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A resistência

Uma rede social analógica em Niterói
Paula Scarpin
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Mal notou que um desconhecido havia parado em frente à RP Resistências, o senhor franzino de chapéu preto levantou-se da cadeira ao fundo, atravessou a pequena loja e se deteve junto à porta. “Será que agora esse sem-vergonha vai se dar mal?”, disparou o transeunte. Seu queixo apontava para um dos pedaços de jornal colados com durex na vitrine. O recorte exibia uma notícia de cinco dias antes: “Cunha renuncia à presidência da Câmara e continua como deputado.” De braços cruzados, o dono das iniciais que batizam o estabelecimento, Rubem Pereira, respondeu sem pestanejar, oscilando entre o conformismo e a revolta: “Não sei… Mas, como você, só vou sossegar quando esse bandido for preso e restituir o dinheiro que roubou da gente.”

Publicada no começo de julho, a reportagem sobre o peemedebista Eduardo Cunha disputava espaço na vitrine com folhas de sulfite impressas, páginas xerocadas de livros e uma porção de outros recortes, em geral dos diários fluminenses Extra, Expresso e O São Gonçalo. Os papéis, não raro amarelados, tratavam de tudo, menos de resistências elétricas, praticamente o único produto comercializado pela lojinha de Niterói (RJ). Havia os que disseminavam “pílulas de sabedoria” e os que professavam as benesses do vegetarianismo, opunham-se à destruição da Amazônia ou desencorajavam a sonegação fiscal. A maioria, no entanto, falava de Cunha. Um pedestre desavisado que seguisse pela rua Visconde do Uruguai e deparasse com as notícias mais visíveis do mural até poderia supor que naquele endereço funcionava um fã-clube às avessas do parlamentar carioca. Mas se, tomado por um ímpeto arqueológico, o passante resolvesse examinar melhor a papelada, encontraria igualmente várias notícias sobre Dilma Rousseff. Os comentários a caneta e os grifos nos recortes deixavam claro o apoio de Pereira à presidente afastada desde o princípio de sua campanha pela reeleição.

Numa das matérias, o comerciante escreveu em letras garrafais: “Crivella e Dilma, já pensou???!!” Instado a explicar se a exclamação era motivada por entusiasmo ou pavor, desfez-se em elogios a Marcelo Crivella, o senador pelo PRB e bispo da Igreja Universal do Reino de Deus que integrou o ministério da presidente. “Gosto dos evangélicos. A única exceção que eu vejo é esse cara”, ressaltou, esfregando o indicador numa foto de Cunha. O negociante enfatizou que não professa nenhuma religião e que seu apreço “pelos crentes” decorre menos de questões teológicas e mais do fato de valorizarem “o trabalho e a retidão moral”. Sem contar que os protestantes estão entre seus melhores clientes. Em várias igrejas, o batismo dos fiéis se dá por imersão numa piscina ou num tanque grande. As resistências necessárias para aquecê-los são um dos itens mais caros da loja. Cada uma custa 1 450 reais.

O papo sobre artigos elétricos, porém, não vai muito longe. Há 56 anos no ramo, Rubem Pereira – que completou 87 de idade, nasceu no Iraque e imigrou para o Brasil ainda bebê – parece cansado de discorrer sobre as vantagens do aço inox em relação ao ferro. A baixa qualidade dos produtos chineses que dominam o mercado chega a atiçar um pouco a verve de RP, satisfeito por não sucumbir à avalanche oriental. Mas os assuntos preferidos dele se encontram mesmo fora da loja, afixados um a um na modesta vitrine. “Eu próprio seleciono os textos e os penduro ali”, esclareceu o comerciante, sem disfarçar o orgulho. Para quê? “Para informar as pessoas!” Do balcão, Rubem Régis – o mais novo dos cinco filhos de Pereira – comentou: “Aquilo é igualzinho ao mural do Facebook. Tem gente que passa por lá, confere as novidades e dá uns pitacos. Ou, então, faz um sinal de positivo aqui para dentro, como se fosse uma curtida.” O caçula tentou, em vão, criar um perfil do pai na rede social. “Não deu certo porque o velho se atrapalha muito com os computadores.” Certa vez, desejoso de ensinar o negociante a mexer no PC da loja, o rapaz de 26 anos colou perto da máquina uma lista de instruções básicas: para ligar, aperte o botão tal; para movimentar o cursor na tela, acione o mouse. Nem assim Pereira se informatizou.

 

O proprietário da RP Resistências também resiste a outras modernidades. Não usa celular, ainda vê televisão de tubo e, o mais inusitado, rejeita cartões de débito ou crédito. Só vende à vista e se o comprador pagar em dinheiro vivo. Foi justamente o embaraço com o mundo digital que o levou a contratar o filho para ajudá-lo em dezembro de 2007, quando ficou impossível contornar a obrigatoriedade da nota fiscal eletrônica. Tão logo Rubem Régis assumiu a contabilidade da loja, Pereira se viu com tempo ocioso e passou a se dedicar à vitrine. Sua mulher, Raulina Duarte, já vinha insistindo para que desse um tapa no visual do estabelecimento. “Por que, se os clientes estão atrás de qualidade e preço?”, argumentava o marido. “Aqui não é uma butique, um lugar de passeio. A pessoa solicita um produto específico, compra e vai embora.”

De fato, a RP Resistências não figura entre os comércios mais elegantes de Niterói. Funciona na garagem de um predinho antigo e malcuidado. Da porta para dentro, um sem-número de mercadorias empoeiradas pende do teto, de tal modo que um cliente mais alto precisa curvar a cabeça até chegar ao balcão. Quando Pereira resolveu finalmente atender aos apelos da mulher e embelezar a lojinha, expôs umas mudas de babosa na fachada. Se alguém demonstra interesse pelas plantas, o comerciante as vende por 5 reais. “Servem para amaciar o cabelo ou tratar queimadura, e o suco ainda combate a gastrite”, explicou. Após recorrer à babosa, ele começou a enfeitar a vitrine com cédulas e moedas que já saíram de circulação e que coleciona sem muito rigor. O passo seguinte foi inaugurar sua timeline analógica.

Nos últimos dois anos, o negociante tem arriscado registrar “umas reflexões” em caderninhos, no verso de notas fiscais descartadas ou em qualquer papel que lhe caia nas mãos. Rigoroso, quase nunca gosta do que redige. Entretanto, quando os escritos lhe parecem suficientemente perspicazes, pede ao filho que os digite no computador para, depois, exibi-los impressos na vitrine. “A Amazônia é o pulmão do mundo!! Sabia que o pulmão está infectado? Os bacilos (vírus) são os madeireiros, que devastam as florestas”, ensinou num dos textos. “O velho escreve bem. A cabeça dele funciona melhor do que a minha”, elogiou Rubem Régis enquanto substituía a resistência de uma autoclave odontológica. Entre uma aparafusada e outra, o herdeiro da RP borrifava Bom Ar no ambiente. Queria neutralizar um leve cheiro de carniça. “Faz três dias que está assim… Morreu um rato e a gente ainda não conseguiu encontrar o danado”, lamentou, afastando com os pés uma parte da montanha de papéis que crescia no chão. “Acho que temos que adotar um gato.” Rubem Pereira concordou, sorridente. Quem precisa buscar uma empresa de desratização no Google se pode arranjar um bichano?

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