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Aprendiz de robô

Um processo seletivo global

Gian Amato
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Com um olho na estrada e outro na tela do celular, Senyo Otabil dirigia pelas ruas de Acra, a capital de Gana, num dos primeiros dias do ano. Motorista de Uber, ele aguardava uma mensagem que podia mudar seu destino, com o resultado de um processo seletivo do qual participara a fim de se tornar um jornalista de dados esportivos. No intervalo entre uma corrida e outra, o ganês de 24 anos estacionou, afrouxou a gravata e contou como seria sua nova função: “Igual a um robô.”

Otabil concorria a uma vaga de colaborador da Sportradar, que se define como a principal empresa mundial de dados esportivos. Sediada na Suíça, a companhia vende estatísticas sobre eventos esportivos para mais de mil clientes em dezenas de países, entre eles sites de apostas, veículos de imprensa, clubes e federações. A tarefa do ganês seria anotar, em tempo real, eventos relevantes de uma partida de futebol, como gols, faltas, cartões, escanteios ou bolas na trave. Para tanto, usaria um aplicativo de celular desenvolvido pela própria Sportradar, o iScout.

O motorista é um rapaz de sorriso aberto enquadrado por uma barba espessa. Acostumado a usar o Uber com desenvoltura, pensou que não teria dificuldade para lidar com o iScout, que tem a interface familiar de um campo de futebol. Embora seja louco pelo esporte, Otabil percebeu que a paixão seria dispensável na tarefa repetitiva de inserir estatísticas no programa, como quem troca a marcha do carro. Um dia, imaginou, o trabalho poderia ser todo automático, sem a necessidade de um repórter. Por enquanto, humanos ainda são necessários para a tarefa.

Se fosse selecionado, seu trabalho consistiria em ir a estádios para assistir aos jogos que anotaria pelo aplicativo. Nos testes que fez durante o processo de seleção, porém, ele simulou o uso do programa enquanto assistia ao videotape de jogos já realizados, incluindo partidas improváveis como a que opôs o IFK Norrköping ao Östersunds FK pelo campeonato sueco.

O aspirante à vaga leu três manuais e um tutorial de vinte páginas, mas nem assim ganhou total familiaridade com o iScout. Enquanto fazia os testes, as dúvidas surgiam em sequência. “A bola entrou ou não?”, indagou-se, a respeito de um lance de uma partida que anotara. “Achei que sim e marquei gol.” Otabil não estava seguro quanto ao número de laterais para cada time ou ao tempo de posse de bola. Temia ter deixado passar um pênalti. E tampouco sabia como inserir no aplicativo informações sobre as condições meteorológicas ou o estado do gramado. Estava exasperado com a plataforma. “É uma tarefa sobre-humana”, desabafou.

Se estivesse em condições reais de trabalho, Otabil poderia ser penalizado pelas informações incorretas que preenchesse. A Sportradar se compromete a pagar 52 euros a seus colaboradores – pouco mais de 200 reais – por partida anotada, além de reembolsar custos com ingressos e deslocamento, mas pode fazer descontos progressivos no caso de erros.

 

Senyo Otabil sai para trabalhar de paletó e gravata, estilo que o destaca entre a dura concorrência do Uber. Tenta passar com a indumentária a imagem de um profissional bem-sucedido. Mas a verdade é que ele próprio, dono de um diploma em economia pela maior universidade do país, não atua em sua especialidade. “Está difícil conseguir uma oportunidade em Gana”, afirmou.

O locutor da rádio local despejava notícias curtas na mesma velocidade que uma moto passou rente ao carro de Otabil, soltando um ronco alto e irritante. Farto com o trânsito congestionado e a poluição de Acra, o jovem economista enxergava na vaga aberta pela Sportradar o passaporte para uma nova vida. “Ganho mais com o Uber, mas seria um trabalho menos estressante”, disse. Não que se tratasse de um ofício ideal. “É um trabalho muito técnico, não escrevemos nada, só inserimos informações no aplicativo”, admitiu. “Mas eu ganharia experiência e visibilidade.”

A multinacional dispõe de mais de 6 mil freelancers que alimentam suas plataformas com estatísticas esportivas (emprega ainda 1 900 funcionários em dezenas de escritórios pelo mundo). Trata seus colaboradores como jornalistas de dados, mas muitos deles jamais escreveram uma linha em jornais, revistas ou sites. Experiência na área não era um pré-requisito para a vaga que Otabil disputava: os candidatos só precisavam ter um smartphone e inglês fluente para conversar com os supervisores da empresa.

No fim de novembro de 2017, o ganês participou de uma conversa por Skype junto com outros nove candidatos à vaga – havia postulantes do Chile, Brasil, França, Zâmbia e um conterrâneo de Otabil. Aproveitou a ocasião para esclarecer o funcionamento do iScout junto a um representante da Sportradar. Quanto tempo ele tinha para anunciar uma substituição? Deveria computar um chute a gol fraco como uma finalização no alvo?

Quem mediou a conversa foi o português Mario Santos, um morador de Braga que faz a supervisão internacional dos colaboradores da empresa. Numa entrevista à piauí, ele destacou a responsabilidade dos jornalistas. “Na cobertura de um jogo, tudo o que eles informarem será publicado em tempo real em vários sites no mundo.” Disse ainda que a empresa se cerca de alguns cuidados para evitar erros. “Comparamos tudo o que é reportado com dados de outras empresas, sites e canais de tevê, de modo a sempre garantir que o cliente receba a informação correta.”

A mensagem pela qual Otabil aguardava ansiosamente chegou numa manhã de janeiro, mais de dois meses depois de ele ter iniciado o processo seletivo. O candidato precipitou-se sobre o celular para lê-la, mas se decepcionou com a resposta: “Você não concluiu o treinamento ou não possui as habilidades necessárias.”

O ganês se frustrou com a notícia, mas não deu o braço a torcer. A ficha mal caiu e ele já tinha outro plano para sair do trânsito de Acra: abrir um canal de vídeos online. “Vou arrumar uma câmera e começar meu próprio negócio”, anunciou o agora aspirante a youtuber.

Gian Amato

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