despedida

Água para o além

A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Mônica Manir
Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de “refrescar” os mortos
Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de “refrescar” os mortos ILUSTRAÇÃO: PEDRO FRANZ_2018

Índio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. “Aquelas almas ali estão vivas”, afirmou sem nenhuma hesitação. “Elas são muito legais.” O moreno atarracado referia-se às “Treze Almas do Joelma”. Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. “Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz”, enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

Equilibrando-se numa escada, bem próximo à pitangueira, Índio pintava de verde as grades que circundam não apenas todas as campas do cemitério, mas também uma igrejinha e o espaço para as velas. Ele – que trabalha e mora no São Pedro – se chama Fernando Silva da Silva e ganhou o apelido em razão da ascendência pataxó. Aos 52 anos, diz não temer o endereço que lhe serve de residência. “Tem gente boa e gente ruim enterrada aqui. Só quem mexe com as ruins é que arruma confusão.” Por considerar as vítimas do incêndio inteiramente “do bem”, Índio já as invocou diversas vezes. “Se preciso de dinheiro, faço um pedido e as almas arranjam rapidinho.”

Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. “Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?”, explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. “Refrescar as almas” que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária – que se proclamava católica – rogava pelo “de sempre”: emprego e saúde para a família. “As Treze Almas nunca me faltaram”, garantiu, fervorosa.

Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida – um rapaz de 16 anos – vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda. A mãe dele, Debora de Almeida, também estava paramentada. Filho de Ogum com Oxóssi, o jovem consultara o Google antes de visitar o cemitério “para conhecer o básico das Treze Almas”. “São espíritos que precisam de luz”, sublinhou. Além de água e alimentos, alguns devotos gostam de lhe oferecer leite. A prática remonta à manhã do incêndio, quando as autoridades solicitaram que a população levasse a bebida para os sobreviventes. Apostava-se no efeito desintoxicante do leite – propriedade que a ciência ainda não comprovou.

 

Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. “Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados”, contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. “Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso.”

Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas – excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o “Sem-Terra”, deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d’água deixados sobre os jazigos (“para evitar focos de dengue”) e joga fora as embalagens de leite longa vida (“para não juntar rato nem barata”).

Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12º andar que uma faísca no ar-condicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: “Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida.” Surpreendentemente, a autora da mensagem – Ana Guedes, de 71 anos – materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. “Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?”, indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. “Você está inteiro, hein?”, falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: “É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar.”

Mônica Manir

Mônica Manir é jornalista.

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