas equipes, a baiana se mostrou evasiva: “Problema deles, não me meto.” Na opinião de Carla di Pierro, psicóloga da esportista, a objetividade e a enorme resiliência de Ana Marcela a blindam das picuinhas. “Ela não tem interesse em investigar questões mais íntimas durante nossas sessões. Prefere tratar de assuntos estritamente relacionados a seu rendimento na água: ‘Não quero caçar pelo em ovo, doutora. Comigo está tudo bem.’”

 

Treinadores e atletas apostam que, em agosto, a temperatura do Atlântico no Rio de Janeiro oscilará entre agradáveis 22 e 23ºC. Já a ondulação não deverá ser das mais calmas e o vento ora soprará contra as nadadoras, ora a favor, arremessando-as de volta para a areia ou empurrando-as para o alto-mar.

No treinamento de maio, sentado à borda de um bote, Márcio Latuf observava as águas de Copacabana. “Estão mexidas. Ótimo!”, vibrou. Ana Marcela poderia treinar sob as condições que provavelmente a aguardarão nos Jogos. Quatro barcos rodeavam os atletas. No de Latuf, ia também a psicóloga Carla di Pierro. Em outro, se encontrava apenas o marido de Poliana Okimoto. Um terceiro levava Rogério Arapiraca, técnico de Allan do Carmo. No último, vinham Igor de Souza, diretor de Maratonas Aquáticas da CBDA, e o biomecânico José Nilton Pereira, responsável por registrar em vídeo os movimentos da baiana.

Os seis nadadores deslocavam-se no corredor que se formara entre os botes. À medida que o tempo passava, a agitação do mar aumentava e produzia ondas que os esportistas apelidam de “carneirinho”. Com aproximadamente 1 metro e meio de altura, batem no braço dos atletas, atrapalhando-lhes as ações e deixando a competição muito lenta. Dos barcos, os treinadores contavam quantas braçadas os pupilos davam em um minuto. Ana Marcela se destacava por furar as ondas com força e determinação. Cada volta da prova simulada revelava-se mais rápida que a anterior.

Os rapazes nadavam sempre à frente. As duas moças os seguiam, bastante próximas uma da outra, com Poliana ligeiramente atrás na maior parte do treino. Depois de quase duas horas dentro d’água, os esportistas se aproximaram da reta final. “Está quase acabando! Não pare!”, berravam os técnicos. Jogando o corpo para cima da adversária, a baiana demonstrava que não a chamam de pit bull à toa. Quando ambas bateram as mãos no pórtico de chegada, as equipes se calaram e examinaram prontamente os cronômetros. Até o mar pareceu se acalmar. Faltando menos de noventa dias para a Olimpíada do Rio, Ana Marcela Cunha e Poliana Okimoto terminaram o percurso empatadas. Fizeram os 10 quilômetros em exatamente uma hora e 57 minutos.

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