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Aí é luta, patuléia!

Uma desavença fonética opõe a jovem guarda aos palindromistas tradicionais — seria "Acena, Vanessa!" aceitável?
Vanessa Barbara
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FOTO: PATRICK HEDDLES_2005

Há uma frase em latim que cura mordida de cobra e facilita o parto. É “Sator Arepo Tenet Opera Rotas” (o semeador Arepo mantém o curso com atenção), que ao ser lida da direita para a esquerda é literalmente igual. Ou seja, é um palíndromo. Segundo Otto Lara Resende, uma senhora mineira escrevia cada palavra dessa oração num pedaço de papel, enfiava num bentinho e amarrava no pescoço dos doentes, dizendo que, para coqueluche e asma, era tiro e queda. A frase é considerada o palíndromo mais antigo do mundo, e além disso, se as palavras forem dispostas em pilha, uma embaixo da outra, o sentido é preservado em todas as direções. Há inúmeras traduções possíveis, como “Deus, Criador, mantém com cuidado o mundo em sua rota”, mas ninguém sabe ao certo o que ela quer dizer. O escritor pernambucano Osman Lins baseou seu romance Avalovara nessas cinco palavrinhas enigmáticas.

Existem palíndromos atribuídos ao demônio. Alguns trazem azar. O gramático Napoleão Mendes de Almeida, autor de Questões vernáculas, diz que uma das provas de soberania entre os incas era que seus reis tinham nomes palindrômicos, como Capac. Na década de 70, um casal de Ohio, nos Estados Unidos, batizou seus filhos como Noel Leon, Lledo Odell, Lura Arul, Loneya Ayenol, Norwood Doowron, Lebanna Annabel e Leah Hael. A certa altura, alguém criou a palavra “aibofobia” para designar o medo mórbido e irracional de palíndromos. O termo não tem raiz grega ou latina, mas funciona de trás pra frente.

Junto a restos de churrasco, em uma mesa na calçada, um rapaz de camiseta amarela olha intrigado para a palavra “gnus” escrita em um papel. Ao lado dele, outro jovem rabisca nomes de ditadores numa folha: Hitler, Stálin, Mussolini. De repente, Paulo Werneck descobre que “a gnus” ao contrário dá “sunga”, e se põe a construir uma frase. Chico Mattoso desiste dos totalitários e passa para a palavra “pires”. Naquela tarde de outubro, na mesa de uma churrascaria em Santa Cecília, na região central de São Paulo, a jovem guarda palindrômica trabalha com afinco. Há quem diga que estamos vivendo os tempos áureos dos palíndromos. Nunca se produziu tanto desde um certo período na década de 90, quando um palindromista veterano sofreu um acidente de automóvel e passou três meses de cama, ditando frases invertidas para a esposa.

Por fim, uma garota sentada na outra ponta da mesa quebra o silêncio e mostra um palíndromo: “. E amamos só mamãe.”, na linha terno-familiar. Aos 25 anos, a moça de vestido longo, cabelos castanhos e voz suave é um dos grandes nomes da jovem guarda de palindromistas. O garçom vai buscar mais cerveja. Marina Wisnik diz que o segredo é não teimar por muito tempo. Se em quinze minutos não deu palíndromo, é melhor desistir e tentar outra palavra.

 

Representante da velha guarda palindômica, Rômulo Marinho, 74 anos, concorda com Marina: o importante é seguir tentando. Rômulo se intitula rei do palíndromo. Nascido em Guaçuí, no Espírito Santo, o advogado aposentado já compôs mais de 2002 frases. São de sua autoria expressões como “A droga do dote é todo da gorda”, “O rio é de oiro”, “Seco de raiva, coloco no colo caviar e doces” e “E até o papa poeta é” (nos palíndromos, acentos não são levados em conta), além de um poema de 123 letras chamado “Palíndromo do amor total”. Em 1998, publicou o livro Tucano na CUT?, com 202 frases. “Quase todo dia, vendo televisão, faço um palíndromo”, diz ele, “mas já não os anoto mais.” Nos três meses em que ficou de cama, ditando frases para a esposa, chegou a produzir cinco por dia.

Rômulo nasceu em 1932. Demorou mais de sessenta anos para fazer seu primeiro versus cancrinus (em latim: aquele que se comporta como caranguejo). Ele conta que, desde a infância, tinha a mania de ler palavras ao contrário, esperando encontrar algum sentido. Foi quando descobriu os bustrofédons, ou parapalíndromos, palavras que, lidas da direita para a esquerda, formam vocábulos diversos, como amor (Roma), após (sopa), assim (missa) e ar (rã). Pode-se dizer que o bustrofédon é um ponto de partida para o palíndromo. Mesmo assim, Marinho não parou por aí: continuou sem saber que existiam sentenças inteiras em espelho, embora já conhecesse a famosa frase “Roma me tem amor”. Aos 25 anos, tornou-se telegrafista, mais tarde engajou-se na militância sindical e política, foi eleito deputado federal e exerceu inúmeros cargos públicos. Aos 40 anos, formou-se em direito e, aos 59, ganhou o posto de juiz classista em Taguatinga, nos arredores de Brasília. A essa altura, um cardiologista obrigou-o a fazer longas caminhadas matinais. “Para esquecer a distância e o tempo, tentei fazer palíndromos”, lembra. “Passaram-se meses, até que um dia nasceu o primeiro: ‘A base do teto desaba’.” A vantagem desse hábito foi que Rômulo Marinho nunca precisou de papel para criar suas frases.

