questões de vida & morte

A última viagem

A chegada, a fuga e a prisão do brasileiro executado na Indonésia

Ricardo Gallo
Rangda, a figura do mal na mitologia de Bali, onde Marco Archer venderia os 13,4 quilos de cocaína que levou para a Indonésia na asa-delta
Rangda, a figura do mal na mitologia de Bali, onde Marco Archer venderia os 13,4 quilos de cocaína que levou para a Indonésia na asa-delta ILUSTRAÇÃO: MIGUEL COVARRUBIAS

No final da tarde de 2 de agosto de 2003, um sábado, o policiamento reforçado em ruas, shoppings e hotéis deixava claro que as coisas não andavam bem em Jacarta, capital da Indonésia, situada em Java, a principal ilha das cerca de 17 500 que formam o país. A cidade estava sob a ameaça de um ataque terrorista da Jemaah Islamiyah (Comunidade Islâmica), organização apontada pelos governos indonésio e norte-americano como braço da Al-Qaeda no Sudeste Asiático. O alerta antiterrorista havia sido deflagrado em meados de julho, quando um homem detido pela polícia confessou ter levado para a capital dois carros repletos de material para fabricação de bombas. O governo dava por certo que a cidade seria atacada; só não se sabia onde nem quando.

O temor de atentado se estendia ao Aeroporto Internacional Soekarno-Hatta, uma construção de telhados vermelhos e pavilhões amplos inspirada em casas rurais indonésias. A 20 quilômetros do Centro de Jacarta, ele é a principal porta de entrada de estrangeiros no país. Como havia sido alvo, apenas três meses antes, de um ataque a bomba que acabou ferindo onze pessoas, o local estava fortemente vigiado. Em busca de explosivos, os policiais da alfândega vistoriavam com mais rigor as bagagens, que eram submetidas ao aparelho de raio X. Adotavam um procedimento incomum em países ocidentais: as malas eram inspecionadas também no desembarque dos passageiros, não só no embarque.

Além de bombas, a polícia procurava por drogas. A Indonésia, em especial Bali, a ilha mais turística do arquipélago, é parte da rota internacional de tráfico para a África e para a Europa. A fim de tentar combater o problema, em 1997 o país implantou uma das mais severas leis antidrogas do mundo: a pena de morte para traficantes. A lei estava anunciada na alfândega do aeroporto, em imensos letreiros com os dizeres em vermelho: Warning! Death penalty for drug traffickers [Atenção! Pena de morte para traficantes de drogas]. Também aparecia no formulário de imigração que os estrangeiros a caminho da Indonésia recebem nos aviões. Em suas páginas na internet, governos de todo o mundo alertavam para o risco de usar ou traficar drogas nesse país do Sudeste Asiático.

 

Visitante frequente da Indonésia, o instrutor de voo livre Marco Archer Cardoso Moreira, o Curumim, estava bem a par do rigor com que o país trata os traficantes. Desconhecia, porém, as medidas de segurança tomadas depois da ameaça terrorista, com o aumento do policiamento. Com centenas de outros passageiros, ele desembarcou em Jacarta no voo 0837 da KLM, que vinha de Amsterdã, e aterrissou no aeroporto às 17h15 daquele sábado.

Vestindo jeans, camisa e jaqueta de couro marrom, Marco chegou à capital da Indonésia com sete volumes de bagagem, entre os quais sua asa-delta desmontada, um trambolho de 4 metros de comprimento embalado num saco azul. Escondido dentro de um dos tubos do equipamento estava o motivo de sua viagem: 29 sacos plásticos pretos com 15 quilos de cocaína peruana pura, que renderiam a ele e a dois sócios a quantia de 2,7 milhões de dólares. A prática de voo livre era apenas uma desculpa para entrar no país.

