esquina

Aposentados, uni-vos!

Um partido contra a peste grisalha

Matheus Gouvea de Andrade
IMAGEM: ANDRÉS SANDOVAL

A televisão permanecia ligada no noticiário enquanto um grupo de aposentados se reunia num restaurante na região de Campo de Ourique, em Lisboa. A pauta da conversa destoava da faixa etária dos comensais: discutiam como ganhar visibilidade nas redes sociais. Eram todos membros do Partido Unido dos Reformados e Pensionistas – ou Purp –, criado em 2015.

Dois dias depois daquela sexta-feira no fim de setembro, o partido enfrentaria as urnas pela segunda vez, nas eleições autárquicas portuguesas. Equivalente às eleições municipais no Brasil, o pleito apontaria os representantes populares para as câmaras e assembleias das cidades portuguesas, e os das juntas de freguesia, divisão administrativa semelhantes às nossas subprefeituras.

O Purp teve origem a partir do grupo “Reformados no Facebook”. Pouco antes das eleições legislativas de 2015, o partido conseguiu as 7 500 assinaturas necessárias para disputar o pleito. Segundo seu presidente e candidato à assembleia de Lisboa, Fernando Loureiro, a sigla nasceu para suprir uma lacuna no sistema político português: defender os interesses dos aposentados. “Até os animais têm partido”, protestou, referindo-se ao movimento PAN – Pessoas, Animais e Natureza.

Loureiro é um bancário aposentado de porte esbelto que não aparenta ter seus 69 anos. Morador de Linda-a-Velha, município a 10 quilômetros de Lisboa, vai à capital uma ou duas vezes por semana para encontrar seus correligionários na sede do partido, um escritório diminuto no bairro de Belém.

Durante o jantar, Loureiro disse que o Purp não é uma sigla de ideologias duras. “Queremos nos afirmar na defesa das pessoas”, explicou. Como exemplo das bandeiras do partido, citou a criação de um “passe social” gratuito para os idosos com aposentadorias inferiores a 500 euros. “O passe permitirá que eles saiam e visitem os amigos, caso contrário ficarão em casa, sempre a jogar as cartas.”

Com uma das menores taxas de natalidade da União Europeia, Portugal está em meio a uma aguda crise demográfica, fenômeno que já foi chamado de “peste grisalha”. Os idosos contam um terço da população do país, onde há 100 jovens para cada 148 cidadãos com mais de 75 anos. Eles são os principais afetados pela alta do mercado imobiliário decorrente do turismo crescente em Portugal. O aluguel médio de um quarto vale 355 euros em Lisboa e 270 euros no Porto; em 2016, a aposentadoria média em Portugal era de 365 euros. A crise afeta diretamente os militantes do Purp, alguns dos quais foram objeto de ordens de despejo. “Querem acabar com os idosos”, resumiu Loureiro.

 

O Purp não tem direito à ajuda financeira do Estado às agremiações políticas, restrita por lei aos partidos com mais de 50 mil votos ou ao menos um deputado eleito. É mantido com a contribuição mensal de 1 euro paga pelos cerca de oitenta filiados (aqueles que não têm condições estão isentos da taxa). Por isso, a campanha do partido para as eleições autárquicas deste ano teve o orçamento irrisório de 800 euros, pouco mais de 3 mil reais. “Temos que ser teimosos”, afirmou o presidente do Purp.

Para conquistar o voto dos aposentados, por dez dias, cinco ou seis militantes voluntários – todos beirando os 70 – percorreram as ruas das regiões menos favorecidas de Lisboa, distribuindo santinhos e agitando bandeiras. Um dos cabos eleitorais mais aguerridos é Fernando Carreto, um senhor de barba grisalha que mora nos arredores de Lisboa. Durante a campanha, Carreto não tirou da cabeça o boné do partido para se proteger do forte sol do fim de verão lisboeta, com temperaturas frequentemente acima dos 30 graus. “Apoiarei a causa enquanto tiver força física e psíquica”, declarou o militante. “A física já começa a falhar.”

O esforço de campanha não rendeu resultados muito expressivos. Em Lisboa, o Purp conquistou 885 votos para a Assembleia Municipal – ou 0,33% do total, e teve quase 10 mil votos a menos que o PAN, o partido dos animais, que conseguiu fazer dois deputados. Já os aposentados não elegeram representante algum.

O foco do partido, agora, são as eleições gerais e europeias, que acontecem em 2019. O desafio é conquistar eleitores além do público-alvo da sigla. “Amanhã serás reformado(a)”, diz seu slogan. “Purp é o teu partido. Hoje.” Daí a importância das redes sociais. No Facebook, onde o movimento começou, o grupo dos aposentados já conta com mais de 6 mil simpatizantes. O partido planeja passar a receber filiações online e reativar seu site, sem atualizações desde 2015.

 

O vencedor das eleições autárquicas foi o Partido Socialista, que desde a redemocratização de Portugal, em 1974, se reveza à frente do governo com seu opositor de centro-direita, o Partido Social-Democrata. No pleito de outubro, o PS sagrou-se vencedor, conquistando a maioria de 159 das 309 câmaras municipais em disputa. O PSD – visto por muitos aposentados como algoz da categoria, por ter promovido corte nas pensões como medida de austeridade quando esteve no poder – ficou com 79.

Na noite das eleições, os caciques do PS – incluindo o atual primeiro-ministro, Antônio Costa – se reuniram na sede do partido, no largo do Rato. Dezenas de jornalistas acompanharam ao longo da noite a chegada dos políticos, que desembarcaram de carros com motoristas particulares.

A 1 quilômetro dali fica a tradicional Padaria do Povo, escolhida pelos membros do Purp como quartel-general para acompanhar a apuração. O contraste não poderia ser maior com a noite eleitoral na sede do PS. Um punhado de militantes quase anônimos chegou sem fazer alarde e sem chamar a atenção da imprensa. Os clientes nem suspeitaram que haveria ali uma reunião política. As três tevês do estabelecimento transmitiam o clássico local entre Sporting e Porto. Frustrados, alguns aposentados voltaram para casa para acompanhar o resultado pela internet. Outros preferiram o bom e velho rádio.

Matheus Gouvea de Andrade

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