O palíndromo é uma arte sem planejamento, ou, nas palavras de Millôr Fernandes, uma arte neurótica e maravilhosa, capaz de envergonhar qualquer concretismo. Para começar uma frase (ou terminá-la, no caso), não se deve ter um tema prévio, ou uma intenção a comunicar. “Pegue uma palavra na qual duas consoantes não se encontrem e coloque no meio de uma frase imaginária”, ensina Marinho. “A partir daí, da esquerda para a direita ou vice-versa, vá construindo seu palíndromo.” É a abordagem centrista, utilizada pela maioria dos criadores de palíndromos, em que a frase vai abrindo para as pontas até ganhar sentido. Devem-se evitar advérbios terminados em ente, gerúndios e tritongos, além de letras mudas e a palavra “Volkswagen”.

Apesar da limitação imposta pelo método, os palíndromos não são necessariamente aleatórios e desprovidos de sentido. Rômulo Marinho os divide em “explicitus”, “interpretabiles” e “insensatus”, sendo que os insensatus cuidam apenas de juntar letras ou palavras sem se preocupar com o sentido, como: “Olé! Maracujá, caju, caramelo.” Os interpretabiles têm coerência, mas requerem esforço intelectual do leitor para entendêlos: “A Rita, sobre vovô, verbos atira.” Já os explicitus, mais valiosos, trazem sempre uma mensagem direta, clara e inteligível, como : “A diva em Argel alegra-me a vida.” Marinho se empenha para que os seus tenham significado óbvio. De fato, poucos dos seus versos exigem do leitor um esforço de interpretação. Além disso, segundo ele, “à exceção de certos palindromistas americanos, que vivem em permanente excitação atrás do recorde palindrômico, desprezando, na maioria das vezes, o nexo, todos os palíndromos que se cristalizaram são perfeitamente inteligíveis”. Em português, o mais famoso deve ser “Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos”, de autoria anônima.

No Brasil, os azes da palindromia incluem Pedro Nava, Malba Tahan, Afonso Arinos de Mello Franco, Eno Teodoro Wanke (autor de O livro dos palíndromos, onde registra mais de 3 mil) e Millôr Fernandes, autor de “Assim a aia ia à missa”, “A mala nada na lama” e “Olá, galo”. O cartunista Laerte é outro que faz suas incursões. Numa de suas tirinhas, uma família de cavalos está jantando e o potrinho diz: “Rir, o breve verbo rir”, e o pai retruca: “Eu já te disse para não dizer palíndromos à mesa!” Chico Buarque, por sua vez, demorou cinco horas para inventar o seu, durante uma noite de insônia: “Até Reagan sibarita tira bisnaga ereta”, que foi publicado em 1986, com ilustração de Chico Caruso. Nenhuma dessas personalidades supera Rômulo Marinho em dedicação.

 

O veterano palindromista, que chegou a receber o grau de Comendador na Ordem do Mérito de Brasília – mas não por causa de seus palíndromos -, acredita que existe um bocado de gente devotada ao ofício e atribui a si mesmo o crédito por boa parte dessa expansão. Todos os anos, na Feira de Livros de Brasília, ele é escalado pelo Sindicato dos Escritores para fazer uma palestra sobre o assunto. Pela internet, vende de quatro a cinco livros por mês. Recebe, quase que diariamente, a correspondência de novos palindromistas que encaminham seus trabalhos para sua apreciação.

Um desses novos talentos é Marina Wisnik, a jovem da churrascaria. Há seis anos, ela teve alguns de seus palíndromos musicados em uma canção do pai, José Miguel Wisnik. Em “Relp”, a atriz colabora com os versos: “Oi, rato otário”, “Eco: vejo hoje você”, “Ser cor e ser ocres”, “Ó mãe, tu era réu. Te amo”, “Mima a mina e anima a mim”, “Só dote dádiva é a vida de todos” e, o mais conhecido, “Lá vou eu em meu eu oval”, que abre a canção. Marina começou a fazer palíndromos aos doze anos, durante as aulas. A adolescência foi sua época mais produtiva, quando compôs quase todos os palíndromos utilizados na música.

