esquina

A salinha

O PT de volta ao poder – na USP

Fabio Victor
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

A sede do Diretório Central dos Estudantes ocupa um espaço franciscano nas imediações do principal bandejão da Cidade Universitária, em São Paulo. Por fora, poderia ser confundida com um estande de vendas abandonado, não fosse o letreiro cor de laranja anunciando: DCE livre da USP. Junto à frase, um grafite exibe o rosto de Alexandre Vannucchi Leme, aluno de geologia morto em 1973 pela ditadura que se tornou patrono da entidade. Um cartaz na recepção alerta: “Proibido fumar neste local.” Ao pé dele, um gaiato acrescentou: “Mas se quiser pode.”

Duas poltronas e dois sofás dividem o espaço com três mesas pequenas (incluindo a de pebolim), algumas cadeiras escolares e uma geladeira. Pastas repletas de documentos se amontoam em arquivos de ferro. A porta de um armário, coalhada de adesivos, guarda a memória política daquele universo: “Educação não é mercadoria”, “Palestina livre”, “Alca é golpe contra a soberania”, “Diretas para reitor – Por que não?”, “Sala de aula não é lotação”, “Transgênicos – Não engula essa”, “Pedágio é roubo”, “Construa um mundo mais democrático – Não leia a Veja!”.

O simples fato de o DCE estar aberto constitui uma surpresa na Universidade de São Paulo. Ao longo dos últimos dez anos, a salinha – como a sede é conhecida – passou a maior parte do tempo fechada. Sua reabertura decorre de outra novidade: o retorno do PT ao comando do diretório, após uma década de predomínio do PSOL. A chapa Nossa Voz, que venceu as eleições de novembro, reúne alunos ligados principalmente ao partido de Luiz Inácio Lula da Silva, mas também à União da Juventude Socialista, sob influência do PCdoB, e ao Levante Popular da Juventude, corrente derivada do MST, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Os ganhadores tiveram 4 338 votos, contra 1 520 da chapa que ficou em segundo lugar, a Pode Chegar e Não Para, do PSOL.

A derrocada do PT no órgão mais importante do movimento estudantil paulista coincidiu com a consolidação da legenda no governo federal. A última vitória de um grupo majoritariamente petista no DCE da USP se deu no início da segunda gestão de Lula, em 2007. Desde então, o partido começou a ser identificado por parte dos alunos como “chapa-branca”, “pelego” e até “de direita”.

Historicamente, na maior universidade pública do país, com 96 mil estudantes, a esquerda ou a extrema esquerda costuma liderar os diretórios acadêmicos. Não à toa, para a juventude petista, estar alinhada a uma Presidência da República que abraçou a ala fisiológica do MDB significou uma sentença de morte. Com a deposição de Dilma Rousseff, porém, os ventos mudaram. “Agora que o PT virou oposição outra vez e voltou a ser o polo aglutinador da esquerda, recuperamos o DCE”, avaliou David Paraguai, um dos coordenadores da chapa vencedora.

O rapaz de 20 anos cursa ciências sociais e tem cabelos revoltos que lembram os do ator francês Louis Garrel. Enquanto conversava com a piauí, estava acompanhado de dois colegas mais experientes, Diego Pandullo, aluno de direito, e Luna Zarattini Brandão, também das ciências sociais. Todos são do Balaio, como foi batizada a atual juventude petista na USP. “Nossa volta indica que ainda há a crença de que o PT representa a defesa da democracia e o combate ao golpe”, acrescentou a moça de 24 anos, em referência ao impeachment de Dilma.

Perto dos três, outro dirigente do DCE batia um papo com calouros. “O golpe de 2016 é mais refinado que o de 1964, porque resulta de uma aliança entre o Poder Legislativo e o Judiciário”, explicava Lelo Purini, mestrando em direito e graduando em contabilidade. “Estamos diante de uma janela histórica que pode desorganizar a esquerda por muito tempo, talvez uns trinta ou quarenta anos.”

 

Embora não perca de vista o contexto nacional, o novo comando do diretório credita sua vitória a bandeiras mais próximas dos eleitores, a começar pela reabertura da salinha. “O DCE precisa existir no cotidiano dos estudantes; para isso, acreditamos que o primeiro passo é abrir a sede no campus […], que se tornará um espaço físico de referência da entidade, com diretoras e diretores disponíveis a auxiliar nas demandas estudantis”, dizia um folheto de campanha. Entre outras causas, o grupo prometeu lutar pela manutenção das cotas na universidade e combater a ideia de a USP passar a cobrar mensalidades de uma parcela dos alunos.

Em janeiro, um mês depois da posse – à qual compareceram dirigentes petistas como a presidente nacional do partido, Gleisi Hoffmann, o senador Lindbergh Farias e o ex-ministro Gilberto Carvalho –, um mutirão fez uma faxina na salinha. “Estava tudo imundo, cheio de baratas e com um mau cheiro intenso. Parecia uma daquelas casas que servem de cenário para programas sobre acumuladores”, relembrou Sergio “Kyo” Kobayashi, mestrando em letras e um dos representantes do Levante Popular da Juventude na nova gestão.

O grupo destronado, do PSOL, reconhece que a sede se mantinha fechada boa parte do tempo. “Priorizávamos assuntos mais importantes, como a crise da universidade pública”, justificou Gabriela Schmidt, estudante de ciências sociais que integrava a direção anterior.

Conforme seu estatuto, o DCE não tem um presidente. Na atual gestão, que termina em dezembro, o comando se divide entre a coordenação-geral e dez diretorias temáticas. O Levante Popular é o segundo maior grupo dentro da entidade. Depois, vem o grupo do PCdoB, pequeno na USP, mas que domina há mais de trinta anos a União Nacional dos Estudantes.

A reconquista do poder no diretório e as mudanças na política nacional suscitam uma questão: o próximo objetivo dos petistas é assumir a presidência da UNE? Diante da pergunta, os jovens recém-chegados ao DCE se entreolharam e demoraram para responder que não, essa não é uma prioridade, porque antes se deve retomar o trabalho de base. Primeiro a salinha.

Fabio Victor

Fabio Victor é repórter da piauí. Na Folha de S.Paulo, onde trabalhou por 20 anos, foi repórter especial e correspondente em Londres

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