Tal como havia feito tantas outras vezes ao desembarcar naquele aeroporto, o brasileiro, então com 42 anos, ainda na área das esteiras, deixou as malas com um dos carregadores que ofereciam seu trabalho aos turistas e caminhou rumo à saída para a inspeção da bagagem. Ele pretendia dormir em um hotel perto do aeroporto e embarcar na manhã seguinte num voo para Bali, a cerca de mil quilômetros, ilha de praias de areia branca e ondas imensas que atrai todo ano milhares de surfistas e casais em lua de mel.

A fiscalização da alfândega, que Marco julgava relapsa, era seu último obstáculo antes de deixar o aeroporto. Ele estava bem próximo de ultrapassá-lo quando o fiscal o chamou. Fingiu não ter ouvido e seguiu em frente, mas o carregador o interceptou e deu o aviso: o fiscal havia mandado colocar a asa-delta no raio X. Curumim obedeceu. A asa estava desmontada, o que reduzia seu tamanho à metade. Os policiais olharam atentamente os tubos do equipamento. No raio X, um desses tubos aparecia mais escuro que os demais.

Apa ini?” [O que é isso?], quis saber o oficial. Com sua fluência em bahasa indonésio, adquirida em sucessivas viagens ao arquipélago, o brasileiro explicou que o tubo escuro era de fibra de carbono, enquanto os outros eram de alumínio, daí a diferença na coloração.

O policial permaneceu em silêncio por alguns instantes, mas ficou intrigado com o nervosismo de Marco. Fez sinal para um colega. Logo veio outro, e a seguir mais outro. Agora eram quatro policiais a inspecionar a asa. Um deles sacou um canivete suíço do bolso e bateu no tubo escuro em dois lugares. De um ponto, o som que se ouviu era de coisa oca; de outro, saiu um som diferente do primeiro.

Os policiais desconfiaram de que havia algo na asa. “Boss, dimana paspor?” [Chefe, onde está seu passaporte?], perguntou um deles. Os tubos seriam abertos para que verificassem o que havia ali dentro. “Tunggu sebentar” [Espere um pouco], respondeu o brasileiro.

 

Começou então o “sofrimento” de Marco, como ele próprio definiria mais tarde. O brasileiro precisava ganhar tempo. Olhou para os policiais e fez sinal de que o passaporte estava numa das malas e que iria buscá-lo. Era mentira: estava em seu bolso. Marco sabia exatamente o que o esperava, caso fosse preso: traficantes são punidos com a morte por fuzilamento, em campo aberto e isolado, a que poucos têm acesso.

Enquanto caminhava, o brasileiro observava três dos policiais que saíam em busca de ferramentas para abrir os tubos. Apenas um deles ficou para vigiá-lo e, por um segundo, o homem lhe deu as costas. Chegara a hora. Ele olhou para os lados e começou a andar em rápidas passadas. Sem que o policial percebesse, tomou a decisão mais ousada e improvável: fugir.

A fuga seria penosa, mas nem lhe passou pela cabeça desistir. Ele teria de fazer um grande esforço para andar rápido, pois não conseguia correr. Em 1997, sofrera um acidente de parapente que quase lhe custara a vida: minutos depois de decolar, despencou de um penhasco de 30 metros de altura em Bali e, na queda, quebrou as pernas, a bacia, rompeu o intestino e, pior, ficou manco para sempre.

Marco estava no Terminal 2 do aeroporto, que centraliza o embarque e o desembarque de passageiros dos voos internacionais e onde atua a Garuda Indonesia, a maior companhia aérea do país. A chegada simultânea de dois voos da Garuda deixou o pavilhão apinhado de gente, e o brasileiro aproveitou o tumulto para se misturar à multidão. “Misturar” talvez não seja a melhor expressão. Branco, olhos castanhos, cabelos pretos com fios grisalhos, 1,80 metro de altura e 82 quilos, Marco não se parecia nem um pouco com um cidadão indonésio médio, que tem a pele moreno-escura, quase negra, e os olhos puxados característicos dos asiáticos.

