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A vulgaridade silenciosa, invisível

Detestaria ter uma família onde só houvesse gente estupidamente sã, insuportavelmente feliz
Ana Cássia Rebelo
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ILUSTRAÇÃO: A GAVETA DE MEMÓRIAS_CAIO BORGES_2016

SEXTA-FEIRA

Os mais novos estão com o pai. Não sei por onde anda o mais velho. Arrumei a casa ao som das Variações Goldberg. Desde que a Graça deixou de vir (não tenho como pagar-lhe o ordenado), a casa enche-se de lixo. Vejo sujeira em toda parte, manchas nos tapetes, bolas de poeira nos cantos, sarro nas louças sanitárias, gordura nos azulejos, pó nos livros, nódoas nas colchas, e assusto-me. A sujeira é um sinal do meu desnorte. Detesto sujeira. Consegui limpar os quartos, os banheiros e a cozinha a tempo de, durante a 22ª variação, a minha preferida, parar para fumar um cigarro. Escrevi um pequeno texto baseado na viúva Fidélia do Machado de Assis e saí para comprar o jantar: um pacote de batatas fritas, dois pãezinhos e uma garrafa pequena de vinho branco. Voltei a casa. Troquei as Variações Goldberg por Stabat Mater de Pergolesi. Abri um pãozinho, que recheei de batatas fritas, e enchi um copo de vinho morno. Senti-me imediatamente cheia de paz. Talvez Deus me habite. O gato veio roçar-se nas minhas pernas. Peguei-o ao colo e sussurrei “amorzinho querido”, exatamente como fazia aos meus filhos quando eram pequenos.

 

CRUZAMENTO

No bairro do Armador, no cruzamento em frente ao posto da Repsol, por volta das oito da manhã, costuma estar um homem a anotar as placas dos carros que por ali passam. O homem, velho e muito preto, usa botas de cordões desapertados e, esteja frio ou calor, veste sempre um casaco com capuz e forro. A pele do rosto é lustrosa e, de tantas horas ali vividas, imagino um cheiro de suor, urina, sujeira. Estou tão habituada a passar todos os dias pelo velho das placas que já pouca atenção lhe dou. A loucura só impressiona a início. Com o tempo, uma pessoa habitua-se a tudo, à violência, também à loucura. O louco da rua Júlio Dinis também já não me causa estranheza. O pobre, escanzelado, muito sujo, de longas barbas imundas, é conhecido de toda a gente. A dona do café prepara-lhe o almoço. O magrinho que trabalha na farmácia e a judia da joalharia arranjam-lhe cigarros. O sapateiro, se o encontra mais sereno, fala-lhe de futebol. O bilheteiro brâmane, homem de muita prudência, recomenda-lhe calma. O louco fala sozinho, anda ziguezagueante, delira. Muitas vezes, grita com violência, mas quem ali vive ou trabalha, no cruzamento da Júlio Dinis com a 5 de Outubro, trata-o com indiferença. Às vezes, lá de vez em quando, aparece um turista mais impressionável. Vendo o louco passar aos gritos, o turista para de caminhar e, paralisado, fica a olhar para ele como se dissesse: “Olha, vai ali um louco!” Sempre que isso acontece, nós – eu, a judia da joalharia, a dona do café, o magrinho da farmácia, o bilheteiro brâmane – paramos também. Não para olhar o nosso louco, mas para olhar o turista. É a reação do turista, espantado, amedrontado, mexendo nervosamente nos bolsos secretos da sua fantástica mochila, que estranhamos.

 

AMENDOIM

Deixei o último romance da Elena Ferrante pela metade. De repente, sem perceber muito bem a razão, não tive mais interesse na história de Lina e Lenuccia. Passou um mês. Desde então, para além de um pequenino livro do Amós Oz sobre fanatismo (“Tornei-me escritor por causa da pobreza, da solidão e dos sorvetes”) e de alguns poemas de Álvaro de Campos, lidos na vã tentativa de os explicar ao meu filho João, não li nada. Mesmo nada. É como se uma bruxa me tivesse lançado um feitiço. Sinto um vazio, um vazio que me paralisa e estupidifica, mas que não consigo contrariar. Em vez de ler, vejo televisão: novelas, concursos e programas de culinária. Vejo também alguma pornografia, sem grande entusiasmo, mais por desfastio do que propriamente por necessidade. Ontem, pensando neste longo período de desintoxicação literária, enquanto experimentava uma receita que aprendi na televisão – barras de chocolate amargo com amendoim salgado –, entendi finalmente como posso livrar-me do vazio, desta incompreensível e absoluta desnecessidade de ler.

 

 

KAMIKAZE

O problema, como lhes costumo dizer, é deles, não meu. Não tenho compromissos, sou livre como uma borboletinha. Não traio ninguém. Três homens casados, mas muito diferentes. Conheço o Alexandre há dez anos, encontramo-nos em quartos de hotel quando nos apetece. Os nossos corpos conhecem-se de outras vidas, encaixamos perfeitamente, tocamo-nos como bichos, sem filtros, sem inibições. Ele sabe o que me dá prazer. Sei o que lhe dá prazer. Gosta, por exemplo, que lhe lamba os testículos. Nunca me fala da mulher ou dos filhos. A última vez que estivemos juntos explicou-me o que era uma didascália e, depois de me beijar as mamas, disse que eu era uma mulher-kamikaze. É o amante perfeito. Não trocamos mensagens, não falamos ao telefone, não nos encontramos para almoçar. O segundo amante, recente, novato, é muito diferente. Encontrei-o por acaso na fila do pão. Bonito e escultural, mas um pouco parvo. Empolga-se, diz que os meus olhos castanhos são lindos e que a minha boca tem a cor das framboesas maduras. Que tédio, que miserável tédio! Chama-se Miguel e acho que o vou deixar. Fala-me de amor, um amor aborrecido e previsível, mas depois, pobre coitado, partilha comigo histórias sobre a mulher e as duas filhas. Na semana passada, depois de me oferecer um livrinho de merda que naturalmente não lerei, disse que a mulher, empregada bancária, é a rocha que sustenta a sua vida. Não vou para a cama com um homem para o ouvir falar da sua mulher. O terceiro homem casado com quem me deito é o homem que amo. Um homem inteligente, bonito, o mais bonito do mundo, não há homem igual, mas pelo qual não tenho qualquer tipo de entusiasmo sexual. Deito-me com esse homem quando ele quer, sou dissimulada, detestável, finjo orgasmos, simplesmente porque preciso senti-lo perto de mim.