Seus versos seguem uma linha mais poética e filosófica, embora ela tenha frases de diversas tendências, como a coloquial “.Ô Piauí! Viu? Aí, pô.”, que ela criou em poucos segundos, sob encomenda. “É interessante perceber que os palíndromos têm estilo”, afirma. “Quer dizer, se eles partem de uma regra, supostamente eram para ser todos iguais, mas não são: cada autor tem um jeito.” Como exemplo, Marina Wisnik mostra os versos de Sofia Mariutti, 19 anos, estudante de letras na USP e especialista em palíndromos coloquiais. Sofia é autora de “Ô padre, meu, que merda, pô!”, “É pesado? Foda-se, pé!” e “Olé! Bacon no cabelo!”.

 

A jovem guarda palindrômica abriga representantes de todos os tipos- do culto ao coloquial, do comportado ao sacana, todos com uma característica em comum: palindromia desenfreada. No encontro da churrascaria, foram criados em poucas horas dezenas de versos, na modalidade engajada, como “Aí é luta, patuléia!”, de Paulo Werneck, “A luta: tu lá”, de Marina, e na modalidade líricoembevecida, como “Ah, larga gralha!” e “Ah, livre ervilha”, de Werneck. A pedidos, produziram uma seqüência sobre cavalos. Paulo fez “Só lava cavalos” e “Seo Zala só lava cavalos alazões”, embora a legitimidade do senhor Zala tenha sido contestada, e o escritor Chico Mattoso veio com o coloquial “Ó lá! Vaca a cavalo!”.

Mattoso, de 28 anos, formado em letras, é craque em palíndromos eróticos, como “Alzira no colo: coloco nariz lá”, “O soro louco do cu oloroso” e “Ó: meto anal, miss? Sim, lá não temo.” É também notável seu poema lírico-terrorista Barab:

“Osama ama só

E, no nada, mama danone.”

Alguns de seus palíndromos coloquiais procuram captar o espírito da época. É o caso de “A Ju, cara, mó maracujá” e “Lã, mina: animal!”, em que um rapaz tenta cortejar uma moça exibindo o nobre material de suas vestes.

Já o editor Paulo Werneck, também de 28 anos, possui um estilo mais experimental, marcado pelos palíndromos insensatus: “É mala, salame!”, “Só furado podar ufos”, “E volátil a palita: love”, “Os nós de Edson só” e “Ela fede a gnus, a sunga, Ed! É, fale!”. No papel, ficaram inconclusas as suas tentativas com as palavras “pinel”, “árvore”, “Fidel”, “pulôver”, “Pol Pot”, “Churchill”, “pâncreas”, “apócrifo”, “diarréia”, “Abraão” e “couve”.

Werneck é um dos pioneiros do controverso palíndromo fonético, nova modalidade de frases que se pautam pela regra da oralidade. Os maiores exemplos são: “Acena, Vanessa!”, em que de trás para frente os dois ss substituem o cê, “Soluço sob os óculos”, em que o cê e o cê cedilha se confundem, e “Osaka girava a Varig: acaso”, que além de fonético não faz nenhum sentido.

“Jamais me passou pela cabeça que alguém iria, um dia, fazer um palíndromo assim, só sonoramente palindrômico”, confessa, desgostoso, Rômulo Marinho, um defensor da palindromia ortodoxa. “Para mim, que a considero uma arte idiomática, não vale.” Ele acredita que fazer palíndromos é uma distração destinada ao cultivo do idioma, e portanto a transgressão é de mau gosto. “É simplista demais. De qualquer forma, da mesma maneira que alguns fazem versos caipiras, com erros crassos da nossa língua, fica a juízo e critério de seu produtor e de seus ouvintes o julgamento. Eu, simplesmente, não vejo qualquer graça nisso. Quem sabe o ‘seu Creysson’ gostaria”, ataca. Em sua defesa, Paulo Werneck bate na mesa e observa que “a palindromia precisa se abrir para a oralidade. O palíndromo fonético é uma realidade!” A discussão corre o risco de terminar com o palíndromo “É a mãe! É a mãe!”.

Outra inovação trazida pela mocidade palindromista, e dessa vez aclamada pelos veteranos, é o Palíndromo Plus 2002, do engenheiro Pedro Mindlin, de 32 anos (http://www. larc.usp.br/ ~pmindlin/ palindromo.html). O programa serve para auxiliar na criação das sentenças, pois possui os campos “Contrário”, em que a palavra escolhida aparece às avessas, e “Espelho”, que ajuda a visualizar uma frase, já que todo palíndromo é, sempre, espelhado, isto é, a primeira letra da frase é igual à última, a segunda igual à penúltima e assim por diante, até chegar à letra central, caso o número total de letras seja ímpar, ou letras centrais, caso o número seja par. O Palíndromo Plus foi baseado na obra do médico Manu Lafer, que lançou ano passado o CD Grandeza, com duas músicas em palíndromo: “A cara rajada da jararaca” e “Bustrofédon”. O próprio criador da ferramenta, Pedro Mindlin, possui palíndromos de sua autoria, entre eles “O Pedro morde pó” e “O Pedro me morde, pô!”. E também recebe, por email, frases de usuários do programa – como Elizene Cássia, da cidade de Taió, Santa Catarina, que enviou recentemente um palíndromo singelo: “Oi a todo Taió.”

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