Fugir do país foi o primeiro plano que lhe ocorreu. Ele decidiu voltar a Amsterdã no mesmo avião que o trouxera havia pouco à Indonésia. Estava no térreo do aeroporto e precisava alcançar o 1º andar para tanto. Em meio a dezenas de guardas, que ainda não sabiam que aquele homem era um fugitivo, ele passou incólume.

No balcão da companhia aérea holandesa KLM, Marco se apresentou como um passageiro apressado que queria comprar uma passagem para a Holanda com as milhas acumuladas durante anos no trecho Rio–Amsterdã–Jacarta. A atendente explicou que não havia tempo para emitir o bilhete.

O brasileiro só tinha uma saída: precisaria fugir por terra.

Atravessando o saguão, ele alcançou a rua, por onde passavam sem parar os ojeks, guiados por mototaxistas conhecidos pela velocidade e imprudência com que rasgam as vias de Jacarta. Fez sinal para o primeiro que viu e pediu que fosse até outro terminal de passageiros. Ali, trocou o ojek por um táxi e seguiu rumo ao Centro da cidade, cujo trânsito está entre os piores da Ásia – seus habituais congestionamentos fazem os de São Paulo parecerem reles engarrafamentos de uma cidade do interior.

Marco revirou o bolso e conferiu a quantia de dinheiro que tinha: 1 milhão de rúpias (à época, quase 120 dólares), o que lhe permitiria, no máximo, passar dois dias em um hotel barato. O cenário que tinha à frente era terrível: não bastasse ter pouco dinheiro, estava num lugar que desconhecia completamente. Na Indonésia, sua base sempre fora Bali. Apesar das várias viagens ao país, de Jacarta ele só conhecia o aeroporto.

 

Enquanto Marco seguia em sua escapada, os oficiais finalmente conseguiram abrir os tubos da asa – e acharam a droga. O alerta policial se espalhou pelo aeroporto; as portas do local foram fechadas, os banheiros, vasculhados, e os portões de embarque ficaram sob vigilância redobrada. Ao verem o pó branco escondido na asa-delta, os policiais pensaram se tratar de heroína, e não de cocaína, como mais tarde revelaria um teste químico. A apreensão foi, até hoje, um recorde no país: 13,4 quilos – 1,6 quilo a menos do que o brasileiro pensava estar carregando. Na fuga, ele deixou uma série de rastros: as sete malas que levava, uma agenda e um book preparado para mostrar suas façanhas com asa-delta a quem perguntasse, inclusive oficiais da alfândega. Com tantas informações, a polícia rapidamente traçou a ficha do fugitivo.

O táxi com o brasileiro se aproximou do Hotel Sentral, no centro empresarial de Jacarta. A frente do prédio estava repleta de agentes de segurança, mas ninguém ali procurava por traficantes; estavam todos preocupados com a temida ação terrorista.

Marco desistiu de ficar no hotel. Pediu ao taxista que seguisse para um shopping center, que também estava superpoliciado. Ali, comprou um boné Nike e uma camiseta para usar como disfarce. Boné enterrado na cabeça, caminhou na direção de um hotel duas estrelas, barato e discreto. Na recepção, ao lhe pedirem o passaporte, inventou que o documento estava com sua namorada e que ela logo chegaria ao hotel. Perguntou se não poderia esperá-la no quarto. “No problem, boss” [“Sem problema, chefe”], respondeu o recepcionista.

No quarto, Marco acendeu um cigarro de maconha que trouxera escondido de Amsterdã e tomou uma cerveja Bintang gelada para aplacar a sensação de abafamento causada pelo calor característico da Indonésia, onde os termômetros superam os 30 graus todos os meses do ano. A adrenalina começou, enfim, a baixar, e ele lembrou que precisava avisar os dois sócios na empreitada de tráfico de cocaína que o esquema, daquela vez, havia naufragado.