 

GOLDMONEXX

Não tenho dinheiro para me aguentar até o final do mês. Enquanto não chega o cartão de crédito que pedi, fui à Gold-Monexx, na Amadora, penhorar 2 libras de ouro e a salva de prata que um tio do meu ex-marido nos ofereceu quando casamos. Esperava encontrar atrás do guichê de vidro, de nariz adunco, olhos malvados, uma velha parecida à que atormentava Raskólnikov. Imaginei a velha, má, cínica, diabólica, ali, na GoldMonexx da Amadora, a esfregar as mãos de contente quando me visse entrar, pobre mãe de família, envergonhada dos seus apertos. Quando dei de cara com um homem de meia-idade, cabelo branco e ralo, feições regulares, vestido com um simples pulôver preto, senti alguma desilusão. Novamente me dei conta de que a literatura deturpa – e de que maneira! – a realidade. Na vida real nem os agiotas têm ar de agiotas. Apesar do aspecto desinteressante, da ausência de fibra literária, o homem foi amável e eficiente. Fez-me assinar um papel e, sem conversa, passou-me um rolinho de notas que me apressei a enfiar no compartimento invisível da bolsa.

Apanhei o trem de volta para Lisboa. No vagão quase vazio, vendo os subúrbios passar, pensando no bilhetinho que à noite escreveria ao Joaquim, senti-me tranquila, em paz, liberta de preocupações. Assumir a minha miséria afinal não custou nada. É só dinheiro. Depois de anos sombrios, de tão pesada angústia, acho que sou finalmente feliz. É um sentimento estranho. Não estou habituada a sentir-me assim. No próximo mês, precisando, vendo as pulseirinhas, as correntinhas, os crucifixos que as tias do meu ex-marido ofereceram quando os miúdos nasceram. “Cristo salva!”, costumavam dizer as tias nos seus conciliábulos. Cristo salvar-me-á: não na cruz, mas na pequena balança digital do homem da GoldMonexx.

 

NERVOS À FLOR DA PELE

Comem as papaias, as mangas, as vagens do tamarindo, também os frutos das pequenas árvores que o tio Filipinho plantou junto do muro rendilhado. Roubam as aparas de coco que secam ao sol. Às vezes, anda a Juanita a estender roupa, aparecem de surpresa e, atrevidos, talvez imitando gestos observados nos homens da aldeia, levantam-lhe a saia do sári. Gritam permanentemente. Quando o fazem, mostram dentes raiados de castanho e as altas gengivas muito cor-de-rosa. Durante a tarde, em vez de procurarem uma sombra, juntam-se em cima do telhado, grupos de quatro ou cinco, e, como se fossem gente, falam animadamente. O Moreno e a Michelle, que vivem no apartamento do 1º andar, andam com os nervos à flor da pele. Queixam-se que não conseguem dormir a sesta. Pediram por isso à tia Maria que, no piso térreo, mandasse preparar o quarto que era do tio Babai. Um quarto amplo, junto da cozinha, habitado por Cristos padecentes e Nossas Senhoras de olhar triste. Já o meu pai, na cidade grande, cansado dos trabalhos nas repartições públicas, dorme sossegado. Liga o ventilador, deita-se, fecha os olhos. Conta que, apesar da distância, consegue sentir o cheiro da minha mãe. Concentrado nesse doce cheiro, o cheiro da minha mãe, rapidamente adormece. Não escuta a alegria dos macacos que desceram da montanha e invadiram a aldeia em Goa.

 

RENDA PRETA

O Miguel vem a Lisboa na próxima semana. Mandou-me um e-mail a dizer que gostava de almoçar comigo. Não ando com cabeça para almoços, mas estou disponível para encontrar-me com ele, ao final do dia, num hotel ou numa pensão limpinha. Não me deito com um homem há muito tempo. E preciso. Avisei-o que, se aceitar o meu convite, terá de ser ele a pagar o quarto. Nos últimos meses, por causa do material da escola, dos aniversários dos rapazes, das múltiplas inscrições em atividades extracurriculares, das vacinas para o gato, do conserto do carro, tenho pouco dinheiro. O meu amigo ainda não me respondeu, mas eu já fui adiantando o serviço: tirei o buço, os pelos das pernas, das axilas e das virilhas. Os meus ombros estão dourados do sol. Decidi que, se nos encontrarmos, usarei a calcinha de renda preta que comprei para ir a um festival literário. Imaginava que, à semelhança do que acontece lá fora, os festivais literários portugueses eram locais de animado convívio. A Mila chegou a dizer-me que alguns, mais ao norte, eram mesmo uma pouca-vergonha de fornicação e bebedeiras. Acreditei no que a minha querida amiga me disse e, ingênua, fui na expectativa, não só de escutar poetas, escritores, editores, jornalistas do ramo, mas também de, a um ou outro, mostrar a minha calcinha de renda preta. Ouvi intervenções interessantes, passei a admirar ainda mais certos escritores (e a detestar outros ao ponto da náusea e da regurgitação), conheci homens inteligentes, amáveis, sedutores, mas sexo que é bom e faz tão bem à saúde, nem vê-lo. A desilusão que apanhei foi de tal ordem que, na volta, meti a calcinha de renda preta no fundo da gaveta e jurei não voltar a um festival literário. Nunca mais tornei a usá-la. Na próxima semana, se Deus-Nosso-Senhor quiser, volto a dar-lhe uso. Quando me despir para o Miguel, quando desapertar lentamente os botões da calça, a calcinha de renda preta cumprirá finalmente o seu destino: será mostrada a um escritor.

