O jornal <i>Peru 21</i> comemora, em cirílico, a histórica classificação da equipe nacional
Ver dados da foto O jornal Peru 21 comemora, em cirílico, a histórica classificação da equipe nacional IMAGEM: REPRODUÇÃO

Amor de perdição

O infortúnio de torcer para o Peru, que voltará a disputar uma Copa após três décadas e meia
Jerónimo Pimentel
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O jornal Peru 21 comemora, em cirílico, a histórica classificação da equipe nacional IMAGEM: REPRODUÇÃO

O ano de 1982 é emblemático na história peruana. O fenômeno climático El Niño castigou a costa norte do país e o grupo rebelde Sendero Luminoso, em sua primeira grande incursão armada, tomou a prisão de Ayacucho, o que desencadeou a entrada das Forças Armadas no levante. Não bastasse, algo terrível aconteceu na Copa da Espanha. Comandada pelo brasileiro Tim, a seleção do Peru perdeu de lavada para a Polônia do atacante Lato. Eu tinha 4 anos e, daquele 5 a 1, só me lembro do hálito etílico dos meus pais e seus amigos, de algumas cores e formas do velho apartamento onde morávamos, em Lima, e de umas balas embrulhadas em bandeirinhas das seleções participantes, que foram vendidas até a Copa seguinte, pois naquele tempo se pensava que os produtos à base de açúcar nunca venciam. Era, como se vê, um país cruel.

Até o final da década de 70, podia-se confiar no futebol peruano. Na verdade, não se podia, mas façamos de conta que sim. A derrota por 4 a 2 contra o Brasil na Copa de 1970 nos deixou como legado um jeito peculiar de orgulho, porque uma coisa é perder e outra bem diferente é perder com classe para a melhor seleção de todos os tempos. A conquista da Copa América em 1975 ratificou nosso protagonismo, enquanto a vitória por 3 a 1 sobre a Escócia em 1978, na Copa da Argentina, nos fez acreditar que nosso lugar no concerto das nações era da classe média para cima. Ledo engano. A verdade é que não soubemos interpretar a evidência dos sinais: na mesma Copa de 1978, a derrota por 6 a 0 para o time da casa devia significar alguma coisa, além de inscrever nosso nome na história universal da infâmia. Algo dessa vergonha respingou na minha família: meu primo Alejandro morava em Brasília e, no dia seguinte à goleada, um torcedor indignado pendurou na porta da casa de meus tios o cadáver de um frango, junto de um cartaz que dizia: “Peru, galinha morta.”

Mas não é isso que quero contar. O que quero contar é uma história simples, linear e descendente: a que leva da mediocridade à desolação. Foi mais ou menos assim: em 1985, o Peru esteve a ponto de evitar que a Argentina fosse para a Copa de 1986 – o que teria impedido a consagração de Maradona –, mas Ricardo Gareca marcou a poucos minutos do apito final. Achamos que não participar daquele torneio era um hiato que compensaríamos em 1990, na Copa da Itália. Por isso, foi difícil prever que a catástrofe mal tinha começado.

Nos meus anos do primário, como uma espécie de consolação, adquiri um hábito que viraria tradição, o da torcida emprestada: escolher um favorito e fazer de conta que torcer para outro país era a coisa mais natural do mundo. Como eu estudava num colégio francês, meu coração batia por Platini, Amoros e Giresse em 1986. Não à toa, diferentemente de muitos sul-americanos, comemorei a falha de Zico diante do goleiro francês Joël Bats, numa cobrança de pênalti. Aquele amor, no entanto, não era desinteressado: os padres do Recoleta tinham prometido dois dias de folga se Les Bleus fossem campeões. Já estávamos saboreando a liberdade quando, para variar, a Alemanha estragou a festa.

Entre os clubes, as coisas não iam melhor. O Universitario de Deportes era só tristeza, ano após ano, enquanto nossos rivais do Alianza Lima amargavam uma tragédia maior: em 1987, o Fokker que levava a equipe profissional caiu no mar. Apenas o piloto sobreviveu. As Eliminatórias de 1989, como se pode imaginar, resultaram especialmente tristes: nossa seleção perdeu todos os confrontos com o Uruguai e a Bolívia, sob o comando de José Macia, o Pepe, provavelmente o brasileiro mais odiado da história peruana.

A década de 90 prometia um renascimento, mas só trouxe soluços. Aos nossos corações, restava continuar mudando de afetos. Se na Copa de 1990 o objeto dos suspiros era a Costa Rica, por causa da magnífica atuação do goleiro Gabelo Conejo, quatro anos depois a admiração se voltava para a Colômbia, de cujo futebol, ingenuamente, os peruanos nos sentimos “pais estilísticos”. A política se mostrava um espelho perfeito desse derrotismo: em 1997, o partido de Alberto Fujimori destituiu os juízes do Tribunal Constitucional que estavam impedindo o ditador de tentar sua segunda reeleição.

As Eliminatórias da Copa de 1998 nos revelariam uma forma de dor ainda pior: o quase. Faltando duas rodadas, o Peru devia ir ao Chile buscar pelo menos um empate, sob o risco de não carimbar sua passagem para a França. Mas levamos quatro gols em Santiago, nosso hino foi vaiado com um ódio que não se via na América do Sul desde o século XIX e os torcedores agrediram nossos jogadores perante a súbita calma dos carabineiros. A humilhação nos fez aprender a sentença do filósofo Francis Bacon: a esperança é um bom desjejum, mas um péssimo jantar.

 

Com o ano 2000, voltaram a democracia e a ideia de que podíamos ser melhores do que éramos. Na Sul-Americana de 2003, o Cienciano, de Cuzco, eliminou o Santos, o Atlético Nacional, da Colômbia, e o argentino River Plate, conquistando o único título internacional do Peru em 95 anos. Não conseguimos, porém, ir à Copa de 2002 – fracasso que se repetiu em relação à de 2006. De uma eliminatória a outra, conseguimos cair uma posição, da oitava para a nona, num movimento que só pode ser entendido como uma busca do grau zero do futebol. Como ter ânimo para sobreviver nas profundezas do desalento? É provável que, a exemplo das criaturas que habitam as fossas abissais, o peruano tenha evoluído de tal modo que se tornou capaz de subsistir com o mínimo de oxigênio esportivo. Por isso, nos grupos de WhatsApp, compartilhamos não os gols dos compatriotas no exterior (milagre que não nos é concedido toda semana), e sim um drible, quem sabe um passe, ou os eventuais adjetivos que algum comentarista inglês dedica a André Carrillo, do Watford. Festejamos tais migalhas como se fossem manjares.

O leitor informado já sabe de que maneira esta história termina, o que me permite encurtá-la, porque, de aborrecimentos, já chegam meus 35 anos de derrotas. Basta dizer que no Brasil, em 2014, fomos brasileiros e, na final, argentinos. Sempre, como se por força de magia, estamos com os perdedores. Na vindoura Copa da Rússia, em compensação, poderemos torcer enfim pelas nossas próprias cores, e delas não esperamos nada, o que nos faz absolutamente felizes. Pela primeira vez desde 1982, disputaremos o mais importante torneio futebolístico do mundo. Alguns amigos estrangeiros, ignorantes do grau de resiliência que la peruanidad exige, espantam-se com o júbilo que nos provoca o que para eles é rotina. A tais amigos, respondo com as palavras do romancista Martín Roldán: este amor não é para os fracos.

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