De um telefone público perto do hotel, ligou para Carlos (nome fictício), sócio italiano e patrocinador dos 8 mil dólares com que Marco havia comprado a cocaína no Peru. Contou o episódio do aeroporto, mas o comparsa não acreditou; achou que estivesse sendo vítima de um golpe. Marco sabia o significado de traição no tráfico de drogas. Agora, eram duas as suas preocupações: fugir da polícia e esclarecer ao sócio o que havia acontecido. Nos dois casos, estava cercado pela morte. Os almejados 2,7 milhões de dólares nunca existiriam; o que lhe restava eram as poucas rúpias que carregava no bolso.

Carlos estava em Bali, e era para lá que Marco decidira ir. Voltou ao hotel e tentou dormir um pouco, em vão. A madrugada avançou e, insone, ele planejou a nova fuga.

Às seis da manhã, trocou de roupa, colocou o boné e foi tomar o café em outro hotel, um suntuoso cinco estrelas em frente ao lugar onde havia pernoitado. A refeição, farta, cobrou seu preço: 100 mil rúpias. Com pouco mais de 600 mil rúpias, Marco não podia comprar uma passagem de avião para Bali. E, ainda que pudesse, não seria aconselhável: os voos saem do mesmo aeroporto onde fora flagrado com a droga. Pela manhã, sua foto já era exibida em emissoras de tevê do país inteiro – e o governo cobrava explicações dos policiais do aeroporto.

Na recepção do hotel cinco estrelas, o brasileiro solicitou ajuda para ir a Bali de ônibus. A recepcionista estranhou o pedido, pois a maioria dos turistas preferia ir de avião, já que a viagem não custava tanto (115 dólares) e era mais rápida (uma hora e 45 minutos). De ônibus, embora a passagem custasse menos de 40 dólares, a viagem podia levar mais de trinta horas. “Quero ver a paisagem”, justificou Marco.

Na rodoviária, ele comprou a passagem e se dirigiu à plataforma de embarque. O motorista pediu seu passaporte, procedimento de praxe nas viagens de estrangeiros. O documento estava no bolso, mas o brasileiro, para não se expor, subornou o motorista com 50 mil rúpias (cerca de 6 dólares). Embarque liberado.

 

A viagem de ônibus para Bali foi aterrorizante, não apenas por causa do medo de ser pego, mas também pela imprudência dos motoristas e pelo elevado risco de acidentes. Países como Estados Unidos e Canadá até desaconselham que turistas trafeguem pelas estradas da Indonésia. As rodovias têm, na maior parte dos trechos, mão simples. Em muitas delas, contudo, dirigir em alta velocidade é comum, assim como conduzir pela contramão. Muito acelerado, o ônibus usava a buzina e o farol alto para ultrapassar os carros. Marco se assustou com a negligência do motorista na estrada que serpenteava em meio aos campos de arroz. “O motorista do ônibus era um assassino, um criminoso. Esqueci até do meu problema com a fiscalização, nem lembrava mais de aeroporto, fuga…”, escreveria ele mais tarde, numa carta endereçada a amigos.

Um dia e meio de viagem depois, o ônibus entrou em Denpassar, capital da ilha e província de Bali. O brasileiro suspeitou, com razão, que no terminal rodoviário, assim como no aeroporto local, policiais deveriam estar a sua espreita. Ele então ofereceu mais 50 mil rúpias ao motorista para deixá-lo descer do ônibus 2 quilômetros antes da rodoviária. Mais uma vez, conseguiu escapar.

Marco pegou um táxi e foi ao encontro de seus sócios no negócio da droga. Além de ter de explicar o que havia acontecido, precisava de dinheiro para continuar a fuga. Desceu no La Lucciola, um restaurante na praia de Seminyak, a 8 quilômetros do Centro da ilha. Era um típico local balinês, com sua construção de bambu e palha e garçons de songkok – o chapéu em forma de cone – e sarongue. Do restaurante, ligou para Carlos. Em seguida, pediu uma taça de vinho tinto e esperou.