 

DUAS GEMAS

Passou a costureira brasileira a caminho da igreja. Parada no semáforo do cruzamento, os sapatos novos a morderem-me os pés, fiquei a vê-la. Sexualidade é diferente de genitalidade. Protágoras era sofista. A maiêutica é uma etapa fundamental do método socrático. Ler no tempo certo, não agora que finalmente envelheço e sou bastante tola. Tenho 43 anos. Se vivesse nas margens do Limpopo, onde não se conhece o parto sem dor, já seria avó. Como biscoitos de arroz e, se cruzo com um homem elegante, respiro superficialmente, como um peixe à tona de água, para disfarçar a flacidez abdominal. Às vezes, endoideço e desejo ser amada. Outras vezes, acho que o amor é um sentimento vulgar, que apenas humilha: vive-se melhor sem amor. “Abraça-me com toda a força que tiveres”, pedia ao Reinaldo e ele cumpria o meu desejo. Estrangulava-me. As minhas faces explodiam, violáceas, sentia o peito esmagado, escutava os ossos estalar. “Continua, não pares!”, ordenava. À beira do precipício, prestes a desfalecer, sossegava quando pressentia o vazio definitivo. À noite, enquanto faço o jantar, encontro tesouros extraordinários: ovos com duas gemas, uma lesma na alface, caruncho no arroz, manchas de bolor nos cogumelos. Fico a olhar as gemas sem saber muito bem o que fazer, paralisada por pensamentos absurdos. Tenho uma casa, um carro para passear no fim de semana, um ordenado que paga as contas. Os meus filhos são bonitos e inteligentes. O gato é meiguinho, cheira a pó e sabe escutar. Levo-o para a cama e – exatamente nesta ordem – leio-lhe um poema, uma carta e um conto. Que mais posso querer? Não é bom? Não é tão bom? Não é esta a vida que a lucidez aconselha? Tenho tudo o que sempre desejei e mais ainda. Tenho à minha frente, num aborrecimento que comove, um ovo com duas gemas.

 

AMOR

No primeiro dia de aula a professora pediu que os meninos escrevessem um texto. O Joaquim escreveu assim: “Eu fui passear à chuva à tarde e não avia ninguém só um pescador que parecia mau mas era bom e mostrou-me dois peixes e ensinou-me tamam a pescar e disse que os peixes comen minhocas que fazem um casulo.” Fiquei impressionada com o texto. Mal os mais velhos entraram em casa, cansados dos treinos, imobilizei-os na entrada para que o escutassem. O João, rapaz pouco dado às letras, o sentido prático sempre a predominar, deu uma moeda ao irmão e prometeu que, cada vez que escrevesse um bom texto, lhe daria um euro. A Madalena, muito doce, a pele coberta de leite de magnésia, parou para libertar o cabelo de grampos e elásticos e depois deu-lhe um abraço apertadinho. À noite, como é costume, o Reinaldo telefonou para saber dos miúdos. Contei-lhe rapidamente as novidades e logo perguntei: “Queres que te leia a primeira composição que o nosso filho fez?” “Claro”, respondeu, e percebi que a revelação desse fato o emocionava. Fiz um esforço para que a voz saísse cristalina. Enquanto lia para o meu ex-marido, ao final do dia, na cozinha, o gato roçando as minhas pernas, senti-me serena, liberta, feliz por o Joaquim ter escolhido escrever sobre o primeiro dia de chuva, feliz pela alegria sincera dos irmãos mais velhos, feliz por, depois de tudo o que passamos, sabermos partilhar o amor pelos nossos filhos.

 

FITZROY ROAD

Na breve biografia que aparece na contracapa de um dos livros de Sylvia Plath, lê-se que ela, suicidando-se em casa, com gás, teve o cuidado de proteger os filhos (o suicídio, para além de poético, é um bom trunfo, ajuda a vender um autor). Sempre me causou estranheza tal preocupação. Há qualquer coisa que não bate. Por que Sylvia quis proteger os filhos se, com a sua morte, causou a maior violência das suas vidas? Uma mulher que pensa na morte, que a deseja, no delírio próprio dos suicidas, nessa embriaguez que embaraça assim que a lucidez volta, se os tem, pensa nos filhos. Sabe que não há nada mais devastador para um filho do que a revelação do desejo de morte da própria mãe. Como sobrevive uma criança a esse abandono? Quase sempre, para o bem e para o mal, a maternidade impõe-se e tolhe a liberdade da mulher. A mulher hesita, recua, culpabiliza-se.

