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A arca da fazenda

Uma mandinga contra a crise
Daniel Salles
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

A primeira reunião do novo secretário da Fazenda paulista com o alto escalão da pasta aconteceu já na tarde do dia 1º de setembro, horas depois de Hélcio Tokeshi assumir o cargo. O economista formado pela USP, com doutorado pela Universidade da Califórnia em Berkeley, agradeceu a acolhida dos funcionários e, sem perder tempo, tratou de realizar a primeira e fundamental operação como titular das finanças do estado.

O que ele fez, na verdade, foi um investimento contra o azar – afinal, já bastava a má sorte de ter tido a posse ofuscada pela de Michel Temer, confirmado na Presidência no dia anterior, logo após a cassação de Dilma Rousseff pelo Senado. Dando ênfase ao gesto, Tokeshi sacou a carteira do bolso e tirou lá de dentro uma nota de 20 reais. Em seguida abriu com alguma solenidade uma pequena arca de madeira que enfeita o gabinete e nela depositou a cédula. Pronto: tinha acabado de salvar a sua gestão de uma crise financeira.

Isso, pelo menos, é o que garante quem conhece a história daquela arca. Reza a lenda que o secretário que se negar a depositar algum dinheiro no cofre centenário, uma moedinha que seja, será amaldiçoado com tempos difíceis, economia estagnada, arrecadação em baixa. Tokeshi tinha razões de sobra para não dar chance ao azar: a arrecadação de ICMS, o principal tributo estadual, havia caído entre 2015 e 2016, resultado da pior recessão em décadas no país.

A arca da Fazenda mede menos de 1 metro de largura, pouco mais de 50 centímetros de altura e outros 50 de comprimento. Pintada de preto, é adornada por grossas dobradiças e fechaduras de ferro. Abre-se como um baú. Na parte de dentro da tampa há uma inscrição que, à primeira vista, poderia incomodar algum funcionário mais cioso das boas regras ortográficas: Cofre de orfãos mandado fazer pelo meritsimo juiz de orfãos dr. João dos Santos Sarahiba, sendo thezoureiro Joaqim José de Sá. O texto vem acompanhado de uma imagem da deusa da Justiça, devidamente vendada, com a espada e a balança nas mãos. Uma derradeira frase, gravada na madeira, entrega a idade do objeto: Anno de nosso senhor Jezus Christo 1862.

A peça tem decorado o gabinete dos mandachuvas da Secretaria da Fazenda, no Centro de São Paulo, desde a gestão de Luís Arrôbas Martins, concluída em 1970. Entre um despacho e outro, Arrôbas amealhou, a pedido do então governador Abreu Sodré, centenas de obras de arte e móveis antigos. A maior parte dos objetos adquiridos para o patrimônio do estado acabou sendo transferida para a residência de inverno do governador, em Campos do Jordão. Os contribuintes, se quiserem, podem conhecer o acervo no bucólico Palácio Boa Vista, aberto à visitação desde 1970. Os demais itens, como a arca do século XIX, espalham-se hoje por várias repartições públicas.

Quem melhor sabe contar essa história é Antonio Fazzani Bina, um sujeito atarracado que usa a gravata bem presa ao colarinho, o que parece lhe enforcar a papada. Discreto, de gestos contidos, Bina é uma espécie de memória viva da secretaria, também reputado como um funcionário de extrema confiança – não à toa, exerce o cargo de chefe de gabinete da instituição há exatos 22 anos. Foi ele quem comunicou aos últimos oito secretários, incluindo o atual, a existência da superstição envolvendo a arca da Fazenda. Tratou também de alertá-los para os riscos a que se expunham caso desprezassem a mandinga. “Que eu saiba, todos depositaram alguma quantia”, garantiu o chefe de gabinete.

 

A origem da lenda da arca da Fazenda é um mistério. Nasceu com a chegada do cofre de madeira, mas o secretário que o adquiriu não está mais aí para explicar como surgiu a tradição. Arrôbas morreu em 1977. “Fiquei sabendo da história quando cheguei aqui, todo mundo já sabia”, foi o que Bina soube dizer.

Por via das dúvidas, a arca foi recolhendo depósitos. Hoje guarda 37 cédulas e doze moedas. Há mais de um exemplar da nota vermelha de 100 cruzeiros com um dom Pedro II muito barbudo; uma cédula de 10 mil cruzados, estampada com a figura do sanitarista Carlos Chagas; e aquela com o rosto da poeta Cecília Meireles, de 100 cruzados novos. Contam-se também cinco notas de 1 real, três de 2, duas de 5, duas de 10 e a de 20 que saiu da carteira do secretário Tokeshi. Há moedas de várias épocas e valores, muitas de 5 centavos.

“Joguei uma moedinha de nada, uma ninharia”, admitiu o economista Carlos Antonio Rocca, uma das vinte pessoas que chefiaram a Secretaria da Fazenda desde a gestão de Arrôbas. Rocca ocupou o cargo na década de 70 e hoje dirige o Centro de Estudos de Mercado de Capitais do Instituto Ibmec. “Alguém me falou dessa tradição, mas nunca entendi muito bem.” Nem por isso deixou de observá-la, e fato é que nenhuma crise lhe dificultou o trabalho. Rocca esteve à frente da pasta durante a época de maior crescimento da história do país, o período do “milagre econômico”. “Chegamos a aprovar um orçamento com 35% do valor destinado a investimentos”, lembrou o ex-secretário, orgulhoso.

Outro que se rendeu à superstição foi o fluminense Mauro Ricardo Machado Costa, atual titular da Fazenda do Paraná. Ele chefiou a mesma pasta no governo paulista entre 2007 e 2010. Orientado pelo antecessor, o economista Luiz Tacca Júnior, Machado Costa aplicou na arca 10 reais. Como a arrecadação dos principais impostos estaduais cresceu 45% no período, não há quem possa dizer que a gestão dele foi azarada.

Menos afortunado foi o economista Affonso Celso Pastore, que assumiu o cargo em 1979. Procurado pela piauí, ele pareceu não ter muita paciência para esse tipo de comportamento irracional. “Nunca ouvi falar em uma arca na Secretaria da Fazenda. Talvez a de Noé?”, reagiu, por e-mail. Coincidência ou não, Pastore geriu as finanças paulistas num dos piores períodos de retração econômica do país, que se seguiu ao segundo choque do petróleo e à elevação dos juros norte-americanos, algo que provocou quebradeiras mundo afora. Quando entregou o cargo ao sucessor, em 1983, a dívida do estado tinha dado um salto: era quase nove vezes maior do que em 1979.

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