O italiano chegou ao La Lucciola acompanhado de dois brasileiros: Pedro (nome fictício), o outro sócio no negócio, e George (nome fictício), traficante que não participava da empreitada. O fugitivo contou a eles tudo o que havia ocorrido: o flagrante no aeroporto, a escapada, a noite maldormida em Jacarta e a viagem perigosa de ônibus. Carlos, porém, continuava incrédulo. Ele achava que tudo não passava de um golpe de Marco para esconder a droga e revendê-la, sem dividir o dinheiro. O fugitivo, então, tirou do bolso um jornal amassado. “Smuggler flees, but leaves drugs behind” [Traficante foge, mas deixa drogas para trás], dizia uma das chamadas da primeira página do diário The Jakarta Post, o principal jornal em língua inglesa da Indonésia, na edição daquela segunda-feira, 4 de agosto de 2003. Na reportagem, apareceu o nome, ainda que incompleto, do procurado: Marco Archer Cardoso.

Carlos e George deixaram o La Lucciola e levaram consigo o passaporte de Marco, a pedido do próprio brasileiro, que temia ser parado em alguma blitz e ter sua identidade descoberta. Marco Archer Cardoso Moreira deixava de existir. Seu novo nome, inventado ali mesmo e inspirado em uma conhecida marca de cerveja, era John Miller, norte-americano da Califórnia, de origem mexicana.

 

O ataque que a polícia da Indonésia tanto temia e a levara a ocupar Jacarta maciçamente acabou ocorrendo três dias depois da chegada de Marco ao país. Em 5 de agosto, um carro-bomba explodiu o hotel Marriott, no sul da capital, matando doze pessoas e ferindo 147. O governo atribuiu a ação à Jemaah Islamiyah, a mesma organização que já havia sido apontada como responsável pelo maior atentado da história do país: a explosão em 2002, também por um carro-bomba, de uma casa noturna em Bali. Foram mortas 202 pessoas, na maioria jovens estrangeiros. Os dois ataques tinham em comum o objetivo de matar turistas ocidentais na Indonésia – um modo de chamar a atenção do planeta inteiro.

Formada nos anos 80, a Jemaah Islamiyah defende a adoção de um Estado islâmico “puro” no Sudeste Asiático, em especial na Indonésia, a maior nação muçulmana do mundo – 86% de sua população são seguidores da religião. Por causa das ações violentas, a organização passou a ser classificada como terrorista pelo governo dos Estados Unidos; nos últimos anos, no entanto, se enfraqueceu após a prisão de líderes, entre eles Umar Patek, condenado a vinte anos de reclusão em 2012 justamente por comandar o ataque à danceteria de Bali.

O atentado terrorista desviou o brasileiro da atenção da polícia. O sócio Pedro o escondeu em um pequeno hotel de Sanur, praia na costa sul de Bali. Na tevê, Marco viu fotos suas serem exibidas com o epíteto “procurado”. Fugitivo da polícia, traficante de drogas, ameaçado com a possibilidade da pena de morte, ele, porém, resolveu deixar o esconderijo para tomar outro farto café da manhã, dessa vez no Inna Grand Bali Beach Hotel, um resort luxuoso ao lado de onde se instalou.

Disfarçado com o boné e o novo nome, tomou um café “de Renato Villar”, como ele descreveria meses depois, em alusão ao personagem milionário de Tarcísio Meira na novela Roda de Fogo, sucesso nos anos 80. Eis a vida que Marco gostaria de ter: igual à das novelas. Quando a garçonete se distraiu, ele escapou do resort sem pagar a conta.

“Curuma, fodeu.” Foi assim que Pedro o abordou no lobby do Grand Bali com o The Jakarta Post de 6 de agosto. “Policiais culpam equipamento por falha na prisão de brasileiro.” Era uma referência ao raio X, que teria sido incapaz de detectar a droga que Marco levava. A polícia continuava atrás dele. A reportagem chamava a atenção para aquilo que o brasileiro preferia não saber: uma vez preso, estaria sujeito à pena de morte. Ele precisava planejar, o quanto antes, sua fuga do país.