Os filhos salvam e, ao mesmo tempo, condenam a mãe suicida. Por sua vez, a mãe suicida, quando decide ficar, salva e, ao mesmo tempo, condena os seus filhos. Pode passar o resto da vida a ensaiar sorrisos, a fingir alegria e normalidade, pode até tentar transformar-se noutra mulher, libertando-se da angústia, do aborrecimento, do desespero, mas dificilmente conseguirá esconder o desejo de fuga que um dia sentiu. Haverá um momento em que um olhar, uma frase, uma palavra, até um simples gesto, revelará a dimensão da sua loucura. Viva ou morta, a mãe suicida é o carrasco dos seus filhos. Faz-lhes mal vivendo, faz-lhes mal morrendo. Acho que uma mãe suicida nunca consegue proteger os seus filhos. É por isso que, por mais que reflita, não consigo entender a preocupação de Sylvia Plath. Na manhã de 11 de fevereiro de 1963, ela vedou completamente o quarto dos filhos com toalhas molhadas, deixou leite e pão doce perto de suas camas, abriu as janelas do quarto. Nevava nessa manhã de inverno. Fazia muito frio. Quando abriu a janela, Sylvia deve ter olhado por instantes a rua. Talvez tenha sentido o vento no rosto, nos cabelos, na curva do pescoço. Voltou para a cozinha, tomou vários comprimidos e deitou a cabeça sobre uma toalha no interior do forno, com o gás ligado.

CHEIRO

Há dois meses que eu e o meu pai pouco ou nada falamos. No domingo, porém, por causa do aniversário do João, há almoço de família. É a primeira vez que nos voltamos a sentar todos a uma mesa. Vou fazer feijoada. É barato, saboroso e dá pouco trabalho. Os miúdos mais pequenos vão odiar a minha escolha. Ralharão comigo, farão caretas engraçadas quando lhes disser qual é a comida. O Roberto e a Lurdes vão trazer o vinho, a Susana, as sobremesas. Espero que nesse dia a minha mãe não trema muito das mãos, que espante ou pelo menos finja espantar os seus próprios demônios, que os seus olhos se alegrem com as brincadeiras dos netos. Avisei a tia Dé que não se esquecesse de trazer uma travessa de feijões-verdes fritos e também os livros da Elena Ferrante que lhe emprestei. Ninguém faz rissoles e feijões fritos verdes como a tia Dé. Acabado o almoço, na altura do café, depois de os miúdos fugirem para o pátio, colocarei um cd do Charles Aznavour. Quando se começar a escutar o Il Faut Savoir, o Manuel Ricardo fechará os olhos, cantará baixinho a canção e lembrar-se-á da sua mãe. Sentirei então uma felicidade muito pura e autêntica por a minha irmã ter encontrado um homem assim.

O meu pai deixou de me falar por causa de um texto que escrevi: um texto duro, talvez desnecessariamente duro, mas no fundo apenas um texto escrito por uma filha que, por sentir nunca ter sido amada pelo pai, deseja sê-lo. Não deixa de ser estranho que um homem de 80 anos, bastante conservador, não se sinta incomodado quando a filha escreve sobre bebedeiras solitárias, pornografia, masturbação, orgasmos, fodas em quartos de hotel, e se ofenda quando essa mesma filha decide escrever sobre o amor (ou sobre a sua ausência). No domingo, quando o meu pai chegar, rosto fechado, o desprezo habitual tão evidente no olhar, cumprimentá-lo-ei como sempre faço. Beijá-lo-ei no rosto e farei uma festa nos seus cabelos crespos e ondulados. Nesse instante, quando os nossos corpos se aproximarem, aproveitarei para sentir o seu cheiro.

 

PASSINHO DE DANÇA

Jogamos futebol na cozinha enquanto ouvimos o Frank Sinatra. Baliza a baliza. O combinado é, antes de cada remate, cada um ensaiar um passinho de dança. O Joaquim joga bem e é um excelente dançarino. Fica o menino contente e eu também. Nos intervalos dos remates, danço agarrada ao meu filho, sinto-me feliz, e lembro o homem que amo. É um homem bonito. Parece que é feliz com uma mulher dez anos mais nova do que eu. Falava-me dos Cantos de Maldoror, de Lautréamont, e eu, tola, deslumbrada, amava-o mais e mais e mais. Antes de o conhecer não gostava do Frank Sinatra e agora gosto. O João nunca me amou e, no entanto, estupidamente, sinto que me deu tudo, que nenhum outro homem me poderá dar o que ele me deu. Puta que o pariu.

 

MÃOS

Todas as segundas-feiras, à hora do almoço, na quietude do escritório, quando apenas se escuta o ronco do ar-condicionado e, ao longe, por vezes, os passos pesados da Rosalina, pego na tesoura de papel e corto as unhas bem curtas. Recolho as que caem na mesa e meto-as no caixote do lixo. Fico depois a admirar as minhas mãos de dedos curtos, grossos, unhas de menina, limpas, com pequenas manchas brancas, sem saber o que fazer a seguir. Às vezes, tiro um livro da bolsa e leio. Outras vezes, como hoje, fico simplesmente paralisada, a olhar o azul do céu. Gosto muito das minhas mãos. Com mãos tudo se faz e se desfaz.

 

LIBIDO

Àquela altura, a revelação da verdadeira razão da vinda para Portugal da Maria de Lurdes caiu como uma bomba e cobriu de vergonha a minha família goesa. Passados alguns anos, a história está quase esquecida, ninguém fala do assunto. “Acabou por ter sorte, casou com um veterinário de Benaulim, tem um filho e uma filha, muito bonitos, quase brancos, mas continua completamente louca…”, explica o meu pai e, quando pronuncia a palavra “louca”, faz uma cara de nojo que acentua a sua fealdade. “Louca?”, pergunto-lhe, divertida com a conversa. O meu pai parece hesitar, olha fixamente Parvati, a segunda consorte de Shiva, enquanto calça os tênis que compramos há dois anos em Nova Delhi. “É tarada. Só pensa em sexo”, acaba por responder e explica os contornos da vergonhosa libido da sobrinha. Dotada de um desejo insaciável, uma fogosidade intensa, parece que a minha prima não dá descanso ao marido. O veterinário, de tanto lhe acudir, sente-se esgotado, tão esgotado que até já pediu ajuda ao Marlindo. O Marlindo, também meu primo, psiquiatra numa plataforma no mar de Dubai, receitou-lhe uns comprimidos e, beato, baboso, devoto, mandou-o rezar o terço logo de manhã. Nada fez efeito. “O marido da Maria de Lurdes nem parece o mesmo. Encontrei-o na festa da tia Maria e, de tão chupado, está irreconhecível”, remata o meu pai e, sem mais, sai para a sua caminhada. Corro atrás dele, custa-me acompanhar a sua acelerada passada. O meu pai é um velho mau e formidável. Ao lado dele, sou feliz; miserável, mas feliz. Caminho e, na noite que cai, sinto-me afortunada pela família que tenho. Há de tudo: ninfomaníacas, deprimidos, maníaco-depressivos, mitômanos e até um primo esquizofrênico. Assim é que é bom. Detestaria ter uma família onde só houvesse gente estupidamente sã, insuportavelmente feliz.

 

SUCO DE LARANJA

O psiquiatra diz que devo contrariar a solidão. Aconselha-me a estar com outras pessoas, conhecer outras pessoas, falar com outras pessoas. Inscrevi-me por isso num clube de leitura. É organizado por uma associação recreativa que funciona num palacete em Xabregas. Servem bolinhos secos de pacote, suco de laranja e chá preto. No primeiro encontro, foi hoje, falei com uma rapariga ruiva e uma outra, de grandes cachos, que se atrapalhou ao dizer o nome de um dos livros do Italo Calvino. A ruiva cheira a suor, tem os dedos dos pés gordos e encavalados, mas é simpática, ri bastante. A dos cachos nem por isso, parece uma monja, tem um ar pesado, circunspeto, próprio de quem considera a literatura um assunto sério, intocável, essencial. “Nunca deixo um livro pela metade”, disse com voz enfadonha quando lhe expliquei que cada vez tenho mais dificuldade em acabar uma história. Até dia 4 de julho tenho de ler O Baile, da Irène Némirovsky. Li-o há coisa de um ano, sei que gostei de o ler, e, no entanto, não me lembro da história, nem sequer de uma personagem, de uma frase ou de uma palavra. Pergunto-me: leio para quê?

 

FEIJÃO-FRADE

Faltam-me os dois últimos molares da arcada superior. Apodreceram há alguns anos e tive de os arrancar. A sua falta, não me desfeando o sorriso, dificulta a mastigação de certos alimentos. Para além de me faltarem esses dois dentes, aos 43 anos, já tenho um implante e uma coroa. Hoje, à hora do almoço, enquanto chupava uma casca de feijão-frade dos dentes, fui novamente assaltada pelo medo de ficar desdentada. É um medo relativamente recente. A Virginia Woolf aos 30 e poucos anos arrancou três dentes de uma assentada. Esse fato, chegado ao meu conhecimento através da leitura do seu diário, impressionou-me muito. Até então, sempre que a convocava aparecia-me pela frente uma rapariga vestida de branco, sorriso quase imperceptível, olhos plácidos, caídos para o chão, o cabelo escuro apanhado sem preocupação. É assim que Virginia aparece na sua fotografia mais famosa. Já não consigo imaginá-la assim, etérea, ausente, como um espectro. Se penso nela, e penso muitas vezes, vejo apenas um corpo doente, apodrecido. Uma mulher velha, enlouquecendo devagar, cada vez mais triste, cada vez mais feia.

 

AREAL

Quando o negro das pulseiras passa no areal, serpenteando entre guarda-sóis, à procura de freguesas que queiram uma fitinha da Nossa Senhora do Bonfim, deixa no ar um cheiro intenso de suor. A rapariga de cabelo oxigenado, o biquíni branco, muito cavado, enfiado no rego da bunda, faz uma careta de nojo e, com exagero, abana a mão em frente do rosto. O namorado, musculado e tatuado, ri numa hilaridade forçada, tão boçal que a argolinha que traz presa no mamilo esquerdo se solta e cai na areia da praia. Que aflição! Agora a rapariga do cabelo oxigenado anda ali, de bunda para o ar, à procura da argolinha de ouro. O namorado merece o esforço, não cheira a catinga, isso não, cheira a patchouli, a madeiras de sândalo, é tão bonito e um dia, se Deus quiser, há de ter um Audi descapotável. A loira dá um grito estridente. Encontrou finalmente o pequeno tesouro. O namorado puxa-a para si e beija-a à vista de todos. Voltam a rir. Riem durante muito tempo, esquecidos do negro que passou no areal e deixou no ar um cheiro intenso a suor.

 

MARINA

Voltei a encontrar Marina, a malabarista do semáforo da avenida dos Estados Unidos. Mudou de ponto. Por isso não a vi durante meses. Para agora num cruzamento perto do aeroporto. Acho-a diferente. Deixou crescer o cabelo. Cai-lhe, liso e preto, pelas costas. Engordou um pouco, mas o peso favorece-a. Voltou a ter formas, bunda redondinha, os seios empinados balouçam livres na camiseta de alça. Já não usa o ridículo gorro vermelho. Qualquer coisa se alterou na rapariga dos malabares prateados. Não sei bem o quê. Já eu, no cruzamento perto do aeroporto, como no semáforo da avenida dos Estados Unidos, continuo presa à beleza que, sem saber, Marina traz à minha vida. Quando ela avança de mão estendida entre os carros, segura, sinto uma estranha languidez, tenho vontade de lhe tocar.