Comprou um celular pré-pago para fazer contato com os amigos. Ligou para brasileiros que viviam em Bali, mas ninguém quis saber dele por perto. A Pedro, o único que continuava a seu lado, pediu dinheiro emprestado e informações sobre as buscas da polícia. O amigo conseguiu 3 mil dólares. Juntos, com pranchas, comida, medicamentos e bebida, os dois embarcaram para Nusa Lembongan, ilha que fica a uma hora e meia de barco de Bali. Foram acompanhados de Ronny, um guia balinês, a quem Marco se identificou como John Miller. Ao chegarem à ilha, alugaram um bangalô.

Com apenas 8 quilômetros quadrados, Nusa Lembongan é um dos paraísos do surfe da Indonésia. Pedro aproveitou para pegar onda, enquanto Marco, sempre disfarçado, tirava foto das praias. Desde o acidente de parapente, ele nunca mais tinha surfado. Quando alguém perguntava a eles o que faziam na Indonésia, respondiam que eram surfistas. Enquanto esperavam novas notícias de Bali, regalaram-se com a alimentação farta de lagostas, acompanhada de muita cerveja e vinho branco. À noite, aproveitaram para conhecer bares e casas noturnas e para cheirar cocaína, providenciada com a ajuda de contatos locais.

 

Quatro dias se passaram, e Marco/John Miller elaborou um novo plano de fuga. Decidiu aproveitar-se da geografia singular do país – um emaranhado de ilhas entre os oceanos Índico e Pacífico – para escapar da polícia. Seu objetivo era, saltando de ilha em ilha, rumo ao sul, alcançar o Timor Leste, nação que até 2002 era colônia da Indonésia e, mais importante, onde o português é língua corrente. Só que o Timor Leste ficava a cerca de mil quilômetros de distância de onde Marco estava. Para chegar até lá, precisaria atravessar as ilhas de Lombok, Sumbawa e Sumba, em uma escapada que deveria durar algumas semanas.

Ele chegou a Lombok, outro destino habitual de surfistas. Refugiou-se em Desert Point, um remoto vilarejo de pescadores no sudoeste da ilha, enquanto Pedro foi a Bali, a fim de conseguir mais dinheiro.

“Marco, a polícia quer te matar”, disse um amigo brasileiro por celular.

Os guardas queriam se vingar da vergonha que ele os fizera passar no aeroporto. O mesmo amigo lhe deu outra má notícia: George, um dos brasileiros presentes à reunião no La Lucciola, havia queimado o passaporte de Marco para que não houvesse rastros de ligação entre os dois.

Em 14 de agosto, Marco seguiu para Sumbawa, onde se hospedou num camping de surfistas em Scar Reef, um point de surfe conhecido pelos “tubos”, manobra em que o surfista corta a onda por dentro. Amigos lhe contaram que a polícia já havia passado por ali e também por Desert Point, e descobrira, graças às fotografias que o brasileiro havia deixado no aeroporto e aos interrogatórios com pescadores e donos de hotel, que John Miller e Marco Archer eram a mesma pessoa. Quando Pedro retornou de Bali com o dinheiro para Marco – 100 dólares –, eles decidiram se separar: seria arriscado demais para o sócio permanecer ao lado do fugitivo.

Amigos orientaram Marco a se esconder por alguns dias, antes de continuar a viagem, para despistar os policiais. Um italiano, conhecido seu, o convenceu a ir para a ilha de Moyo, a algumas horas de barco de Sumbawa, lugar de pequenas pousadas e suficientemente inóspito para se esconder e aguardar até que a caçada dos policiais fosse interrompida.