 

ARCAS

É um cheiro bafiento, velho, de naftalina e umidade, parecido com aquele que se sente quando se abrem as arcas das casas das nossas avós. Arcas de madeira, ornamentadas com desenhos embutidos de gueixas submissas, levemente idiotas, passeando entre pinheiros, pagodes e riachos. Por cima dessas arcas há sempre uma toalhinha de linha grossa e uma jarra com rosas de plástico. As avós guardam nessas arcas a roupa branca dos seus enxovais. Peças bordadas com infinito vagar, à espera de serem usadas em ocasiões especiais que nunca acontecem. É o cheiro dessas arcas e dessas roupas que encontrei ao entrar hoje nesta casa. Saio e fecho a porta. Não volto a entrar aqui.

 

ERNESTO

Sabia fazer sarapatel, chacuti e balchão de peixe. Vivia num anexo da casa do Caniçado com o filho Ananias, um menino de carapinha azul que tinha a mania de atirar pedras ao meu irmão. Era um cozinheiro talentoso. Foi com ele, vendo-o trabalhar, que a minha mãe aprendeu os segredos da cozinha goesa. No Caniçado todos conheciam a sua história. Nascera numa aldeia perto do lago Niassa, mas, por ter matado a mulher, fora degradado para o sul da colônia. Apesar desse passado de violência, era um homem gentil, prestável, de modos educados. É assim que a minha mãe o recorda. Toda a gente gostava dele. Um dia, quando brincava na margem do rio Limpopo, Ananias ouviu um estranho canto e mergulhou nas águas lamacentas. Foi comido por um crocodilo. Ernesto, ao saber da notícia, manteve-se impassível, não verteu uma lágrima pela morte do filho. Continuou os seus afazeres. Como era seu hábito, limpou bem a cozinha e deitou-se cedo. Nunca mais apareceu.

 

DOIS DEDOS DE TESTA

Não quero ruído, nem gargalhadas, nem conversas lúbricas, nem convites para jantar em restaurantes onde se servem carnes maturadas. Não quero amar e não quero ser amada. Isso não. Quero apenas a vulgaridade, mas a vulgaridade silenciosa, invisível, a que jamais se confessa, a vulgaridade dos banheiros públicos, dos quartos de hotel e dos carros parados à beira-rio. E, como no poema, não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício e cair verticalmente no vício.

 

PIETÀ

Pensei na mão de dedos esguios entrando lentamente pela janela do carro. Masturbei-me como nunca antes o fiz, sem me fechar, sem sentir vergonha, sem sufocar, aceitando o meu corpo no seu vagar e mistério. Tive um orgasmo e depois outro. Senti-me pura, iluminada por um sol novo. Levantei-me e fui fumar para a varanda. Um sorriso tolo parecia estar colado à minha cara, tentei uma expressão séria, mas o sorriso continuava preso aos maxilares. Como se tivesse fumado um baseado. Voltei para o quarto e deitei-me. Pela primeira vez depois do divórcio, em vez de acantonada a um canto, adormeci bem no meio da cama.

Ontem, depois de o apartamento sossegar, deitei-me a ler. Lia, mas era como se não lesse, as personagens andavam pelas páginas como espectros, incapazes de captar a minha atenção. A lembrança da noite anterior não me largava. Ansiava pelo momento em que, apagada a luz, na penumbra, o meu corpo renascesse. Foi então que escutei passos familiares no corredor. Soube logo que era o mais pequeno, tem um modo de caminhar característico, a sua passada é acelerada e saltitante, parece um anãozinho torto a pisar um chão de cinzas incandescentes. Mal chegou mostrou os braços cheios de picada de mosquito. Peguei o meu filho ao colo e sentei-o na bancada da casa de banho. Coloquei-lhe anti-histamínico nas pequenas borbulhas, dei-lhe beijos, falei-lhe com ternura. “Posso dormir contigo, mãe?”, acabou por perguntar, sabendo de antemão a resposta. Levei-o para a minha cama e esperei que adormecesse. Enquanto o observava, acantonada a um canto, recordei a Pietà que encontrei na Igreja de São Domingos.

 

PAU-PRETO

Há mobílias escuras e sofás de veludo surrado por toda parte. Não se vislumbra um vestígio de beleza ou alegria. Em todas as divisões, nota-se um cheiro adocicado, de urina, de maturação excessiva, de fruta podre. À noite, os candeeiros lançam uma luz morrinhenta de alumiar mortos e sente-se uma permanente vibração provocada pelo tráfego da rodovia. O lar fica tão próximo da estrada que um dia a roda de um caminhão de carga se soltou, galgou para fora do acostamento e foi bater com violência na parede da sala de estar. Vitória, a preta dos chocalhos, a menina que veio no contêiner dos patrões com as mobílias de pau-preto, os serviços de porcelana chinesa e as peles de crocodilo, estava encostada à parede onde o pneu bateu. Saiu ilesa, com apenas algumas escoriações no braço esquerdo, mas assustou-se, esteve sem falar e comer durante uma semana.

“Vá lá, dona Vitória, seja boazinha. Abra a boca. Olhe que a dona Odete já comeu tudo!”, ia dizendo a auxiliar, colher em riste, apontando para a velha do lado, a boca suja, babador preso com fitas esgarçadas.

Vitória parecia não escutar. Emagreceu muito, era já só pele e ossos. Só arrebitou quando lhe explicaram que um jornalista da Tribuna a queria entrevistar. Telefonou para casa e pediu à neta que a fosse visitar no dia seguinte. Queria que a penteasse e, se fosse possível, lhe levasse uma blusa nova. Pediu também a correntinha de ouro com a medalha de santa Justa. A rapariga disse que sim, mas não apareceu. Quando o jornalista chegou, um rapaz gordo, de palidez macilenta, Vitória ajeitou com as mãos o cabelo e alisou a blusa. Sentiu vergonha da sua velhice desmazelada. O jornalista esteve pouco tempo, fez-lhe duas ou três perguntas, tratou-a com a condescendência com que se tratam crianças, imbecis e velhos. À despedida, mandou Vitória sentar-se numa cadeira, justo ao lado do buraco provocado pelo embate do pneu. Pediu que sorrisse e tirou-lhe uma fotografia.

 

ÓLEO DE ROMÃ

Fiz tudo o que faço antes de me deitar. Tomei banho, lavei os dentes e limpei o rosto. Apliquei com movimentos circulares um creme antienvelhecimento que comprei numa perfumaria há pouco tempo. Foi caro, mas não resisti ao anúncio que passa na televisão: mostra uma mulher bonita, sorrindo. Nos segundos finais, enquanto o corpo da mulher é apertado num abraço, uma voz assegura que o creme, feito à base de extratos naturais de óleo de romã, promove o rejuvenescimento da pele. O que uma mulher viveu não tem de ficar marcado no corpo, apenas na memória, é o que diz o anúncio. É mentira, mas não há nada a fazer. A vaidade das mulheres sempre favoreceu o engano. Sei que tudo o que vivi, tudo o que ainda viverei, ficará marcado na minha pele, em cada ruga, cada sulco, cada mancha. O meu corpo apresenta as marcas próprias da idade que tem, mas o envelhecimento, este que agora começou, parece ser um segredo vergonhoso. Quero envelhecer devagar. Por isso, apesar de não acreditar nos efeitos visíveis após oito semanas de aplicação, todos os dias uso o creme de óleo de romã.

 

OUTRA ANA

Atrás da casa amarela, havia um terreno com uma nogueira e um poço. Pelo porte, copa frondosa, folhas largas, de verde vibrante, a nogueira exercia grande fascínio sobre mim. Era diferente das árvores da aldeia: oliveiras, sobreiros, azinheiras, figueiras de ramos tortos. Sentada à sua sombra, apanhando nozes ainda verdes ou olhando-a simplesmente, sentia-me outra menina. Sempre, desde cedo, desejei ser outra Ana. A nogueira, por extraordinário que pareça, tinha esse poder mágico: libertava-me de mim própria, transformava-me, ainda que por breves instantes, noutra criança. Também o poço me atraía. Espreitava para dentro cheia de medo. Acostumados à claridade, os meus olhos demoravam a habituar-se à escuridão. Conhecia, de as ouvir à minha avó, histórias de homens e mulheres que se tinham atirado ao poço. Imaginava um rosto defunto boiando nas águas fundas. Ofélia. Pré-rafaelitas. A ideia de encontrar um morto assustava-me, mas, ao mesmo tempo, excitava-me. Que bom seria quebrar o tédio das férias, largar a correr pelas ruas da aldeia, aos gritos, anunciando uma tragédia! Porém, quando os meus olhos finalmente se habituavam à escuridão, para além das águas paradas e escuras, viam apenas lagartixas e rãs. Sentia uma pontinha de desilusão e levantava os olhos na direção da nogueira.

 

PEDRA-POMES

No rebordo da banheira dos meus pais, no apartamento da Portela, ao lado dos frascos de xampu e gel de banho, havia sempre uma pedra-pomes. Servia para a minha mãe raspar os calos dos pés. A cor da pedra-pomes, bonita e esbatida, variava: verde-clarinho, azul-clarinho, cor-de-rosa-clarinho. Era leve, porosa e flutuava na água. Eu passava a mão pela superfície daquele pequeno retângulo do tamanho de um sabonete e sentia a sua rugosidade. Com o uso, o contínuo raspar das peles duras dos pés da minha mãe, a pedra perdia a forma inicial. Suas arestas deixavam de ser aprumadas, verticais, para ganharem curvas acentuadas que tornavam maior a minha estranheza. Perante a evidente desadequação entre nome e objecto – as pedras eram sólidas, compactas, pesadas, afundavam-se quando tentava fazê-las saltar na ribeira de São Bartolomeu – eu perdia certezas, tornava-me desconfiada.

 

FANFARRA

Às vezes, antes de adormecer, imagino o meu funeral. Para além dos colegas de trabalho, conheço pouca gente. Tenho três amigos. A minha família é pequena. A ideia do meu caixão descendo às profundezas da terra, com meia dúzia de pessoas em redor, mais do que me entristecer, humilha-me. Sei bem que o sucesso de qualquer acontecimento social, festas de aniversário e casamentos, é avaliado pelo número de pessoas que a ele assiste. Não consigo escapar desta lógica meramente estatística e por isso sinto um enorme desconforto ao imaginar o meu funeral. Os funerais com muita gente, de tão animados, quase não parecem funerais. O morto é alguém que se cumpriu em vida. Fez muitos amigos, foi amado, querido, respeitado. Nos grandes funerais há sempre reencontros. As pessoas sentem alegria. Conversam. Falam do passado, dão novidades, mostram fotografias dos filhos e dos netos. Há uma máquina de cafés e pratinhos com biscoitos de limão. Coroas e palmas amontoam-se ao lado do caixão. Perante tanta variedade, às vezes encontram-se conjugações ousadas de cores e flores. Gosto de grandes funerais. Já um funeral com pouca gente é triste. O morto é um falhado. Os que decidiram acompanhá-lo, por osmose, também. Não nego: gostava de ter um grande funeral, com muita gente a assistir e, se possível, com uma fanfarra a acompanhar. Um funeral igualzinho a um que vi passar em Curtorim, coisa bonita de se ver.