No início da tarde de 15 de agosto, Marco embarcou numa velha traineira, sem luz de bordo e comandada por um “indonésio fodido”, em suas palavras. A viagem lhe custou 300 mil rúpias (aproximadamente 35 dólares). No bolso, restavam pouco mais de 500 mil rúpias (quase 60 dólares). Fazia catorze dias que o brasileiro estava em fuga. Suas duas únicas mudas de roupa estavam imundas. Ele não tinha a menor perspectiva de obter mais dinheiro.

A viagem durou cinco horas. Já estava escuro quando o barco atracou na marina da ilha. Marco esperava encontrar em Moyo alguma hospedaria simples, mas foi recepcionado por seguranças uniformizados do único estabelecimento do lugar, o Amanwana, um superluxuoso resort cinco estrelas com vinte bangalôs de frente para o Índico ou encravados na floresta, além de um aeroporto particular. Ali, a diária mais barata custava à época 700 dólares. O italiano tinha dado uma dica furada.

Em inglês, Marco se apresentou ao gerente do resort como um turista norte-americano que havia se perdido da mulher. Sem cobrar nada, mas um tanto desconfiado, o gerente propôs que ele passasse a noite na cabana dos funcionários, para, na manhã seguinte, retornar a Sumbawa, e lhe ofereceu, de cortesia, uma pequena refeição de nasi goreng, composta de arroz frito com curry, camarão e frango, acompanhada de cerveja. Marco acertou sua partida para as seis da manhã em um pequeno barco.

 

O sol mal acabava de clarear a ilha de Moyo naquele sábado, 16 de agosto, quando Marco deixou o dormitório dos funcionários do Amanwana e seguiu em direção à marina do resort. Ao longe, avistou dois barcos se aproximando, com homens de uniforme preto. Era a polícia, fortemente armada. Já não havia como fugir. Em um dos barcos estavam o dono da embarcação que o trouxera a Moyo, e Ronny, o guia balinês, ambos algemados.

Os policiais desembarcaram empunhando metralhadoras e cercaram o brasileiro, chamando-o pelo nome de batismo: “Marcô”, na pronúncia local. Aproximaram-se dele, conferiram seu rosto grande e retangular com as fotografias de que dispunham e repararam no andar manco. A fim de obter uma prova definitiva da identidade do fugitivo, pediram que ele desabotoasse a camisa e mostrasse as cicatrizes que trazia no peito. Só a cor do cabelo havia mudado: o preto dera lugar a um loiro tingido, disfarce que ele tinha arrumado dias antes.

Foram os últimos momentos de liberdade do brasileiro.

“Pegamos você”, anunciou um dos policiais.

Marco se rendeu, mas percebeu que os policiais não queriam apenas prendê-lo. Em inglês, um oficial explicou que, por ele ter desonrado a autoridade do país ao fugir do aeroporto, tinha ordens para dar um tiro em cada um de seus pés. A prática da polícia local de atirar nos pés a curta distância foi denunciada mais tarde, em depoimentos de dois detentos citados em um relatório de 2007 do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU).

Marco implorou que não atirassem, falou do acidente que tivera, mostrou o corpo cheio de cicatrizes, disse ser doente e, por fim, abraçou o oficial. A ação da polícia na praia e os apelos do brasileiro despertaram os hóspedes do hotel e chamaram a atenção de funcionários, que assistiam a tudo. Com tantas testemunhas, os policiais desistiram da punição. Um deles amarrou o fugitivo pelos braços e pernas e o colocou no barco. Feito o trabalho, eles celebraram a captura.

Era o fim de catorze dias de perseguição. Marco estava preso em um país muçulmano no qual governo e população veem os traficantes de drogas como uma das piores ameaças às futuras gerações.

Ricardo Gallo

Ricardo Gallo é repórter do caderno Cotidiano da Folha de S.Paulo e coautor de DNA Paulistano, da PubliFolha. Autor do livro Condenado à Morte – A História do Primeiro Brasileiro a Receber a Pena Capital e Ser Executado na Indonésia, lançado pela editora Três Estrelas.

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