 

FAVOS DE MEL

Uma luz branca, intensa, ilumina o rosto da minha filha. Na bancada, o sr. Orlando enche o molde com uma pasta lilás. O protético tem um nariz feio, redondo, inchado. É igual ao nariz do bêbado que, nos dias da consulta psiquiátrica, às sextas-feiras, encontro na avenida de Paris. O bêbado causa-me repulsa e os dois sem-teto que, mais adiante, pedem à porta do Pingo Doce também. Apesar da miséria, da solidão, até da loucura, não sou capaz de sentir compaixão pelo bêbado ou pelos sem-teto da avenida de Paris. Não sei se quero sentir compaixão. De que serve a compaixão inconsequente e transitória que sentimos pelos excluídos da vida? A compaixão é um sentimento menor e, no entanto, e nisto reside a minha mesquinhez, desejo que os outros sintam compaixão de mim. Quando saio do consultório do psiquiatra quero apenas caminhar, sentir prazer por colocar um pé em frente do outro, observar a estrutura de ferro das portas dos prédios da avenida de Paris. Favos de mel. Atravesso a rua para não ver os indigentes da cidade, sobretudo para não sentir o cheiro que os seus corpos libertam.

 

LETRA MIUDINHA

O Joaquim é o rapaz dos cadernos. Tem um caderno das flores, um caderno das folhas, um caderno dos desenhos, um caderno das histórias e, há três dias, descobriu um caderno que enfeitou com autoadesivos brilhantes que a minha mãe trouxe de Goa. É o seu diário. Todas as noites, já cansado, enfiado por baixo do edredom, só se vê a sua linda cabeça cheia de cachos, escreve longos textos sobre o seu dia numa letra miudinha que, quando a espreito, me dá vontade de chorar. Como me atrevo, pela manhã, aos pensamentos mais sombrios, mais desesperados? O amor aos meus filhos, só esse, é absurdo, paradoxal: salva-me e condena-me. Explico-lhe que não precisa contar detalhadamente o que acontece em cada um dos seus dias, pode escrever apenas uma frase sobre o que mais o marcou, a comida sensaborona do refeitório, uma brincadeira no recreio, as indisciplinas do Sandro, um episódio do Mundo de Gumball. Olha-me demoradamente e contrapõe: “Mas assim não é um diário, mãe. É outra coisa qualquer.”

 

MELANCIA

Em Leiria, enquanto esperava pela hora do julgamento, pernas estendidas ao sol, li outro conto da Lucia Berlin. Estou rendida à sua escrita. “Dor fantasma” fala sobre envelhecimento, demência, velhas senis que se masturbam, velhos que sentem as pernas que já não têm, de um pai que não sabe amar, de uma filha que espera palavras simples que nunca chegarão: gosto de ti, és minha filha e, independentemente das tuas escolhas, do teu sucesso, amar-te-ei sempre. Fiquei paralisada. Sei-o há muito. Escrevo por causa do meu pai, do amor e da mágoa que sinto, para lhe mostrar que valho alguma coisa. É uma fraca razão para se escrever. Corro a contar-lhe se sai uma crítica ao livro (merdoso livro), exatamente como, em adolescente, na escola e na faculdade, fazia com as notas. Contive o choro e imaginei que deve ser bom chorar no ombro de alguém. No ombro de um pai. Quando o meu pai morrer hei de escrever sobre a melancia que se partiu numa praia.

 

COMPORTAMENTO INCARACTERÍSTICO SELVAGEM

O gato dorme em cima da geladeira. Fumo, bebo e escuto o Elvis cantar Suspicious Minds. Leio a bula da fluoxetina. Deixei de a tomar há um ano e meio. A ela volto. Já não recordava a extensa lista de efeitos secundários: dificuldade de engolir, diarreia, arrepios, dores de cabeça, alterações do sono ou sonhos anormais, euforia, movimentos involuntários, agitação extrema, perda de cabelo, disfunção sexual, secura da boca, falta de ar, ereções prolongadas, comportamentos de automutilação e, o meu preferido, comportamento incaracterístico selvagem. “Deve evitar o álcool enquanto estiver a tomar este medicamento.” São divertidos os folhetos informativos dos medicamentos. Não se devem levar muito a sério, caso contrário uma pessoa fica doida. Engulo um comprimido com um gole de moscatel de Setúbal. É tão docinho. Amachuco a folha de papel numa bola e atiro-a para o corredor. O gato desperta do seu sono e, ziguezagueando de um modo estranho, corre para a apanhar. Estaria a ter um sonho anormal? Abro a agenda e leio os textos que escrevi nos últimos dias, o início de dois contos, a imitar descaradamente o estilo da Lucia Berlin, as habituais notas sobre o dia a dia: aulas de natação, passeios no parque depois das aulas, discussões com o João, julgamentos, um grupo de rapazes na pizzaria, os olhos do meu pai, episódios do Inspector Morse, o choro incontido e em toda parte, o aniversário do sr. Branquinho no restaurante O Chocalho em Alcáçovas. Uma a uma, lentamente, rasgo as folhas escritas da agenda. Faço bolas de papel. Atiro-as em todas as direções. O gato está eufórico.

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